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Os desafios de uma Tradição Histórica



[apresentado no XIV Seminário de História da FAFIPA, em Paranavaí em 27/10/2011]

Apresentação
Compreender a tradição histórica chinesa é um desafio para a mente ocidental. A China é a única civilização cuja produção historiográfica data – no mínimo – do século - 6 , quando o sábio Confúcio fez a primeira edição organizada de seis antigos clássicos chineses, dos quais dois – O Tratado dos Livros (Shujing) e as Primaveras e Outonos (Chunqiu, escrito pelo próprio Confúcio) – são obras de história.
Desde essa época, se delinearam, na mentalidade chinesa, dois aspectos conceituais fundamentais para a história:

- ela é construída a partir de fragmentos de memória, e mais do que afirmativa, ela seria propositiva; ou seja, ela ofereceria um modelo moral e ético para a posteridade, um retrato conscientemente escolhido e construído com as fontes possíveis;

- com isso, a história se transformava num meio de redenção moral e intelectual, um dos modos mais apropriados para o ensino da cultura e afirmação de valores sociais.

A compreensão da história como um elemento decisivo na articulação da cultura foi notado pelos chineses desde esses tempos antigos. Pensadores como Hanfeizi [-280 -233], interessados na formação de um regime totalitário, propunham a abolição do passado como condição indispensável para a criação de uma nova cultura e de uma ‘nova história’ – e em sua visão, era necessário destruir o antigo para inventar o moderno.
Contudo, Hanfeizi era uma exceção, cuja visão restrita era compartilhada por poucos adeptos. Já no século - 3, com a ascensão da dinastia Han [-206 até +220], a história foi alçada a condição de disciplina especial para o aperfeiçoamento humano e referência básica para a condução dos negócios políticos. Sima Qian [-145 -85], o maior historiador desse período, inaugurou um novo modelo histórico em que congregou biografias, cronologias e ensaios, definindo um padrão para os textos oficiais posteriores.

A absorção da produção histórica pela instituição imperial chinesa manifestou, por conseguinte, o desejo do Estado de controlar a cultura e a sociedade. Depois de Sima Qian, agências especiais serão organizadas pelas dinastias subseqüentes para redigir as Histórias Oficiais. Esses textos nasciam contaminados pelas ‘omissões necessárias’ que caracterizam tradicionalmente os documentos políticos; mas se por um lado elas deixavam de fora informações cruciais sobre a formação dos contextos ou das tensões intelectuais e sócias de uma época, por outro, elas ensejaram a construção de uma historiografia crítica que se preocupava, justamente, em fornecer visões alternativas aos discursos oficiais.

No texto ‘A tradição do anti-tradicionalismo na historiografia chinesa’, Richter (1987) aponta que a construção de uma crítica histórica atuante foi importante para manter o dinamismo teórico e metodológico da história chinesa. Para todos os escritos oficiais, um grande volume de obras contestatórias (por vezes perseguidas e reprimidas) surgiu e construiu o contraponto necessário para a reformulação contínua da disciplina. O resultado disso é que até 1911, contava-se mais de cem mil textos históricos (livros, capítulos, ensaios), o que caracteriza um fenômeno único na história mundial. (Vandermeersch, 1987, p.13).

Um fator decisivo para o enorme tamanho dessa produção foi a continuidade lingüística. O chinês clássico se manteve essencialmente o mesmo da antiguidade até o início do século +20, permitindo que as obras mais antigas fossem lidas de modo atual pelos estudiosos. Por analogia, seria como se o português tivesse sido inventado em Roma, e pudéssemos ler Cícero ou Tito Lívio no original, como Machado de Assis, sem traduzi-los ou ter de aprender outro idioma. Isso facilitava – e ainda facilita – incrivelmente o acesso aos textos mais antigos, permitindo sua re-atualização constante.

Tal continuidade impôs um peso enorme aos chineses no final do século +19. Submetida a dinastia Qing, que durou de 1644 a 1911, e cuja origem (manchu) era estrangeira, a China foi praticamente imobilizada em seus avanços intelectuais e científicos, e muitos historiadores se refugiaram num passado ideal, buscando em vão uma resposta para o contexto de crise. O final da época imperial significou uma profunda crise na historiografia tradicional chinesa. Aparentemente, a história não teria sido mais capaz de educar os chineses, de assegurar-lhes a continuidade cultural e protegê-los das invasões estrangeiras.

A saída encontrada foi procurar as teorias de origem ocidental, das quais o marxismo parecia a mais simpática e adequada ao caso chinês. As propostas de Marx encontravam ressonância em vários anseios chineses: o respeito internacional, o avanço tecnológico, a sociedade comunal e universal. Porém, dois pontos se destacavam nessa proposta: primeiro, a questão do materialismo histórico, que se aproximava da idéia de materialidade que os chineses possuíam em relação a sua própria história; segundo, alguns intelectuais chineses estavam convictos de que a dialética marxista era idêntica ao sistema yin-yang, mas que havia sido desenvolvido no contexto ocidental e industrial, o que permitiria sua fácil adaptação ao caso chinês.

O grande líder comunista Maozedong (ou Mao Tse-tung, numa grafia mais conhecida) foi um dos principais redatores dessa nova história chinesa comunista. No entanto, ele fez questão de fundir o marxismo às doutrinas tradicionais chinesas. Adepto de Hanfeizi, Mao tentou também abolir a história da China – ou ao menos, reescrevê-la – de um tal modo que o passado perdesse toda e qualquer significância em relação ao mundo contemporâneo comunista. Sua busca o levou a realizar a Revolução Cultural (1966 a 1973), na qual uma parte substancial do patrimônio histórico foi destruída, e depois (1973-74) a excêntrica campanha contra Lin Biao (seu ex-sucessor e depois, inimigo mortal) e...Confúcio! Em seu entendimento, o atraso da China se devia as reminiscências de uma cultura arcaica, que só sobrevivia graças às tradições arraigadas na sociedade e a historiografia confucionista antiga, cujos discursos provocavam a presença de um reincidente passado imperial.

Novamente, o projeto de acabar com a história fracassou, e a ascensão de Deng Xiaoping ao poder modificou novamente esse panorama. A figura de Confúcio começou a ser reabilitada, e em 1987 um congresso oficial sobre confucionismo foi organizado pela República Popular da China. Hermann (1991) identifica aí uma crise profunda na historiografia chinesa – antes radicalmente comunista, e agora tentando explicar esses movimentos intelectuais tão contraditórios da década de 80, que culminam com a crise de 89 e o incidente da Praça da Paz Celestial – e no entanto, terminam logo, uma década depois, com a consolidação de uma das economias mais poderosas e concorrenciais do planeta, mas que continuava a afirmar-se, paradoxalmente, como comunista.

Os desafios da história tradicional chinesa na China moderna
Uma coisa não mudou no imaginário chinês; que sua história os ensinou a ‘serem chineses’, e que ela os conecta com uma vasta tradição cultural que sustentou essa civilização durante milênios até os dias de hoje. Além disso, o sustentáculo dessa ‘sinidade’ – a história – não é uma doutrina religiosa, e nem clamou por qualquer tipo de vínculo do gênero. Ela é um discurso de continuidade, uma busca de sentido no ‘mundo da mutação’ (ou, material), que distingue o modo chinês de olhar as coisas em relação ao das outras culturas.
A durabilidade dessa visão é considerada uma prova substancial de sua eficácia como um meio de defesa e manutenção da cultura. Contudo, como não se atolar em versões arcaizantes de um moralismo antigo e inadequado para enfrentar as várias questões sociais e tecnológicas atuais?

Por outro lado, a admissão de que a história é um discurso construído fez com que os chineses fossem ‘pós-modernos’, de certa forma, desde a antiguidade. Na ausência de uma busca por ‘verdades unificantes’ na história, o debate amplo e a desconstrução foram condições fundamentais da própria imposição (ou não) de certas versões históricas. Então, o que se propor agora? O governo chinês manteve seu interesse em produzir histórias oficiais, do mesmo modo que já existe uma crítica atuante; o que esse panorama indica, pois? Quais versões historiográficas, e como, elas serão produzidas? Por fim, um terceiro fato é: como fazer dialogar o conceitual da história tradicional com o aparato teórico do comunismo maoísta?

Esses desafios se refletem na maneira como a própria sinologia ocidental enxerga os movimentos intelectuais chineses. (Will, 1994). Oscilando entre uma sinofobia reincidente e uma sinofilia inconsciente, os especialistas ocidentais desenvolveram uma dificuldade tremenda em lidar com essas reviravoltas da academia chinesa. Se até o início do século 20 a sinologia nutria-se de seus próprios expedientes, que se assentavam basicamente em um ‘olhar distanciado’ e eurocêntrico, o sucesso do comunismo chinês transformou-se em modelo para vários regimes espalhados pelo mundo, criando uma dicotomia quase insolúvel para se compreender o mundo chinês. Entre a repulsa ou a admiração a China, os estudiosos ocidentais projetavam sobre esse país seus esquemas conceituais e teóricos, sem encontrar soluções satisfatórias. No entanto, com a transformação gradual do regime a partir da década de 90, no qual se inclui a sobrevivência do comunismo e sua dissensão, uma confusão completa instalou-se na cabeça desses observadores: como tratar a história chinesa? São os eventos de agora um breve espaço no monólito dessa civilização? A historiografia tradicional chinesa é, de fato, uma ampla observação desses acontecimentos, ensinando a quem quiser como funciona realmente a mente chinesa?

Os diálogos entre a historiografia tradicional e o marxismo
Para compreender como funciona esse diálogo entre a tradição e a reinterpretação do marxismo chinês, vejamos alguns dos conceitos fundamentais que estão em discussão nas ‘novas’ propostas históricas da China.

a) A função da história;
Desde a época de Confúcio, a história é considerada um dos pilares da educação, sendo responsável pela manutenção das tradições culturais e pela exemplificação dos desafios humanos. A revolução socialista de Maozedong tentou destruir as estruturas culturais antigas presentes na historiografia, mas reconheceu a importância fundamental que a história tinha de operar as transformações necessárias na sociedade. Por conta disso, a cientifização marxista da história chinesa tratou de incorporar esse princípio interpretativo da história sob uma nova teoria, apresentando-a como um roteiro da luta de classes que permeou a humanidade ao longo de sua existência. O objetivo comunista era reeducar a sociedade, mas o confucionismo arraigado na cultura forçou, nos tempos de Deng Xiaoping, uma flexibilização do discurso estatal. Zhang Yanguo (1986, p.16), historiador importante do período, já admitia que ‘sem dúvida a historiografia deve estar a serviço da sociedade. Mas ela não pode ser separada de uma teoria histórica dotada de uma rigorosa significação científica’, implicando aí uma transferência do debate ideológico engajado acerca da história para a construção de um novo discurso que conjugue as necessidades da modernidade, sem perder um certo rigor teórico. A história, porém, continua a servir a sociedade, educando-a, o que formaliza o seu papel fundamental.

b) A questão dos ciclos dinásticos e da análise sistêmica;
Do mesmo modo, a história da China organizou-se nos chamados ciclos dinásticos, que formalizaram sua cronologia chinesa e estabeleceram sua periodização histórica. Os intelectuais chineses comunistas tentaram, de todos os modos, adequar a periodização marxista ao caso chinês, mas tiveram uma extrema dificuldade em fazê-lo. Para se ter um exemplo, um dos principais manuais históricos chineses, Um esboço da História da China de Bai Shouyi (1986), tentou congregar a transição do esquema marxista ‘escravismo-feudalismo-mercatilismo...’ com as dinastias chinesas, afirmando que a revolução comunista promoveu uma transição direta do ‘feudalismo escravagista’ (um termo absolutamente chinês) para o comunismo, superando as etapas históricas. Para além dessa construção pouco factível, a questão é que Bai não foi capaz de superar o esquema dinástico da cronologia chinesa, apresentando-o dentro das formas tradicionais. As obras mais recentes não apenas resgataram a cronologia tradicional como ainda, tentam – por meio da arqueologia – confirmá-la ou mesmo esticá-la cada vez mais em direção ao passado.

c) A ecologia cosmológica confucionista e a cibernética;
Confúcio defendia que vivíamos um sistema regido por leis naturais, as ‘leis do céu’, um céu entendido aí não como entidade pessoal, mas como um princípio operacional que hoje poderíamos denominar apropriadamente como ‘ecologia’. O objetivo da cultura era manter uma série concêntrica de estados de equilíbrio entre os indivíduos, a sociedade e essa natureza, evitando assim desastres naturais (que podem ser compreendidos como desastres ecológicos causados por fatores naturais, sociais e políticos). (Tucker, 1998). Assim, o ‘mandato do céu’, conceito que designava a função do soberano de promover esse estado de harmonia, não era essencialmente um conceito transcendente, mas uma interpretação formalizadora do papel do mesmo na administração da vida pública e sua relação com o meio ambiente.

Essa idéia converteu-se, principalmente no período imperial, durante a dinastia Qing (1644 +1911), num preceito esotérico, com ajuda significativa de um budismo interessado em manter-se junto ao poder. Com a proclamação da república, o conceito caiu em desuso e praticamente desapareceu, só sendo retomado como uma teoria interessante pelos ecologistas nas décadas de 80-90 do séc. 20. Contudo, em 1984, Liu Qinfeng, intelectual ligado a renovação histórica chinesa, propôs um novo modelo de ‘harmonia universal’ do sistema através de uma interpretação sociológica cibernética. Segundo ele, o estudo da história marxista chinesa mostrava, de fato, uma série de estados de equilíbrio (harmonia) manifestados no estabelecimento das dinastias, períodos caracterizados por uma relação estável entre as forças produtivas, a sociedade com o governo e com o meio ambiente. No entanto, essas épocas foram submetidas, inexoravelmente, a ação das ‘leis históricas’ de ascensão e declínio, cabendo ao estudo histórico evidenciar as causas de declínio e os possíveis modelos de ajuste para compreensão sistêmica das transições. As ‘leis históricas’, portanto, foram ‘ecologizadas’ na teoria de Liu, e a sociedade humana é um desdobramento da natureza. Embora Liu não tenho obtido um sucesso significativo como teórico da história, ainda assim seu trabalho chamou a atenção das autoridades ao problema da relação humana com a poluição, tratada agora na China como um problema social, político e econômico. É indubitável que o caráter do conceito de ‘harmonia’ transparece nesse ideal de ajuste social.

d) O problema da dialética;
Um dos motivos pelos quais os chineses ficaram vivamente interessados na dialética marxista era a sua forte impressão de que essa teoria era praticamente idêntica a teoria yin-yang de oposição complementar que caracteriza o pensamento chinês. Dominados pela concepção de que a tensão dos opostos enseja o equilíbrio, a atração e a repulsão, os intelectuais chineses entenderam que as descobertas dialéticas de Marx eram significativas porque ele ‘teria compreendido’ os modos pelos quais a natureza opera no contexto industrializado da Europa, dando-lhe as vantagens tecnológicas e sociais na modernidade que a China não possuía. O pensamento comunista tentou durante algum tempo abandonar essas tradições, mas elas resistiram e hoje estão presentes em diversos campos do conhecimento chinês, sendo a história um deles. De fato, a interpretação em curso tende a inverter os paradigmas: primeiro, colocou-se que os chineses teriam ‘aprendido’, mas sem saber exatamente como, as leis da dialética, atrasando-se num estado ‘pré-socialista’ de pensamento dialético. No entanto, a distensão do discurso comunista tem feito com que se retome a idéia original chinesa, ou seja, de que foram os chineses que criaram realmente as leis da dialética e que Marx, na verdade, teria compreendido-as estudando a civilização chinesa e suas estratégias de permanência.

e) O novo confucionismo;
Na incerteza sobre a continuidade do comunismo na China, alguns autores têm proposto a reformulação do sistema ético e político chinês a partir de uma retomada, justamente, da antiga doutrina confucionista. É o movimento do ‘Novo confucionismo’, liderado por Jiang Qing, que afirma que o marxismo é apenas um momento na história chinesa, e que em breve as teorias de Confúcio serão retomadas nos projetos educativos e políticos do estado, reconstruindo o cerne da ‘sinidade’ que manteve a China unida por séculos. Jiang defende que a análise da história – incluindo aí os propósitos de Mao de aproximar-se de Hanfeizi – permite-nos compreender, justamente pelo viés tradicional, o movimento das idéias chinesas. Mao, assim como a dinastia Qin, unificou a China por meio de revoluções, mas seus ‘reinados’ foram efêmeros por conta dos exageros ideológicos que levaram o país a crises econômicas e sociais. Nesse contexto, pois, a retomada do confucionismo é o ajuste, o ponto de equilíbrio que irá reconstituir a sociedade chinesa por meio de uma educação nacionalista e tradicional. A reabilitação de Confúcio na China contemporânea tem comprovado em parte sua tese, mas ele mesmo admite que o resgate completo de uma China confucionista só será feito de modo demorado, como ocorre, justamente, na visão da história tradicional. Não haverá volta do império, mas o governo comunista marcará um período, um ciclo – tal como foram as dinastias – cuja transformação política ensejará uma recolocação de sua civilização no quadro político e intelectual do mundo contemporâneo.

Conclusão
Por esses breves apontamentos, vemos que a tendência generalizada da atual historiografia chinesa é tentar sair de uma crise na qual a mesma se instalou por conta das ficções do socialismo marxista. Não houve a vitória do proletariado, nem o mundo converteu-se a revolução como Marx previra; contudo, o comunismo chinês mostrou-se um sistema eficaz de recuperação econômica, a partir do momento em que criou um modelo próprio, conjugando planificação e economia de mercado, principalmente depois de Deng. Como, portanto, justificar a existência de um regime cuja teoria central era futurista? Nesse ponto, a salvação para os chineses encontra-se na sua mentalidade histórica adaptativa, que justifica as transformações do comunismo chinês como sendo os ajustes necessários a sua sobrevivência. Posto diante de sua oposição complementar, o sistema chinês conseguiu adaptar-se e vencer seus desafios, lançando-se, porém, a reformulação de si mesmo.

A história chinesa acompanha esse movimento, e justifica então, fantasticamente, que o marxismo só deu certo porque, de certo modo, ‘sinizou-se’; que essa ‘sinização’ é identificada pela cultura tradicional, contada e discutida copiosamente pela historiografia pré-marxista; e que o marxismo, embora necessário atualmente para a manutenção de uma ordem pública, virá a ser superado, no futuro, pelo próprio passado! Tais afirmativas parecem incríveis, ainda mais quando lembramos que há 30 anos atrás, falar de Confúcio na China comunista era praticamente um crime. Hoje, porém, o instituto de línguas e cultura chinesa com mais de cem filiais espalhadas pelo mundo, e com patrocínio oficial do Estado, chama-se instituto Confúcio; do mesmo modo, o governo está promovendo uma grande obra de tradução de seus principais clássicos literários para divulgação no mundo.

Isso implica, portanto, que a escrita da história da China atual deve ser entendida como uma produção autóctone, com suas próprias fontes, teorias e métodos, lançando-nos então a constatação de que o ocidente está longe de deter o monopólio das teorias historiográficas. A China é um desafio em vários âmbitos da atualidade, e a história é uma delas; calcada numa tradição milenar, como encarar sua continuidade, suas transformações e sua originalidade, que se desenvolveram de modo alheio a nossa forma de fazer história? E se por um lado a experiência chinesa mostra que o estudo histórico é fundamental na formação social e cultural, a ponto de institucionalizá-lo como um dos pilares da sabedoria, quem se dispõe a entender o mundo chinês para além das superficiais e transitórias discussões de âmbito economicista? A China e sua história são questões fundamentais para a historiografia atual.

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