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O que é o "Dao"?

Laozi já dizia no 1o verso do Daodejing: "O dao que é o dao não é o dao, o nome que é o nome não é nome". Seria no mínimo curioso que ele escrevesse um livro com 81 poesias para dizer o indizível, mas talvez uma interpretação primeira não seja a mais correta. Laozi provavelmente se remete a um conceito - o seu conceito - de dao, mas que não o mesmo de confucionistas, moistas, legistas, etc. Assim sendo, o que seria "dao"?

Neste pequeno texto não pretendo esclarecer o assunto ou dar uma versão "definitiva" do problema, já que até os chineses tem um certo receio em traduzir "dao" sob forma de um conceito único. A questão lingüística e filosófica não pode, por outro lado, nos impedir de apresentar uma visão sobre o tema. O que proponho, então, e uma interpretação do conceito de dao, de modo a torna-lo compreensível para os estudiosos ocidentais. Para isso, buscarei seguirei dois caminhos distintos, porem complementares: num primeiro momento, vamos investigar a origem do ideograma, e o seu sentido básico (antes de uma possível interpretação filosófica); num segundo momento, buscarei compor uma analogia da concepção de dao que defendo, de maneira a torna-la mais clara, e sem que nisso se perca o sentido multifacetado do conceito.


A origem na língua chinesa

Dao, na escrita chinesa, e usualmente associado à idéia de "via", "caminho". Seu sentido e diferente, no entanto, de luxing (caminho no sentido de endereço, localidade), e possui um sentido de direção abstrato, tal quando dizemos "wo bu zhi dao", que significa algo do tipo "eu não sei, eu não conheço". O mesmo termo "zhi dao" é usado para indicar uma pessoa que saiu, foi para algum lugar, mas ninguém sabe onde. "Dao de" (via + virtude) pode ser traduzido como "moral", e "dao + li" (via + princípio) se traduz como "verdade".

Estas apropriações modernas derivam do sentido antigo que compõe o ideograma. Dao é representado pela junção de dois sinais: o primeiro significa uma cabeça de búfalo (ou boi, cervo, muar), e o segundo é uma derivação da idéia de movimento. Ou seja, dao poderia significar um movimento direto, inconsciente, como um bovino que puxa uma carroça ou segue um caminho de modo natural. Assim sendo, dao pode significar uma via, ou caminho, mas também um modo de proceder num certo sentido, buscando atingir um objetivo - e neste caso, creio ser possível relacioná-lo a idéia de método (aqui entendido como um sistema para realizar algo, e não apenas um instrumental de caráter prático).


Dito isto, precisamos saber quais foram as primeiras citações, nos textos chineses, do conceito de dao.

A primeira literatura que temos na China é aquela dos clássicos, resgatada por Confúcio, em que o conceito de Dao ainda aparece de modo vago. Ele já indica a perspectiva da via, mas não de maneira realizante. Daí porque o próprio mestre buscou recuperar (ou criar?) o conceito e empregá-lo no sentido de método, ou de um "jeito de ser". Eis a razão pelo qual ele afirmava, portanto, que existia um "caminho do céu e um caminho do homem", opondo a via que leva o ser a realização harmônica com a natureza e a sociedade (a do céu) com a da visão egoísta e auto-centrada dos indivíduos (a do homem). Ambos são modos de proceder, mas um é esclarecido pela sabedoria e o outro, apenas um viver inconsciente.

Foi Laozi que deu um outro sentido ao conceito, empregando numa perspectiva transcendente, mas que não perde de vista a realização pelo método. O dao se naturaliza com uma concepção advinda do próprio cosmos, mas ao mesmo tempo se situa num lugar para alem da razão.

A tensão entre estas duas concepções alimentaria as formas de pensar das outras escolas. Em torno de 100 a.C., já no período Han, o dicionário de Xushen ( o Shuowen jiezi) buscaria incorporar (ou sintetizar) as diferentes visões afirmando, de modo quase lacônico, que dao significava uma "via realizante". Voltou-se a estaca zero? Ou esta definição exprime, justamente, o que pode ser dito sobre o dao de modo genérico?


Elaborando uma analogia

Se voltarmos a idéia do muar seguindo o seu caminho, podemos propor então uma analogia do conceito de dao e, no seguir, exemplificar como ele funcionava para as primeiras escolas de pensamento chinês.

Imaginemos uma pessoa perdida no meio de uma campina vazia. Para onde quer que ele olhe, ele só vê o horizonte, montanhas, algumas partes de floresta, mas inevitavelmente, ele não vê um objetivo a sua frente - achar uma cidade, encontrar um curso d'água, etc. Daí, a única coisa que ele percebe é uma trilha no chão, feita por uma carroça ou por pegadas deste casco de muar. Mesmo que esta trilha não indique o fim, instantaneamente o nosso personagem percebe uma via que lhe levará algum lugar, mesmo que ele não saiba qual é. Ele ainda não está completamente esclarecido sobre onde se encontra ou para onde vai, mas vislumbra enfim a possibilidade de atingir uma meta, um objetivo, e começa assim a empreender a caminhada que o permitira encontrar algum tipo de realização pessoal (o final do caminho).

Logo, dao é, antes de tudo, uma via realizante. É uma direção que pressupõe o fim a ser atingido, e um meio pelo qual isso será feito.


Entre as escolas

Quando nos deparamos com o debate que se estabeleceu entre as escolas de pensamento a partir do século -6, vemos pois que a idéia de dao está presente entre todas elas, mas cada qual pressupõe a sua realização por meio de uma interpretação e expediente específicos.

Entre os seguidores de Confúcio, o dao seria a educação, que os permitiria estudar e identificar os sinais desta trilha, os melhores meios de percorre-la, e suportar as agruras de seu trajeto. Mais ainda, o confucionismo como um todo pretendia que o caminho poderia ser construído pelo esforço individual, através do aperfeiçoamento advindo do estudo e da dedicação. Em nossa analogia, isso significaria, por exemplo, compreender a importância de subir ate um monte para vislumbrar vias alternativas, aprender a atravessar um rio na parte mais rasa ou mesmo vislumbrar a meta, ainda que não tenha sido atingida. A escola dos letrados dava um sentido de "caminho" como realização pessoal, mas por meio de um método acessível à todos.

Na concepção dos moístas, o dao era o do povo humilde, da anti-cultura, a concepção de um comunismo primitivo que permitira criar uma nova trilha. Um moísta, pois, se perguntaria antes de tudo se as marcas que vê no chão já não foram pré-determinadas a levá-lo a algum lugar; se os obstáculos na trilha realmente são necessários para atingir uma meta - e mesmo, se esta meta seria sua! Em termos práticos, portanto, os moistas talvez forçassem abrir trechos no caminho, ou se recusariam a ir até o fim se esta via não atendesse os seus interesses imediatos.

Já os legistas tentariam, a qualquer custo, criar a sua própria trilha. A concepção de que o dao e a lei (fa), e o método é o controle, determinaria inevitavelmente que os pensadores desta escola buscariam destruir tudo o que estivesse à sua frente para construir seu próprio caminho. A ilusão, porém, de determinar o curso de tudo poderia levá-los a acreditar na descoberta de um atalho, quando poderiam estar indo de encontro a um abismo. Até hoje, todos os que acreditaram no uso da força - tal como os legistas - só encontraram realmente "atalhos pra abismos".

E Laozi, fundador - espontâneo, na verdade, - da escola "daoista"? Que pensaria sobre isso tudo?

Provavelmente, um daoista (ou, seguidor do dao) acreditaria que TUDO é a via. Isso significaria, por conseguinte, que em qualquer lugar poderia ser encontrada o caminho. Se nosso personagem perdido fosse um praticante desta escola, então pouca diferença faria a trilha a seguir. Em sua visão, toda campina seria apenas um mundo só, integrado, e consequentemente, se ele aprender a viver em harmonia onde está, então poderia partir em direção a qualquer lugar que chegaria ao seu destino - tudo é ponto de partida e chegada ao mesmo tempo.


Conclusão

E qual destas interpretações sobre o dao pode ser mais válida? Um leitor ocidental pode se sentir a vontade para escolher com qual destas perspectivas ele simpatiza mais, mas esta será sempre a visão de fora, de alguém que identifica na trilha o seu próprio modo de olhar. Isto não é errado, mas prescinde de uma visão histórica chinesa. No decorrer dos séculos, a visão moista desapareceu, e a legista é sempre lida como uma herança, mas não necessariamente admirada. Parece um tanto inevitável, na mentalidade chinesa, que qualquer dao tem, necessariamente, que se harmonizar com seu propósito. Sendo assim, parece que somente o confucionismo e o daoismo atingiram o propósito de criar não só um sentido mas também, um método, para concretizar suas próprias visões de dao. Não é possível na visão dos chineses - se pudermos supor desta maneira - que um caminho exista se ele deixar de lado a própria trilha. Tal seria a condição "sine qua nom" para um dao (ou uma interpretação dele) existir. As críticas mútuas entre daoistas e confucionistas também não deixaram de existir: os letrados entendiam que a visão daoísta não estimulava a busca da evolução técnica e intelectual humana; os daoístas concordavam e ainda diziam que isso não fazia a mínima diferença. Quem tem razão? Ou é necessário que algum deles a tenha?

Estude, sinta: isso é o dao.


Sugestões de Leitura:

Para uma análise conceitual, o livro de Zhang Dainyan, “Keys concepts in chinese philosophy”; para um entendimento sobre as origens da palavra, o dicionário de Leon Wieger “Caracteres chinoises” ainda é uma excelente referência; muito se confunde o conceito de dao como se ele tivesse origem daoísta, mas isso é incorreto. Assim, uma sugestão breve para se conhecer melhor a história da filosofia chinesa é o artigo de Chan Wing Tsit situado em O Pensamento Chinês.
A discussão do tema, de modo aprofundado, só se pode dar com algum conhecimento das obras filosóficas chinesas desse período antigo.

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