Pequena Nota sobre um problema estranho: de onde vem a palavra "China"?, 2006

Depois de alguns anos na área da sinologia, acabamos nos acostumando com algumas novidades proporcionadas pelas descobertas arqueológicas e textuais que servem, deliciosamente, para desarrumar muito do que já tínhamos feito até então. No entanto, vez por outra uma dúvida tacanha nos aflige, e é nestes momentos que vemos a fragilidade de nosso conhecimento.

Recentemente, deparei com um desses problemas aparentemente estúpidos, porém concretos; de onde vêm a palavra “China”? Eu já sabia que ela não era chinesa, nem mesmo tibetana, japonesa, coreana ou aparentada do chinês; o que eu não havia percebido é que, no meio de tantas coisas interessantes que meu objeto de estudo preferido proporciona, eu esqueci de saber porque o nomeio desta maneira.

Após uma consulta rápida, foi com certo alívio que constatei que a maior parte dos sinólogos também não se preocupa muito com o problema – na verdade, nenhum apresenta uma resposta que não seja copiada de um dicionário etimológico qualquer. Mas quem disse que estes mesmos dicionários estão certos? Este outro aspecto da questão parece um pouquinho assustador; será que ninguém se preocupou em saber de onde veio este nome? Certo, o problema não é decisivo para a compreensão da sinologia. Mas como deixá-lo passar em branco?

Por conta disso, resolvi empreender uma pequena pesquisa para saber a origem deste nome, e explicá-lo em termos compreensíveis ao português. Nada que, definitivamente, mudo o rumo de nossa existência – mas de qualquer modo, serve-nos para ilustrar-nos um pouco mais sobre esse tópico curioso.

As primeiras versões
Em chinês, “China” se denomina zhong guo (djong guo), ou “terra, país do meio”. Uma outra versão é zhong hua (djong rua), ou “flor do meio”. Nenhum destes nomes nos dá uma pista para a origem de “China”, que já desconfiamos tratar-se de uma palavra eminentemente ocidental. Em japonês ou coreano, bem como no dialeto cantonês, não há nenhuma palavra que signifique “China” e que seja composta pelos sons “Tch”, ou “Ch”. Nos textos antigos, a própria palavra “zhong guo” aparece poucas vezes, e preferia-se utilizar o nome da dinastia ou da região apontada. Parece que somente com a fragmentária dinastia Zhou (XII – III a.C.) a noção de um “país do meio” irá desenvolver-se, mas a palavra levará ainda alguns séculos para se transformar em sinônimo de “China”.

A primeira grande re-unificação do território se dará, pois, durante a dinastia Qin (Tchin, III a.C.), o que alguns autores apontam como razão para justificar o ato de outras civilizações antigas nomearem a terra de “Chin”, e num futuro longínquo, “China”. Não sei, porém, se esta opção é pertinente. O persa antigo conserva a palavra “Chiu”; o hindi, "cina" [muito próximo]; em árabe, “Sin” (só num período mais recente a pronuncia evoluiu para “chin”, o que poderia representar uma opção, mas que veremos não ser ainda totalmente válida); os gregos chamavam de “Serica”, terra dos “seres”, produtores de seda (ser, sin), os mesmos “Sin” dos romanos, que empregavam o conhecimento dos gregos para denominá-los. A forma latina, porém, iria prevalecer em nossa língua: de “sin” vem a palavra “sinica” (chinês”) ou ainda “sinologia”, junção de sin + logia (em grego, “ciência”, “conhecimento”). Tais referências estão fartamente ilustradas na obra dos escritores greco-latinos como Estrabão, Ptolomeu, Plínio o Velho, entre outros. (veja meu livro Rotas do Mundo Antigo). Nas escassas vezes em que elas surgirem nas obras do período medieval e bizantino, elas guardariam estas formas arcaicas ate serem substituídas por outras novas palavras vindas do oriente, como “Khitai”, que veremos a seguir.

Qual é, no entanto, a proveniência da palavra “sin”, ou “ser”? Acreditar que ela é uma corruptela da palavra “Qin” é, ao meu ver, um erro. “Sin” significa seda, que em chinês é simplesmente “Si” (ssi). Ou seja, a chance da palavra em chinês ter sido adaptada diretamente ao árabe ou ao latim para significar seda como “sin” é bem mais provável do que se remeter a idéia da dinastia “Qin”. Dinastia, aliás, que foi historicamente efêmera e pouca representatividade tinha diante do mundo antigo; seus sucessores, os Han, estes sim seriam responsáveis por abrir novamente o processo de intercâmbio da “terra do meio” com o resto da Ásia e o Ocidente.

Novas palavras na Idade Média
No curso do período medieval ocidental, estas formas antigas desapareceriam e dariam lugar a palavras de origem oriental, tal como “Khitai”, palavra de origem turca utilizada para designar a China. Esta palavra teve origem numa dinastia breve, de origem mongólica, que governou uma parte do território chinês durante a idade média, e sabemos ser ela de largo uso entre turcos, árabes, uigures e russos. Foi dela, provavelmente, que evoluiu a forma “Cathay”, amplamente difundida na Idade média e moderna, em toda a Europa, como sinônimo de “China”.

Todos os viajantes europeus que se dirigem a China nesta época utilizariam, invariavelmente, “Cathay” para designá-la. João Carpino, Guilherme de Rubroeck, Montecorvino e o próprio Marco Pólo citam este mesmo nome constantemente (afirma-se que Pólo teria sido o primeiro a usar a palavra “China”, mas não a encontrei em nenhuma parte de seu texto). Nenhum deles parecia conhecer o antigo nome “sin”, ou “serica” dos antigos romanos para designar esta civilização. Por este mesmo motivo, aparentemente a possibilidade do nome “China” derivar de uma corruptela italiana do antigo latim “sin” (como “Cina”, que se pronuncia “tchina”) parece ser improvável. Resta-nos, então , rastrear uma última possibilidade.

Um neologismo português
Sem ufanismos lusófonos, mas a palavra “China” começará a aparecer, de fato, nos escritos portugueses sobre o Oriente em torno do século XV. Não ouso afirmar categoricamente que sua criação deriva diretamente da língua portuguesa, mas com certeza foram estes navegadores que a popularizaram em todo a Europa. Fernão Mendes Pinto, João Barros, Francisco Xavier e Gaspar da Cruz seriam os primeiros a utilizar a palavra “china” em seu vocabulário corrente. Mesmo assim, a forma “Cathay” não desapareceria rapidamente, como atesta o seu emprego por Bento de Góes em sua “Demanda de Cataio”. Mas falta explicar a possível origem etimológica portuguesa de “China”. Eles podem ter pego "cina" de empréstimo na Índia - mas os indianos pouco falavam sobre a China. A hipótese que avento, para tal, é o resgate da forma “sin” latina para o emprego em textos e traduções eruditas sobre a China – lembremos que os jesuítas portugueses, em seu afã de converter os chineses, iniciariam bem cedo um processo de transliteração das obras clássicas chinesas, como a de Confúcio, por exemplo, a fim de conhecê-los melhor e mais profundamente. Muitas dessas obras foram vertidas e publicadas em latim, a língua culta da época. Podemos crer, pois, que “China” fosse uma versão da “Sina” ou da “serica” antiga?

Nos resta ainda, de forma jocosa, propor que o nome “chin” possa vir, também, da sonora língua chinesa, cuja profusão de sons envolvendo “ch”, “tch”, “dj”, etc confunde rapidamente os aprendizes. Teriam assim os portugueses chamados os chineses de “chins” pelos seus inúmeros “chs”...?

Bem, a parte esta última teoria – uma “piada sinológica”, obviamente – a questão fica em aberto, posto que ela parece não ter uma solução prática. Não por ser um falante de português, mas a hipótese sobre a adaptação “sina” – “china” parece ter uma certa plausibilidade; e enquanto não surge uma explicação mais aprimorada, satisfaço-me com essa.

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