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O que é a Ética?


As discussões acerca do que seria a ética continuam; para o bem da humanidade, isso significa que ainda há algum tipo de preocupação com este campo do saber tão banalizado pelo uso cotidiano. No entanto, tais discussões são atravessadas por um pós-modernismo pouco esclarecedor, que gosta de polêmicas, mas tem ojeriza a respostas – e se de fato são as dúvidas que nos levam a conhecer mais, por outro, as respostas são necessárias para que tenhamos algum parâmetro – mesmo que seja o da mudança.

Em função disso, alguns autores dizem que não há diferença entre ética e moral, por exemplo; porém, se o uso dos termos os tornaram sinônimos, de qualquer modo, eles sempre acabam sendo contrapostos à outros termos (tais como cultura, ideologia, etc.) que denotam uma diferença fundamental entre o que se propõe como prática social e aquilo que, de fato, é praticado. Neste momento, as inevitáveis tensões entre a cultura (ou moral, ou ideologia, ou ética, etc.) e os seus modos de operação surgem claramente; sabemos que furar uma fila é errado, mas isso é “imoral” ou é “antiético”? Roubar na rua é “imoral”; mas porque roubar no congresso é “antiético”? Qual a distinção dos termos? Ou ainda, para que precisamos de uma distinção de termos?

Minha idéia neste pequeno texto é esclarecer o que seria uma proposta de Ética na visão confucionista. Veremos que ela se aproxima de uma visão um tanto tradicional dentro da filosofia ocidental, que entende a ética como um campo de saber (ou mesmo, uma ciência) para compreender a construção da moral. Não vejo nenhum problema nisso, da mesma maneira que acho a distinção necessária para que possamos proceder a uma investigação reflexiva sobre a sociedade. Se isto nos aproximamos da sociologia ou da antropologia, tanto melhor; pior é o fato da ética ser banalizada como um conjunto de regras de etiqueta ou de boas maneiras, sem qualquer fundamento explicativo, que a tornam então um conceito vazio, sem sentido ou poder de atuação.

Havia uma “ética” na filosofia confucionista?

Não há nenhuma palavra que designe exatamente, no pensamento confucionista, o que chamamos de “ética”. Mas par que possamos construir nossa proposta, é necessário partir de algum ponto; em primeiro lugar, na própria Grécia antiga existiam dois termos que se confundiam: εθος, que significava costume, hábito, etc. e ηθος que significava investigação do caráter, do sentido de algo (na visão aristotélica). Os latinos pensarem poder resolver estas distinções empregando a palavra moralia, antecessora de moral, em ambos os sentidos. Vemos, assim, que a origem destas confusões de termos é antiga, na verdade.

Contudo, a filosofia ocidental recuperou, gradualmente, o sentido de distinção que havia entre ambas. “Moral” passou a designar tradicionalmente, portanto, o que seriam estes hábitos, costumes e crenças, de uma sociedade (ou o que poderíamos, assim, chamar de cultura ou ideologia), enquanto a “Ética” se transformou no campo da filosofia que se dedicaria a estudar a construção desta moral em seus mais diversos aspectos.

Neste ponto, a análise confucionista se insere de modo bem demarcado; embora não utilizassem um termo específico para designar esta visão de ética que aceitamos, Confúcio empregou, porém, no seu tratado Daxue (ou, o Grande Estudo) o próprio termo “grande estudo” para elucidar o que seria a função do pensamento investigativo sobre a moral. O Daxue é, pois, um tratado sobre o que significaria isso que chamamos de “ética”, seu funcionamento e seus propósitos. Nossa proposta de análise parte daqui, pois; nos parece que a visão confucionista ainda serve, de modo bastante efetivo, para nortear uma proposta do que seja “ética” enquanto campo de estudo, e de como ela deve funcionar. No mais, a sua eficácia é comprovada pela longevidade, tanto quanto sua apresentação é, no mínimo, uma questão importante para o nosso conhecimento.

E o que é a “ética” confucionista?

O que o “grande estudo” propõe é o seguinte:

- a ética (ou, daxue) é um estudo sobre a cultura (ou moral), e seus objetivos são três:

1) Descobrir como ela se origina
2) Perceber como ela está sendo aplicada, ou compreendida
3) Observar como se dão suas transformações

- partindo da compreensão destes três fatores, essencialmente históricos e sociológicos, o grande estudo nos permite elaborar ou propor fórmulas que sirvam para:

1) Corrigir os desvios morais, se estes forem danosos a sociedade como um todo.
2) Propor transformações para a sociedade, por meio de leis, educação, atitudes ou ações sociais, etc., de modo que a própria cultura não seja um conjunto estático de regras, mas que atenda as demandas de seu tempo.

Assim sendo, o grande estudo não se propõe a ser uma ciência dedicada a preservação da cultura e da sociedade de modo arcaizante, ao contrário; ela busca sim, verificar e ensejar a aplicação do que é apropriado, desestimular a ocorrência dos excessos ou dos hábitos inapropriados, e proporcionar um cabedal de conhecimentos que tornem as pessoas autoridades em sua própria cultura, de modo que possam decidir, lucidamente, o que é melhor para elas.

Por isso, o grande estudo é a busca dos princípios que operam na manutenção e na transformação da sociedade, fomentando a completude do indivíduo.

A análise do Daxue

Neste ponto, por conseguinte, é necessário analisarmos diretamente o texto do grande estudo, para que possamos compreender como funciona e se aplica esta ética confucionista. O cerne desta proposta está na introdução do texto, sendo o restante dele dedicado a sua prática. Focaremos esta primeira parte, que julgamos fundamental em nosso trabalho.

1. O que ensina a Grande estudo é a exemplificar a virtude ilustre, renovar o povo, e atingir a suprema excelência.


COMENTÁRIO: o grande estudo dedica-se, portanto, em compreender o que são as virtudes, ou, os bons valores sociais; conhecendo-os, e exemplificando-os ao povo por meio da educação e do exemplo, pode-se adquirir a harmonia social, a autonomia do indivíduo e a boa condução da sociedade; e ainda que a sociedade – e sua cultura - esteja sempre em mutação, pode-se fazer com que as mudanças ocorram por meio da ponderação, da sabedoria e da previsão, e não por meio das crises ou da violência.

2. Conhecido o ponto em que se deve atingir, fica determinado o objetivo que se deseja e pode-se conseguir uma tranqüila imperturbabilidade. A essa calma sucederá um repouso tranqüilo. Nesse repouso pode haver prudente deliberação e essa deliberação será sucedida pela obtenção do fim desejado.

COMENTÁRIO: o processo de conhecimento ético reside, assim, numa investigação sobre o que se pretende analisar; esta investigação deve ser feita de maneira ponderada, raciocinada, buscando ausentar-se de propósitos mesquinhos ou falaciosos. Infelizmente, sabemos que os estudos sociais podem ser utilizados de maneira impositiva, ou para criar ideologias macabras ou pessimistas; ou ainda, as impressões de uma sociedade podem ser tomadas por fatores superficiais, sem que haja um exame claro ou aprofundado sobre o tema, criando-se preconceitos. Eis a razão pela qual Confúcio defende este exame acurado, porém pacífico e determinado das questões sociais.

3. As coisas têm suas raízes e seus ramos. Os assuntos têm fim e começo. Conhecer o que é primeiro e o que é último, levará ao que é ensinado na Grande estudo.

COMENTÁRIO: deste modo, a verdadeira investigação ética consiste em analisar as causas, os começos ou as razões que levam a uma determinada condição ou objetivo, bem como seus desdobramentos e possibilidades. Este é o grande estudo.

4. Os antigos, que desejavam dar exemplo da virtude ilustre em seu reino, começaram por bem ordenar seus próprios Estados. Desejando ordenar bem seus Estados ordenaram primeiro suas famílias. Desejando ordenar suas famílias, cultivaram antes suas pessoas. Desejando cultivar suas pessoas, primeiro corrigiram seus corações. Desejando corrigir seus corações, primeiro trataram de ser sinceros em seus pensamentos. Desejando ser sinceros em seus pensamentos, primeiro ampliaram ao máximo o seu conhecimento. Essa extensão do conhecimento baseia-se na investigação das coisas.

COMENTÁRIO: aqui, Confúcio esclarece o escalonamento da ideologia dentro de uma sociedade; ela parte das instituições de poder, permeando a estrutura social, e sendo construída por meio da educação. A educação, neste caso, objetiva formar os indivíduos dentro desta consciência social, de maneira a atender os interesses do Estado. O que Confúcio propõe é que se as pessoas compreenderem que elas mesmas forma a sociedade e o Estado, então, tanto quanto aumentam suas responsabilidades, aumenta também o seu poder de ação. Para isso, então, é necessário possuir uma consciência clara e um conhecimento apurado sobre as coisas, de modo a decidir acertadamente sobre as questões sociais e dilemas morais.

5. Uma vez investigadas as coisas, seu conhecimento tornou-se completo. Sendo completo seu conhecimento, seus pensamentos foram sinceros. Sinceros que foram seus pensamentos, seus corações corrigiram-se. Corrigidos os corações, suas pessoas foram cultivadas. Cultivadas que foram suas pessoas, ordenaram as famílias. Ordenadas suas famílias, foram justamente ordenados seus Estados. Justamente governados seus Estados, todo o reino viveu tranqüilo e foi feliz.

COMENTÁRIO: Aqui, a idéia da ética confucionista se completa: os indivíduos preparados podem administrar a sociedade segundo suas conveniências, equanimamente, atuando e discutindo-a. Do contrário, uma moral impositiva não leva ao raciocínio; sem raciocínio, as pessoas se abandonam a própria sorte, deixando seu poder nas mãos de poucos; e fazendo-o, elas sofrem da alienação e da incapacidade de transformar seu próprio mundo. Por esta razão este é o grande estudo.

6. Desde o Filho do Céu até a massa do povo, todos devem considerar o cultivo da pessoa como a raiz de todas as outras coisas.

COMENTÁRIO: a ética confucionista centra no indivíduo, portanto, o papel da ação social; a comunidade é formada pela soma destas individualidades, e não pode existir de forma adequada se estes não estiverem em relativa harmonia. Tal harmonia só pode existir, portanto, se as pessoas se auto-cultivarem, o que significado estudo constante, a diligência nos atos e a ponderação sobre seu papel social. Não há aqui, pois, uma moral conformista, mas uma ética de atuação, de esclarecimento.

7. Quando a raiz é descuidada, não pode o que dela nasce ser bem ordenado. Nunca se deu o caso daquilo que tem grande importância ter sido cuidado levianamente, e, ao mesmo tempo, tenha sido objeto de grandes cuidados aquilo que tem pouca importância.

COMENTÁRIO: sem um exame aprofundado das questões morais e sociais, as decisões podem basear-se em análises superficiais, levando ao erro ou a ação equivocada. Neste sentido, o grande estudo se propõe a agir como uma ciência para o exame dos problemas humanos, defendendo uma metodologia de investigação causal. Parece óbvio, mas este fator supera a objetividade das éticas imediatistas, atendo-se a questão de que as mudanças importantes, fundamentais e definitivas, só podem ser feitas por meio de alterações nas raízes das coisas.

Outras considerações

Alguns outros trechos selecionados do Daxue podem completar nossa investigação sobre a proposta ética de Confúcio, elucidando seus métodos e considerações.

O que se quer dizer com “tornar sinceros os pensamentos” é que não se deve permitir o engano de si mesmo, como quando odiamos um mau cheiro e como quando amamos o que é belo. A isto se chama gozo de si mesmo. Por conseguinte, o homem superior deve vigiar-se a si mesmo, quando está sozinho. Não há maldade em que não incorra um homem vil quando vive isolado, mas ao ver um homem superior trata instantaneamente de disfarçar-se, ocultando sua maldade e mostrando o que nele há de bom. O outro o vê, como se visse seu coração e suas paixões. Para que lhe serve o disfarce? Este é um exemplo do adágio: “O que verdadeiramente existe no intimo, manifestar-se-á exteriormente.” Portanto, o homem superior deve vigiar-se a si mesmo, quando está só. O discípulo Zang disse: “O que vêem dez olhos, o que dez mãos apontam, deve ser contemplado com reverência”. Os ricos enfeitam uma casa e a virtude enfeita a pessoa. A inteligência desenvolve-se e o corpo descansa. Portanto, o homem superior deve tornar sinceros seus pensamentos.

COMENTÁRIO: na visão confucionista, seja qual for a ideologia dominante, uma pessoa é capaz de agir de modo autônomo, ainda que influenciado pela mesma. A diferença entre o crime ou a ação correta consiste, então, na capacidade de tomar decisões e de assumi-las; tanto os enganos quanto os acertos podem ser resultantes de erros de cálculo ou más avaliações; há, no entanto, a ação raciocinada de modo leviano, que consiste – ainda que por trás de um disfarce – em algo prejudicial ao exercício da moral e do entendimento. O grande estudo se propõe, então, a fazer com que as pessoas percebam tais diferenças.

O que se quer exprimir ao dizer que o “cultivo da pessoa depende da correção do coração” pode ser assim exemplificado: Se um homem se acha sob a influência da paixão, será incorreto em sua conduta. Será o mesmo se ele se encontrar sob a influência do terror, ou sob a influência de um olhar carinhoso, ou sob a desgraça e a angústia. Quando a inteligência não se torna presente, olhamos e não vemos, ouvimos e não escutamos, comemos e não sabemos o gosto do que comemos. Eis o que explica que o cultivo da pessoa depende da correção da inteligência.

COMENTÁRIO: não há nenhuma ética possível se ela for calcada na reprodução pura e simples da moral; ela tanto será pior constituída e aplicada se, em seu estudo, ela for empregada para disfarçar objetivos escusos ou propostas egoísticas, que visam o benefício de poucos em detrimento da maioria. Esta é a razão pela qual o grande estudo é necessário; proporcionar conhecimento as pessoas sobre as raízes de sua cultura; compreender seus mecanismos de funcionamento; apreender disso o que funciona, o que não funciona, o que pode ser mudado, ou como algo pode ser mudado. Sem a inteligência e o conhecimento, porém, nada pode ser feito.

Conclusão

O grande estudo constitui, assim, a teoria e a metodologia da investigação dos elementos constituidores da ordem social. Sem a ética, um indivíduo não pode compreender seu papel moral e social, sendo assim um eterno escravo das circunstâncias. Pode-se objetar que a ética tem sido aviltada, por conseqüência, por aqueles que não desejam que o povo se esclareça, facilitando assim seu domínio sobre as massas. Isso é relativo, na medida em que essas mesmas pessoas dependem, para exercer seu domínio, dos compromissos que estabelecem com o povo, e por causa disso, são dependentes destes. Esta inversão de papéis não pode ser percebida por indivíduos cujo conhecimento não ultrapassa o imediato, e poderíamos afirmar, assim, que a ignorância é que impossibilita uma (re)ação consciente. No entanto, os indivíduos não nascem sabendo, e a paixão pela busca do conhecimento, embora estimulada pela educação, depende igualmente daquele que se decide por investigar as coisas. A ética, portanto, é um campo aberto, que busca atuar sobre a cultura e a moral; no entanto, cabe ao indivíduo, inserido nesta moral, querer saber mais sobre ela. Eis porque, então, moral e ética não podem – e nem deveriam – ser sinônimos.

Disse o Mestre: “Em ouvir litígios, sou como qualquer outro corpo. O necessário é fazer que o povo não tenha litígios”. Assim, os que estão desprovidos de princípios consideram impossível pronunciar seus discursos, e um grande temor se apoderará da inteligência dos homens; a isso se chama conhecer a própria causa”.
“A isto se chama conhecer pela raiz”.
“A isto se chama perfeição do conhecimento”.

Não será isso, exatamente, a ética?...


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