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O Otimismo é um Humanismo

Não é atual o debate que envolve as visões pessimistas sobre o mundo e a evolução humana. Desde a antiguidade já encontrávamos, no mundo greco-romano, a figura dos estóicos, que defendiam que o mundo era mau, que o pessimismo era uma preparação racional contra o pior, e que o ser humano era uma figura complicada. Curioso notar que Sêneca, tutor de Nero, era estóico, assim como foi também Marco Aurélio de seu filho, Cômodo; e ambos foram mal sucedidos em seus propósitos de educar para o pessimismo. Na China, os legistas e os moístas foram igualmente pessimistas; os primeiros acreditavam poder resolver tudo pro meio da lei, e não conseguiram; quanto os segundos, sumiram com o tempo, esgotados pelo seu niilismo redundante.

No entanto, grande parte das pessoas, hoje em dia, se deixam levar pela perspectiva pessimista, influenciados por um tripé sinistro: filosofia, mídia e genética. Do lado dos filósofos, tivemos a geração inaugurada por Schopenhauer, pai do pessimismo moderno, no século 19 – mas que depois encontrou em Heidegger e Sartre seus expoentes mais notáveis, defensores de um existencialismo angustiado, egoísta, cuja apoteose é a filosofia egocêntrica de Ayn Rand. Estes discursos encaminham a existência para um desfecho fatal, no qual a memória e a percepção desaparecem com o corpo; com isso, o desejo de proporcionar a continuidade da humanidade – coisa absolutamente imperceptível após a morte, segundo estes materialistas – se trata de uma frivolidade, uma vaidade de cunho cristão, dispensável no projeto do ser humano auto-responsável.

Tal consideração é corroborada pelo clima de crise perene defendido pela mídia. A humanidade é acossada, neste momento, por um descalabro de violência, uma tensão insuportável de conflito que a deixa constantemente em estado de alerta. No cotidiano, isso se manifesta nos crimes locais ou nacionais que reforçam a paranóia. Ainda que a mídia tenha sido denunciada por cineastas como Michael Moore, ou por pensadores como Adorno e Bauman, a sociedade de consumo massifica e atropela o livre pensar que permitira relativizar esta “realidade” de violência.

Tudo isso se justifica, por fim, nos males do próprio ser humano, cuja “natureza é má”. Esta discussão, milenar, continua a teimar nas mesas de debate científico, e dessa vez, está sendo secundada por estudos bastante problemáticos como o “Gene egoísta” de Richard Dawkins. Embora um prestigiado cientista, Dawkins tem um problema sério, ao afirmar que somos um programa genético feito para sobreviver, e cuja vontade é amplamente dominada pelo corpo; ele esquece a história.

Sim, a história – a grande mestra da sabedoria, como Confúcio acreditava – pode nos dar lições interessantes, capazes de derrubar todos estes pontos apresentados.

Primeiro, da visão pessimista da realidade, defendida pelos filósofos. Confúcio, por exemplo, desenvolveu seu pensamento numa época de crise moral e ética; no entanto, estas crises são inerentes a própria evolução da humanidade, posto que seu desenvolvimento técnico e cultural impõem desafios novos para a vivência cotidiana. Assim sendo, pode-se enfrentar estes desafios sem que eles descambem para um conflito violento? A idéia de Confúcio era que sim, isso poderia ser resolvido pela educação, meio pelo qual as pessoas se preparariam para enfrentar e resolver os problemas, e não negar sua existência. Assim, quando um filósofo age como pessimista, ele assume objetivamente sua incapacidade de lidar com as situações que estão “erradas” em seu meio, e suas propostas para lidar com isso tendem a ser vagas. Um exemplo disso pode ser dado na questão, por exemplo, da eutanásia, defendida por muitos como um meio de liberar verbas para a rede pública de hospitais – afinal, alguém em coma ocupa um leito e custa caro ao Estado. Será que alguém é capaz de propor o direito a vida sem ser religioso? No entanto, será que pode alguém simplesmente informar o público de que os impostos são pagos para termos o direito de ficarmos no hospital? Ou ainda, que “não faça aos outros o que não quer que seja feito com você?”; e por fim, que a discussão deveria abordar o campo ético, coisa pouco discutida com os principais interessados sobre a questão, a população em geral? Mas onde estão os filósofos para responderem a isso, ou lutarem pelos direitos da vida? Não, eles se calam, admitem que o “mundo é mal”, buscam arrumar um emprego estável para sustentarem seus interesses particulares e, de preferência, tentam fazer bastante sexo para se precaverem contra o pouco prazeroso final do mundo.

Sexo, diversão, esportes, estas coisas afastam de nós a violência da vida; eis a segunda grande manipulação, feita pela mídia. Contem quantos anúncios de reportagens sobre violência aparecem nos jornais televisivos antes de uma notícia sobre outro tema qualquer. Escândalos, corrupção, morte, estes são os temas preferidos da mídia - exceto em época de copa ou olimpíadas, quando muito desta porcaria some e o mundo parece um lugar de paz. A aparência que se tem é que voltamos à Grécia antiga, na época dos festivais esportivos, e há uma trégua geral. Depois....tudo volta a acontecer como antes.

Duas coisas devem ser notadas aí: as pessoas vêem violência na TV, mas quem está sofrendo esta violência? Perguntem nas ruas: a maior parte das pessoas só ouviu falar, mas poucas sofreram as tais violências informadas na mídia. Por outro lado, num efeito psicologicamente sadomasoquista, as pessoas agem por um fenômeno de compensação e se comprazem em saber que a violência que ocorre com os outros não acontece consigo, de fato. As rodas de conversa das velhas senhoras estão cheias de morte, doença e violência – mas este não é seu assunto preferido? São estas mesmas pessoas que repetem a ladainha de que “o mundo está perdido”, mas que gastam milhões de reais para eleger o campeão do Big Brother! Sim, estas pessoas PAGAM pra votar nos programas televisivos, mas abre mão de seus direitos democráticos e votam sem qualquer consciência política nas eleições.

Que se diga, a China tem, desde a antiguidade, um departamento de censura. Responsável por identificar aquilo que poderia ser prejudicial a moral, estes censores agiam de modo a coibir os abusos, mas não necessariamente reprimir o livre pensar. No ocidente, experiências semelhantes levaram a classificação de filmes e livros por faixas etárias. Isso adiantou? É difícil dizer, ainda mais no contexto atual, em que o acesso a informação é amplamente facilitado. Por outro lado, é necessário perceber que mídias positivas, tanto quanto podem alienar o consumidor de informação, podem ajudar também no processo de educá-lo, conscientizá-lo e proporcionar uma visão otimista da realidade. Em países como o Canadá, uma mídia interessada no bem estar social conseguiu ser interessante sem ser chata, divertida e atraente sem ser pessimista e por fim, criou um clima de segurança que permite as pessoas tem um outro tipo de consciência cidadã e proativa. Tudo isso foi feito ser omitir as ocasiões de violência; basta que apenas elas sejam apresentadas como parte da realidade (como são, de fato) ao invés de serem tratadas como se fossem “A Realidade”.

O que nos leva ao terceiro e último ponto desta discussão: com que base podemos acreditar que o ser humano é destrutivo por natureza? Se acreditarmos que ele é determinado por sua genética, será a cultura, então, apenas um recurso para reprimi-lo e torná-lo infeliz? Ou mesmo, será a cultura um expediente para ele realizar seus desejos nefastos e inevitáveis?

Segundo Mêncio, o grande discípulo de Confúcio, as pessoas que pensam assim escondem, por trás de seu pessimismo fatalista, um forte senso de egoísmo e irrealização perante a sociedade. As pessoas frustradas e pequenas sempre põem a culpa nos outros, e ao não atingirem seus desejos particulares, advogam que a sociedade não presta, que o ser humano é mau e que o mundo é uma constante decadência. Ora, como pode uma humanidade em decadência eterna evoluir tecnicamente e moralmente? Os mesmos recursos que criaram armas terríveis, pouquíssimo usadas, são também empregados numa medicina que salva cada vez mais vidas. A política, a ética e o direito evoluem, inequivocamente, no sentido de garantir cada vez mais os direitos dos seres humanos; os massacres nas guerras, antes tão comuns, transformaram-se em crimes, e são condenados. Como dizer, pois, que a humanidade não evolui? Se há algo de inerente na genética humana é a sua capacidade de criar cultura; esta cultura extrapola os limites do instintivo e da subsistência, e lhe permite criar conceitos, idéias e teorias que escapam absolutamente as suas limitações físicas. Os genes, possivelmente, geram as propensões (shi) dos quais os chineses já tanto falavam; no entanto, que propensão se realiza fora da humanidade?

Tal como já afirmavam Aristóteles e Confúcio, o ser humano só se torna humano em contato com a humanidade. Antes disso, ele é um animal tão frágil que nasce, atualmente, incapaz de viver sozinho. Do mesmo modo que muitos mamíferos, ele precisa da presença da mãe; no entanto, o que ele aprende, por meio da educação, transcende o tempo de vida de seus parentes imediatos. Por fim, uma humanidade ruim não poderia criar leis boas, pura e simplesmente porque homens ruins não podem conceber coisas boas que o prejudiquem e beneficiem outros; eis a razão pela qual, mesmo com o passar dos séculos, Mêncio foi considerado correto em sua visão otimista da humanidade. Para ele, o ser humano vem com o potencial da bondade, que pode se degenerar se ele não for corretamente educado. A suposta maldade, portanto, é a ignorância, e o desregramento das propensões individuais. Por esta razão que, no Zhong Yong, já se afirmava:

Buscar esta sinceridade consigo mesmo é acolher o bem dentro de si e o manter de forma firme; estudar para ampliá-lo, buscá-lo com precisão e raciocinar com atenção, discernindo-o com clareza, e o pondo em prática por completo em tudo que faz.

Há pessoas que não estudam, ou estudando, não buscam ampliá-lo, mas não o abandonam [o caminho]. Há pessoas que não o buscam, ou buscando-o, não fazem com precisão, mas não o abandonam. Há pessoas que não raciocinam, ou raciocinando, não o fazem com atenção, mas não o abandonam. Há pessoas que não o discernem, ou discernindo-o, não fazem com clareza, mas não o abandonam. Há pessoas, por fim, que não o põe em prática; ou pondo-o, não o fazem por completo, mas não o abandonam.

O que os outros fazem uma vez, elas fazem cem vezes;
O que os outros fazem duas vezes, elas fazem mil vezes;
Se alguém for capaz de realmente seguir este caminho, seja um tolo, ele se esclarecerá; seja um fraco, ele se fortalecerá.


O esforço constante é o meio de realização do ser humano, e seu mérito tanto aumenta quanto maior é dificuldade na aquisição de um conhecimento ou na realização de uma meta. O otimismo, por conseguinte, é um ponto fundamental na continuidade da existência humana.

Este otimismo não se trata de uma “esperança” – a atitude passiva, sem ação, que despeja sobre as circunstâncias o desfecho de nossa sorte; não se trata igualmente de uma “fé” em algo – fés precisam de dogmas e crenças, menos do que provas, para realizarem algo, e embora ocasionalmente eficazes, elas não permitem as pessoas vislumbrarem, muitas vezes, sua própria força interna; o otimismo é, antes de tudo, a atitude ética e renovadora da confiança no ser humano como um agente produtor de sua própria vida. Dado que o ser humano é, indubitavelmente, o criador da compreensão de sua própria existência, cabe a ele a responsabilidade fundamental da continuidade, proporcionada pelo desejo constante do estabelecimento da felicidade. Otimistas confiam o suficiente em si mesmos, pessimistas desconfiam dos outros; ambos, porém, sofrem acidentes. No entanto, a atitude do primeiro fez as descobertas do mundo; a do segundo, criou as perseguições, as intolerâncias e as paranóias totalitárias.

O otimismo é, portanto, um humanismo. Se me permito criticar aqui Sartre, é porque seu existencialismo é importante para descobrir o ser humano, mas pouco o estimula a agir de modo crítico como seu autor tanto queria. Isso se dá porque não se pode ir além sem o otimismo dos projetos humanistas, de fato, que congregam a humanidade dispensando as barreiras ideológicas. Os otimistas fazem os planos para o futuro, dos quais até mesmo os pessimistas desfrutarão e criticarão. Ainda assim, o sábio pensa na humanidade.

Por esta razão, Ren, o humanismo confucionista, é a realização, o encontro de duas pessoas em paz e harmonia. Este era o objetivo da obra de Confúcio, e se trata de um verdadeiro humanismo, calcado na confiança do espírito de mudança que move o ser humano.

Eis a razão pela qual um sábio é igual ao Céu...

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