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Vinte e Quatro Exemplos da Fraternidade Familiar


Introdução

Durante a dinastia Yuan, Guo Jujing (‘Yizi’), nativo de Fujian, escreveu seu famoso ‘vinte quatro exemplos de fraternidade familiar’ (ershisi xiaoshi). Guo era considerado um intelectual bem sucedido, de capacidades notáveis e bom poeta. Contudo, seus outros trabalhos foram praticamente esquecidos após a publicação do seu ‘Vinte e quatro...’. Guo vivia na época da dominação mongol, momento da história chinesa em que as discussões intelectuais e políticas não eram bem vistas. No entanto, Guo perdeu seu pai, a quem era extremamente devotado, e essa perda causou-lhe uma profunda comoção. Em homenagem a ele, Guo recolheu vinte quatro histórias de filhos dedicados na literatura clássica chinesa. Era um livro absolutamente emocional e intimista, mas que teve uma boa repercussão: primeiro, por ser a fraternidade familiar um dos conceitos mais valorizados das tradições chinesas, estabelecendo os deveres nas relações entre pais e filhos e, numa escala maior, em sociedade. No livro de Guo, são priorizados apenas os casos em que os filhos são absolutamente dedicados aos pais. Se nesse ponto seu livro se distancia um pouco do tratado clássico sobre o tema – o Xiaojing – por mostrar apenas a submissão filial aos pais, por outro, essa foi a segunda razão pela qual o livro foi bem recebido. Lembremos: a época Yuan não gostava de especulações que pudessem contestar o poder estabelecido, de origem mongol. O livro de Guo, inadvertidamente, foi entendido com um manifesto sobre a importância da devoção hierárquica aos pais (ou, superiores). Mesmo assim, a leitura do livro mostra que essa não era a preocupação de Guo. Ele simplesmente pensou em contar exemplos de dedicação filial, uma demonstração de afeto para com seus pais.

Obviamente, muitas histórias narradas são absolutamente fabulares, e se prestam mais ao exemplo em si do que por sua veracidade. Há que se perguntar, ainda, se essas histórias podem nos ensinar algo nos dias de hoje. A devoção de Guo nos mostra que ele deve ter tido excelentes pais, para dedicar-lhes um livro. Por outro lado, nessa modernidade líquida (como diz Baumann) em que pais e filhos se sentem desobrigados de qualquer afeto ou compromisso, é importante lembrar que o que caracteriza a relação da fraternidade familiar é o envolvimento, a educação e o carinho, e não somente a vivência hedonista do abandono. Embora pareça reacionário ou conservador, mas o uso da palavra ‘responsabilidade’ causa ojeriza nos dias de hoje. Mães que largam filhos, que os fazem pra ganhar pensão, maridos que querem ser eternamente jovens e irresponsáveis, tudo isso soa incômodo na atualidade, por que se convencionou dizer que a ‘vida educa’ e que as pessoas ‘tem que se virar’, tal como se fossem bichos largados numa floresta. Pois bem: até mesmo os bichos – a maioria deles – cuidam de suas crias até que elas possam ser independentes. O que é feito então de nossa racionalidade e inteligência? Não sei quais os limites da dedicação aos pais; e como somos ocidentais, a distância cultural (e temporal) talvez torne particularmente difícil alcançar certas morais propostas por Guo. Talvez muito do que se apresente no livro seja inviável ou inconcebível para nós – e mesmo, para Guo. Essas histórias constituem uma recolha de exemplos máximos, sobre os quais o próprio autor não pudesse ter certeza de sua autenticidade ou aplicabilidade – que se diga no caso das intercessões divinas que surgem no texto. Mas não se trata disso: o que há de especial nessas histórias é o ideal da devoção. Os modelos descritos mostram que não é difícil ser bom. Ser fraterno torna tudo mais fácil, e se reverte em bênçãos. Visto assim, devemos tomar cuidado em achar que o livro de Guo não é plausível: pensando bem, talvez ele revele, na verdade, a incapacidade de muitos em amar – e para quem não ama, realmente, qualquer devoção é impossível.

Quanto à tradução, optei nesse texto por fazer algo com o qual não estou acostumado. Cada história termina com um verso, que tentei adaptar para uma rima simples, guardando o máximo possível o sentido dos versos e suas palavras. Foi um exercício, espero que compreendam. Os versos originais se transformam em frases mornas ao serem vertidos para o português. Fiz então essa experiência, e me abro às críticas.

Mas enfim, todo livro é uma mensagem dentro de uma garrafa, jogada no mar da reflexão. Chega de moralismos e clichês. Que se aprecie, apenas, mais um texto clássico chinês.

Guo apresenta o seu livro com um verso sobre a morte de seus pais:

A árvore quer sossego
Mas o vento a incomoda
A criança quer seus pais
Mas eles já foram embora


O TEXTO

1ª História
Shun, o Grande, e como a Conduta Filial comoveu o Céu

O grande Yao era um imperador virtuoso e bondoso. Sob seu governo, as pessoas eram obedientes e harmoniosas. Elas olhavam para ele com veneração, como se fosse o seu próprio pai. Yao, no entanto, estava ficando velho, e chamou seus ministros civis e militares para o ajudarem a escolher um sucessor digno e sábio de governar o país. Os conselheiros disseram: ‘Existe, na montanha Li, um rapaz chamado Shun. Sua família não se dá bem com ele, mas ainda assim ele os trata com respeito e carinho. Seu pai, Gusou, é ríspido e rude. Sua madrasta é obtusa por natureza, e sempre que pode maltrata e abusa do filho. Xiang, seu meio-irmão, é arrogante e preguiçoso. Tem ciúmes dele e o mete em confusões. Apesar disso tudo, Shun não se magoa, se comporta como um filho devotado e um bom irmão. Quando seus familiares o repreendem ou batem nele, ele não guarda rancor ou revida. Simplesmente vai pros campos, onde ninguém possa incomodá-lo, grita consigo mesmo e se esgota de tanto trabalhar. Todo dia se encontra esse rapazinho arando os campos, capinando, plantando; seu pai e seu irmão nunca vêm ajudá-lo. No entanto, sabemos que a devoção de Shun comove o Céu. Vimos os elefantes descerem as montanhas para ajudá-lo, fazendo sulcos na terra; e na primavera, eles se alinham e o ajudam a arar todo o campo. No verão, os corvos e as pegas descem em bandos e arrancam as ervas - daninhas do campo. A Natureza, portanto, aprova sua atitude correta diante das dificuldades, como no caso dessa família cruel’.

Depois de ter ouvido sobre a conduta filial de Shun, o imperador Yao despachou seus nove filhos para ajudá-lo nas tarefas do campo. Determinou também que suas filhas, E Huang e Nu Ying deveriam casar-se com Shun. Durante anos o imperador o treinou e o testou, e quando se convenceu de suas capacidades, ele entregou o trono a Shun. Sob seu governo, o país prosperou. Por meio de sua virtude, todas as criaturas viveram em paz e harmonia. Esse é o resultado de uma atitude correta de devoção filial.

Um verso foi feito em honra a Shun:

Na primavera, elefantes o campo aravam
No verão, passarinhos as ervas limpavam
Após Yao, ele assumiu o Trono do Dragão
Pois a todos, ele tocou o fundo do coração


2ª História
Como o sábio imperador Han provou os remédios da mãe

Durante a Dinastia Han Anterior, após a morte de seu fundador, Liu Bang, o trono passou para seu filho, chamado ‘Liu, o constante’. Seu nome imperial foi Han Wendi, ou, ‘O sábio imperador de Han’. Como governante, ele foi exigente, mas amava as pessoas, e as estimulava a crescerem individualmente por meio da educação. Os negócios de Estado eram complexos e despendiam tempo; mesmo assim, ele encontrava tempo para cuidar de sua mãe com carinho e devoção filial. Ele não se descuidava nem negava nada no tratamento de sua mãe.

Uma vez sua mãe sofreu uma doença grave, e Han Wendi estava envolvido em vários assuntos do governo, mas deixou tudo n Mao de subalternos e imediatamente e foi cuidar dela. Ele continuou assim por três anos, nos quais ele esteve ao seu lado, incansável e constante. Aguardou dia e noite sua recuperação, nunca relaxou em sua vigília, nunca reclamou de tédio ou de dificuldades. Seu cuidado com a mãe era completo em todos os detalhes. Ele ficava ao lado dela sem nunca pestanejar, e muitas vezes esqueceu de trocar de roupa com receio de ser negligente ou descuidado. Quando seus servos preparavam qualquer remédio para a mãe do imperador, ele mesmo era o primeiro a provar a mistura, para sentir se não estava muito quente ou frio. Quando estava boa para beber, ele mesmo a servia na boca.

Muitos anos se passaram e o sábio imperador continuou a cuidar de sua mãe. Ele foi admirado por todas as pessoas. Além de grande imperador, foi considerado também um modelo de comportamento e devoção para com os pais. O povo se inspirou nele e o imitou, sendo virtuoso e cuidando melhor dos pais. O nome do sábio imperador Wendi atravessou os séculos até o presente para que as pessoas possam admirar sua conduta virtuosa e humanista.

Um verso em sua honra foi feito:

Filial e humano, Toda terra o aclamara
Grande imperador, cem reis governou
Por três anos, de sua mãe cuidara
E por ela, todos os remédios provou


3ª História
Como o coração de Zengshen sofreu quando sua mãe mordeu o dedo.

Durante a época das Primaveras e Outonos viveu um aluno de Confúcio, chamado Zengsheng, que se tornou conhecido por sua devoção filial. Seu pai morreu cedo. Ele respeitava muito sua mãe, e a obedecia. Todos os dias ia na montanha cortar lenha, enquanto sua mãe tecia panos para vender. Mãe e filho trabalhavam duro para ganhar o suficiente pra sobreviver.

Um dia, Zengshen foi cedo para as montanhas. Uma pessoa vinda de longe chegou na casa de Zeng naquela mesma manhã. Como a família era pobre, não havia nada para recebê-lo apropriadamente. E como Zeng fora de casa, a mãe não sabia o que fazer, esperando que ele voltasse logo da montanha.

Como Zeng não aparecia, sua mãe ficou preocupada. De tão nervosa, roeu as unhas e os dedos até sangrar. Zeng, na montanha, sentiu uma pontada doída no coração, e pressentiu ago de errado com sua mãe. Amarrou os gravetos que tinha recolhido e correu de volta pra casa.

Logo que chegou, se prostrou diante da mãe e perguntou se havia algum problema. Aliviada e feliz, ela disse: ‘chegou uma visita, e fiquei tão nervosa que mordi os dedos. Você é um filho dedicado, conhece os pensamentos de sua mãe à distância!’

Um verso foi feito em seu louvor:

A mãe mordeu o dedo em casa
E o coração do filho sentiu a dor
Cheio de lenha, voltou correndo pra casa
Quem já viu tão grande amor?


4ª História
Como Min Ziqian, vestido num casaco surrado, agüentou sua madrasta cruel

Min Ziqian, discípulo de Confúcio, foi o primeiro, entre todos, em termos de fraternidade familiar. Sua mãe morreu cedo, e seu pai casou com uma mulher que o maltratava constantemente. Como não era seu filho natural, ela o tratava de modo cruel e severo. Min Ziqian sofreu muitas vezes de fome, de frio e de solidão, mas sua madrasta só dava amor e atenção a seus dois filhos legítimos.

Quando começou a fazer frio, a madrasta fez casacos para seus dois filhos recheado de algodão quente. Para Min Ziqian, ela deu um casaco recheado de folhas de junco seco. Apesar dos casacos serem parecidos por fora, por dentro o casaco com folhas não esquentava nada. Ele não bloqueava o vento cortante, nem impedia de gelar os ossos. Era tão fino seu casaco que Min vivia tremendo de frio como um miserável.

Um dia, no meio do inverno gelado, o pai de Min pediu ao garoto que pegasse o cavalo e a carroça no estábulo, pois tinha negócios a resolver na cidade. O ar estava frio, o vento soprava forte, e o corpo do menino tremia todo. Seus pés e mãos congelavam, e seus dedos adormeceram, deixando cair às rédeas da carroça. Seu pai brigou com ele por ser tão desajeitado. Ele agarrou o menino pelo casaco, que rasgou e revelou o forro de folhas secas. Ao ver que aquele frágil casaco era o que protegia seu filho, o pai de Min compreendeu o tratamento cruel de sua esposa para com o menino. Ficou furioso com a injustiça, e foi acertar contas.
Chegando em casa, gritou com a esposa de todos os jeitos, e ordenou que ela fosse embora. Ela estava implorando de joelhos, quando Min também se ajoelhou ao lado dela e pediu ao pai: ‘pai, dê-lhe outra chance. Quando a mãe está aqui, só um filho sente frio. Se ela se for, serão três. Por favor pai, deixa ela ficar’.

A madrasta chorou copiosamente de tanta vergonha. Ela ficou tocada com atitude do menino. Após ser perdoada, ela se transformou numa pessoa inteiramente nova, tratando Min Ziqian com tanto amor quanto seus outros dois filhos.

Um verso foi feito em sua honra. Ele diz:

O Senhor Min tinha um filho virtuoso
Que da madrasta, carinho nunca recebeu
Implorou ao pai, por ela, choroso
E nenhum irmão, de vento ou frio, sofreu


5ª História
Sobre a saudade de Zilu pelos pais

Zilu, um dos mais famosos discípulos de Confúcio, nasceu na família Jung, durante a dinastia Zhou, e seu nome de batismo era You. Era um filho extremamente dedicado. Como sua família era pobre, ele ia até os campos procurar raízes e verduras para alimentá-los. Moravam num lugar paupérrimo, em que as pessoas disputavam forragem para se alimentar. Para que seus pais pudessem comer bem, ele teve que sair de lá em busca de um bom trabalho.

Antes de viajar, porém, toda manhã, durante uma semana, ele recolheu e juntou frutas, raízes e legumes e deixou mais uma semana de provisões para seus pais. Em sua viagem, atravessou lugares perigosos nos Estados vizinhos, em busca de trabalho. Viajou mais de cem quilômetros para comprar arroz para sua casa. Mesmo com um pesado saco de provisões, voltou correndo para casa, logo que pode, para ter tempo de cozinhar uma boa refeição para seus pais. Isso se repetia sempre que a comida acabava. Ele amarrava seus sapatos, punha um saco nas costas e saía em busca de comida nos mercados das cidades.

Enquanto seus pais foram vivos, Zilu não poupou esforços para agradá-los. Todos o consideravam m exemplo de fraternidade familiar.

Depois que seus pais morreram, o jovem Zilu abandonou sua antiga casa e foi para Chu. O rei de Chu ficou impressionado com ele, e lhe ofereceu um cargo público. Zilu aceitou e logo enriqueceu, graças a sua competência nos negócios e liderança em assuntos públicos. Quando cavalgava, uma enorme comitiva o acompanhava por todos os lados. Seus tesouros incluíam terras, grãos, sedas, livros e prata. Sempre vestia peles finas, e cobertores de lã e de pelo animal forravam seu quarto. Sua mesa de jantar sempre tinha as comidas mais requintadas e caras.

Apesar de todo esse conforto, Zilu não esquecia nunca de seus tempos de juventude, quando vivia com os pais. Ele suspirava e dizia: ‘toda essa riqueza é triste e sem sabor. Como eu queria voltar aos velhos tempos, comendo ervas e arroz que eu mesmo carreguei com meus pais! Como eu era feliz naqueles dias! Agora que meus pais se foram, já não posso mais cumprir meu dever filial’.

Um verso em sua honra diz:

Um saco de arroz, pros pais sempre levava
Nunca pensou na fadiga que o cansara
Toda riqueza, sem os pais, lhe dizia nada
Só lembrava a alegria que com eles passara


6ª História
Como Dong Yong virou servo para pagar o funeral de seu pai

Dong Yong viveu durante a dinastia Han. Sua mãe faleceu muito jovem, e ele era obrigado a ajudar o sustento do pai doente. Como era lavrador, ganhava muito pouco, o que só dava para os remédios. Como seu pai era inválido, Dong tinha que levá-lo num carrinho de rodas e deixá-lo debaixo de uma árvore perto de onde ia trabalhar. Durantes anos foi assim que ele manteve seu emprego e ajudou a cuidar de seu pai. Até que o pai de Dong morreu, e como ele tinha gasto tudo com cuidados médicos, não tinha dinheiro para pagar o funeral. A única coisa que ele poderia fazer para juntar o dinheiro era vender-se como escravo durante algum tempo para poder pagar o caixão e as demais despesas.

Após conseguir um caixão, ele foi então para a casa de seu novo amo. No meio do caminho, conheceu uma menina muito bonita. Ela contou-lhe que também havia perdido os pais, e que não encontrara seus parentes que moravam perto dali. Pediu que Dong a ajudasse, pois não conhecia o lugar e tinha medo.
Dong e ela se gostaram a primeira vista, e pediram ao céu e a terra que os abençoasse. Contudo, Dong tinha que pagar seus débitos, e ela decidiu acompanhá-lo.

Chegaram então à casa do tecelão ao qual Dong tinha se vendido, um homem duro e miserável. Ele exigiu trezentas peças de tecido para resgatar sua liberdade. Dong não tinha medo de trabalho duro, mas viu que se juntasse forças com sua companheira poderiam dar cabo do serviço em três anos. Para sua surpresa, porém, conseguiram fazer tudo em um mês! O mestre de Dong ficou surpreso com o jovem casal, e concedeu-lhe o termo de liberdade.

Quando saiu feliz da casa do ex-amo, levou sua esposa até o lugar em que se conheceram. Lá, algo estranho ocorreu: ela começou a brilhar, e de seu rosto saíam lágrimas. Dong não entendeu o que ocorria e disse: ‘agora estamos livres, fique feliz!’, ao que ela respondeu: ‘sou uma imortal do Céu, que se compadeceu de você. Por isso vim ajudá-lo. Agora que está livre, devo voltar para casa. Cuide-se.’

Dong ficou arrasado, e não podia fazer nada, vendo-a lentamente subir ao Céu.

Um verso foi feito, e diz:

O funeral do pai foi sua escravidão
Mas a imortal o achou no caminho
Eles teceram sua libertação
O céu foi tocado por seu carinho


7ª história
De como o jovem mestre Tan trazia leite de cervo para os seus pais em dificuldades

Durante a época das Primaveras e Outonos, havia um filho muito dedicado na família Tan, cujo nome não foi salvo. As pessoas simplesmente o chamavam de ‘jovem mestre Tan’, ou ‘Tanzi’. Quando ele era muito jovem, seus pais tiveram uma doença nos olhos, e o médico disse-lhe que tal doença só podia ser curada com leite de cervo. Como a família era muito pobre e o leite de cervo era raro, o rapaz ficou preocupado de não poder ajudar seus pais a se curarem. Então, começou pensar em alguma solução. Foi andar no meio das montanhas, e depois chegou até um prado onde havia uma manada de cervos pastando. Ficou pacientemente observando-os, vendo os filhotinhos brincarem, correrem e depois mamarem em suas mães.

Então Tanzi pensou: ‘é isso! Vou pegar o leite que preciso!’ No dia seguinte, voltou disfarçado com a pele de um cervo, de balde na mão. Quando viu os jovens cervos correrem, também correu; quando eles se esfregavam, ele também roçou neles; e quando chegou a hora de mamar, ele foi até a mãe e a ordenhou, sem beber um pingo de leite.

Quando terminou o dia, Tanzi voltou com todo cuidado da montanha, carregando um balde de leite, e contente com seu plano. Seus pais ficaram felizes dele ter conseguido, e o elogiaram por sua inteligência e perspicácia. Tanzi voltou no outro dia na montanha, brincou com os cervinhos o dia todo até chegar a hora de mamar, e voltou pra casa com outro balde cheio de leite. Ele continuou com isso por semanas, e seus pais recuperaram a visão, graças ao sacrifício de seu filho.

Um dia, Tanzi foi brincar com os cervinhos, mas o chefe da manada baliu alguma coisa e todos os cervos sumiram no meio das árvores. Tanzi ficou sozinho no meio da clareira, e a manada não aparecia com medo. Olhando ao seu redor, ele percebeu um terrível caçador de arco na mão pronto para abatê-lo. Flechas começaram a zunir no seu ouvido, e ele foi obrigado a se levantar, jogar a capa fora e gritar: ‘ei, pare com isso! Sou uma pessoa, não um cervo!’ o caçador ficou assustado: ‘moleque, o que você está fazendo aqui? Quase te matei. Porque você está vestido assim?’

Tanzi respondeu: ‘meus pais estão doentes, e precisam de leite de cervo para beber. Só isso pode recuperar a saúde deles. Por isso me disfarcei para ordenhar um cervo’. O caçador ficou impressionado e disse, baixinho: ‘você certamente é uma criança rara para se meter em tantos problemas por causa dos seus pais. Mas isso é perigoso! Mais um pouco e eu teria te acertado. Tome mais cuidado na próxima vez!’ E assim, o caçador o levou em segurança para casa e para seus pais.

Um verso em sua honra foi feito:

De leite seus pais precisavam
Para os olhos curar
E o rapaz se vestiu de cervo
Para um cervo, ordenhar

Se não grita em voz alta:
‘Ei, você vai me matar!’
O caçador não ia saber
No que estava a atirar!


8ª História
Como Jiang Ge trabalhou por sua mãe

Durante a dinastia Han posterior, um menino chamado Jiang Ge sustentava sua mãe viúva. Seu pai morrera alguns anos antes, mas mãe e filho se entendiam bem. Perto de onde moravam, quadrilhas de bandidos rondavam os campos, e Jiang resolveu se mudar com sua mãe para um lugar mais seguro. Como não tinha carroça ou cavalo, o rapaz simplesmente levou sua mãe nas costas pela estrada, fugindo dos bandidos. Tão logo escapou de um bando de malfeitores, deu de cara com outro. Os chefes queriam que ele entrasse pro grupo, mas Jiang implorou por clemência, chorando: ‘se eu for com vocês minha velha mãe vai morrer de fome. Ela precisa de mim para cuidar dela. Deixem-nos ir em paz’.

Comovidos, os bandidos liberaram-no. Finalmente ele conseguiu chegar com sua mãe em Xiabi, na província de Jiangsu. Eles haviam gasto todo o seu dinheiro, e suas roupas estavam esfarrapas a ponto de não poderem mais ser consertadas. Eles não tinham quem pudesse ajudá-los em Jiangsu, e só conseguiram se acomodar num gramado onde já moravam muitos refugiados de uma guerra civil que estourara no norte.

Jiang saía toda manhã para ver se conseguia fazer algum biscate. Qualquer dinheirinho que conseguia ele usava para cuidar de sua mãe, como sempre fizera desde a morte do pai. Jiang andava maltrapilho e descalço, coberto de folhas verdes e palha de arroz, mas a roupa e a comida que conseguia para sua mãe era a melhor possível. Ele nunca se descuidava com ela. Seus vizinhos repararam em sua dedicação e o elogiaram, mas lhe pediram também que relaxasse um pouco, com receio de que ele se extenuasse. Jiang apenas sorria e dizia: ‘o dever de um filho é cuidar dos pais’.

Finalmente ele encontrou um trabalho fixo, cujo salário poderia dar uma vida confortável para sua mãe. A paz havia retornado ao país, e sua mãe queria retornar para a terra natal. Como o retorno seria muito cansativo para ela, e os cavalos custavam caro, Jiang preparou uma carroça especial, especialmente confortável, no qual a acomodou. Ele puxou a carroça por todo caminho de volta. As pessoas ao longo do caminho elogiavam aquela devoção toda, e consideravam um modelo de dedicação filial.

Um verso em seu louvor diz:

Com a mãe nas costas,
Fugiu daquela terra
Os bandidos o pegaram
Quase ele já era!

Sua devoção os comoveu
Suas vidas, ele salvou
Trabalho duro não negava
E da mãe sempre cuidou


9ª História
Como Luji roubava laranjas para sua mãe

No período dos Han posteriores, um menino de apenas seis anos demonstrou uma profunda devoção por sua mãe. Foi assim:

Ele viajava com seu pai para visitar o ministro de Nanyang, chamado Yuanshu. O velho Yuan olhou o menino e percebeu sua precocidade. Pediu ao serviçal um prato com laranjas para oferecer a Luji. O menino viu aquelas frutas deliciosas e comeu duas. Mas, quando ninguém estava olhando, escondeu três laranjas dentro de sua roupa. Quando chegou a hora de ir embora, seu pai se despedia do ministro e Luji levantou as mãos para acenar, mas as laranjas caíram da roupa.

Yuan viu as laranjas e riu: ‘ei garoto, você é meu convidado e veio me roubar, é?’ Luji respondeu: ‘Por favor, senhor, me perdoe. Minha mãe gosta de laranjas, mais do que qualquer outra fruta. Nos não temos dinheiro para comprar, então eu peguei essas laranjas pra dar pra ela’.

O velho ministro ficou impressionado com aquele garotinho de apenas seis anos de idade, que já se preocupava com a felicidade de sua mãe. Mandou seu serviçal preparar um cesto de frutas, que deu para Luji e sua família.

Um versinho diz:

Com um menino de seis anos
Apenas o Céu sabe a verdade
Roubou três laranjas pra mãe
E foi recompensado com bondade


10ª História
Como a Senhora Tang nunca deixou sua avó passar fome.

Na dinastia Tan, um funcionário chamado Cui Nanshan tinha na família a grande dama Zhang Sun, sua bisavó. Ele contava a seguinte história: quando Zhang Sun já era bem idosa, perdeu todos os dentes e não conseguia nem mais comer arroz cozido. Para ela, se alimentar era um problema difícil. Avó Cui, a Senhora de Tang, vendo a dificuldade da sogra em mastigar, pensou numa solução para que ela pudesse se alimentar bem e vivesse com saúde. A Senhora Tang acordava todo dia de manhã, se lavava, se arrumava, e ia até o quarto de sua sogra para alimentá-la com seu próprio leite. Ela a amamentava todos os dias, e como a bisavó Zhang podia sugar sem problemas, o leite serviu-lhe como excelente alimento. Assim, ela ficou forte e saudável durante anos.

Um dia, finalmente, ela ficou novamente doente e viu que seus dias estavam contados. Reuniu então toda a família, e lhes disse: ‘todos esses anos fui cuidada pela minha nora. Ela foi gentil, e sou profundamente grata a ela. Só espero que as esposas de meus filhos e netos sejam tão devotadas quanto ela foi’.

Quando a família ouviu isso, ficou profundamente impressionada. Suas palavras foram gravadas como um lema da família, e transmitidos para várias gerações da família Cui.

Um verso em sua honra foi feito:

Todo dia de manhã, asseada
Dava seu leite pra sogra tomar
Que a bondade da Dama Tang
Sua família possa perpetuar


11ª História
Wumeng atrai os mosquitos para beberem seu sangue

Na dinastia Jin, um garoto de oito anos chamado Wumeng serviu seus pais devotadamente. Sua família era muito pobre, e não podia comprar um mosquiteiro. Nas noites quentes de verão, os mosquitos faziam nuvens em torno de sua cabeça. O menininho tirava a camisa e deixava que os mosquitos o picassem impiedosamente, sugando o quanto quisessem do seu sangue.

Wumeng fazia isso para não acordar seus pais. Se ele espantasse os mosquitos, eles poderiam voar sobre eles, incomodando-os. Para impedir então que seus pais fossem acordados, Wumeng fazia esse sacrifício, e todo o dia ele esperava que eles se levantassem naturalmente para pôr a camisa sobre seu corpinho inchado. Numa manhã, porém, ele estava tão cansado e machucado que adormeceu, e se esqueceu de colocar a camisa. Seu pai levantou, viu o filho dormindo, e olhou para suas costas cobertas de mordidas e de sangue. Naquele momento, ele compreendeu o sacrifício de Wumeng, e acordou a esposa. Contou-lhe a história, e ambos choraram tanto que chamaram a atenção dos vizinhos. Esses vieram ver o que estava acontecendo, e souberam do sacrifício de Wumeng.

Todos reconheceram o sacrifício notável de Wumeng, principalmente porque ele só tinha de oito anos. Sua devoção pelos pais ficou tão conhecida que chegou aos ouvidos do magistrado local. Este enviou uma carta ao trono do dragão, informando o imperador da história. O imperador ficou tão tocado que convidou Wumeng para estudar na escola imperial. Também deu mosquiteiros para seus pais, e uma pensão vitalícia, de modo que eles nunca mais passaram necessidades pelo resto de suas vidas.

Um verso em sua honra foi feito:

Milhões de mosquitos incomodavam
O sono de seus pais, no verão
‘Venham beber meu sangue’, disse Wu,
‘meus pais vocês não acordarão!’


12ª História
Como Wang Xiang pescava carpas, deitado no gelo, para sua madrasta

Durante a dinastia Jin, um garoto chamado Wang Xiang (‘Wang sortudo’) perdeu sua mãe doente. Seu pai casou com outra mulher, para que seu filho tivesse as atenções maternas. No entanto, sua madrasta era mal humorada e malvada; pegou antipatia por Wang rapidamente, e muitas vezes brigava com ele na frente do pai. Fez isso tantas vezes que o pai de Wang começou também a ficar contra o menino. Apesar de tudo isso, Wang continuou servindo seus pais respeitosamente.

Até que um inverno muito frio chegou, e a neve caiu durante muitos dias. Havia gelo em todo lugar, e o riacho também congelou. A família foi obrigada a se refugiar em casa, junto com os animais. A grama estava toda coberta de branco. A madrasta de Wang ficou doente com o frio. Ela precisava de um médico, e começou a delirar que comia carpas. Pedia carpas para se alimentar, achando que isso poderia curá-la. Como nevava muito, e tudo estava congelado, ninguém sabia onde se poderia arrumar peixe fresco. Wang sortudo era um filho obediente, mas não suportava ver seus pais tristes.

Ele saiu no frio e foi até o riacho ver o que podia fazer. A neve estava densa, e o menino tremia todo. Ele buscava um lugar em que o riacho pudesse não ter congelado, mas foi em vão. Cansado e triste, começou a chorar. Ele lamentava que não conseguiria peixe para seus pais. Então, lhe veio uma idéia na cabeça: tirou a camisa e deitou no gelo. Chorou e berrou muito, para que suas lágrimas e seu corpo esquentassem sobre o gelo, até abrir uma pocinha. Duas carpas congeladas saíram pelo buraco da pocinha direto nas mãos de Wang. Ele ficou surpreso e encantado, e correu para casa com os peixes para sua madrasta doente.

Vendo aqueles dois peixes frescos na sua frente, a madrasta de Wang ficou profundamente envergonhada de sua conduta. Depois disso, ela se curou e mudou sua atitude com o enteado. Tornou-se uma pessoa atenciosa e gentil, tal como uma mãe deve ser.

Dizem que foi a devoção fraternal de Wang que o ajudou a ter tamanha sorte. Sua nobreza de caráter foi capaz de mudar as outras pessoas.

Um verso em sua honra diz:

Madrastas abundam na terra
Mas um Wang, onde achamos?
Quando o riacho congela
É seu sacrifício que lembramos


13ª História

Como Guoju enterrou o filho para salvar a mãe

Guoju viveu durante a dinastia Han. Ele morava com sua mãe idosa, a esposa e um filhinho de três anos. A família era extremamente pobre, e ele tinha muitas dificuldades para mantê-los. Raramente havia comida para todos. A avó adorava seu neto, e muitas vezes usou sua porção para alimentá-lo. Não era raro que passassem fome, mas mesmo assim a avó continuou com esse hábito. A medida que o menino crescia, sua saúde se debilitava, e um dia ela ficou doente.

Guoju não tinha como pagar por remédios ou uma boa comida para sua mãe. Abalado, ele discutiu a situação com sua esposa: ‘Somos maus filhos. Não pudemos alimentar bem nossa mãe, e agora ela está doente. O que vamos fazer?’ Sua esposa também não sabia o que fazer. Guoju mal dormiu a noite, com o coração agitado e perturbado.

Desesperado, ele pensou que a única maneira de resolver o problema era servir de modo leal a sua mãe, como mandam as regras filiais. Tomou a decisão desesperada de enterrar o filho para poder alimentar a mãe. ‘Talvez possamos ter mais filhos no futuro’, disse para a esposa consternada. ‘Nossa mãe merece nossos cuidados, você não concorda?’

A esposa de Guoju amava seu filho, mas era também uma filha dedicada. Apesar de todo choro e tristeza, ela concordou, de coração partido, que a única solução para o problema era essa.

Pegaram a pá e foram levando o bebê para o quintal. Guoju começou a cavar um buraco na terra, e mal havia escavado três palmos de terra, TUM! – a pá tinha batido em algo sólido. Ele cavou com mais cuidado, e desenterrou um baú de metal pesado. Abriu a tampa e constatou, surpreendido, uma pilha de lingotes de ouro e prata, no valor de um resgate real. ‘Olhe isso!’, disse Guoju: em cima do baú, havia uma inscrição onde se lia ‘Um presente para o filho devotado Guoju’.

O casal levou a fortuna até o magistrado local, mas devido a inscrição e as estranhas circunstâncias em que o baú foi achado, o funcionário determinou que eles ficassem com o dinheiro. Guoju prontamente correu atrás de um médico, comprou remédios para sua mãe e conseguiu salvar o filho. A família sempre teve o suficiente para as necessidades de sua vida simples, e desde então agradecia ao Céu as bênçãos fraternas que havia recebido.

Um verso em sua honra diz:

Guoju, pra salvar a mãe
Ia ter a criança enterrada
Os deuses pagaram em ouro
Por essa casa abençoada


14ª História
Yang Xiang luta com um tigre pra salvar seu pai

Na dinastia Jin, um garoto de quatorze anos chamado Xiang Yang seguia seu pai no trabalho todas as manhãs. Certo diz, quando iam para um campo de arroz, um enorme tigre surgiu do nada e abocanhou o pai de Yang Xiang. Ele gritava desesperadamente ‘salve-me, salve-me!’, e o menino olhava sem saber o que fazer. Vendo que o tigre o levava embora, o menino não pensou em mais nada, e se atirou em cima do felino. Pulou em suas costas e agarrou firmemente sua garganta, estrangulando-o. O tigre sentiu-se sufocado, e teve que abandonar o homem para poder respirar. Assustado com a ferocidade do ataque, a fera sacudiu Xiang das costas, colocou o rabo entre as pernas e resolveu sair dali correndo, salvando sua vida.

Salvo da morte por Yang Xiang, seu pai estava embasbacado, mas ileso. O rapaz viu o tigre desaparecer na floresta, e então levou seu pai de volta pra casa para se recuperar. Quando a notícia do incidente chegou aos vizinhos, eles elogiaram bastante o menino, chamando-o de filho-herói.

Um verso em seu louvor diz:

Contra ferozes garras brancas
O menino se enroscou
Na boca da fera, seu pai já estava
E a pancadas, dela o tirou


15ª História
Como Zhu Shoucheng recusou um alto posto para procurar a mãe.

Na dinastia Song, havia um homem chamado Zhu Shoucheng que foi separado sua mãe aos sete anos de idade. Ela fora concubina, e a esposa oficial de seu pai tinha muitos ciúmes dela. Decidida a prejudicá-la, a esposa oficial convenceu o pai de Shoucheng que o menino deveria morar com eles, e não com a mãe verdadeira. Com sete anos, então, ele foi morar na casa do pai.

Zhu Shousheng cresceu e serviu ao imperador Shenzong como oficial. Um dia ele sentiu, de repente, um impulso irresistível de encontrar sua verdadeira mãe. Ele queria saber de sua saúde, queria cuidar dela como filho. Tanto pensou nisso que acabou largando seu posto, e foi atrás dela. Enfrentou chuvas e vendavais, viajou a ermos longínquos atrás dela. Perguntava, buscava, mas não a achava. Sem perder a esperança, porém, continuava sua busca.

Finalmente, encontrou um homem que sabia do paradeiro de sua mãe. Disse-lhe que ela morava em as margens do rio em Tongzhou, na província de Shanxi. Encantado com a notícia, ele foi correndo para lá. Mas cansado e afoito de suas peregrinações, tanto ele andou que em certo momento caiu desmaiado na estrada, fatigado. Uma multidão se reuniu em volta dele, querendo saber o que estava se passando. Alguém lhe trouxe uma xícara de chá com gengibre para acordá-lo, e perguntavam: ‘quem é você? O que quer aqui?’

Enquanto se recuperava, ele foi contando sua história para as pessoas em volta, de como havia passado por tantas desventuras para encontrar sua mãe. Então, do meio daquela gente uma senhora velhinha surgiu e gritou: ‘você é meu filho! Não o vejo há cinqüenta anos!’, exclamou a senhora cheia de lágrimas de alegria. O viajante cansado, depois de realizar o desejo de seu coração, abraçou a mãe e a levou para casa. Dali por diante, ele cuidou dela como um bom filho cuida dos pais.

Um verso em sua honra diz:

Cinqüenta anos de serviço
De sua mãe o separaram
Após encontrar o perdido
De alegria ambos choraram


16ª História
Como Yu Qianlou provou as fezes do pai

Qianlou viveu na época das dinastias do Sul e do Norte, no estado de Qi. Fazia dez dias que ele servia no gabinete do governador de Jianling, quando subitamente, sem motivo aparente, sentiu uma palpitação no coração e começou a suar frio. Sentiu que havia algum problema em casa, largou o trabalho e foi correndo para casa. Quando chegou, suas suspeitas se confirmaram: seu pai tinha caído enfermo, de uma doença estranha e pouco conhecida. Os médicos não conseguiam descobrir que mal o afligia. Um deles se virou para Yu Qianlou e disse: ‘para realmente descobrir o que seu pai tem, e se ele tem alguma chance, precisamos que alguém prove suas fezes. Se o sabor for doce, a doença é grave e crônica. Se o sabor for amargo, o problema é agudo, mas durará pouco’.

O médico aconselhou que ele seria o mais indicado para fazer a prova, ao que Yu Qianlou atendeu prontamente. De pronto, ele pegou as fezes do pai e as provou, descobrindo que tinham um sabor doce.

Desesperado pelo resultado, a noite ele acendeu um incenso e se ajoelhou diante da ursa polar. Começou a orar: ‘se meu pai se salvar, dou minha vida em seu lugar. Cura-o, estrela polar!’

Alguns vizinhos ouviram-no rezando e ficaram impressionados com esse verdadeiro devotamento.

Um verso em sua honra diz:

Mal começara a trabalhar
Uma doença grave, ao pai acometeu
Orou então pra Ursa Polar
Em troca dele, sua vida prometeu

Obs: Existe uma versão dessa história em que o filho oferece um pedaço de sua carne para fazer uma sopa para seu pai. Creio que essa versão diferente surgiu por duas razões: uma, pudor para com a cena desagradável; segunda, uma aproximação com uma lenda budista, em que Buda faz o mesmo para salvar um tigre da fome.


17ª História
Lao Laizi se fantasia para divertir seus pais.

Na época das Primaveras e Outonos viveu um filho extremamente devotado aos pais, o velho mestre Lai (Lao Laizi). Quando era jovem, sempre foi respeitoso e obediente com eles. Buscava sempre atender seus desejos e vontades, até as mais íntimas, tão dedicado que era. Aos setenta anos de idade seus pais ainda estavam vivos, graças a seus cuidados. Aquecia-os no inverno, refrescava-os no verão, servia-lhes comidas macias para suas bocas desdentadas. O velho mestre Lai nunca os chamou de ‘velhos’, para que sempre estivessem animados. Mas um dia, ele ouviu seus pais comentando com amigos: ‘veja nosso filho, ele já está bem velho. Nossos dias devem estar perto do fim’. Mestre Lai pensou: ‘preciso dar um jeito de animá-los’, e bolou um plano para aliviar-lhes das preocupações.

Ele vestiu uma roupa de criança, como se fosse um ator de teatro. Pintou-se, maquiou-se, conseguiu um tamborzinho e apareceu na frente de seus pais fazendo barulho e contando piadas.

Seus pais ficaram surpresos. Ele continuava imitando uma criança divertida, rindo, brincando, dançando, cantando e entretendo-os.

Fazia malabarismos, teatrinhos com marionetes de papel, tropeçava em baldes d’água e caía sentado no chão, fazendo uma apresentação ridiculamente engraçada. Seus pais riram de gargalhar. Eles se esqueceram de suas angústias por alguns dias, e isso bastava para o mestre Lai. Mesmo não sendo mais jovem, ele foi capaz de cuidar com zelo de seus velhos pais, e isso sempre foi o mais importante em sua vida.

Por essa devoção, Lao Laizi ficou conhecido como mestre da fraternidade familiar, e foi elogiado por seu exemplo incomum de respeito e carinho.

Um verso em sua honra diz:

Teatro, brincadeiras, bobeiras
Por uma platéia animada
Tudo para seus pais velhos
Rirem sua alegria desdentada


18ª História
Como Caishun colheu amoras para sua mãe

Durante a dinastia Han viveu Caishun, um filho dedicado, que perdeu o pai quando ainda bem jovem. Ele e sua mãe só tiveram um ao outro durante anos. Quando Wang Mang usurpou o trono, o país inteiro passou por um período de fome, seca e guerra civil. As pessoas sofriam desgraças terríveis, muitas morreram de inanição, e quem conseguia comer dependia de achar plantas silvestres e raízes. Muitas pessoas decentes caíram na bandidagem, vivendo de roubo apenas para sobreviver. As estradas estavam infestadas de bandos perigosos, e as florestas eram paraísos para os desabrigados e desesperados.

Um dia, Caishun levou dois cestos para colher amoras para a mãe. Escondidos atrás de uma árvore estavam dois bandidos. Carregavam espadas longas e afiadas, e seus rostos eram cruéis e sombrios.

‘Ei moleque, quer morrer? Como você invade o território de nosso chefe?’, gritou um deles. Caishun ficou mudo de medo. O outro olhou para os cestos e perguntou: ‘ei garoto, porque você carrega dois cestos de frutas diferentes?’. Caishun respondeu: ‘as amoras pretas e maduras são doces, e dou para minha mãe. Eu as separo das vermelhas, que são azedas, e que sou eu que como. Senhores, espero que não me matem, senão minha mãe não vai ter o que comer e ninguém pra cuidar dela’.

A sinceridade honesta e simples tocou os bandidos, que lembraram eles mesmos de seus pais sofridos, e tiveram compaixão por Caishun. Ao invés de maltratá-lo, deram-lhe comida e bebida, e o enviaram de volta pra casa, para junto de sua mãe.

Um verso em seu louvor diz:

Amoras pretas e lágrimas
Tinha Cai para sua mãe de idade
Tocou o coração duro dos bandidos
Voltou com carne, arroz e liberdade


19ª História
Como Huang Xiang abanava travesseiros e esquentava cobertas

Durante a dinastia Han, um menino de nove anos chamado Huang Xiang tornou-se famoso por seu devotamento ao pai. Sua mãe tinha acabado de morrer, e o garoto percebeu que o pai estava definhando de tristeza e solidão. Ele resolveu que iria cuidar de pai do jeito que pudesse. Depois disso, não havia serviço doméstico que ele não fizesse, e a tudo realizava com gosto e energia. Sua única preocupação era poupar o pai de preocupações e de ansiedade. Enquanto o irmão mais velho de Huang lia para ele a luz de vela, Huang ficava abanando os travesseiros do pai para espantar o calor languido do verão, de modo que quando ele deitasse, eles estivessem frescos e secos.

No inverno, quando o gelo e a neve tornavam o mundo um tapete branco, o menino se deitava na cama para esquentar as cobertas antes do pai. Quando já estava bem quente, ele o chamava para o leito aconchegante.

O pai de Huang Xiang ficou tocado com a atenção do filho, e se tranqüilizou. Agradecia ao céu uma criança tão obediente e carinhosa, e se orgulhava disso. A história de Huang Xiang se espalhou por toda parte. Sua reputação filial ficou conhecida em todos os lugares, e em um versinho dizia: ‘Huang Xiang, o filial, como filho não há igual’.

O magistrado de Jiangxia, Lihu, ouviu sobre aquela criança de nove anos em seu distrito que havia compreendido os deveres da fraternidade familiar, e ficou encantado com ele. Fez um pedido especial para que ele fosse recebido e reconhecido na corte por seu devotamento filial. Huang Xiang alcançou assim a glória por seu devotamento filial.

Um verso em sua honra diz:

No inverno esquentava a coberta,
No verão abanava o travesseiro
Esse foi Huang Xiang,
Dos filiais, o primeiro!


20ª História
A fonte borbulhante e a carpa saltitante: Jiangshi e sua esposa

Jiangshi era um filho dedicado que viveu durante a dinastia Han. Ele e sua esposa cuidavam de sua mãe idosa. Ela tinha o curioso hábito de não beber água de poço. Ela dizia que preferia água do rio porque era mais limpa, e tinha um sabor melhor.

O rio mais próximo ficava a doze li da casa da família. A esposa de Jiang se ofereceu para todo dia ir até o rio buscar água para a sogra. Ela nunca se queixou, e estava feliz de poder servi-la.

A mãe de Jiangshi também gostava de comer peixe fresco. Para satisfazer sua vontade, Jiang e a esposa foram para o rio tentar pescar um, e na volta preparariam do jeito que ela mais gostava. Além disso, iria convidar também as mulheres idosas do bairro para apreciar a refeição, de modo que sua mãe tivesse companhia no jantar.

Foi assim durante muitos anos, e os dois nunca se cansaram ou expressaram o mínimo descontentamento de cuidar da mãe. Um dia, porém, uma poça começou a jorrar no quintal atrás da casa, e o sabor da água era o mesmo do rio. Como se não bastasse, e para aumentar a estranheza, todo o dia duas carpas pulavam fora da pocinha, e a esposa de Jiang os recolhia para a refeição. Depois disso, o casal nunca mais precisou ir tão longe para poder servir a mãe, e pode finalmente ter uma vida calma e menos cansativa.

Um verso em sua honra diz:

Uma filha dedicada
E um filho devotado
Carpas pulam no quintal
Jorram da fonte de orvalho


21ª História
Como Wangpu chorava a beira do túmulo enquanto os trovões rugiam

Wangpu (Wang Weiyuan) foi um filho fraterno e devotado que viveu no período dos três reinos. Sua mãe tinha medo de trovoadas. Quando via nuvens escuras e chuva a caminho, Wangpu corria para casa cuidar de sua mãe, confortando e acalmando-a. Se seu filho não estivesse do seu lado, ela sentia um pavor tremendo.

Depois que sua mãe morreu, Wangpu a enterrou num cemitério vizinho. Mesmo a velhinha não estando mais viva, quando uma tempestade se aproximava, ele corria até a sepultura de sua mãe com lágrimas no rosto e dizia, como se ela estivesse viva: ‘não chore mãe, seu filho está aqui perto!’. Enquanto durava a tempestade, ele ficava circulando a redor da sepultura várias vezes, para proteger o espírito de sua mãe e deixá-la sem medo.

Mais tarde, quando Wangpu foi dar aulas numa escola, sempre que ele lia um texto que contivesse uma passagem sobre a devoção dos filhos aos pais falecidos, ele mesmo sentia uma profunda emoção e saudade, sentimentos que transbordavam e se transformavam em choro. Vendo esse comportamento, seus alunos se compadeceram e resolveram recolher cuidadosamente, da sala de aula, os textos que falavam sobre os sentimentos fraternos entre as crianças e seus pais.

Wangpu sempre enfatizou, em suas aulas, a necessidade de retribuir a bondade dos pais enquanto eles ainda estão vivos. Ele sempre foi considerado um modelo de comportamento filial, e sua constante preocupação com a mãe partiu o coração de todos aqueles que a presenciaram.

Um verso em sua honra diz:

Quantas vezes acalmou sua mãe
Todas as vezes que trovoou
Até mesmo na sepultura
Ele nunca a abandonou


22ª História
Servindo às estátuas de madeira de seus pais: Ding Lan

Durante a dinastia Han, um jovem chamado Ding Lan perdeu seus pais bem cedo, antes mesmo que pudesse servi-los. Depois que cresceu e se transformou num adulto, ele tinha o desejo de se devotar a seus pais, mas como eles haviam morrido, ele não sabia o que fazer. Então, ele bolou um jeito de cumprir seus deveres filiais. Arrumou um pedaço de madeira da melhor qualidade, e pediu a um artesão que a dividisse em duas. Pediu ainda que ele fizesse imagens parecidas com seu pai e sua mãe com aqueles pedaços, o que o artesão conseguiu.

Quando elas ficaram prontas, Ding Lan reverentemente as colocou no altar. Todos os dias, manhã e noite, sem falta, ele oferecia incenso, oferendas e perguntar se as estátuas estavam bem. Depois que ele se casou, Ding Lan levava a esposa também, duas vezes por dia, para realizar as mesmas oferendas aos seus antepassados falecidos.

Mas a esposa de Ding cansou daquele ritual entediante, e um dia, quando o marido não estava em casa, resolveu só de birra furar a mão da escultura da mãe. Para sua surpresa, a mão da estátua começou a sangrar! A visão de sangue de verdade pingando da imagem no altar deixou a esposa amedrontada e fora do juízo.

Ding Lan voltou para casa e se prosternou diante das imagens, como de costume. Percebeu, porém, que os olhos de uma das estátuas estavam cheios de lágrimas. Maravilhado com isso, ele foi olhar mais de perto e viu sangue na mão da mãe. Ele foi procurar a esposa para ver se conseguia uma resposta, e ela lhe contou que realmente tinha feito aquele machucado na estátua só de brincadeira. Ding Lan ficou furioso, chamou a esposa de miserável, expulsou-a a pra fora de casa e se divorciou.

Um verso em sua honra diz:

Estátuas de madeira representam
Pais, depois de sua morte
Filho dedicado, sirva a eles vivos
Aproveite enquanto pode


23ª História
Lágrimas que trouxeram os brotos de bambu da terra congelada: Meng Zong

Meng Zong viveu durante o período dos três reinos. Seu pai morreu quando ele era jovem, e sua mãe lutava para sobreviver. Durante um inverno severo, sua mãe caiu gravemente doente, e ansiava por um pouco de caldo de broto de bambu para se fortalecer. Mas onde achar brotos de bambu no meio do inverno? Brotos de bambu só surgem nos meses quentes, e naquele inverno o gelo e a neve cobriam todo o chão. No entanto, Meng não queria decepcionar sua mãe, e saiu no meio da neve, de pá em punho, para ver se conseguia algum broto no meio daquela paisagem branca. Simplesmente não havia nenhum broto por ali, apenas algumas folhas e talos congelados. Pensou na pobre mãe doente, presa na cama, a espera do caldo de bambu, e ficou muito triste. Começou a chorar, copiosamente. Ele mantinha sua fé de que acharia algo, mas não sabia como.

Então, ele tropeçou num nódulo saliente, que saía do meio da terra. Achou aquilo estranho, se ajoelhou e cavou a terra ao redor com os dedos gelados. Achou um monte congelado cheio de folhas verdes e brotos de bambu frescos. Feliz e contente, recolheu tudo aquilo e levou de volta pra casa. Fez um caldo delicioso para que sua mãe pudesse se recuperar rápido.

Os vizinhos ouviram a história, e afirmavam que foi sua devoção filial sincera e inspirada que o permitiu descobrir, no meio do inverno, um depósito de brotos frescos. Começaram a orar pela mãe de Meng Zong, que se curou rapidamente. Mas aí, algo maravilhoso aconteceu: as pessoas encontravam brotos de bambu por todos os lugares, e puderam passar o inverno sem fome. Esse broto ficou conhecido como o ‘broto do inverno’, e alimentou a todos durante um bom tempo.

Inspirados na coragem e bondade de Meng Zong, os aldeões se sentiram abençoados por sua bondade e devoção. O local onde ele encontrou os brotos para sua mãe passou a se chamar a ‘Tumba de bambus de Meng Zong’, e os mesmos aldeões repetiam: ‘se agora podemos comer brotos de bambu durante o inverno é graças ao exemplo de bondade fraterna de Meng Zong, o filial. Devemos refletir sobre isso como pais e como filhos’.

Um verso em sua honra diz:

Suas lágrimas copiosas
Os brotos revelaram
E durante muito tempo
Ao povo alimentaram


24ª História
Como Huang Tingjian limpava pessoalmente o penico de sua mãe

Huang Tingjiang era um calígrafo renomado, poeta talentoso e cujo devotamento fraterno ficou bem conhecido. Ele viveu durante a dinastia Song, e seu nome literário era Huang Shangu. Sua fama como homem de letras era bem conhecida, e não importava o estilo de poesia, caligrafia ou ensaio, seu trabalho era sempre reconhecido e aclamado. Su Dongpo (Sushi) foi seu colega, e os dois eram conhecidos como ‘os poetas Su e Huang’.

Durante o período em que Zhezong foi imperador, Huang Tingjian serviu como historiador chefe. Seu dever era anotar e narrar os eventos astronômicos, para regular os calendários do império. Apesar de seu prestígio elevado, ele não era arrogante. De fato, ele sempre foi de natureza respeitosa e gentil, especialmente em relação a sua mãe. Apesar de ter uma casa cheia de servos, quando ele vinha visitar sua mãe, independente da tarefa, ele mesmo insistia em realizá-la. Sua mãe não precisava esperar ninguém para ser atendida. Toda noite, ele pessoalmente limpava o penico que a mãe usara no dia anterior.

Em seu entendimento, realizar tais tarefas era como educar um filho. Ao dar o exemplo para os menores, se educavam futuros adultos fraternos e dedicados, e nenhum trabalho se tornará fatigante ou humilhante. Cada um deve fazer ele mesmo as tarefas que lhe competem, sem exceção aos deveres filial.

Um verso em sua honra diz:

Sua virtude era vista de longe
Aos parentes, sabia se dedicar
Nunca pediu ajuda de servos
Para seu trabalho realizar

[Para ver um versão em inglês do texto acompanhada de pinturas para cada uma das histórias, clique aqui]

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