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Sobre o Trabalho e o Estudo


Arte Popular Chinesa - no século 20, surgiu na China um estilo de pintura realizado somente por camponeses, que conciliavam o trabalho no campo com a prática da arte.

A mãe de Mêncio era chamada Mãe Meng. Ela morava perto de um cemitério, quando Mêncio era pequeno. Ele começou a brincar de construir tumbas e fazer rituais funerários. A mãe de Mêncio disse: “este não é um bom lugar para educar meu filho”, e se mudaram. Foram morar perto de um mercado, e Mêncio começou a brincar de comprar, vender e negociar bons preços. A mãe de Mêncio disse: “este não é um bom lugar para educar meu filho”, e se mudaram. Finalmente, foram morar perto de uma escola. Mêncio começou a brincar com os livros, lê-los, aprender os rituais, estudar e discutir sobre o caminho. A mãe de Mêncio disse: “finalmente, este é um bom lugar para morar”. Quando Mêncio já era maior, um dia chegou da escola e sua mãe perguntou: “como você está indo nos estudos?”. “O mesmo de antes”, respondeu ele. Sua mãe pegou uma faca e cortou um tecido que ele estava bordando. Mêncio, surpreso, perguntou por que ela fez isso. Ela respondeu: “meu filho desiste dos estudos, assim como cortei este bordado. Um cavalheiro dedica-se ao que faz, para desenvolver a si mesmo. Ele pergunta sempre sobre o conhecimento e a sabedoria. No entanto, sua resposta demonstra que você não avançou nada. Se você negligencia seus estudos, desfaz tudo aquilo que foi feito antes, e esta é a causa dos acidentes e infortúnios. Se você abandona seu trabalho pelo meio, como pode alcançar o conhecimento? (...) Mêncio ficou impressionado, e depois disso, dia e noite, nunca mais parou de estudar. Procurou Zisi, o neto de Confúcio, para ser seu mestre, e depois, conquistou a fama de ser um grande letrado. (...).

Lienu Zhuan (Biografia das Mulheres Exemplares), de Liu Xiang, séc. 1 d.C.

Embora seja uma pergunta batida, ela se renova de tempos em tempos: pode o trabalho atrapalhar o estudo, e vice-versa? A mentalidade capitalista dos dias de hoje tem contribuído para reforçar a dúvida, enviando mensagens de difícil entendimento para as pessoas: “estude para ser alguém na vida”, acompanhado de “este diploma não serve para nada”, ou “nunca consegui arrumar emprego em minha área”. Além do mais, as necessidades cotidianas parecem intimidar aquele que deseja estudar, transformando a vida do ser humano num ciclo de eterno imediatismo – “case agora, você pode não conseguir nada melhor depois”, “agarre a oportunidade” ou “o que você vai fazer com isso?”, etc.

Como sempre, meu ponto de vista é comparativo, e se baseia usualmente na experiência chinesa. Como pode um país levantar-se das humilhações sofridas ao longo dos séculos 19 e 20 e se tornar, em tão pouco tempo, uma das maiores potências mundiais? Se observarmos com clareza, duas razões se apresentam aí: estudo e trabalho. Como já dizia Confúcio há milênios, o estudo (Xue) complementa a experiência prática (Zhi), e vice-versa. Ambas se engendram, e uma leva à evolução da outra. Então, como poderíamos acreditar que o estudo e o trabalho se excluem, se um depende do outro? Pode-se aprender um ofício sem estudá-lo? E pode-se estudar algo sem um sentido aplicável?

Recorri ao texto de Liu Xiang por me parecer bem clara a sua proposta: trabalhar e estudar não deveriam se excluir, mas na mentalidade deficitária do mundo capitalista (ou ao menos, dos países subdesenvolvidos), produzir conhecimento e labutar parecem duas coisas antagônicas. Os que admitem, porém, que a conciliação entre ambas as coisas é impossível ou inaplicável, incorrem em alguns erros fundamentais.

a) O primeiro deles é: se o trabalho é mais importante que o estudo, então, o trabalho tem mais valor. Logo, porque estudar? E como se aprende um ofício sem estudá-lo?

b) Se o trabalho for superior ao estudo, então, não se deveria estudar. Isso seria perda de tempo e uma contradição, posto que o estudo em nada contribuiria para o ser humano. Aquele que trabalhasse e estudasse ao mesmo tempo estaria, pois, fazendo uma bobagem, e gastando neurônios à toa.

c) No entanto, esse que dá um valor superior ao trabalho, por qual razão ele desconsidera o estudo como trabalho? Porque, em sua visão, o trabalho de professores, alunos e funcionários da educação é inferior ao seu? Há algum ser humano que nunca tenha passado pela mão de um professor ou mestre?

d) Esta posição arrogante tem, ainda, um agravante: em geral, ela se manifesta no próprio âmbito de ensino, o que significa duas coisas: primeiro, que aquele que menospreza o estudo e ainda assim o faz, se torna uma contradição ambulante; segundo, será este mesmo crítico capaz de demonstrar suas opiniões no ambiente de trabalho?

Confúcio foi interpelado por um discípulo que queria aprender agricultura. O Mestre respondeu: “procure, então, um agricultor”. Ficou, no entanto, irritado com o tal discípulo – afinal, porque as pessoas fazem uma coisa e pensam em outra? O objetivo do trabalho é o mesmo do estudo, portanto; construir a sabedoria, e melhorar a vida do indivíduo. Por esta razão a Mãe de Mêncio destruiu seu bordado; afinal, para que perder tempo com o estudo, se ele não servirá para nada?

De fato, as pessoas estudam com o fim básico de aprender, e depois, empreendem a busca de um trabalho que as permitam distribuir todo aquele conhecimento que aprenderam, ou ao menos, pô-lo em prática. Como disse o mesmo Confúcio, “descubra um trabalho que você goste e você nunca trabalhará em toda sua vida”. Esta sapiência permite superar os séculos de abandono em relação ao estudo, e de quebrar a dicotomia “trabalho=prático”, “estudo=teórico”. Cabe apenas ao estudante conseguir juntar as duas coisas.



Se alguém abandona a si mesmo, nada pode ser feito por ele. A Mãe de Mêncio sabia disso, e soube educá-lo, ajudando-o a transformar num grande mestre; mas quem fixa seu limite pessoais antes de um fim nunca passará dele, fatalmente.

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