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A difícil Arte de Ensinar

Sócrates estava num daqueles dias – apesar da vã crença de que eles não existem para homens – e praguejava contra o calor ateniense. Era-lhe incompreensível que as pessoas não gostassem de um bom banho de mar, ou mesmo de tina; e Atenas fedia a óleo misturado com suor, sujeira e burrice. Para sua sorte ele não veria a morte por tifo, tempos depois, que levaria até mesmo o grande Péricles; a falta de higiene era horripilante, que fazia com que a acusação de “persas imundos” fosse quase uma ironia.

Esta gente peidava queijo, pão, azeite e peixe. O cheiro sumia-se no meio dos estrumes largados em meio à pólis democrática. A ágora, lugar de assembléia e votação, era o lugar perfeito para se fazerem merdas, e até os animais sabiam disso. Por isso, era difícil para Sócrates ensinar filosofia. Era mesmo difícil pensar em filosofia.

Um rapaz chamado Platão, seu puxa-saco de plantão, voltava de mais um dos seus passeios matinais pra encontrar com o mestre. Platão era uma pessoa peculiar; tentou ser lutador e apanhou, tentou ser poeta e foi vaiado, até que cismou que devia fazer filosofia, e foi bem sucedido. Ele era bom com lorotas; contava um monte de histórias que teria passado junto com seu mentor Sócrates, o que impressionava um bom público. Vendo de longe, ele pareceria um sofista, mas de perto, via-se que seu papo era todo sobre sonhos, imaginação, etc. Ele sonhava ser grande, mesmo que à custa do mestre, e estava desenvolvendo uma teoria para isso. Sócrates, coitado, não sabia.

Haviam marcado o encontro porque Platão queria que Sócrates humilhasse mais alguém naquela manhã. A coisa não era intencional: para Sócrates, ele havia sido convidado a instruir um politiqueiro rude sobre filosofia, o que lhe pareceu uma surpresa agradável; já Platão queria dar uma treta no velho, e se passar usando o mestre para destruir as ilusões dos outros (e criar algumas novas, quem sabe). De fato, Platão gostava de tirar essa onda com incautos, e saía dos debates todo vaidoso dizendo “viu?, viu?, meu profe!”.

Encontraram-se no mercado, que ficava perto do estrumódromo (vulgo, ágora) – mais uma piada sem sentido dos atenienses – e foram tomar um gole para esperar o dito político. Outros alunos já estavam por ali para ver o embate, além do público de curiosos que vai passando, parando e assistindo. Platão já foi chegando e dizendo:

- mestre, tudo bem? Como você está lindo hoje!

- para com isso Platão, não sou chegado.

- desculpe, só queria agradá-lo...

- então me paga um gelado, esse dia tá ígneo! (tradução: quente pacas)

Nisso foi chegando Gaidaros, o tal político interessado em filosofia. Platão o convenceu a ir, na verdade, com um argumento bem diferente do que Sócrates esperava; Gaidaros estava lá porque Platão o disse que ia ter muita gente, e que se trocasse umas palavras com o mestre, ia ficar famoso e ganhar votos. Ele foi, era seu trabalho, afinal.

- oi, você é Sócrates?

- sim, e você é Gaidaros, presumo?

Platão nem se mexeu, sabia que o legal era deixar rolar o pau. Depois que começasse, era só ficar debochando.

- ah, então já me conhece?

- não meu caro Gaidaros, usei a filosofia para descobri-lo.

- como assim? O Platão não avisou que eu vinha?

- sim, mas... poderia ser outra pessoa a perguntar por mim. Assim, supus que se perguntava por mim, era porque me procurava. E como já sabia que alguém – você – me procurava, pude constatar positivamente que você é Gaidaros.

- você é sempre assim ou é esse copo de vinho que te deixa transtornado?

- porque, você vê na sua frente um homem transtornado?

- desculpa, mas me parece sim. Ainda mais que é de manhã é já está entornando...

Sócrates pensou: “porra, mais essa do Platão. Preciso dar um jeito nesse moleque”. Mas como estava ali pra filosofar, e como gostava mesmo de uma discussão...

- então, você acredita em tudo que vê?

- ué, sim.

- então, se você não ver, não existe?

- pra mim, não.

Sócrates pensou: “ops, por essa não esperava. Terei que ir por outro lado!”.

- mas bem... veja o caso de seu pai. Você tem pai, eu suponho. Ele ainda enxerga?

- não mais.

- e o que ele enxerga deixou de existir?

- pra ele sim. Mas onde você quer chegar, velho bêbado?

- já pensou que, para seu pai, a coisa pode deixar de existir, mas para você não? E se é assim, você não pode confiar na visão?

- escuta aqui malandro: se teu pai era mentiroso, problema teu. Ta chamando o meu pai de velhaco?

Sócrates não esperava por essa.

- calma, estou dizendo que não podemos confiar nos sentidos... veja, o que para um é bom, para outro não é. Veja os sabores, por exemplo; às vezes, gostamos de uma comida que outro não gosta. Como dizer que um sabor é melhor que outro, então?

- o que tem isso com meu pai ser mentiroso?

- nada... só quero dizer que uma opinião não é A verdade.

- tipo a sua, agora?

- erm... entenda...

- Tá, vamos falar de gosto: você gosta de mulher ou de homem?

- como assim?

- viu, tá na dúvida; por isso que pra você uma opinião não vale nada. Se soubesse do que gosta, não tremia na resposta.

- existem ângulos nesta questão a serem examinados, oras.

- certo, falemos de comida, pois. Depois que comemos, tudo vira bosta. Se não comermos, não fazemos bosta, mas não vivemos. Isso significa que a vida depende da merda e vice-versa?

Sócrates estava aturdido. Platão enfiou o galho dentro e não sabia o que dizer. Ver seu mestre apanhando das palavras, assim, na rua, era feio. Já tinha muita gente rindo...


- você está falando de coisas diferentes.

Estávamos falando de visão, de opinião, e você misturou as coisas...

- claro, mas chamar o pai dos outros de mentiroso pode, né?

- não é isso... quero dizer que nem sempre o que nos dizem é verdade.

- nisso eu concordo. Partindo de você, tou começando a achar que isso é a mais pura verdade...

- mas assim não chegaremos ao verdadeiro conhecimento das coisas.

- que tudo vira bosta no fim?

- não, não é isso!

- hã, vai sonhando....
(nesse momento, os olhos de Platão brilharam!)

Continuou Gaidaros:

- no fim, a gente vira comida de bicho. Tudo vira lixo. Temos é que tirar proveito da vida, enquanto dura.

- ahá! Então, porque você acredita nos deuses, que te deram esta vida finita? Não gostaria de mudá-la, ou saber o que tem depois?

- faz diferença? Se for bom, que bom. Se for ruim, tou ferrado mesmo. Não tou é entendendo essa sua relação dos deuses com merda.

- estou dizendo que acreditamos em coisas que não vemos.

- porra, tu é maluco? Fala pra não acreditar no que vê, depois no que não vê. Está dizendo que minha crença é uma merda?

- espere...

- já entendi a sua: você vem aqui, junta estes bobos, fala difícil pra dizer que o que meu pai me ensinou sobre deuses é merda, e ainda se acha sabichão? Você é um babaca, isso sim! Mas você tá ferrado, vou te mostrar como as coisas funcionam...

Sócrates ficou chateado: “discutir com gente tosca é f... Que dia quente!”. Platão deu uma sumida. Tempos depois, cataram Sócrates na rua e o mandaram pra prisão. Na Grécia daqueles tempos pensar era bonito, mas nunca demais, senão dava morte. Melhor, no geral, era concordar com quem manda e fazer das suas escondido.

Sócrates acabou “suicidado” pelo povo moderno, democrático e pra frentex de Atenas. Platão disse que tava lá, que fez, aconteceu, mas no final viu o mestre morrer. Nada melhor pra ele do que ficar com a fama. Inventou um monte de histórias sobre Sócrates (só os diálogos na hora da morte são uns três), e sempre que a coisa apertava, dizia que a verdade estava “só tava tendo umas idéias, só tava pensando”, que vivia no mundo das idéias, e não aqui. Daí, ninguém esquentava.

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