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As Doutrinas dos Mestres, de Liu Xie - Novembro, 2004

O texto que agora apresento constitui a tradução do Capítulo 17 do Wenxin Diaolong, e trata de uma apresentação sucinta sobre as Escolas de Pensamento Chinesas, seus Mestres e propósitos. Sobre a história do Wenxin, veja o texto "A História e seus Comentários".

As doutrinas dos mestres constituem os escritos que penetram no Dao e contemplam suas paixões. As mais antigas estabelecem a virtude; as demais só restaram nas recordações. O povo vive amontoado, confundido em sua amargura, e nada pode ver com claridade. Os homens virtuosos perseguem sua posição neste mundo, e detestam que seu nome e virtude sejam ignorados; somente aqueles de talento e habilidades excepcionais logram atingir o brilho que assegura a descendência de seus textos; seus nomes são elevados e sustém-se no céu como o sol e a lua.

Na Antiguidade, Fenghou, Limu e Yiyin pertenceram todos a esta corrente. Suas obras relatam as sentenças herdadas dos antigos sábios e foram transcritas no período dos Reinos Combatentes. Yu Xiong compreendeu o Dao e foi conselheiro do rei Wen. Os escritos que deixou e aquilo que realizou se registraram conforme o Yuzi. Assim se começou a designar estes trabalhos como "Mestres"; antes dele, não houve outros. Laozi conhecia os ritos, e por isso Confúcio foi visitá-lo para instruir-se; desta forma ordenou o Tratado da Virtude e do Caminho (Daodejing), que encabeçava as Cem Escolas. Yu foi amigo do rei Wen, mas Li foi o Mestre de Confúcio. Desde então, santos e sábios de uma mesma geração seguiram as diferentes correntes dos clássicos e doutrinas.

No período dos Estados Combatentes, se governava mediante a força e homens ilustres surgiram como abelhas. Mêncio abraçou o confucionismo e se inclinaram diante dele de joelhos; Zhuangzi, ao descrever o Dao, andou por aqui e acolá; Modi seguiu os ensinamentos da sensibilidade e tenacidade; Yin Wen estudou a correspondência entre os nomes e a realidade; Yelao governou o reino com os frutos da terra; Zouzi alimentou o governo com a escritura do Céu; Shen Buhai e Shang Yang, com instrumentos de castigo, instituíram a razão; Guiguzi, com sua lábia recalcitrante, inscreveu seus méritos na história; Shijiao conhecia uma miscelânea de Artes; Qingshi recorria com minúcia as conversações relativas. A herança floreceu, seus ramos e complementos são inumeráveis; seus juízos voaram e suas técnicas se difundiram a rédea solta. Todos eles se cobriam de honras e lhes sobrou a glória.[1]

O fogo devorador do cruel Qin incendiou com fúria as bordas do Monte Kun, mas a coluna de fumo de suas fogueiras não chegou às doutrinas.[2] Com Cheng de Han se protegeu o pensamento, e Zizheng comparou os ensinamentos. Assim, o “Qilue” exalou suas fragrâncias e as nove correntes se entrelaçaram como escamas. Depois de preparar as tábuas e editá-las, restaram as obras de mais de cento e oitenta autores. Durante Wei e Qin apareceram alguns escritores; se conservaram apenas palavras sem fundamento e se registraram ditos pouco importantes. Se se reunisse todo este trabalho, encheria-se um sem número de carroças. Estas composições , ainda que sendo numerosas, são muito fáceis de resumir em sua forma original; descrevem o Dao e falam do governo, e são todas derivadas dos Clássicos.

Os textos puros se encaixam no esquadro, os impuros ficam fora do compasso. O tratado da Música do Liji (Manual dos Rituais) se tornou uma crônica do Lushi Chunqiu; o texto “san nian wen” descreve a sentença em Xunzi. Estes pertencem ao tipo dos puros. Tanto as perguntas de Tang a Ji - em que se diz que nas pestanas de um mosquito se ouve a queda de um trono - como Huishi falando ao rei de Liang sobre a batalha e os cadáveres nos cornos de um caracol; tanto no Liezi, que conta como mover montanhas e atravessar de uma só vez o mar, como no Huainanzi - que conta a história de como o Céu se inclinou e a Terra entortou - estes são textos do tipo impuro.

Por isso, o mundo se irrita com as doutrinas, porque entre suas águas correm discussões vazias e mentiras. O clássico Guizang dá grandes explicações sobre o desvairado e o estranho, como falar de Yi, que matou dez sóis e de Chang, que voou para a Lua. Se isto se fez nos tempos do imperador Tang de Yin, o que não será o resto destas doutrinas? Em livros como o de Shang Yang e de Hanfeizi se fala dos "seis piolhos", dos "cinco vermes", se abandona a piedade filial e se nega a bondade. Shang morreu esquartejado, e Hanfei não morreu envenenado sem motivo. O cavalo branco e o bezerro de Gongsun[3] utilizam uma linguagem acertada, mas com razões destorcidas; Mou de Wei o comparou a um burro e esta não foi uma censura equivocada. Dongping solicitou as doutrinas e o Shiji, mas a corte de Han não os entregou porque no Shiji se falava muito em estratégias militares, e nas doutrinas se mesclavam muitas táticas avessas a tradição.

Os homens que sabem ouvir devem ficar com o essencial, admirando suas flores e alimentando-se de seus frutos, abandonando o falso e recorrendo ao verdadeiro. Observar amplamente as diferentes doutrinas é um grande espetáculo para o mundo dos estudiosos.

Ao examinar as explicações de Mêncio e Xunzi, suas razões parecem bonitas e sua linguagem elegante; as composições de Guanzi e Yan os fizeram verdadeiros e suas palavras soberbas; os escrito de Lie Yukou goza de um espírito grandioso e uma técnica extraordinária; nos ditos de Zouzi, o coração é pródigo e sua linguagem está cheia de força; Modi e Suichao tinham idéias diáfanas e cheias de substância; Shi Jiao e Wei Liao possuiam uma arte compreensível e um texto agudo. O extenso Heguanzi reproduz uma ou outra vez expressões profundas; o vasto Guiguzi gira em torno de idéias misteriosas. Julgar sentimentos para aprofundá-los é o dom de Wenzi; linguagem concisa e exata é o essencial de Yinwen. Shen dao domina a técnica de análise das razões mais intricadas; Hanfeizi é conhecido pela riqueza de suas metáforas. Lushi contempla o distante com um estilo perfeito; Huainan dispõe de uma grande variedade de temas com uma bela linguagem. Estas são flores dos cem sábios, e as melhores em captar o essencial da linguagem.

Quanto o Xinyu de Lujia, o Xinshu de Jiayi, o Fanyan de Yang Xiong, o Shuoyan de Liu Xiang, o Qianfu de Wangfu, o Zhenglun de Cuishi, o Changyan de Zhongchang e o Youqiu de Duyi[4]; uns tratam sobre os clássicos, outros explicam a arte de governar. Ainda que exibam nomes de "discurso", reconduzem as doutrinas. E porque? Elucidar de forma compreensível dez mil acontecimentos constituem a doutrina; analisar uma razão constitui o discurso. Todos os anteriores tratam-se extensamente de miscelâneas de materiais, por isso entram na corrente das doutrinas.

Os sábios que nos haviam abandonado antes do período dos Estados Combatentes, estes não estavam tão distantes, pois podiam saltar gerações e tratar de temas elevados e distantes, abrindo assim suas próprias portas e janelas.

A partir dos Han, a força deste estilo foi se debilitando: ainda que conhecessem com claridade o antigo caminho dos letrados, se apoiaram em todo o tipo de coisas. Isto marcou uma modificação gradual entre os tempos antigos e os modernos.

Ah! A vida e o tempo se enfrentam, e a vontade encontra uma via de expressão. O coração vem de dez mil anos de passado e envia seu pensamento mil anos além. O Metal e a Pedra perecem, mas como pode silenciar-se sua música?

"Os grandes homens têm o seu lugar no mundo

os peso de seus tesouros supera a todos

definem e cinzelam os dez mil seres

sua inteligência compreende todo o universo

estabelecem a virtude, como escondê-la?

Transmitem o Dao que está em sua boca

Cada corrente segue seu próprio curso

como se tratassem de jardins cercados".




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[1] Os autores citados correspondem à classificação presente no Hanshu; Mêncio era confucionista; Zhuangzi, daoísta; Modi, moísta; Yinwen, nominalista; Yelao, político; Zouzi, escola Yin-Yang; Shen e Shang, legistas; Guigu, lógico-nominalista; Shijiao, escola eclética e Qinshi, da escola das conversações. Ver o texto de Jopert.

[2] Refere-se a grande queima de livros promovida pelo primeiro imperador de Qin, Qinshi Huangdi.

[3] Nominalista que criou um exercício lingüístico de lógica no qual defendia que um cavalo branco não é um cavalo pela diferenciação de categorias "cor" e "animal".

[4] Textos da época Han.

Traduções do texto;

Wenxin Diaolong. Versão em chinês por Chen Yu Fu

El corazon de la literatura y el cincelado de dragones. Granada: Comares, 1995. (trad. Alicia R. Eleta)

The Literary Mind and the Carving of Dragons . New York: Columbia Univer. Press, 1959 - 2a edição revisada: Hong Kong, 1993. (trad. Vincent Shih).

Il tesoro delle lettere: un intaglio di draghi. Roma: Luni, 1996 (trad. Alessandra Lavagnino).

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