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Um Desprendimento Impossível


Está escrito numa agenda imaginária da contemporaneidade: devemos ser mais econômicos, mais ecológicos, menos apegados, mais ‘espiritualizados’, mais desprendidos das ‘coisas materiais’. O consumo exagerado, o desregramento das paixões, tudo isso há de esgotar o mundo, levando-o a conflitos intermináveis, e no fim, arrasá-lo por completo. Precisamos ser mais ‘harmônicos’ com a natureza, com as outras pessoas, e aprender a preservar a vida.

Por outro lado... Sem desafiarmos a natureza, não evoluímos tecnologicamente, filosoficamente ou sapiencialmente. Pregamos a tolerância e a diversidade; mas podemos ser assim ao lidar com aqueles que são dogmáticos, e que estão dispostos, justamente, a não tolerar e nem serem diversos? Precisamos-nos ‘desprender das coisas materiais’; mas se são elas que nos sustentam – comida, roupas, remédios, o estudo -, como sobreviveremos sem elas?

Problemas muito parecidos como esses já rondavam a cabeça dos chineses seis séculos antes de Cristo. Conseguir um equilíbrio ideal entre nós, humanos, e o restante do mundo natural, era um dos pilares do pensamento chinês antigo (assunto que examinamos aqui, na edição N.79), a chamada Harmonia 和 (He). No entanto, os pensadores daquela época acreditavam que haviam perdido algo. Suas fórmulas tradicionais precisavam ser modificadas, adaptadas, pois a sociedade estava em crise, e a tradição parecia não dar mais conta de resolver, sozinha, os problemas do mundo.

Era necessário, pois, um Método ou Caminho 道 (Dao) que pudesse indicar os meios pelos quais esse equilíbrio perdido poderia ser recuperado. E, num longo período que atravessaria séculos – chamado de ‘Cem Escolas do Pensamento’ 白家 (Baijia) –, várias linhas diferentes de pensadores iriam surgir, e debater sobre qual Dao seria o melhor para o mundo chinês.

Nesse artigo, examinaremos a visão da Escola Daoísta ou Daoísmo 道家 (Daojia), cuja proposta para a solução dessas questões nos traz, inevitavelmente, a uma analogia com o contexto contemporâneo. É possível desprender-se do mundo por completo? Quais são os limites para tentarmos romper com a sociedade e a cultura existente?

A Escola Daoísta (Daojia)
A ‘Escola do Caminho’ surgiu em meio ao caos chinês do século – 6, e é razoavelmente conhecida entre nós por seus autores mais famosos: Laozi 老子 (séc. -6?), Liezi 列子 (séc. -5?) e Zhuangzi 庄子 (séc.-4). Notem que todas as datas são estimadas, tendo em vista que sabemos muito pouco sobre a vida desses autores. O próprio nome dessa linhagem de pensadores revela uma idéia absolutamente arraigada em suas propostas – de que não existiria um ‘Método’ ou ‘Caminho’ humano, pois toda a natureza é uma só, e dela não nos apartamos. Assim, não existem ‘Caminhos’; só existe ‘O Caminho’, o Dao natural, ao qual devemos nos dirigir. O nome dessa escola, pois, corresponderia a algo do tipo ‘Escola do único Caminho’, ou ainda, ‘Escola dos Caminhantes’ (no sentido de ‘buscadores’ da Harmonia).

A proposta dos daoístas ou ‘caminhantes’ assentava-se, desde Laozi, em dois conceitos fundamentais: Wuwei 无为 (não-ação, não-atuar, ação isenta) e Ziran 自然 (espontaneidade, ou natureza original).  Wuwei significava, basicamente, não agir segundo padrões culturais ou regras de conduta definida, nem por pressões de um contexto específico. Esse procedimento implicava em afastar-se da vida cotidiana e de seus problemas, evitando o envolvimento com questões que escapavam as ‘reais’ (entenda-se ‘naturais’) necessidades humanas. Nisso os ‘caminhantes’ incluíam tudo aquilo de ruim que entendiam ter ‘nascido’ por causa da cultura: a cobiça e a violência seriam causadas pelo desejo de bens materiais, a inveja e o ódio por questões intelectuais, a vaidade por causa das aparências, etc. Dois versos do livro de Laozi, o Tratado da Virtude e do Caminho 道德经 (Daodejing) demonstram exatamente como o sábio deve administrar sua vida por meio de um Dao absolutamente ‘natural’, isento das preocupações mundanas: 

“Não primando os bons/o povo não compete; Não prezando bens custosos/o povo não aladroa; Não exibindo o desejável/seu coração não erra; Por isso o governo do homem santo: esvazia os corações/sacia as entranhas/enfraquece as vontades/vigora os ossos/nunca deixa o povo com saber e desejos/não deixa o sábio ousar atuar/atuando o não-atuar então não há desgoverno” (Verso 3)

“Manter saturando/melhor cessar; seguir aguçando/não vai durar; sala cheia de ouro e jade/não se pode guardar; enfatuar-se com bens e fama/por si já dana” (Verso 10)

Notemos, contudo, que para a realização dessa ação isenta de propósitos materialistas, é imprescindível negar aquilo que, para os caminhantes é o fundamento de todos os erros: a própria cultura. A educação ‘deseduca’, o trabalho gera cobiça, o desejo de aprimoramento desvia, e a busca da própria sabedoria leva ao desconhecimento – daí porque, para se atingir essa harmonia ideal com a natureza, se precisaria retornar a um estado de ignorância primeva, um ritmo humano natural que foi perdido pelos condicionamentos sociais. Por isso, seria necessário ‘não agir’, para enfim, alcançar uma atuação espontânea e livre. Esse seria o Ziran.

A espontaneidade, ou ‘natureza original’
Uma história do livro de Liezi ilustra perfeitamente, para nós, o que seria esse ‘desligamento’ do mundo humano:
“Havia em Song um homem chamado Huazi, que contraiu ao chegar à meia idade a singular doença de esquecer tudo. Tomava uma coisa de manhã e esquecia-se dela à noite, recebia uma coisa de noite e já não se lembrava pela manhã. Quando estava na rua esquecia-se de andar, e estando em casa esquecia-se de sentar-se. Não podia recordar-se do passado no presente nem do presente no futuro. E toda a família estava muito aflita com isso. Os parentes consultaram o adivinho e não puderam decifrar o caso, consultaram a feiticeira e as rezas não o puderam curar, e consultaram o médico e este não deu remédio. Havia, porém, um letrado confuciano na terra de Lu que disse poder curar o homem. Assim, a família de Huazi ofereceu-lhe metade dos seus bens se ele o livrasse dessa estranha doença. E disse o letrado confuciano: - A sua doença não é coisa que se possa tratar com predições, com rezas ou com remédios. Vou tentar curar o seu espírito e mudar os objetos do seu pensamento, e talvez ele se restabeleça. Assim, ele expôs Huazi ao frio e Huazi pediu roupa, deixou-o ter fome e ele pediu comida, fechou-o num quarto escuro e ele pediu luz. Conservou-o numa sala sozinho durante sete dias, sem se importar com o que ele fazia todo esse tempo. E a doença de anos foi curada num dia. Quando Huazi ficou restabelecido e soube do caso, enfureceu-se. Brigou com a mulher, castigou os filhos e expulsou de casa com uma lança o letrado confuciano. A gente do lugar perguntou a Huazi por que fez isso, e ele respondeu: - Quando eu estava mergulhado no mar do esquecimento, não sabia se o céu e a terra existiam ou não. Agora eles me despertaram, e todos os triunfos e reveses, as alegrias e as tristezas, os amores e os ódios dos decênios passados voltaram a perturbar o meu peito. Receio que no futuro os triunfos e os reveses, as alegrias e as tristezas, os amores e os ódios continuem a oprimir o meu espírito como me oprimem agora. Posso eu recuperar algum dia sequer um instante de esquecimento?”
O ideal de uma vida humana seria, portanto, agir de acordo com uma espontaneidade perdida por conta das imposições da vida social. Essa ‘natureza humana original’ era o que os ‘caminhantes’ chamavam de Ziran. Ela implicaria numa quase anulação dos padrões de pensamento que nos ‘tornam’ humanos, levando-nos a um estado que muitos compreenderiam ser de ‘selvageria’ – mas tal ‘selvageria’ só é pejorativa para a ideia de cultura, já que os próprios animais, por exemplo, não se entendem ‘selvagens’. Eles simplesmente são o que são, e vivem de acordo com isso. O esquecimento, tratado na história de Liezi, tenta mostrar as aflições causadas pelas imposições sociais – ou, nessa linha de raciocínio, ‘não naturais’.

A Harmonia total
Os ‘caminhantes’ acreditavam que esse desprendimento da cultura levaria, consequentemente, a uma maior integração com a natureza, a um modo de vida absolutamente harmônico. Uma terceira história, retirada do livro de Zhuangzi demonstra, novamente, a concepção de que uma mente moldada pela cultura tradicional seria incapaz de compreender qualquer dinâmica externa a ela:
“Zhuangzi e Huizi passeavam sem destino na ponte que fica sobre o rio Hao quando o primeiro observou - "Veja como os peixinhos nadam! Nisso consiste a felicidade do peixe". - "Você não é um peixe", interrompeu-o Huizi, "como então pode saber em que consiste a felicidade de um peixe?" - "E você não sou eu", volveu Zhuangzi, "como pode então saber que eu não sei?" - "Se eu, não sendo você, não posso saber o que sabe", argumentou Huizi, "segue-se que você, não sendo um peixe, não pode saber em que consiste a felicidade de um peixe". - "Voltemos à nossa questão original", declarou Zhuangzi. "Perguntou-me como sabia qual a felicidade de um peixe. Só essa pergunta prova que você sabia que eu sabia. Sei-o (pelo que sinto) sobre esta ponte".
Zhuangzi seria capaz, pois, de compreender os peixes, porque sua mente estaria livre das amarras impostas por um modo de pensar humano que, supostamente, teria perdido a capacidade de compreender a harmonia natural – ou, o ‘Dao verdadeiro’. Esse pretenso desprendimento da materialidade – em outros termos, da idéia de ‘Humanidade’ – promoveria uma completa reestruturação do individuo, abolindo as noções de moralidade que lhe amarrariam a existência, e lhe proporcionariam uma vida inteiramente ‘autêntica’. Por conta disso, muitos ‘caminhantes’ abandonaram a vida nas cidades e se mudaram para o campo, buscando uma vida eremita e afastada dos problemas comuns da humanidade.

As críticas ao Daoísmo
Já na antiguidade, esse ideal de desprendimento tornou-se bastante atraente para muitos que estavam desiludidos com os rumos da sociedade. A escalada de corrupção, ignorância e violência parecia justificar a retomada de uma vida mais simples, desligada das tensões cotidianas das cidades. Contudo, essa proposta recebeu uma série de críticas entre os próprios chineses – e algumas delas, talvez, possam nos ajudar a re-significar a própria questão.

A mais contundente das críticas foi promovida pelos Confucionistas, tradicionais ‘adversários’ dos ‘caminhantes’ (‘adversário’ entendido, aqui, como ‘crítico’, mas não necessariamente como inimigo, como poderíamos ser levados a crer). Para eles, alguém só se torna humano, justamente, porque adquire a humanidade por meio da cultura. Sem ela, seríamos outra coisa? Não seria da própria Natureza Humana  (Xing) criar a cultura? Uma frase tradicionalmente atribuída aos confucionistas diz que: ‘a diferença entre os animais e os humanos é que os animais pensam, mas só os humanos pensam no que pensam’. Isso faz todo o sentido, se observarmos que até a terminologia dos ‘caminhantes’ se expressa por meios humanos – a ideia, o conceito, a linguagem. Não é a própria concepção de ‘desprendimento’ algo concebido pelo humano, em busca de um ‘retorno ideal’ a espontaneidade (Ziran)? E haveria outro meio possível, aliás, que não fosse humano, posto que todas essas colocações são absolutamente humanas?

Todavia, se o desprendimento for possível, por qual razão eremitas e ‘desprendidos’ usam roupas ou cozinham sua comida? O retorno a natureza original não implicaria numa nudez sem pudor, e no consumo de alimentos in natura? Inequivocamente, aquele que se veste e cozinha traz dentro de si mesmo a experiência humana, e dela não se desvencilhou. A análise dos textos daoístas nos supõe pensar que, talvez, eles apenas buscassem um modo de vida mais simples – algo parecido com o que os índios brasileiros já viveram, por exemplo. Todavia, isso significaria supor que modos de vida mais simples não trazem consigo concepções culturais complexas – o que é uma afirmação arbitrária e equivocada.

Confúcio 孔子 (-551 -479) comentava, ironicamente, que não acreditava em eremitas que todos sabiam que eram eremitas. Ou seja, alguém verdadeiramente desprendido deveria sumir sem rastro; no entanto, se as outras pessoas sabem onde ele está, e ainda, se ele adquire fama de sábio, é possível que algo muito errado estivesse acontecendo. Essa era outra crítica que os chineses, em geral, faziam aos ‘caminhantes’. Embora o ideal de uma ‘vagabundagem santa’ fosse apreciado pelo senso comum, por outro lado, um ditado chinês dizia que “para alguém ser ‘caminhante’, precisa-se de um confucionista para sustentá-lo”. Desde cedo, pois, os chineses haviam percebido que muitos ‘desprendidos’ eram apenas hipócritas preguiçosos, que viviam de esmolas, sem fazer nada, na dependência dos trabalhadores comuns. Os próprios ‘caminhantes’ defendiam que a inutilidade poderia ser funcional, como nesse trecho de Zhuangzi:
“Havia um corcunda chamado Su. Os queixos batiam-lhe pelo umbigo. Os ombros ficavam mais altos do que a cabeça. Os ossos do pescoço salientavam-se apontando o céu. As vísceras ficavam voltadas para baixo. As nádegas estavam onde deviam estar as costelas. Ganhava a vida como alfaiate ou lavando roupa. Peneirando arroz fazia o suficiente para sustentar uma família de dez pessoas. Quando vieram as ordens para uma conscrição, o corcunda passou pela multidão sem ser notado. E do mesmo modo, na conscrição do governo para trabalhos públicos, sua deformidade salvou-o de ser chamado. Por outro lado, quando o governo distribuiu cereais para os incapazes, o corcunda recebeu por três,  além de dez feixes de lenha para fogo. E se a deformidade física foi suficiente para preservar seu corpo até o fim de seus dias, quanto mais não seria de utilidade a deformidade moral e mental!”
Esse tipo de comentário nos leva a concluir, com efeito, que os ‘caminhantes’ agiam, por vezes, como os ‘espertos’ aqui do Brasil. Não haveria um desprendimento real, mas sim, uma alienação calculada, que não negaria a relação com a sociedade. Tal alienação pressupõe, talvez, até uma dependência profunda da estrutura social vigente, evitando apenas o comprometimento moral com ela. Que desprendimento total, portanto, seria possível?

Uma mensagem atemporal
Um famoso poeta da época Tang 唐, Bai Juyi 白居易 (772 a 846), escreveu um interessante poema intitulado ‘Lendo Laozi’:

“Aqueles que falam não sabem,
Os que sabem estão em silêncio
Isso eu ouvi de Laozi
Se o velho conhecia o caminho
Por que escreveu isso em cinco mil palavras?”

Quase um milênio depois de Laozi, Bai Juyi brincava com um Daoísmo filosófico que havia se perdido fazia muito tempo. A própria ‘Escola do Caminho’ transformara-se numa religião, cujo discurso de desprendimento fora substituído pela busca de uma imortalidade alquímica. Os ‘caminhantes’ dessa época eram xãmas, exorcistas e monges, muitos distantes do modelo de sábio-eremita desapegado do mundo, como defendiam seus primeiros autores.

O que os chineses observaram, ao longo dos séculos, foi uma transformação profunda nesse discurso ‘caminhante’. A teoria do desprendimento completo, e do retorno a uma ‘natureza original’, não apenas era complexa ou pesada demais para a maior parte das pessoas, mas talvez fosse simplesmente inacessível. Ironia total: era necessária uma extrema capacidade intelectual para compreender a ideia de ‘abandonar’ o intelecto!

Séculos antes dos hippies ocidentais dos anos 60, ou dos modernos ideólogos de uma ecologia harmônica, os chineses já haviam compreendido que era inviável seguir o discurso do afastamento completo. No século 20, eles conheceram também a radicalização do materialismo comunista, que hoje cobra o seu tremendo preço da sociedade e da natureza. Todavia, o que manteve a China existindo, durante milênios, não foram os extremismos, mas justamente, a harmonia dos opostos. Para que a sociedade se desenvolva, é preciso desafiar a natureza; mas para que a sociedade sobreviva, é indispensável preservar a natureza. O verdadeiro Humanismo talvez consista, justamente, em aceitar que nossa integração no cosmo não nos afasta da natureza, mas difere de todas as outras espécies. O desprendimento total é impossível; mas uma vida mais simples e consciente, porém, é necessária à própria manutenção da existência. Uma mensagem caminhante, aí, pode ser revelada de maneira eficiente e atemporal: não precisamos de tanto, não precisamos sempre, nem precisamos de tudo todo o tempo. Ou, como resumiu o próprio Zhuangzi:
"Zhuangzi estava pescando no rio Pu, quando o príncipe de Zhu mandou dois altos funcionários convidá-lo para assumir o cargo de administrador do Estado Zhu. Zhuangzi continuou pescando e, indiferente, disse: "Ouvi falar que em Zhu há uma tartaruga sagrada que morreu há cerca de três mil anos. E que o príncipe guarda cuidadosamente essa tartaruga em um cofre no altar de seus ancestrais. Ora, para essa tartaruga seria melhor estar morta e ter os seus restos venerados, ou estar viva e arrastando a sua cauda na lama?" "Seria melhor estar viva e arrastando a sua cauda na lama", responderam os dois altos funcionários. "Então, ide embora!", gritou Zhuangzi. "Eu também prefiro arrastar a minha cauda na lama".

Referências
As citações de Liezi e Zhuangzi são de Lin Yutang, Sabedoria de Índia e China. Rio de janeiro: Pongetti, 1958.
As citações de Laozi são de Mário Sproviero, Daodejing: Escritos do Curso e sua Virtude. São Paulo: Hedra, 2007.
André Bueno, “Laozi e Zhuangzi” em Crítica na Rede, disponível em: http://criticanarede.com/hit_laozi.html
André Bueno, “O retorno a natureza original dos daoístas” em Orientalismo, disponível em: http://sinografia.blogspot.com.br/2010/07/o-retorno-natureza-original-dos.html


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