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A Arte Chinesa de não se entregar



Quem olha rapidamente para a sociedade chinesa tende a cair no velho estereótipo da ‘civilização laboriosa, submissa e pacífica’. Chineses são bons trabalhadores, não reclamam, vivem frugalmente (às vezes, no limite da miséria), obedecem aos líderes sem pestanejar, etc. Isso em parte pode ser verdade; afinal, a cultura chinesa tem paixão pelo trabalho, e uma veneração pela educação que é praticamente incompreensível para a média dos brasileiros. Contudo, esse estereótipo da China ‘calma e subserviente’  foi construído, desde o século 19, baseado numa análise superficial que os colonizadores europeus fizeram de um país decadente, dominado por uma dinastia estrangeira (os Qing) e cujo sistema político estava em franco declínio. A China nunca foi ‘calma’: quem observar mais atentamente a história chinesa verá que as quedas das dinastias envolviam conflitos com milhares de mortes; a maior revolução comunista do mundo foi chinesa (e também a mais sangrenta); e hoje, ouvimos notícias constantes sobre censura, conflitos políticos e ideológicos no país. Podemos afirmar, portanto, que a sociedade chinesa resiste, luta, atua na manutenção de sua própria cultura de uma forma ativa, consciente, e nem sempre pacífica. E como os chineses resistem às dificuldades? Como eles constroem a idéia de mudança?

Para isso, precisamos voltar ao passado chinês. Lembremos: a China é uma das civilizações mais antigas do mundo, com uma ligação direta com a sua antiguidade. É impossível compreendê-la sem acessar seus pensamentos fundadores. Precisamos então retornar aos antigos filósofos chineses para compreender como, ao longo da história, os chineses desenvolveram formas de resistência – tanto no cotidiano quanto no âmbito maior do Estado e do governo.

O primeiro dos conceitos que podemos rastrear no pensamento chinês, e que nos é importante em nosso ensaio, remonta o século 6 a.C., e se chama ‘Wuwei’無為. Não há uma tradução exata: ele pode significar ‘não ação’, ou ainda, ‘ação isenta de propósito’. Esse conceito era defendido pelos ‘daoístas’ (ou taoístas, numa grafia mais comum), como Laozi (séc. 6 a.C.) e Zhuangzi (séc. 4 a.C.), que acreditavam que a cultura humana era uma forma degradada de vida, repleta se valores morais corrompidos e ‘antinatural’. ‘Wuwei’ significava, portanto, um desprendimento das coisas materiais, uma ação baseada somente na necessidade, e de modo mais harmônico possível com a natureza. Isso implicava em resistir às tentações do poder, da riqueza, do envolvimento com a política, e desprezar valores morais tais como honra, fama e prestígio – para os daoístas, fontes de conflito entre os seres humanos. Assim, a prática do ‘Wuwei’ baseava-se numa espécie de recusa sistemática a toda e qualquer forma de imposição social, política e econômica que pudesse ir contra a natureza humana. Uma história de Zhuangzi ilustra bem isso: quando convidado a ocupar um cargo de honra no governo, Zhuang responde aos funcionários: ‘há uma tartaruga sagrada no palácio que foi morta e empalhada para ser venerada; você acha que ela preferia estar aqui, no meio do pântano, viva e feliz, abanando sua cauda na lama, ou sendo venerada no palácio?’’Viva’, respondeu o funcionário. ‘Então me deixe aqui, também, abanando minha cauda na lama’, disse Zhuang.  Essa atitude de desprendimento se tornou, no imaginário chinês, numa de suas primeiras formas de resistência: a manha. Como dizia o escritor chinês Lin Yutang, uma ‘manha atávica’, ou, uma ‘preguiça consciente’. Quando pressionados a fazer algo como qual decididamente não concordam, os chineses começam a fazer corpo-mole, abandonam o trabalho, simplesmente cruzam os braços e ignoram as ordens – não de modo agressivo, mas com aquele famoso ‘hã-hã’ de quem ouviu a ordem, mas não pretende fazer a coisa tão cedo. Desde a antiguidade, pois, os chineses aprenderam a fazer greves, a protestar, a fugir do trabalho quando acreditavam estar sendo prejudicados por funcionários corruptos ou patrões malvados. Era esse o panorama que os europeus encontraram no século 19: uma China que praticava a ‘não ação’ contra aqueles que a exploravam.

O contraponto ao ‘Wuwei’, na mentalidade chinesa, se deu por outra forma de resistir, que consistia no ‘Caminho do estudo’ proposto por Confúcio, outro grande sábio chinês dos séculos 6-5 a.C. Ao contrário dos daoístas, Confúcio acreditava que somente a Educação, ‘Jiao’教 poderia reformar a sociedade, construir senso crítico, impedir os descalabros do poder e resistir à opressão. Foi Confúcio, pois, que basicamente incutiu nos chineses a paixão pelo estudo, o desejo de conhecer as origens, as tradições, as histórias, compreender os conceitos do pensamento, fomentando dessa maneira uma ação crítica em relação à política e contra os excessos no governo e na sociedade. Para Confúcio, a Educação era fundamental para a continuidade da civilização, que só podia existir se as pessoas pudessem freqüentar devidamente uma escola. Mêncio, um dos mais proeminentes confucionistas do séc. 4 a.C. chegou a afirmar, sem receio, que um governo que não atendesse aos anseios do povo deveria ser derrubado – e cabia aos intelectuais denunciá-lo! Isso, numa época em que não era incomum que críticas desse gênero provocassem a separação da cabeça do restante do corpo – ou seja, a atitude do intelectual implicava, necessariamente, na compreensão das coisas, e na coragem de agir sobre elas.

Esses dois conceitos sofreram mutações ao longo da história chinesa: assim como muitos daoístas banalizaram a ‘não-ação’ (se tornando políticos, o que é uma ironia), os confucionistas criaram uma tradição burocrática que estava longe de ser crítica. Em ocasiões de crises decisivas, muitas vezes a sociedade chinesa acabou descambando em violentos conflitos internos e guerras civis – e nesse ponto, tanto o conceito da não-ação quanto o caminho do estudo pretendiam, na verdade, ser capazes de reformar e resistir sem que as crises chegassem ao seu clímax. Contudo, a essência de ambos os conceitos permaneceu na mentalidade chinesa, gerando uma intelectualidade ativa e ao mesmo tempo, um povo relativamente ciente de suas tradições e potenciais de resistência. No próprio século 19, como dissemos, enquanto o povo praticava a ‘não-ação’, sabotando sistematicamente o poder dos estrangeiros no país, pensadores confucionistas como Kang Youwei defendiam abertamente a reforma do país. Nesse ponto, o aparecimento de Mao Zedong no início do século 20 é um exemplo perfeito de alguém que estudou para resistir – ainda que Mao negasse veementemente o confucionismo, e preferisse adotar a ideologia comunista para realizar a revolução e consertar o país. Mao, aliás, perseguiu confucionistas e daoístas, entendendo que ambos representavam o que havia de pior na cultura tradicional, e um obstáculo ao processo de mudanças que ele tentava implementar – novamente, os chineses recorriam ao seu passado milenar para resistir, inclusive ao comunismo.

Não é de se estranhar que no momento atual da China, daoísmo e confucionismo são duas forças em plena expansão no campo intelectual, filosófico e político. Uma corrente chamada ‘Novo Confucionismo’ defende, inclusive, que o futuro político do país se estruturará numa República Meritocrática, resgatando os ideais confucionistas para a atualidade. Imbuídos desse espírito contestador, os chineses tem se lançado aos mais diversos tipos de críticas ao governo, seja por meio de manifestos, seja mesmo por meio da literatura – escritores como Yu Hua e Murong Xuecun, por exemplo, se destacam em denunciar os excessos do sistema político.

A experiência chinesa mostra, enfim, que é  possível resistir por meios diferentes e complementares. Se por um lado a ‘não-ação’ força o governo a estabelecer compromissos e atender os anseios do povo, por outro, a educação se mostra como um meio eficaz de construir senso crítico, estabelecer limites à  opressão e construir um país capaz de suportar as piores crises. O exemplo chinês é claro: foi a educação que reconstruiu o país após as calamidades da Segunda Guerra Mundial, e o recolocou no topo das economias mundiais. Todavia, o povo chinês mantém-se distante dos problemas geopolíticos, e prefere não agir nem interferir em problemas estrangeiros que não são de sua conta: alienação ou ‘não-ação’? Ambas as considerações têm muito a dizer para o Ocidente contemporâneo, e principalmente – porque não? – para o Brasil...

publicado na Revista Cult, 2012

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