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Um Pós Confucionismo?

Um povo mostra o quanto é educado pela consciência de seu passado.

Enquanto tradição política dominante no país, o confucionismo é a alternativa óbvia.

Daniel Bell

Após quase um século de marxismo, a China retomou o estudo do confucionismo. Perseguida, humilhada e proibida, a doutrina confucionista sofre agressões atrozes numa época presente da história – no entanto, depois de 30 anos, após a morte de Maozedong, ela voltou a ser um dos temas fundamentais na pauta política e intelectual da China contemporânea. É possível, assim, falar de um pós-confucionismo? O próprio Confúcio disse, nesta frase consagrada que mostra o cerne de seu pensamento: “sábio é aquele que, por meio do antigo, descobre o novo”. A doutrina confucionista se transformou, desde seus inícios, num poderoso e influente sistema ético-social, cujas contribuições foram importantes para a arte de governar na China – e um bom exemplo é a própria durabilidade do império. Além disso, Confúcio propunha que o fundamento da preservação da cultura era a educação, o que propiciou o estabelecimento e a continuidade das tradições sem impedir, contudo, os progressos tecnológicos e intelectuais. Confúcio buscava, no passado, compreender as razões pelas quais a cultura (e nas suas práticas, a moral) se originava, se mantinha, se aplicava e por fim, se transformava. Na compreensão do passado, portanto, residia a compreensão das coisas.

Isso não impediu que o confucionismo engessasse em certas épocas da história. O que hoje mesmo chamamos de neoconfucionismo – como o de Zhuxi, seu grande expoente – representou uma renovação dos estudos e propostas confucionistas. Tal condição demonstra que, apesar de todos os esforços, atingir a sociedade de maneira completa e abrangente era uma tarefa complexa, difícil e permanente. A educação é um processo contínuo, que não deveria cessar, mas os interesses volúveis de certos governantes dificultavam, sempre, a manutenção deste princípio fundamental.

Assim, após as tormentas da revolução comunista, a China percebe e retoma, sem receios, as origens de sua cultura – e eles sabem, o grande zelador deste patrimônio foi Confúcio e a escola dos letrados, que por 2600 anos produziram a história e a antropologia desta civilização. Mais do que uma teoria política ou econômica, o confucionismo é um sistema de análise da vida, da formação dos seres humanos autônomos e conscientes, e o retorno deste doutrina como orientação fundamental do governo chinês era apenas uma questão de tempo, como bem afirmou Daniel Bell. As revoluções do século 20 tentaram destruí-lo e apagá-lo, o que se demonstrou tão equivocado e impossível quanto as perseguições de Qinshi Huangdi no séc. -3, ou das destruições patrimoniais provocadas pelos movimentos sociais da história chinesa. A ignorância pode atentar contra a sapiência, mas não pode submetê-la por muito tempo. A retomada do confucionismo vem ocupar o vazio ético e filosófico de um marxismo cansado, contraditório e cada vez mais distante do mundo. O Tratado do espírito da História diz: “Por estas razões, a história é moral, pois ela serve para ordenar a sociedade, recuperar os laços perdidos, restabelecer ou criar meios e condutas corretas.”. O resgate do confucionismo, pois, é o cumprimento destas proposições, e a reconstrução dos laços com o passado. Este confucionismo moderno, adaptado ao mundo contemporâneo, mas calcado nas tradições antigas é, se podemos considerá-lo assim, um pós-confucionismo, que incorpora as análises do neoconfucionismo e os desafios dos séculos 20 e 21 num novo e instigante movimento social e intelectual.


O grande fim da ciência não é outro senão o de procurar a inteligência perdida.

Mêncio

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