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Teorias da Historiografia Tradicional Chinesa - Novembro, 2004

O Tempo

A "ação humana ao longo do tempo"- uma definição mais que sucinta para a história. Pertinente, porém, para o que significa o estudo sobre o passado feito pela civilização chinesa. A ação humana é o domínio da moral. O tempo é o campo onde ela evolui, se renova e se repete. Todos estes aspectos estão presentes no contexto da eterna mutação da matéria e da sociedade. Assim sendo, é a história também um elemento do círculo cósmico que tudo açambarca; ela é um fragmento do real que traduz o próprio real.

No entanto, o tempo chinês é diferente do nosso. Repete-se em ciclos, ciclos de mutação. Ou seja, engendram-se numa espiral de ascensão e queda, tal como a dinâmica de yin e yang - as duas grandes energias do universo que se completam por sua natural oposição. O tempo é, portanto, o vazio onde se realiza a transformação. Ele é construído sob a forma material num determinado contexto - o passado - e dissolve-se no inexorável processo de degradação do físico.

Se este é seu padrão, supuseram então os chineses que o tempo se repete, e se repetem os acontecimentos históricos - mas estes acontecimentos nunca serão os mesmos! Como se explica esta noção tão complexa?

O tempo é uma impressão, como afirmou Sima Guang (1019-1086). Uma impressão de vários aspectos; mental, material, circunstancial....No tempo, reproduz-se o ciclo de criação e destruição de yin e yang, eis o que não pode ser mudado, o padrão de repetição. Mas, se a realidade é definida justamente pela mutação, então o padrão se repetirá, mas nunca da mesma forma. Esta é a chave para entender o avanço das técnicas, e a diferença entre os contextos históricos.

Sima Qian (-145 -85) já havia alertado que o tempo organiza-se nestes ciclos, que podem ser observados pela manifestação dos cinco agentes (ou elementos, o wu xing - madeira, terra, fogo, água e metal) na matéria. Até mesmo o movimento das dinastias podia ser interpretado pela sucessão destes agentes na natureza, tal como foi o caso de Qin (-221-206), do elemento água, que foi suplantado pelos Han (-206 +220), do elemento terra.

Estaríamos inclinados a acreditar que esta suposição seria fantasiosa, se Sima não fosse um astrônomo (ou astrólogo, na época tanto fazia) de capacidades absurdas. Calculando o tempo de transposição destas forças nas dinastias passadas, e comparando-as com eventos astronômicos importantes citados nos documentos, este historiador conseguiu traçar uma cronologia histórica precisa até o século 10 a.C., quando afirma não ter mais segurança sobre as datas que propõe. Se a arqueologia ocidental é nossa referência para validar tal afirmação, saibamos que ela o comprovou. E mais: atualmente, esta mesma arqueologia tem observado que datas anteriores ao período do século X estão bem próximas de serem iguais as propostas por Sima. Diante do nosso desconhecimento acerca da ciência chinesa, poderíamos afirmar credulamente que isso seria quase místico, se não fossem os chineses bastante cônscios do funcionamento do seu sistema de interpretação da natureza.

Assim, podemos compreender que a espiral de Sima Qian é ascendente; o que ela demonstra é que os eventos do passado são similares aos do presente, mas não são exatamente os mesmos. Tem causas parecidas, dão-se de forma semelhante, e podem mesmo descambar numa conclusão próxima da que tradicionalmente conhecemos. Mas há a variabilidade! E é este fator que gera a descoberta, a invenção, a transformação. A mutação é que faz dar o passo além na história. Ela quem modifica as estruturas, a sociedade, a cultura. Muda, para manter-se a mesma. E nunca o será.

Diante desta consideração sobre o tempo que os chineses tomam a história como um arcabouço de ilustração intelectual; nela estão contidos os arquivos da experiência humana, uma biblioteca formada por fragmentos do saber temporal e atemporal que, conjugados, formam a base da realidade atual. É, pois, o fundo infinito da sapiência humana.

A Verdade Histórica

Disse o legista Hanfeizi (séc. -3): “A dificuldade em falar a uma pessoa não está em saber o que dizer, nem no método de argumentação que torne claro o que se pretende. Também não está na dificuldade de ter coragem para expor total e francamente o que se tem no espírito. A dificuldade está em conhecer a mentalidade da pessoa a quem se fala e em adotar o meio mais adequado a atingi-la”. Lubuwei, contemporâneo de Hanfei, afirmou igualmente; “É indispensável submeter toda a informação a um exame preliminar. Após muitas transmissões, ela é deformada a ponto do branco virar preto e o preto virar branco”.

Tendo em vista estas duas afirmações, podemos constatar claramente a consciência dos antigos chineses acerca do problema da “verdade” histórica. Esta é (e sempre será) determinada pela intenção de quem a faz ou de quem a interpreta. Confúcio (séc. -6) aconselhava seu discípulo; "Recolhe muita informação, põe de lado o que é duvidoso, repete cuidadosamente o resto; então, raramente dirás algo errado. Faz muitas observações, deixa de lado o que é suspeito, dedica-te cuidadosamente ao resto; então raramente terás do que te arrepender. Com poucos erros no que dizes e poucos arrependimentos pelo que fazes, tua carreira está garantida" pois “Busco transmitir, não inventar. Confio no passado e o amo” (idem, 7). Eis aqui a noção que parece permear a concepção de verdade na história chinesa. Se ela é uma criação pessoal (ou não), tente fazê-la da forma mais consciente e esclarecida possível. “Estudar sem pensar é inútil, pensar sem estudar é perigoso” (Lunyu, 2), afirmava o grande mestre. Esta é a base do discernimento sobre a qual uma “verdade histórica” se impõe - sua articulação lógica com a impressão do passado.

Por esta razão é que Li Zhiji (+661 +721) , no capítulo 22 "Xushi", nos dirá que "quanto mais se fala, mais caótica e complexa se torna a História" - o uso das palavras deve ser mais do que cuidadoso, no sentido de expressar aquilo que realmente se quer dizer.

Vidência

Zisi, retomando Confúcio, explana ainda sobre uma outra possibilidade, a do sábio adquirir a capacidade da vidência sobre a sociedade, a política e sobre si mesmo (Zhong Yong, 24). Devemos esclarecer que esta não é um “poder sobrenatural”, tal como usualmente se considera no Ocidente. Esta vidência é a disposição e a sensibilidade de acompanhar, inferir e presumir os movimentos do fluxo criativo que concretiza o contínuo processo de geração da natureza, tal como proposto na estrutura do pensar chinês. Tendo conhecimento das tensões que permeiam um objeto de análise, o sábio pode definir, ou inferir, a direção do contexto em função de sua aproximação (ou afastamento) da centralidade – ou ainda, para que ponto a centralidade se desloca. Seu método é basear-se na experimentação consigo mesmo e com os outros seres humanos, o que lhe dá o arcabouço necessário a reconhecer os padrões de movimento das coisas e elocubrar as probabilidades. É assim que ele pode “prever” o destino de pessoas, de governos ou sociedades. Sua vidência é uma análise profunda dos seres, fundamentada em sua experiência íntima com os limites e a moderação. Métodos oraculares como as carapaças de tartaruga e o Yijing (Tratado das Mutações) são recursos a sua investigação; mas o perfeito desdobramento de sua vidência se dá por uma capacidade própria, interna, independente destes mesmos meios: “a perfeição moral é, num estágio avançado, como a dimensão do próprio espírito” (Zhong Yong, 24). Tal consideração pode resumir-se numa passagem em que o discípulo Zizhang pergunta a Confúcio; "é possível predizer o que será dos próximos dez reinados?", ao que o Mestre responde: " O Shang herdaram os ritos de Xia; nós, Zhou, herdamos os de Shang. Ora, sabemos o que cada um dessas dinastias acrescentou e suprimiu. E o mesmo acontecerá com todos os reinos que sucederem Zhou, sejam eles em dez ou em cem" (Lunyu, 2).

A Investigação

Escrutinar o passado significa utilizar todos os recursos disponíveis para reconstituí-lo. Aqueles que se dispuseram a narrá-lo fizeram uso do pincel ou da memória oral, constituída por um milenar processo de condicionamento e repetição de poesias e histórias. Os historiadores chineses não abriam mão, porém, dos objetos materiais para avaliar as transformações de uma cultura. Confúcio constatava a desarticulação da linguagem pictórica chinesa com o processo de representação do real quando reclamava “hoje, um vaso não é mais um vaso” (ou seja, a forma estilística dos vasos rituais já não possuía mais uma relação direta com a representação gráfica da palavra “vaso”. Lunyu, 6).

Sima Qian (séc.-2) visitou a terra de Confúcio em busca de informações, e ficou vivamente impressionado com a velha carroça da família do mestre a apodrecer num canto. Indignou-se igualmente por haver tão poucos que conhecessem mais sobre as tradições. Ambos, portanto, pareciam desconfiar seriamente que apenas os textos pudessem lhes gerar as informações que precisavam.

Na verdade, uma fonte de informações já utilizada na época baseava-se em inscrições epigráficas e oraculares, muitas vezes presentes em vasos das dinastias Shang e Zhou. Esta tradição seria retomada no período Han (séc -2 +2), Tang (séc. 7 +10) e Song (960 + 1279). Este último foi um período extremamente importante para o desenvolvimento da arqueologia chinesa, tendo em vista o início de escavações com fins claramente historiográficos que visavam formar coleções de vasos e cerâmicas representativas sobre as épocas passadas. Tais coleções foram agrupadas em classificações estilísticas e funcionais até hoje conhecidas, embora grande parte das listas e objetos tenha se perdido nas transições dinásticas. Muitas seriam analisadas por artistas da época que buscavam traduzir o “espírito das culturas antigas”, investigando um possível processo de evolução das formas estéticas.

Buscava-se ainda correlacionar estes vestígios materiais e textuais com as datações astronômicas existentes em eficazes tabelas de registro do movimento dos corpos celestes. Como tal movimento podia ser calculado num ciclo relativamente regular, algumas datações poderiam verificar-se exatas, enganosas ou posteriores. Nestes casos, uma análise comparativa das fontes favorecia o enquadramento de um determinado contexto e a dissecação de possíveis contradições. Sima Qian organizava sua cronologia através de um sistema que articulava o movimento de determinadas constelações com o chamado “ramo terrestre” - um ciclo de doze anos que hoje conhecemos através do horóscopo chinês. Desta correlação formava-se um grande ciclo de sessenta anos que espaçava razoavelmente bem a possibilidade de determinados eventos históricos mesclarem-se numa confusão cronológica. Sima ainda aperfeiçoou este sistema através da inserção das “marcas dinásticas”, períodos de duração do reinado de cada soberano que delimitavam um espaço-tempo.

Apesar da razoável precisão deste sistema, Sima Guang (+1019 +1086) criticou-o posteriormente por ele ser preciso apenas em termos quantitativos. Os tempos de transformação ou de transição dos segmentos culturais de uma sociedade podem estar em descompasso com estas marcações. A crítica de Guang é bastante pertinente se aplicada ao contexto das histórias locais e do relativismo cultural. Afinal, o "tempo" do camponês que trabalha a terra da mesma forma há séculos pode basear-se numa percepção completamente diferente do "tempo" que acompanha a esfera política. Tais transformações devem ser investigadas.

Conhecer e investigar, aliás, é a base da história e da ética; “[os antigos] Desejando cultivar suas pessoas, primeiro corrigiram seus corações. Desejando corrigir seus corações, primeiro trataram de ser sinceros em seus pensamentos. Desejando ser sinceros em seus pensamentos, primeiro ampliaram ao máximo o seu conhecimento. Essa extensão do conhecimento baseia-se na investigação das coisas” (Daxue, 1).

Sugestões de leitura;

Os melhores manuais sobre a Historiografia chinesa são; Chinese traditional historiography, de Charles Gardner (Cambridge, 1938) e Historians of China and Japan, org. por W, G. Beasley e E. Pulleyblank (Londres, 1961). Veja também Ssu Ma Chien, Grand Historian of China, de Burton Watson (Columbia, 1958) e Worlds of bamboo and bronze de Granty Hard (Columbia, 1999). Bons textos sobre o assunto são encontrados em El legado chino, de Raimond Dawson (Madrid, 1967), La China Imperial, de Michael Loewe (Madrid, 1969), Theorie de l’evolution et verité historique dans la Chine ancienne, de Jean Levi (Paris, 1987) e um capítulo do livro La propension de las cosas, de François Jullien (Madrid, 2003).

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