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O Intelectual Fofoqueiro


O Mestre disse. "Firmeza, resolução, simplicidade, silêncio - isso nos aproxima da humanidade". (Conversas)
No século -3, o imperador Qinshi Huangdi ordenou o enterramento dos intelectuais e queima de seus livros. Aproximadamente dois séculos depois, já na dinastia Han, o grande historiador Sima Qian foi condenado e castrado – uma das piores penas que existia na época, além da própria morte – por defender um oficial que havia caído em desgraça injustamente. Mesmo cientes da inocência tanto do oficial quanto de Sima, a maior parte dos intelectuais da corte se calou, receando se indispor com o mal humorado imperador Wudi – e de fato, até onde sabemos, os principais intrigantes eram funcionários reais, conscientes das questões em jogo, mas dispostos a obter alguma possível vantagem com a desgraça alheia.

A primeira vista, esses dois momentos são bastante diferentes. Num, há a condenação dos intelectuais; noutro, a condenação de apenas um, mas a realização de uma injustiça. À primeira vista, poderíamos supor que houve uma evolução – política, social ou cultural – dado que o número de vítimas diminuiu. O que me pergunto, porém – e invertendo totalmente o paradigma da questão – é se Qinshi Huangdi simplesmente não odiava os intelectuais por causa de suas críticas e intrigas, e resolveu dar cabo de todos de uma só vez, enquanto Wudi se servia deles para referendar seus desmandos. Se aceitarmos essa segunda visão, entenderemos que Qinshi foi um tirano intransigente, mas sincero, conquanto Wudi era um hipócrita, pois apesar da aparência, ele também não gostava de intelectuais – e principalmente, não poupava os bons. Visto assim, ambos odiavam os pensadores; e na época Han, os letrados já haviam aprendido a adular o poder e a viver dele, tirando o seu sustento da burocracia sem contestar criticamente o regime.

Tomei esses dois exemplos para tentar ilustrar um problema que é milenar na China, e absolutamente presente em nossa atualidade brasileira; a tensão entre o verdadeiro intelectual crítico e aquele que se torna um mero burocrata maledicente, cujo interesse é apenas o de participar dos ganhos que o sistema pode oferecer. Na civilização chinesa, que se orienta perenemente pela tensão yin-yang, a figura do intelectual sábio se construiu em cima daquele que mantém sua autonomia crítica, que se arrisca ao aconselhamento sincero, que preferentemente se afasta do poder e que possui um discernimento quase previdente sobre uma determinada questão. Se lermos as Conversas de Confúcio, veremos vários exemplos disso. Outras duas passagens famosas sobre isso são as de Zhuangzi e das Crônicas dos Estados Combatentes (Zhanguoce), como podemos ver a seguir:

Zhuangzi estava pescando no Rio Pu quando o Príncipe de Chu mandou que dois altos oficiais o fossem ver e disse - "Nosso príncipe deseja encarregá-lo da administração do Estado Chu". Zhuangzi continuou a pescar sem virar a cabeça e disse - "Ouvi dizer que em Chu há uma tartaruga sagrada que morreu quando tinha três mil anos de idade. O príncipe conserva essa tartaruga cuidadosamente fechada numa arca no templo de seus ancestrais. Ora, essa tartaruga preferiria antes estar morta e ter seus restos venerados, ou preferiria estar viva e abanando o rabo na lama?" - "Preferiria estar viva," replicaram os dois oficiais, "e abanando o rabo na lama" - "pois então saiam daqui", disse Zhuangzi, "também prefiro abanar minha cauda na lama". (Zhuangzi)

O Rei Xuan, de Qi, encontrou Yenzhuo na estrada. Mandou chamar o letrado e este disse: “Venha o rei ter comigo”. Os assistentes do rei ficaram muito ofendidos com sua insolência. “Como podes ser tão rude para com o rei?”, perguntaram os assistentes. —Não compreendeis — respondeu Yen. — Este é o meu modo de mostrar respeito pelo rei.
—Como?
— Se eu for ter com o rei, poderão pensar que quero pedir algum favor especial. Se o rei vier ter comigo, todos pensarão que nosso rei é um protetor dos letrados.
O rei ficou muito contrariado.
— Dize-me — falou ele a Yenzhuo. — Achas que um letrado é mais importante do que um rei?
— Acho — respondeu Yen.
— Explica-te.
— Posso fazê-lo. Quando Qin invadiu Qi, foi baixado um decreto para o exército dizendo que qualquer soldado que ousasse aproximar-se cinqüenta passos do túmulo de Liuxia seria sumariamente executado. Ao mesmo tempo, o decreto dizia: “Quem quer que trouxer a cabeça do rei de Qi será feito alto ministro e receberá mil yi de ouro”*. Assim, a cabeça de um rei vivo vale menos do que o túmulo de um letrado morto.
(O rei ofereceu-lhe um posto, mas Yenzhuo recusou.)
*aprox. 500 Kg. (Zhanguoce)

O contrário disso, porém, é o burocrata medíocre, o funcionário pedante e mesquinho que só pensa em dinheiro ou poder. Incapaz de articular qualquer pensamento que não se dirija a um proveito próprio e pessoal, para ele o espaço público é o degrau da ascensão social, e o meio pelo qual pode alcançar algum poder. A China tem convivido ao longo de milênios com a praga do burocrata corrupto, do parasita que se disfarça de pensador para envolver-se nas políticas públicas. Foi graças ao combate – em muitos momentos mortais – contra essa pária social que a civilização chinesa sobreviveu, embora seus piores momentos históricos se devam a ausência de uma educação cultural mais ampla e capaz de coibir os abusos. Mesmo o sistema de exames imperiais ajudava a debulhar a classe dos letrados, mas não tinha força suficiente para, sozinho, dar conta da doença da corrupção e da ignorância.

Originalmente, porém, o intelectual é alguém que se dedica ao estudo, e cujos compromissos com essa busca do saber o tornam um analista autêntico. Um intelectual não se exime de ajudar o governo, mas mantém sua independência de opinião e entende que o vínculo com o poder não pode, e nem deve, corromper seus princípios.
Zilu perguntou como servir a um príncipe. O Mestre disse: "Diz-lhe a verdade mesmo que ela o ofenda". (Conversas)
A questão, contudo, é que muitos governos não gostam de ser criticados. O exercício legítimo da democracia, que exige um equilíbrio delicado entre a denúncia necessária, a censura e o sensacionalismo é encontrado muito raramente no mundo. No caso da sociedade chinesa, muitas vezes o próprio povo se faz censor, apesar do governo reconhecer que as dificuldades advindas do crescimento (a velha e má corrupção) precisam ser combatidos para criar um crescimento saudável. O outro lado da moeda é que, em muitos casos, o intelectual ativo e crítico continua a ser reprimido, quando suas opiniões vão contra a linha ideológica do governo. Estranhamente, é essa figura audaciosa – e no entanto, coerente e profunda – que galvaniza a atenção mesmo da população mais simples, que reconhece nele a autoridade do saber (mesmo que ainda perigoso).

Essa breve análise do problema na China dá o contraponto que preciso para abordar a questão em nossa sociedade. Voltemos ao caso de Qinshi Huangdi e depois, de Wudi. Por analogia, poderíamos compreender que os tempos, no Brasil, em que vivemos regimes de exceção, são marcados por essa recusa em aceitar o papel do intelectual como alguém que se coloca de modo crítico em relação ao regime. Que se entenda: ele não precisa ser de oposição, ou de ‘esquerda’, para ser um intelectual; no entanto, se o seu compromisso com o regime vigente impede-o de exercer o seu papel crítico, mesmo nos piores momentos de crise, ou de constatar erros que possam ser catastróficos para a sociedade, ele deveria ser perguntar, pois, o que está fazendo de fato.

O Mestre disse: "Nos velhos tempos, as pessoas estudavam para se aperfeiçoar. Hoje, elas estudam para impressionar os outros". (Conversas)

Na visão pósconfucionista, o entendimento da palavra ‘letrado’ (ou, intelectual) é de que alguém cujos conhecimentos servem a sociedade, educando-a, corrigindo-a e formando-a de modo comprometido. Quando surgem problemas, é seu dever informar as autoridades, aconselhar na questão e trabalhar em soluções possíveis. Todavia, quando um regime não se presta a esse tipo de propósito, degenerando-se numa várzea de desmandos, o intelectual então vislumbra duas opções: se há a possibilidade de resistir e mudar o panorama, ele o denuncia e o contesta; mas se ele sente que mesmo o povo já se entregou ao erro, ele junta suas coisas e vai embora. Confúcio mesmo fez isso várias vezes, e resumiu essa situação numa única frase: ‘não adianta ensinar para quem não quer aprender’.

O que acontece, portanto, com nossos intelectuais? A instigante provocação de Adauto Novaes, em seu Silêncio dos Intelectuais, trouxe à luz que a intelectualidade brasileira tem muito pouco de crítica, e é muito mais burocrática e servil do que outra coisa qualquer. Tal como na China de Wudi, os intelectuais brasileiros, em sua maioria, aprenderam a trabalhar para o Estado, ao invés de criticar as mazelas sociais. É só vermos a imensa quantidade de escândalos de corrupção e imoralidade que a ‘esquerda’ provocou desde que assumiu o poder. Esses crimes existiam antes, é claro, e eram devidamente denunciados por uma laboriosa classe de pensadores – alguns dos quais, em tempos mais difíceis, puseram mesmo sua vida em risco. Nela eu poderia incluir professores universitários, pensadores autônomos, músicos, artistas, etc. No entanto, toda essa gente está calada agora.

E por quê? Como grande parte desses ‘intelectuais’ tornou-se parte do funcionalismo público, e/ou recebem ajuda e financiamento do governo para seus projetos, seu comprometimento com o poder estabelecido esvaziou quase completamente sua atuação crítica. O Estado incorporou os pensadores para que, em troca, eles se calem. E grande parte topou, mostrando que não eram legitimamente intelectuais, dentro da idéia que pretendemos propor aqui.

Instalados em suas confortáveis cadeiras universitárias ou culturais, hoje dedicam-se a uma incansável luta por verbas, bolsas e recursos cujo destinação é, em geral, algum tipo de projeto social sem sentido, mas que reforça alguma política pública já definida. A luta contra os erros do cotidiano foi abandonada, e hoje só se realiza a cooptação política com fins eleitoreiros. No entanto, é necessário manter uma aura de intelectualidade; e o exercício desse ‘intelectualismo’ se dá de um modo lastimável, mas distinto: o denuncismo vazio e a fofoca.

A todo tempo, esses ‘intelectuais’ denunciam e perseguem quem pensa contra eles, usando o sistema a seu favor (uma ironia, se lembrarmos que muitos desses pensadores construíram suas carreiras em nome de uma democracia a qual, pelo visto, eles mesmos não acreditavam) para reprimir as iniciativas individuais. Como fizeram com Sima Qian, eles não tem o mínimo interesse no que é juridicamente correto ou não, mas apenas em transformar o espaço público numa disputa de poder e de egos. Usualmente, criticam pensadores que vendem bem seus livros ou cuja produção é significativa – e insisto, quantidade não é qualidade, mas o cerne da questão é uma inveja reincidente com o sucesso alheio, e um recorrente desejo de reprimir aquilo que não tem compromisso com a ideologia do governo.

Por isso, eles mantêm uma imagem de denúncia social, mas absolutamente desprovida de profundidade ou seriedade. Lançam causas ou polêmicas e depois se retiram, deixando a outros o ônus da questão. Não desenvolvem nenhuma proposta séria ou aprofundada, a não ser que ligada diretamente as diretrizes de seu financiador, o Estado. Fazem, assim, fofoca da pior espécie. Acusam intelectuais autênticos dos piores crimes, quando necessário, destruindo a vida alheia com polêmicas inúteis as quais os acusados são obrigados a se defender, perdendo seu valioso tempo na ação intelectual verdadeira. Em regimes assim, não há condenação por calúnia ou difamação; o máximo que um intelectual consegue em nossos tempos é algum reconhecimento da falsidade das acusações, e até onde a mídia se dispõe a fazê-lo. Na verdade, é curioso pensar que nos dias de hoje grande parte dos crimes institucionais tem sido denunciado por jornalistas, mostrando a total complacência dos ‘intelectuais’ brasileiros com a corrupção estabelecida. Como afirmei no texto Uma sociedade dominada por fantasmas de ocasião, a nossa ‘intelectualidade’ trabalha apenas pra criar causas sem sentido que desviam a atenção das questões fundamentais ou mesmo, do modo como elas são (des)tratadas. O ‘intelectual brasileiro’ se encaminha, pois, a se tornar apenas um fofoqueiro ilustrado, sem conteúdo, superficial, covarde e cujo compromisso é apenas com seu mantenedor. Vivendo de intrigas, maledicência e causas superficiais, ele tem se afastado do contexto conturbado que vive nossa cultura, sem vislumbrar os problemas nacionais e internacionais que se desenham, num horizonte próximo, como vitais para a sobrevivência da sociedade. Alheio a tudo isso, ele tem terceirizado à justiça ou a iniciativa pessoal a correção dos erros do sistema, sendo cúmplice de seu descontrole.

Visto assim, não é difícil de entender porque nosso povo costuma desprezar os intelectuais, tendo pouca admiração por eles. Afinal, que intelectuais temos, de fato? Conquanto a vaidade e a subserviência da intelligentsia nacional forem as principais linhas ideológicas predominantes, não há crítica possível capaz de aconselhar sabiamente. Aqueles que trabalham de maneira honesta e dedicada continuarão a ser punidos, e a situação há de tornar-se insustentável.
O chefe da família Ji era mais rico que um rei, e, contudo, Ran Qiu continuava pressionando os camponeses para enriquecê-lo ainda mais. O Mestre disse: "Ele já não é meu discípulo. Tocai o tambor, meus pequenos, e atacai-o: tendes minha permissão". (Conversas)

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