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O Livro dos Sábios da Floresta

1º Capítulo – A grande convocação do Andarilho Celeste

O Andarilho Celeste, o grande buscador, o porteiro dos deuses, estava caminhar pelo mundo, novamente, em busca do Dao, sem encontrá-lo. Na verdade, sua alcunha de peregrino foi conquistada graças aos inúmeros esforços que ele fez em tentar descobrir – no entanto, sem nunca conseguir – alcançar o Dao. Sua vida tem se estendido de tal modo que é impossível saber ao certo sua idade, e costuma-se dizer que ele recebeu este dom da natureza para que pudesse, simplesmente, conquistar o Caminho; outros dizem que sua propensão natural para buscar a via lhe esticou os anos. A questão, de fato, é que o Andarilho Celeste adquiriu vários poderes ao longo das décadas – ou séculos? -, e um deles é o de conseguir se comunicar com os animais.

Por conta disso, o grande peregrino teve uma idéia brilhante: resolveu chamar os sábios da floresta para uma grande reunião, na qual discutiria o Dao. “Como cada um dos sábios vive em sua natureza original, provavelmente eles compreendem o Dao”, pensou o porteiro dos Céus. Assim sendo, ele convocou todos os grandes eruditos das florestinhas e bosques, os grandes divinos das sagradas constelações, os viajantes das montanhas e dos mares para este famoso e fundamental debate.

Na data convencionada, estiveram presentes 24 sábios, o que foi considerado auspicioso – pois este número é a multiplicação de 8, o número da grande sorte e dos guas, por 3, o número gerador das coisas. Vieram os 12 magníficos supremos, que regem as datas do calendário; o rato, o búfalo, o tigre, o coelho, o dragão, a serpente, o cavalo, a cabra, o macaco, o galo, o cão e o javali. Da escuridão, veio a raposa, o morcego, o corvo, o gato, a fênix e o unicórnio; atravessando as montanhas e os mares, veio a girafa, a tartaruga, o pavão, o elefante, o rouxinol e o louva-deus.

Inicialmente, deu-se o grande banquete dos animais, em que cada um deles se regalou com o que mais apetecia – e o Andarilho Celeste tratou de cuidar que uns não comessem aos outros, pois em discussões sérias e profundas, os sábios da floresta lembram que são bichos famintos também. O peregrino chamou o urso para ser o redator das atas deste grande encontro, já que ele é o único que sabia escrever, além de saber ficar em pé – mas não permitiu que esse falasse, pois ele é o mais próximo dos homens (e é por isso que os xamãs o invocam).

Após a refeição, alguns deles dormiram para fazer a digestão; outros se pentearam, lambendo as patas e as unhas, e mais alguns cataram suas pulgas para melhor pensar. Depois do descanso abençoado, o Peregrino os chamou para sentarem em roda, e iniciar o grande debate dos sábios da floresta acerca do Caminho.

2º Capítulo – A Suprema Questão

Então, o Andarilho do Céu começou o evento apresentando sua proposta:

- Meus caros sábios da floresta; o Caminho é algo que já venho procurando há muito tempo, e justamente por esta razão me chamam de sábio buscador – mas não creio eu ser um sábio apenas por ser um buscador, e nem sei se os buscadores são sábios apenas porque buscam algo. Desde muito, pois, cheguei a conclusão de que o Dao (o Caminho) é a razão de vivermos, é o grande sentido de estarmos presentes neste mundo. Vim ouvir a opinião de vocês sobre este assunto, de modo que cheguemos a alguma conclusão – ou mesmo, muitas – sobre o que é o Caminho. Penso, ainda, se existe alguma questão maior que essa, e se for o caso, que me apontem qual seja, de modo que possamos mudar o tema deste debate.

Todos os sábios da floresta assentiram com a cabeça, sem titubear; sim, a busca do Caminho é o mais importante de tudo, e nenhum deles questionou o grande Porteiro. Feito isso, decidiu-se, então, que cada um dos sábios exporia sua visão do Caminho, e o Rato tomou a palavra, por ser o primeiro dos primeiros magníficos na ordem das constelações celestes.

3º Capítulo – Rato

Disse o Rato: creio que o Caminho é a perspicácia e a astúcia. Viver exige uma grande habilidade de negociar, discutir, e exercitar-se na arte da Diplomacia. O meio mais eficiente de conseguir tudo é o melhor acordo entre as partes, ou conquistar um bom negócio. Se conseguirmos bons acertos, ninguém se pergunta o que somos, e podemos nos resguardar, e assim, preservamos nossa existência. Se formos pequenos, sabendo negociar, nos fazemos grandes; e sendo talentosos, nos fazemos necessários. Devemos ser meticulosos, previdentes e bons de conversa.

Disse o Andarilho: Rato, suas idéias são boas. Fazer bons acordos, que beneficiem a todos, é o ideal em questões importantes. No entanto, se existem questões, é porque as pessoas não se entendem, e resolvê-las pode significar tirar partido delas; ser diplomata significa não expressar o íntimo, e ser superficial; por fim, a atração por bons negócios nos envolve em jogos perdulários ou em tramóias obscuras que rendem fácil. Ser de boa conversa, ou fazer bons acordos, não significa que existem princípios por trás disso, o que quer dizer que o seu desenrolar pode ser prejudicial no futuro. Além disso, gera-se desconfiança para com quem sempre busca a maior parte num acordo, tachando a este de interesseiro ou oportunista.

Não creio que este Caminho está completo.

Os outros animais concordaram, e passaram a vez ao...

4º Capítulo – Búfalo

Disse o Búfalo: para mim, o Caminho consiste no trabalho duro. Aqueles que se esforçam conquistam respeito, e a lavra sustenta o mundo. Quanto mais trabalho, mais produzimos; quanto mais produzimos, mais damos ao mundo; e quanto mais damos ao mundo, mais somos admirados e respeitados. Por isso, a dedicação ao suor afasta a divagação vã, e sustenta as criaturas.

Disse o Andarilho: Búfalo, tuas palavras são boas, e realmente, seu trabalho alimenta o mundo. No entanto, mesmo com toda sua força, você não afasta as moscas de seu couro; do mesmo modo, seu trabalho duro é um dos mais aviltados, e não lhe angariou respeito. Se um trabalho busca reconhecimento, tendo-o ou não, isso é fama, mas não o Caminho. Além disso, quanto mais se trabalha, menos se pensa; e quando não pensamos, não temos novas idéias. Assim sendo, seu esforço sustenta o mundo, mas o conserva como é, e não o ajuda a mudar ou evoluir.

Não creio que este Caminho está completo.

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5º Capítulo – Tigre

Disse o Tigre: o Caminho é a força. Quando temos força, impomos a justiça e causamos temor. Nossa vontade é a lei, e a força gera a ordem. Havendo ordem, tudo está em paz; e se há paz, há coexistência, há harmonia, então, o Caminho foi alcançado.

Disse o Andarilho: temerário saber, meu caro Tigre. A força amedronta, mas não educa. Por isso, um tigre velho é vítima de troça, quando se perde o medo dele. Além disso, a força gera a paz, mas também o conflito – afinal, não diz o velho ditado, “quando dois tigres duelam, um tem que morrer?”. Quem tem força não tem necessariamente sabedoria para usá-la, e uma vontade mal conduzida ou esclarecida é a pior das leis. A força pode trazer ordem, mas causa revolta. O exercício da força é admirável, mas causa disputas e atrai inimigos.

Não creio que este Caminho está completo.

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6º Capítulo – Coelho

Disse o Coelho: acredito que devemos evitar confusões, e nos dedicarmos a nós mesmos. Devemos lembrar sempre: não devemos nos meter em problemas; não devemos nos meter nos problemas dos outros e, na dúvida entre os dois, não devemos fazer nada. O Caminho é a arte de se esquivar, e se todos buscassem cuidar de si mesmos, ninguém precisaria se preocupar com os outros.

Disse o Andarilho: muito respeitáveis as suas palavras, Coelho. A arte de ocultar-se evita, de fato, muitos problemas. Como observadores do mundo, vocês pitam seus cachimbos, tem muitas histórias pra contar, e – dizem – vocês conhecem os segredos da alquimia. No entanto, cada dilema que se interpõe na vida é um problema a ser superado; como então trilhar o Caminho, se a sua descoberta, em si, já é um problema? Tanta timidez assim nos afasta da vida, e diminui nossas experiências; tanta furtividade só nos cria uma opção, a fuga, até que não nos restem mais saídas. Por fim, devemos nos preocupar consigo mesmo, o que é bom quando buscamos aprender; mas como ignorar que, no mundo, é o auxílio mútuo que ajuda a perpetuação da vida?

Não creio que este Caminho está completo.

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7º Capítulo – Dragão

Disse o Dragão: pois é, tanto medo assim não dá em nada. O Caminho verdadeiro é o poder. Ao termos o poder, podemos exercitar nossa vontade como quisermos, e seremos imortais na memória dos seres. Teremos a força, o domínio, e poderemos modificar o mundo, estabelecendo a verdadeira harmonia. O verdadeiro poder liga o Céu e a Terra, e está muito acima da vontade dos mortais – e rugiu para o Tigre, que não fez por menos, e mostrou suas presas.

Disse o Andarilho: Bem disse, Dragão, que o poder pode mudar o mundo, e de fato, um grande soberano assim o faz. Mas lembre-se: um chefe manda, e as pessoas obedecem; um líder fala, e as pessoas seguem. O poder, em si, é a causa da construção e da destruição da vida. Se mal administrado, o poder corrompe, desequilibra, e torna-se um tentação para a inconstância e o desequilíbrio. Não raro os poderosos se tornam assustadores e imprevisíveis. Quando o fazem, são esquecidos, ou somente lembrados por seus erros. Você mesmo brigou com a tartaruga, a grande historiadora, e por isso ninguém mais acredita que você existe, senão como uma lenda – nem todo o poder de que você dispõe, portanto, revelou o Caminho ao mundo.

O Dragão levantou sua sobrancelha peluda com certo desdém, mas concordou, pois no fundo sabia que o Andarilho estava certo. O Tigre observou isso e miou baixinho, sabendo que também havia se comportado mal. O macaco deu risadinhas dos dois, e logo foi acompanhado pelos outros bichos. Então, disse o peregrino celeste:

Não creio que este Caminho está completo.

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8º Capítulo – Serpente

Disse a Serpente: o Caminho é a estratégia que leva a eficácia. Havendo uma estratégia definida, podemos vencer todos os negócios, nos esquivar dos problemas, fazer com que trabalhem para nós, manipular a força e alcançar o poder. Quem obtém a melhor estratégia, domina o verdadeiro Caminho. Na arte da guerra, a estratégia é o fundamento de todas as operações; como não seria, também, em toda a própria existência?

Disse o Andarilho: cara Serpente, é preciso traçar planos em todas as questões da vida, e isso é certo. Mas a estratégia não significa a harmonia das coisas; afinal, boas estratégias podem ser utilizadas por déspotas, más estratégias podem ser usadas em bons negócios. Se tratarmos todas as questões da vida como se fossem uma guerra, então, com certeza, nós a causaremos. Você conhece os mistérios da terra e dos subterrâneos, é parente do grande Dragão, domina a arte do combate com sutileza e venenos terríveis e eficazes, mas nem por isso é amada por todos. Suas estratégias são adequadas para você, mas não para os outros animais; como crer, pois, que a estratégia em si é o Caminho como um todo? Cada animal possui suas próprias estratégias, é verdade; mas não esqueça que por trás de cada uma existe um propósito. Quando você defende seus ovos, ninguém discordará de sua combatividade; mas quando você ataca alguém, ardilosamente, apenas por passar perto de seu covil, é difícil aceitar que você apenas se defendia.

Não creio que este Caminho está completo.

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9º Capítulo – Cavalo

Disse o Cavalo: o Caminho verdadeiro é a liberdade, sem se prender as coisas mundanas. Viver cada dia como se fosse o último, amar incessantemente, aplicar seu físico na aventura e nas viagens reveladoras. Apenas quando alguém é si mesmo, pode-se dizer que alcançou o Caminho que lhe é próprio. O verdadeiro Caminho é a autenticidade realizante.

Disse o Andarilho: bem sábio é o cavalo, pois só com liberdade podemos descobrir coisas novas. Quando viajamos, fugimos de nossa realidade cotidiana, e aprendemos com o inusitado. No entanto, se desprender das coisas materiais é fácil quando há pasto disponível e bem cuidado que não foi plantado por você. É fácil se desligar do mundo quando há alguém que está preso para nos sustentar. Podemos andar todo o mundo, mas se não trazemos a mudança em nós mesmos, nunca seremos outra coisa, em qualquer lugar que estivermos. Os cavalos foram ludibriados pelos humanos, e hoje puxam carroças e arados, como o Búfalo – logo, o desejo de se libertar e se desprender depende de ter as coisas materiais a disposição, e não o contrário. Quando lhes foi oferecido uma vida mais fácil, muitos cavalos aceitaram isso, e venderam sua liberdade facilmente. Fará parte de sua autenticidade realizante, pois, ser livre e volúvel ao mesmo tempo?

Não creio que este Caminho está completo.

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10º Capítulo – Cabra

Disse a Cabra: o Caminho consiste em dedicar-se aos outros, e devotar-se ao seu bem. Quando cuidamos dos outros, cuidamos de nós mesmos, pois a devoção gera retribuição. Se necessário, usamos os chifres para defender os que nos são próximos; mas o Caminho consiste em anular-se em prol do semelhantes.

Disse o Andarilho: palavras lindas, cara Cabra. Animais como você ajudam a tornar o mundo melhor, com certeza. No entanto, ajudam a piorá-lo também. Afinal, se nos doamos por completo, o que os outros aprendem a fazer por si mesmos? Acaso não ensinamos a preguiça, quando nos dispomos a fazer tudo, deixando que os outros nada façam? Que valores podemos ensinar, se aqueles que recebem as dádivas não compreendem a dificuldade em alcançá-las? O Altruísmo é uma dos sentimentos mais nobres que existem, mas deve ser usado com cuidado. Se nos dedicamos a cuidar dos problemas alheios, em breve, estes serão nossos próprios problemas.

Não creio que este Caminho está completo.

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11º Capítulo – Macaco

Disse o Macaco: pois para mim, o Caminho é o mundo das diversões e artimanhas. Devemos a aproveitar a vida levando tudo na brincadeira, e quando surgirem as grandes questões, improvisar. Gosto de boas frutas, e por isso não sou desprendido como o cavalo; mas se alguém tenta me prender, eu faço uma grande bagunça! Agitando nossos corpos, incitamos o espírito; e a vida não pode ser levada por regras duras. Uma trapacinha aqui, uma mentirinha acolá, não fazem mal a ninguém. Viver o Caminho é perceber, de modo bem aguçado, que cada bicho tem suas regras, e por isso devemos cultivar a alegria, as piadas e o bom humor inteligente - só assim ficaremos em harmonia com todos.

Disse o Andarilho: grande mestre macaco! Seus parentes já protegeram grandes sábios, suas façanhas são temidas e admiradas até mesmo no Céu. Buda gostou de você, e sabe que por trás desse jeito brincalhão, existe um discípulo compenetrado e dedicado. Me parece que sua missão no mundo é mostrar que os sábios não precisam ser tão sérios para serem sábios; mas permita-me dizer algo sobre suas palavras.

Levar tudo na brincadeira é divertido, contanto que venha com aprendizado. Tão somente aproveitar a vida não leva a lugar nenhum, senão ao sem sentido desejo de viver apenas para aproveitar. Além disso, improvisar depende da criatividade, que vem da necessidade e do conhecimento; em horas que precisamos de respostas, portanto, este meio dificilmente ajuda, o que mostra que o Caminho não está dominado. Por fim, se cada bicho tem seus modos, mesmo assim, existem regras comuns a todos eles. Ninguém gosta de ser enganado, mesmo que engane alguém de vez em quando; e todos aqui querem viver longamente, o que significa que agradecerão bastante ao Céu se os predadores tiverem um pouco menos de fome, e um pouco mais de jeito. Ser bem humorado não implica ser arrogante, e ser feliz não deve levar ao exagero que humilha aos outros.

Não creio que este Caminho está completo.

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12º Capítulo – Galo

Disse o Galo: o Caminho está nos costumes, no bom cumprimento das leis antigas, e na manutenção dos valores. Quando os hábitos foram criados antigamente, tinham por objetivo nos incutir os meios corretos de fazer as coisas, e nos dar consciência sobre nossas ações. Sabendo disso, o melhor Caminho é aquele em que os seres praticam sua moral na mais estrita perfeição, pondo ordem no mundo.

Disse o Andarilho: ah arauto do dia, belas palavras! Se hoje discutimos o Caminho é porque, de fato, alguém lembrou de criar este conceito, para que pudéssemos agora buscá-lo. Contudo, os hábitos não foram capazes de sustentar o Caminho, o que significa que ou os valores estão ultrapassados, ou o meio de alcançá-los mudou. Em ambos os casos, portanto, me parece que apenas preservar e praticar a moral não dá conta de responder aos desafios do mundo; na verdade, para haver ordem, os próprios hábitos e valores tem que mudar, em direção ao que é inédito, novo e diferente. Além disso, quantas vezes você mesmo teve que se defender de outros galos, que buscavam seu lugar como mestre da alvorada? Preservar os hábitos, quando estes te permitem ter várias esposas é uma coisa: mas e se suas esposas quisessem ter vários galinhos? Somente preservar as tradições não parece ser o Caminho.

Não creio que este Caminho está completo.

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13º Capítulo – Cão

Disse o Cão: o Caminho é a lealdade e a dedicação. Em todas as relações, no trabalho ou na família, devemos ser leais e dedicados. Quando há fidelidade, se teme o erro, que afasta os amigos e colegas; quando há piedade filial, se teme a vergonha dos parentes. Seja o que for correto ou errado para um bicho de certa espécie, se com eles ele dedica sua afeição e espírito, então, encontra-se o Caminho.

Disse o Andarilho: bom Cão, o melhor dos amigos. A lealdade é o cerne das relações entre os seres. Porém, pode-se ser leal a alguém que faz o mal? E ser leal a alguém que faz algo errado, é correto? Existem associações para todo o tipo de coisas, e algumas delas não são boas - deveria, ainda assim, existir tal lealdade e dedicação? Sua coragem é conhecida, sua devoção admirada, mas sua lealdade também não se submete muito fácil?

Não creio que este Caminho está completo.

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14º Capítulo - Javali

Disse o Javali: penso que o Caminho está em aproveitar bem as coisas da vida. Ter uma boa casa, boa comida, bom trabalho - que não canse muito, mas também não seja fácil demais -, namorar bastante, e talvez ter um ou outro vício menos importante e prejudicial. Quando me dá na telha, eu tenho energia pra passar a noite toda fazendo festa com o Macaco, mas este pessoal que é desprendido em demasia não sabe curtir o que é bom. Viver bem, apenas, este é o Caminho.

Disse o Andarilho: bem sabemos da sua força, caro javali, temida por qualquer outro animal quando você está bravo. Sabemos também que a vida nos oferece coisas muito boas - momentos inesquecíveis, comidas apetitosas e muito mais. No entanto, ater-se a estas coisas é criar a sua necessidade constante. Quanto mais se aproveita, mais se quer; difícil encontrar aqueles que se contentam com pouco, depois de experimentar o muito. Quem, a propósito, consegue a medida justa das coisas? Se existe uma preocupação angustiosa de se aproveitar a vida, o que há de bom nisso já se vai na eterna preocupação de se ter momentos bons. Se aceitarmos de bom grado apenas o que satisfaz o sentido, esquecemos nós mesmos de viver, em busca sempre deste insaciável prazer. Seus parentes, os porcos, trocaram a liberdade por um chiqueiro, apenas para não terem que se preocupar com a comida. O porco que lutou, ao lado do macaco, na grande travessia de Xuan Zang, era um preguiçoso comilão. A acomodação ilusória dos sentidos será satisfatória?

Não creio que este Caminho está completo.

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15º Capítulo – Raposa

Disse a Raposa: devemos conhecer as artes ocultas, este é o Caminho. Existem segredos inimagináveis na magia e na alquimia. Com eles, podemos manipular as forças visíveis e invisíveis, segundo nosso interesse. Ao dispormos deste conhecimento, sabemosmais sobre a natureza, e a colocamos ao nosso serviço.

Disse o Andarilho: cara Raposa, as artes ocultas dão grandes poderes para quem as conhece. No entanto, que poderes são estes, que não impedem alguém de ser odiado, temido, contra o qual as pessoas conspiram ou tem medo? No que conhecer o oculto ajuda no que é evidente? O exercício da própria vida, na sua simplicidade direta, já não traz dificuldades tremendas? Pode o conhecimento dos segredos da natureza fazer a mesma estar em harmonia, se os outros não estão? Conhecemos a treta que você aplicou no Tigre, mas onde estava toda sua magia neste momento? Se os magos tem tantopoder, porque se ocultam? Não será porque mesmo suas forças e conhecimentos tem limites? Se os tem, será então que compreendem o Caminho?

Não creio que este Caminho está completo.

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16º Capítulo – morcego

Disse o Morcego: o Caminho consiste em se desligar dos sentidos. Este mundo é apenas aparência, e as sensações que deles temos confundem a mente. Devemos meditar profundamente sobre as coisas, e delas formar uma consciência própria, o que nos ensinará a perceber a verdadeira fazce das coisas.

Disse o Andarilho: caro Morcego, muitos consideram sua visita algo auspicioso. Você pode perceber o mundo de modos que os outros ignoram. No entanto, pode-se acreditar em alguém que nunca viu o sol, ou que não sabe o que são as cores? Abrir mão de um sentido em detrimento de outro não nos faz conceber as coisas como elas são, mas sim - e apenas - um jeito próprio de concebê-las. Além disso, abandonar os sentidos parece trocar seis por meia dúzia - qual a vantagem de dispensar um em função de outro? E de que outro modo, por fim, entramos em contato com as coisas do mundo, mesmo que seja para negá-as, depois, senão pelos sentidos?

Não creio que este Caminho está completo.

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17º Capítulo – Corvo

Disse o Corvo: o Caminho é a arte da imitação. Quando vôo, percebo como o mundo é, e daí decido o melhor jeito de agir. Deve-se imitar os costumes dos bichos, do mesmo modo que imito seus sons. Assim, ninguém se incomoda com um ser oculto ou familiar. No momento de decidir sobre algo, se acompanhamos a maioria, nos indispomos com poucos. a consciência de muitos é a força de sua razão; para que ir contra ela? Devemos agir de modo isento, e acompanharmos as tendências.

Disse o Andarilho: Corvo, você já transitou por mundos diferentes, e sabe da importância que existe na habilidade de imitar hábitos novos entre gentes estranhas. No entanto, isso é somente a superfície; em que momento a individualidade pode se manifestar com tal comportamento? Além disso, a maioria pode decidir pelo erro, levando a uma catástrofe; uma opinião correta ou lúcida não seria mais apropriada? Deixar que os outros decidam por nós não será um erro tão grande quanto acreditar que a pura e simples imitação não é uma fraqueza de caráter?

Não creio que este Caminho está completo.

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18º Capítulo – Gato

Disse o Gato: o verdadeiro Caminho está em não se deixar dominar pelas coisas. Devemos nos colocar como seres poderosos, e assim, pela lógica yin-yang, atrairemos os fracos e os servis. Quanto mais nos valorizarmos, mais seremos valorizados; quanto mais nos ocultamos e nos reservamos, mas se interessam por nós; faça sempre acreditar que você está insatisfeito, e te oferecerão mais. O mundo da mutação é yin-yang, e as coisas funcionam ao contrário.

Disse o Andarilho: Interessante teoria, que se comprova muitas vezes na vida quando se deseja algo que nunca chega. Mas lembre-se, tanta inteligência assim não o impediu de ser enganado pelo rato, que tomou seu lugar entre os magníficos [todos os bichos gargalham, e o gato se faz de esnobe]. Se precisamos não amar para sermos amados, o que poderemos amar um dia, então, se o quisermos fazer? Um modo de vida egoísta, no qual somos o centro de tudo, termina no dia em que se percebe que não há reciprocidade. Se todos agirem desta maneira, quem servirá um ao outro?

Não creio que este Caminho está completo.

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19º Capítulo – Fênix

Disse a Fênix: esqueçam do mundo da mutação, e busquem na imortalidade o Caminho real. Este mundo começa e acaba, mas a realidade transcendente é a verdadeira busca. Em outros mundos há a promessa de uma vida melhor - para que se preocupar com esse?

Disse o Andarilho: a promessa da imortalidade é tentadora, mas isso é da sua natureza, cara Fênix. Aliás, sua própria continuidade está aqui, no mundo da mutação. Que certeza podemos ter que existem outros mundos depois que esta vida acaba? Devemos buscar aqui, nesta realidade, caminhos que não fazem parte dela? Aliás, será isso possível, ou senão um mero exercício de especulação? Com tantas dúvidas, não é mais apropriado se ater ao que se pode fazer aqui, e agora? Por fim, receio as crenças no além transcendente que fazem as pessoas esquecerem de viver o imanente - no que isso ajuda na harmonia? Ameaças de danação ou redenção educam a vontade dos indivíduos nesta existência?

Não creio que este Caminho está completo.

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20º Capítulo – Unicórnio

Disse o Unicórnio: não acredito em Caminho. Buscamos algo que não existe. Quem o viu para dizer que ele pode existir? Você mesmo, grande peregrino, ficou famoso por nada achar; não teme que seja uma busca infrutífera?

[Todos os animais prenderam a respiração!...]

Disse o Andarilho: é verdade unicórnio, do mesmo modo que você também não existe! Se você não existe, não sei o que faz aqui; mas se está aqui, então, como pode não existir? Mas suponhamos que você fosse apenas uma idéia, uma lenda, algo que nunca existiu em corpo, de fato, senão apenas na mente dos outros; e no entanto, você não teria existido, mesmo que fosse apenas na imaginação? Sendo assim, durante anos as pessoas teriam escrito ou dito coisas em função do que supunham ser você, e apenas a busca por você poderia revelar que você não existe - e ainda assim, no presente, já que você poderia ter existido em outras épocas... Assim sendo, não seria a busca pelo que não se conhece a verdadeira busca de algo? Se o Caminho não existe, ou se existem vários, eu pretendo descobrir; enquanto isso, muitos outros apenas acreditam, sem saber, no que acreditam. Porque chafurdar na ignorância do desconhecimento, e desprezar as buscas superiores?

Unicórnio, alguns dizem que você se chama "rinoceronte" em outras terras; outros acham que você é um cavalo com um chifre no meio da testa; seja o que você for, você só será descoberto se o procurarem. Por esta razão, devemos buscar as coisas, antes que as percamos e não possamos mais achá-las.

Não creio que este Caminho está completo.

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21º Capítulo – Girafa

Disse a Girafa: o Caminho consiste na previdência, em olhar longe para as coisas, e acumular provisões para o futuro. A vidência é o fundamento da estratégia, a sabedoria do poder, e o conhecimento das propensões. Observando os processos da mutação, compreendermos o desfecho das coisas. Estudar as mutações é o Caminho, e dominá-las é conhecer seu método.

Disse o Andarilho: Girafa, com seu longo pescoço, você enxerga longe. Acumular bens, pensando no futuro, é a previdência apropriada; estudar as mutações e seus desdobramentos, uma reverência para com a natureza e os espíritos ancestrais.

No entanto, quando acumulamos agora, pensando no futuro, o que fazemos no presente? Aquele que não arrisca, como ele pode mudar o mundo? Ao estudarmos as mutações, e com grande profundidade, podemos perceber como uma coisa será, de tal forma; mas ela assim não será, justamente, em função do que fazemos no momento atual? Se fizermos algo de maneira diferente, não poderemos mudar o futuro? A previdência é um seguro, mas pode virar uma prisão e um sacrifício sem sentido. Há vinhos que foram guardados para terem um sabor superior, por alguém que já morreu e não o experimentou. Qual o sentido nisso?

Não creio que este Caminho está completo.

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22º Capítulo – Tartaruga

Disse a Tartaruga: o Caminho consiste em estudar a história do mundo, para compreender como as coisas estão. Quando estudamos o passado, compreendemos os fundamentos de tudo que ocorre hoje. Sabendo disso, podemos perceber como agir, o que foi modificado, e o que pode ser transformado. A história é o fio que amarra toda a trama da existência, e que proporciona a continuidade. Viajamos o mundo todo para ver o que muda, e não o que permanece - este é o verdadeiro estudo da mutação, e o Caminho para a sabedoria.

Disse o Andarilho: Tartaruga sagrada, você viajou por mares de todo o mundo, e conhece profundamente a história dos séculos. Olhar o passado nos permite compreender o que estamos hoje, e este é o alicerce do conhecimento e da moral. Nisso, você é uma especialista indiscutível. Mas o passado já se foi; vemos agora sua herança, mas o momento da transformação cabe a nós. Quantos se prendem nas miragens do antanho, sem vislumbrar ou imaginar o que poderá ser transformado! O passado pode ser tanto a base do saber quanto a arca de antiguidades. Muitos mestres hoje são apenas repetidores das coisas, sem saber como aplicá-las. Além disso, a própria mutação do mundo exige o eterno ajuste, a constante adaptação, sobre a qual precisamos manifestar novos princípios.

Não creio que este Caminho está completo.

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23º Capítulo – Pavão

Disse o Pavão: eu acredito que o Caminho consiste na supremacia da beleza. Todos amam o que é bonito; o que é belo, é bom. A beleza seduz, e em função dela, os outros seguem a vontade do mais sedutor. Ninguém gosta do que é feio; todos admiram o esplendor, o grandioso e o fulgurante. A beleza é a própria harmonia em si, e quando as coisas são admiráveis, todos se satisfazem com o que vêem e sentem, e respeitam o que é bonito.

Disse o Andarilho: Pavão, ninguém dúvida de sua beleza, quase tão proverbial quanto a própria existência de seu parente, a Fênix. Contudo, a beleza da imagem é a superfície das coisas. Os bebês amam suas mães, e não sabem se elas são feias ou não; do mesmo modo, lindos jovens se tornam velhos, e quando sua beleza vai embora, deixam de ser respeitados pelo que eram. No entanto, a mente dos sábios atrai os buscadores; há beleza suficente em idéias novas para mudar o mundo, e ninguém sabe sua face. De tempos em tempos, as pessoas mudam seus gostos, e o que é superficial deixa de ser belo e fica feio; no entanto, o que é profundo, intelectual e sapiencial é sempre admirado e respeitado, mesmo que seja criticado. Passam as gerações, e os grande sábios permanecem, mesmo que não saibamos seus rostos. Acredito que a beleza ao qual você se refere não é o verdadeiro belo - e se ele existe, deve pertencer ao verdadeiro Caminho, e não contrário.

Não creio que este Caminho está completo.

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24º Capítulo – Elefante

Disse o Elefante: penso que a razão, esta sim, é o fundamento de tudo, o grande Caminho. Analisar friamente as coisas, visando o que é mais apropriado; estabelecer os modos do que é correto, tendo em vista o bem maior. Desenvolver as ciências, isso traz a ordem e o esclarecimento. Com uma análise ponderada das coisas, por meio da razão, chegamos as conclusões corretas, acima dos sentidos e sentimentos.

Disse o Andarilho: grande Elefante, suas idéias são tão poderosas quanto sua enorme cabeça e suas temíveis presas. Com certeza, a razão nos leva ao esclarecimento, e por meio dela, as grandes descobertas estão sendo feitas. As ciências descobrem muitas coisas novas, mas elas são tão boas quanto más; o seu uso depende sempre de quem o faz. Existem médicos bons e ruins; existem pensadores preocupados e egoístas; existem técnicas que hoje funcionam, e amanhã não servem mais. Me parece, pois, que o uso da razão depende, para o bem dos seres, de uma formação moral apropriada - e que esta razão esteja preocupada com as conseqüências que irá gerar para os outros. Da mesma maneira, são os sentimentos de querer bem ou mal, de sucesso ou de fama, de altruísmo ou compaixão, que estimulam muitos a empregar a razão na solução de problemas da existência. Como desprezar, portanto, a importância deste motor, que alimenta a busca da própria razão? Você mesmo, meu caro Elefante, quando fica furioso, torna-se incontrolável. Sua paciência é lendária, sua memória prodigiosa, mas se elas foram usadas para submeter este colosso de força que é você à força mínima dos homens, ou se suas lembranças se transformam num eterno rancor ou pesar, onde está a razão para operar a manifestação da sabedoria?

Não creio que este Caminho está completo.

Os outros animais concordaram, e passaram a vez ao...

25º Capítulo – Rouxinol

Disse o Rouxinol: o verdadeiro Caminho está no despertar dos sentidos mais profundos, por meio das artes. A poesia nos ensina o jogo das palavras; a música desperta sentimentos profundos, mesmo que muitos não saibam suas letras; o artista das formas atrai as pessoas com cores, curvas e retas; o pintor capta e prende a imaginação na tela. Quem domina uma arte com perfeição, consegue atingir o que está escondido nos seres. Ora, captar o oculto e conseguir dominá-lo, este não é o Caminho?

Disse o Andarilho: Com certeza, caro Rouxinol do belo canto, é provável que alguns artistas tenham atingido o Caminho; mas e os outros tantos que, com suas obras, inspiram o desânimo, o pessimismo ou mesmo, a submissão? Quantos músicos cantam canções que divertem, mas não fazem ninguém pensar? Quantas obras de arte servem para vender mercadorias, sem que haja qualquer preocupação com o espírito? As artes tem a possibilidade de despertar sentimentos, mas o artista pode manipulá-las em função de seus interesses próprios. Isso seria correto? As artes podem ser um meio de desenvolver a sensibilidade sobre a mutação, mas sem uma orientaçào adequada, elas satisfazem os anseios do pavão, mas não da sabedoria.

Não creio que este Caminho está completo.

Os outros animais concordaram, e passaram a vez ao...

26º Capítulo - Louva-Deus

Disse o Louva-Deus: o Caminho é a grande comunidade dos seres, a união em torno de um propósito único, que anule a individualidade em prol do coletivo. Vejam os gafanhotos: quando unidos, são um enxame capaz de devastações terríveis; vejam as formigas: juntas, constroem fortalezas indestrutíveis e ameaçadoras. As borboletas são admiradas por sua beleza, e por superarem a prisão de seus casulos; no entanto, o que elas trazem para o mundo, senão o farfalhar de suas asas? Ninguém gosta das moscas, mas onde elas se fazem presentes, aparecem aos montes, e sua união altera o estado das coisas. Quando há união, todos sabem o que fazer, todos são iguais, e há harmonia. Este não seria o Caminho?

Disse o Andarilho: Brilhante exposição Louva-Deus, que mostra o poder e a força dos pequenos. Nada de grande é construído sem as mínimas partes. Nenhum grande império se sustenta, se não atender ao menor de todos os seus súditos. No entanto, nas grandes uniões, os discordantes são esmagados; poucas idéias governam muitos, e se tivermos mais idéias, teremos menos união. Alguém poderia objetar, assim, que é melhor que todos ignorem tudo; mas se ignorarmos as coisas, como poderemos continuar sobrevivendo? Se não aprendermos, e nem termos novas idéias, como desenvolveremos o conhecimento, e como superaremos os novos desafios? As formigas têm suas fortalezas, mas quase não saem delas, e para elas sempre voltam, pois este é o seu trabalho; os gafanhotos dependem das florestas e das plantações para viverem, mas eles mesmos nada cultivam, e precisam, assim, de outras criaturas para poder viverem. Quem abre mão de sua independência, se começa a pensar por si mesmo? Para haver tal união, é necessário não saber, não conhecer e não buscar; quem, pois, que raciocinasse um pouco mais, conseguiria viver deste modo?

Não creio que este Caminho está completo.

Os outros animais concordaram, e desta vez, quedaram-se profundamente quietos.

27º Capítulo - A conclusão dos trabalhos

Disse o Andarilho: caros sábios da floresta, todos vocês falaram com propriedade, e tenho certeza de que apresentaram, com a mais pura sinceridade, seus pensamentos e crenças próprias. No entanto, ficou claro que ainda não alcançamos uma idéia sobre o Caminho - o Dao - que pareça convincente para todos nós. Me parece que se só existe uma única maneira de entender o Caminho, não a atingimos; mas se existem vários modos de compreender o Caminho, então, como dizer que há uma via, ou mesmo, o que ela seja?

Todos os bichos assentiram com a cabeça, até que o Urso, que havia cumprido seu voto de silêncio, pediu para falar. O Andarilho, assim como os sábios da floresta, ficaram intrigados pelo que o Urso poderia dizer, e deram-lhe a vez. Ele disse:

Caros sábios, aprendi muito hoje sobre os vários modos de olhar o Caminho, embora concorde que não chegamos a uma conclusão unificante. Gostaria de propor uma coisa: há um homem chamado Confúcio, um dos primeiros buscadores do Caminho, que pode ter uma opinião profunda e ponderada sobre este assunto. Afinal, ele tem vários discípulos, mas as pessoas más não gostam de ouví-lo. Quando ele dá suas opiniões e conselhos, os ignorantes se incomodam, os sábios sorriem, e os necessitados se alegram. Não seria uma boa opção ir consultá-lo acerca do assunto?

A bicharada se animou, e achou a idéia boa; afinal, eles conheciam homens ruins, que os atacavam na floresta; sabiam de intrometidos e inconvenientes, que desapareciam no meio das matas, e os incomodavam com seus silêncios e hábitos estranhos. Mas, ouviram falar que o tal Confúcio não caçava crias nem passarinhos no ninho, e pescava com um anzol pra dar chance aos peixes de fugirem. Pareceu-lhes que era um homem admirável, e deram seu aval.

O Andarilho disse: bem se vê meu caro Urso, que sua proximidade com os homens lhe deu esta idéia. Também sou um, e se busco o Caminho, é porque estes mesmos homens têm se digladiado por razões funestas, e não conhecem uma via que proporcione a harmonia - o objeto central de minha busca. Não seria um erro, então, buscar o Caminho com o homem, se já encontrei tantos, e com eles aprendi muito, mas não o Caminho?

Para a surpresa de todos, o Urso replicou:

- A ignorância de muitos não diz a sabedoria de poucos. Se o Caminho fosse fácil, você não seria o buscador; e sua busca mesmo não consiste numa idéia que os próprios humanos criaram, a idéia de que há o Caminho?

Disse o Andarilho: sábias palavras meu caro Urso. Você me convenceu, e o que eu puder aprender com este homem que seja relevante para todos nós, eu trarei para esta assembléia da florestinha.

Todos os bichos fizeram seus sons característicos, numa grande barulheira, em sinal de alegria e ansiedade. Que se visitasse o Sábio Confúcio, então.

28º Capítulo - O encontro com Confúcio

O Andarilho e a bicharada se puseram em marcha para buscar Confúcio. Após alguns dias de viagem, chegaram perto da casa onde o sábio morava, em grande procissão.

Confúcio estava na entrada de casa, lendo, aproveitando o sol gostoso e fresco da tarde. Quando viu aquela montoeira se aproximando, pensou consigo mesmo: "hoje é dia!", e deu uma risadinha solitária. Depois de anos entre pedradas, maledicência, bajulações, agressões, projetos sabotados e incompreensão humana, aquela platéia lhe pareceu bastante simpática.

Para não causar sustos, o gracioso peregrino aproximou-se, à frente de todos, e se apresentando, fez as saudações necessárias:

- Mestre Confúcio, abençoada seja sua sabedoria. Sou o Andarilho do Céu, o famoso buscador do Dao. Ouvimos dizer que você é um conhecedor do Caminho, e que poderia nos ensinar algo sobre isso. Após um amplo debate, eu os sábios da floresta aqui presentes não chegamos a nenhuma conclusão, e pensamos que o senhor poderia nos ajudar. Poderia nos ensinar um pouco sobre seu modo de compreender a via?

Confúcio adorou a visita, e abriu-lhe um sorriso de um lado ao outro do rosto. Ele gostou da idéia, e pediu que todos sentassem. Serviu-lhes bolinhos com vinho, pediu que todos prestassem atenção, e começou sua dissertação.

29º Capítulo - O Caminho de Confúcio

Disse o Mestre, de modo bem gentil: em primeiro lugar, meu caro Andarilho, se eu não o conhecesse, diria que você é doido por falar com os bichos. Depois, que procurar o Caminho entre os bichos é uma perda de tempo, pois você é um homem - como você pretendia alcançar algo com seres que não são gente como você?

Os sábios da floresta não gostaram das palavras do mestre, e começaram a mostrar suas presas. Mas Confúcio, conhecido por sua sinceridade, continuou sem temor:

- Caros bichinhos, vocês são o que são. Algum de vocês já desejou ser homem, por acaso? Duvido que estejam insatisfeitos com vocês mesmos, e acredito, portanto, que a discussão sobre o Caminho cabe aos que o procuram. Na sabedoria da floresta, ninguém precisou pensar o que seria o seu Caminho, porque nunca precisou dele - vocês já estão nele...

Os bichos se acalmaram, sorriram, e compreenderam o que Confúcio queria dizer. O Andarilho também. Todos se entreolharam, balançaram cabeças e focinhos, e concordaram que deveriam se retirar, deixando o Andarilho a sós com Confúcio. Se despediram com lambidas, acenos de patinhas ou de outro jeito qualquer. O mestre estava feliz, pois estes haviam sido excelentes alunos, e compreenderam de imediato o que ele dizia.

Por fim, ficaram apenas Confúcio e o Andarilho. Então, este perguntou:

- Mestre, mas porque não basta ao ser humano ser ele mesmo para atingir o Caminho, como os outros animais?

- Por uma razão simples, meu querido; é de nossa natureza duvidar, pensar, analisar, conceber, ter uma criatividade que supera em muito nossas limitações. O ser humano é o único, de todos os animais, que desenvolveu a cultura, que o permite ir além das expectativas. Assim, ao vivermos nossa cultura, nos aproximamos e nos afastamos, ao mesmo tempo, de nossa verdadeira natureza, que é a construção do saber.

- Então mestre, o que é o Caminho?

- O Caminho é um conceito do homem.

- Mas como é este Caminho?

- Ah! Agora, você finalmente fez a pergunta correta: o nosso Caminho é o Estudo. Nosso Caminho é a Educação.

Quem pretende ser um bom governante, estude e eduque;

Quem quiser a redenção, estude e eduque;

Quem almeja a sabedoria, estude e eduque;

Pode-se governar o mundo estudando e educando as pessoas, mas não se pode nem mesmo organizar uma casa, sem o mínimo de conhecimento e experiência.

Quando se estuda, a ignorância se afasta, o mundo se revela, e perde-se o medo da morte e do erro.

Quando se atinge a sabedoria, se alcança o Caminho; pelo estudo compreendemos o que somos. Apenas comece a estudar, e no início você terá informações; depois, discernimento; após isso, profundidade; além, previdência; por fim, uma compreensão clara das coisas.

Lembre-se sempre:

学人 xue ren – estude o ser humano

做仁 zuo ren – faça o humanismo

儒教 ru jiao – o ensinamento dos estudiosos

天道 tien dao – [é] o caminho do céu

30º Capítulo - A grande conclusão

- Isso é tudo, meu caro Andarilho; se chegou até aqui, é porque estudou as coisas; se você compreendeu o que eu disse, vai chegar lá.

- Obrigado Mestre; acabei de chegar!

Ambos sorriram felizes.

Este é o Dao.

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