Pesquisar este blog

Viajantes Brasileiros na China

A Sinologia engatinha em nosso país, e muito ainda precisa ser feito para criarmos uma tradição e uma continuidade neste campo de estudo. Todavia, o século 20 conheceu um grupo de observadores interessados na China, pelas mais diversas razões. Creio que seria interessante comentar um pouco sobre o trabalho destes viajantes, de origens e interesses variados, que deram um testemunho original, em português, das transformações pelas quais a civilização asiática passou neste período. Decidi igualmente optar somente pelos brasileiros, já que a produção portuguesa é bem mais abundante neste sentido, até por sua presença em Macau. Além disso, um rastreamento desses trabalhos mostra que, apesar do apoio inexistente da academia, iniciativas individuais conseguiram construir e fornecer para nós um conjunto de informações substanciais - ao menos para a história moderna da China - que podemos utilizar de modo seguro na pesquisa.

O Final do século 19

Os primeiros brasileiros interessados na China são do final do séc. 19. Henrique Lisboa, diplomata brasileiro encarregado de discutir a imigração chinesa e a constituição de relações oficiais entre nosso país e o império celeste, esteve lá presente e, como resultado de sua experiência, publicou o livro "A China e os chins" datado de 1888. Até onde pude pesquisar, esta é nossa primeira produção sobre a civilização chinesa, recolhido diretamente na fonte, analisando aspectos diversos de sua cultura e história. Antes dela, somente Salvador Mendonça havia escrito, em 1880, o livro "A imigração chinesa", em que discutia se valia a pena substituir escravos e migrantes europeus por colonos chineses (os coolies). Embora seu parecer fosse favorável, Salvador não esteve na China, valendo-se de informações indiretas. Além disso, seu estudo é técnico e objetivado, não fornecendo um panorama aprofundado da cultura chinesa.

Já no século 20

Tal como o Brasil muda profundamente na virada do século, assim também foi com a China. Infelizmente, pois, não se tem nenhuma obra conhecida sobre a transição do império chinês para a república em 1911, bem como do período da 1a guerra. Contudo, em 1944, Labienno Salgado dos Santos lança o seu "Visões da China", abordando novamente a cultura do país e sua condição histórica. Aparentemente, sua viagem ao país se deu antes da conflagração da 2a guerra, mas seu livro foi um importante contraponto a questao japonesa que se desenvolveu no Brasil durante o conflito. Uma grande quantidade de propaganda foi feita pelo governo Vargas contra o Japão, nesta época, criando uma teoria conspiratória sobre o desejo dos mesmos em dominarem o nosso país. Cabia aos chineses, governados pelo partido nacionalista (Guomindang), representarem o "lado bom" dos asiáticos, e nisso os intelectuais brasileiros se alinhavam com o pensamento norte-americano.

Uma década depois, a situação da China havia mudado radicalmente. Os comunistas assumiram o poder em 1949, representando a hegemonia do socialismo nos maiores países do mundo (ela em população e a URSS em extensão). Quanto ao Brasil, o fim da ditadura trouxe a luz o debate entre esquerda e direita, entre o conservadorismo e as possibilidades de modernidade. Na incerteza quanto ao modelo político que se seguiria, a China comunista parecia um lugar interessante - não pela ideologia em si, mas pelos resultados que vinham sendo obtidos na recuperação do país. A década de 50 parecia extremamente promissora para eles.

Por conta disso, esta época nos oferece três relatos bastante diferentes sobre a China, cuja qualidade e conteúdo variam intensamente em profundidade e perspectiva. O primeiro deles, de Osny Duarte - "A China de hoje" e "Nós e a China" (ambos de 1956)- é composto por dois estudos aguçados e detalhados, que analisam as condições de crescimento chinesas, a mentalidade cultural e ainda, suas possíveis implicações com a nossa sociedade. O estudo de Osny, juiz e oficial diplomático, é um estudo sério sobre a questão chinesa e as possíveis posições que o Brasil deveria ter diante dela. Já "China sem muralhas" (1956), de Jurema Finamour, é um trabalho relativamente fraco e superficial, sumamente descritivo, apresentando cenários da vida chinesa presenciados pela escritora.

Por fim, "Ásia maior", de Maria Martins (1958) constitui um duplo de diário de viagem e cultura chinesa. Maria, esposa de um diplomata, traça um panorama chinês em que funde seus diálogos com o presidente Mao (que ela se orgulha em mostrar nas fotos) com ensaios sobre literatura, teatro, pensamento e política bem escritos e razoavelmente informativos, embora um tanto genéricos. De qualquer forma, seu livro é um trabalho atento sobre a época, e um bom manual de introdução aos aspectos gerais da cultura chinesa.

Taiwan

Um relato de 1a mão sobre Taiwan surge nesta mesma época. Ricardo Joppert, que visitou a ilha convidado pelas autoridades locais, escreve e publica o seu "A China é sempre Formosa" em 1958, representando a perspectiva da China nacionalista. Joppert viria a ser 1o sinólogo de formação brasileiro, e posteriormente visitou, também, a China continental. Depois disso, ele publicou inúmeros trabalhos sobre arte e história chinesa, tais como "A porcelana chinesa", "Samadhi em verde e azul" e "O alicerce cultural da China", continuando, até os dias de hoje, em atividade.

Perto da Revolução Cultural

Jorge Maia foi um dos últimos viajantes a estar em contato com a China antes da revolução cultural, ocorrida em 1966, que praticamente fechou o país aos estrangeiros. Seu livro "Confúcio e matéria plástica" (1964) é um estudo bastante interessante e lúcido sobre a questão colonial na Ásia, constituindo uma pesquisa séria e distante das problemáticas ideológicas do período. Novamente, um lapso temporal se estabelece entre este livro e as produções seguintes, em função da época difícil pela qual a China passaria.

O Retorno pós-Mao

Na década de 70, após a morte de Maozedong e a flexibilização das relações internacionais, dois estudos brasileiros sobre a China representam um avanço significativo no conhecimento do mesmo. O primeiro deles é de Heloneida Studart, intelectual brasileiro que em 1978 publica o seu "China - o nordeste que deu certo". O título já traz em si a proposta do livro - demonstrar como o modelo chinês poderia ser utilizado para solucionar problemas sociais e econômicos do Brasil, através de uma apresentação bem organizada e engajada do sistema chinês.

Por outro lado, Humberto Braga, em 1979, lança o seu "Oriente vermelho", que trabalha com uma análise mais cultural da sociedade chinesa. Como ele mesmo coloca no livro, Humberto era psicólogo de carreira, e seu interesse pelos aspectos mentais do povo chinês fica evidenciado ao longo do texto. Mas este livro é uma pesquisa arguta, dedicada e muito bem informada sobre a história chinesa, demonstrando igualmente um estudo sério, que muito valoriza o olhar decorrente da viagem.

Um comentário a parte deve ser feito sobre o livro de Henfil, "Henfil na China" (1980). Cartunista e intelectual - mas antes de tudo, um gozador e observador irônico das coisas - Henfil faz, com bastante humor, um relato de sua viagem à China. O texto é para ser saboreado, com certeza, mas apresenta também uma capacidade crítica fabulosa, para aqueles que conseguirem sair de sua superfície. Henfil percebeu as contradições do sistema, sabia identificar os pontos de tensão do discurso chinês e uma análise geral sobre seu livro o classifica como uma interessante fonte sobre o país.

A década de 90

O desenrolar da década de 80 trouxe outras preocupações para o mundo, eclipsando os olhares sobre a China. Esta voltaria realmente a baila em 1989, quando o incidente na praça da Paz celestial mostrou que o país não estava disposto a ruir nem deixar de ser comunista, como havia acontecido com a URSS. Estas transformações foram acompanhadas de perto pelas tvs do mundo, e o Brasil não tomou nenhuma posição oficial a respeito.

Em 1994, Carlos Drumond visitou a China para observar as transformações pelas quais ela tinha passado, e descobriu um outro mundo bem diferente daquele usualmente propagandeado. Em seu "Viagem a grande China", Drumond faz uma apresentação consciente do país, estabelece pontes entre a cultura passada e a situação atual, mostra suas possibilidade futuras e consegue escapar aos clichês que geralmente envolvem o tom jornalístico sobre o país.

Outro diplomata, Vamireh Chacon, visitou o mundo de fala portuguesa na Ásia e publicou, em 1995, o seu "Goa e Macau", constituindo um trabalho interessante sobre as perspectivas daquela futura ex-colonia portuguesa. O interesse da obra e o tom neutro - necessário ao exercício de sua profissão - dão-nos uma boa visão da situação chinesa, embora o foco principal seja o enfraquecimento da Lusofonia nestas regiões, condição aparentemente de difícil solução.

Para agora

No contexto atual, em que a China virou um objeto de moda e existem milhares de especialistas de última hora sobre esta civilização, qualquer estudo sobre o país precisa ser bastante profundo, articulado e bem estruturado para ter alguma relevância. Num momento em que a globalização permite a absoluta relativização das fronteiras, o romantismo das viagens antigas se perdeu, bem como o ineditismo dos estudos. Assim, pois, aqueles materiais que não forem estudos sérios e bem construídos hão de sumir, e o resto tratar-se-á de meros relatos pessoais e vazios, que já não atraem senão consumidores do mesmo tipo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário