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A Ampulheta Quebrada

Em tempos bons, a visão do passado fica pior: em tempos ruins, o passado é a âncora da saudade. Essa tese já era defendida por Sima Qian, e pelos outros historiadores chineses; a espiral do tempo segue seu curso, inexorável, e sobre ela se constroem os projetos do futuro.

Esses projetos trazem consigo a marca da história como uma experiência de fundo moral. Esta segunda visão chinesa é fundamental para entender as definições que guiarão uma proposta para o futuro; o modo como uma sociedade se enxerga e se entende são as linhas mestras para elas se autoavaliarem, e consequentemente, se reinventarem.

Mas as sociedades atuais sofrem de um paradoxo tremendo, talvez nunca antes encontrado na história: o problema da desconexão com o passado, uma ausência quase total de um senso histórico, de uma visão de construção de origem e ancestralidade.

A modernidade está com sua ampulheta quebrada, e não se preocupa com a continuidade do tempo: o imediatismo tornou-se a regra da atemporalidade que define o direcionamento do raciocínio humano. Como bem afirmou Zygmunt Bauman, vivemos uma modernidade líquida desobjetivada, em que as pessoas não se propõem serem algo, mas terem alguma coisa. Elas têm propósitos, mas são para agora: suas regras morais são diluídas, constituindo muito mais um recurso para atingirem objetivos do que, propriamente, um norte para o bom relacionamento humano.

Esse meu discurso pode parecer antigo, saudosista ou mesmo reacionário, mas sua proposta é constatável: nunca antes, na humanidade, a juventude “soube” mais do que os antigos. Um rapaz de 15 anos pode, hoje, saber muito mais de tecnologia do que um adulto. Contudo, ele não possui experiência de vida; mas essa relação se subverte na medida em que ele negocia o seu saber técnico com os mais velhos, buscando atingir vantagens morais e sociais a partir do seu conhecimento tecnológico.

Que se diga, esse saber técnica é superficial; os jovens dominam os meios, as técnicas, mas não compreendem os mecanismos pelos quais as coisas são produzidas ou desenvolvidas. O imediatismo de sua visão da realidade os faz supor que eles podem ter um mesmo status social dos adultos porque podem negociar o exercício de seus saberes, mas com isso, eles negam a propriedade do conhecimento histórico, eles negam o valor da história de como as coisas são feitas, criadas e imaginadas.

Com base nisso – e concordando, novamente, com o que Confúcio e os outros chineses já afirmavam – há uma fragmentação da moral, uma interrupção na evolução dos padrões. Não se trata de invocar um passado antigo como tábua de salvação; mas a negação do passado estabelece uma interrupção no fluxo, ela cria um desconhecimento das razões pelas quais a moral foi criada, suas leis, costumes, etc. Com isso, perdem-se as raízes e os fundamentos de uma cultura, e a sociedade se entrega a todo o tipo de expediente - sem uma medida de apropriado ou inapropriado – para realizar seus anseios materiais. Ainda: ela faz com que esses anseios sejam sempre presentes, rápidos, fulminantes, sem a mínima preocupação com as conseqüências: pois a inexistência do passado pressupõe, nesse raciocínio atemporal, a inexistência também do futuro.

Por outro lado, essa situação de perigo é sentida por grupos dentro da sociedade que entendem ser necessária uma preservação da moral, mas sem um conhecimento exato de seus modos de transformação. Com isso, grupos chamados de “radicais” (e às vezes o são) assumem a tarefa de defender os valores antigos, embora muitas vezes confundam o antigo com uma visão particular da realidade, que implica em preconceito, intolerância e fundamentalismo. No entanto, esses grupos se tornam atraentes na medida em que defendem valores que andam em “falta no mercado”: lealdade, associação mútua, propósito para o futuro, auxílio, solidariedade, altruísmo, etc. Por estas razões é que, não raro, pessoas que julgam a si mesmas como tendo tido uma vida “dissoluta” acabam embarcando em grupos religiosos ou intelectuais radicais, mas que propõe valores de vida “desconhecidos” pela juventude. De um extremo ao outro, elas oscilam, sem a justa medida tão necessária a tolerância e a harmonia.

Assim sendo, o desconhecimento da história implica numa fragmentação da moral. Não que a moral vá sumir; ela sempre se reconstrói, dentro de padrões que são próprios a história de uma sociedade. O problema, porém, é se essa transformação implicará num conflito violento, numa perda de conhecimento, numa quase destruição da sociedade até que se constate a necessidade de recuperar o antigo. Que se entenda: o antigo é a base de transformação do novo. O conhecimento aprendido (xue) é importante, mas é o oposto complementar da experiência de vida (zhi). Eles não se superam, se completam. Não há possibilidade de se ultrapassar a moral com a técnica, pois a moral depende da história e da experiência. As novas tecnologias podem influenciar o raciocínio moral, mas as bases sobre as quais ele opera são conceituais, e não materiais.

Quem cede à deslealdade, à hipocrisia, à mentira e à farsa para atingir seus objetivos está errado em qualquer época, ainda que possam aceitar que esse é um meio para alcançarem seus fins. No entanto, mesmo as pessoas hoje – como em qualquer época-, sabem que existem regras valiosas, que independem de tempo e espaço para serem tidas como corretas. Uma delas é: “não faça aos outros aquilo que não quer que seja feito com você”. É possível que alguns aceitem que, insistindo no erro, entendem se sujeitar a retaliação, mas mesmo eles sabem que estão errados. Não há, aqui, qualquer consideração sobre tecnologia; a moral se vincula ao tempo, mas não há tempo que seja amoral. Quando as crises chegam, sabe-se que elas estão ligadas a perda dos valores, e a necessidade de estabelecer leis e padrões que ponham o mundo em ordem, novamente.

Claro, os jovens têm ilusões – e como já fui jovem, tive as minhas também. Mas é preciso lembrar que as regras, a educação, a construção de uma moral sadia, isso não depende de idade, mas depende de sabedoria e de experiência. Disse Guanzi: “eduque as crianças para não punir os adultos”. Se couber a juventude a possibilidade do desatino, suas experiências de vida criarão para si mesmas o caos, largando-se ao sabor de uma visão indistinta de mundo, ou buscando refúgio em visões extremistas da realidade. Por outro lado, o abandono dos mais velhos sobre suas responsabilidades traz consigo a marca da desagregação, e a impossibilidade da continuidade. Se mesmo os mais velhos cedem ao imediatismo, ao desejo de serem “jovens novamente”, o que poderá ser da sociedade?

Ao leitor, pois, esse texto poderá parecer multifacetado: uma velharia sem propósito, uma cantilena reacionária, uma proposta frouxa de resgate de valores (para os radicais), uma busca de meio termo (que a meu ver, é inútil), enfim, que pareça tudo aquilo que quem lê entenda sobre ele. Esse texto, na verdade, é o espelho de quem lê, e do que se esse entende sobre si mesmo no mundo. No entanto, aqueles que buscam uma atitude reformadora diante da realidade, esses vão entender. Os que se cansaram dos “meios termos” que não satisfazem ninguém, ou das pequenas faltas toleráveis (“jeitinhos”), esses vão entender. Escrevi com o cuidado dos falsos, interesseiros, desleais e oportunistas saberem que as pessoas podem perceber seus erros, e sobre elas construírem suas opiniões; é o aviso para que tentem mudar algo em si mesmas, antes que sejam pegas no erro. Mais do que isso, porém: suas atitudes imediatistas e desastrosas não possibilitam o futuro. Assim também, os radicais poderão compreender onde quero chegar, e amainem suas idéias, sejam mais tolerantes: a corda muito esticada acaba sendo arrebentada.

Mas é uma época “interessante” essa nossa: sem atitude e uma causa, onde esperamos chegar? A ampulheta quebrou, a areia escorre e o tempo se perde, levando consigo a história e a humanidade.


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