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Zhuangzi e o Daoísmo Popular - (2000)

Com Zhuangzi (IV a.C.), a escola daoísta recebeu a adição de um incrível contador de histórias, que tornou o Dao acessível aos leigos, deixou uma mensagem humanística profunda e surpreendeu a todos com sua sensibilidade, agudeza e humorismo.

O texto de Zhuangzi não era menos profundo de que o de Laozi; mas sua maior virtude, talvez, tenha sido a de tornar a idéia do dao menos hermética, mais legível e compreensível, ilustrando-a com parábolas instrutivas e, muitas vezes, divertidas. Se Confúcio era um apaixonado pela história tradicional, com seus discursos edificantes e diretos, Zhuangzi era um artesão de contos sutis e despojados. Ao defender o caminho proposto pelos daoístas, este autor questionou diversas vezes o senso comum, a ideologia e a cultura. Como afirma em um de seus contos: “Se um homem dorme em um lugar úmido, resfria-se e morre. Mas e as enguias? Viver em cima de uma árvore é difícil, e esgota os nervos de qualquer um. Mas que me dizes dos macacos? Entre o homem, a enguia e o macaco, quem habita o lugar certo, absolutamente? Os seres humanos alimentam-se de carne, o gamo de erva, as centopéias de cobras, as corujas e corvos de ratos. Desses quatro, qual é o gosto certo, absolutamente? O macaco se une a macaca, o gamo à corça; as enguias unem-se aos peixes, enquanto os homens admiram Mao Qiang e Li Chin à vista dos quais os peixes mergulhariam, horrorizados, na profundidade das águas, as aves voariam alto no Céu e os gamos fugiriam correndo. Quem dirá, contudo, qual é o correto padrão de beleza? Na minha opinião, o padrão da virtude humana, e do positivo e negativo, é tão obscuro que é impossível realmente saber qual seja”.

Vejamos a primeira fábula: quem pode saber o que é melhor, em absoluto? Quantas vezes alguém pode indicar um caminho, achando que é o melhor para o outro, desconhecendo-lhe por completo o íntimo? Zhuangzi não negava o valor da experiência humana, mas contestava sua abrangência e especificidade. O que os seres vivem, em geral, são construções ideológicas e culturais alheias aos impositivos do espírito (ZZ, 2), mas como se pode vivenciar esta mesma espiritualidade em meio as demandas da sociedade? Quem pode saber, realmente, o que é melhor pra nós, senão nós mesmos? Zhuangzi não era, porém, um defensor do egoísmo e da imaturidade. Para ele, as experiências humanas deveriam ser a base sobre qual nós observaríamos a vacuidade das causas e efeitos, e não uma muralha, construída pelas decepções, que fechariam nossa alma ao mundo. Em geral, o chamado “conhecimento da vida” seria, na visão deste pensador, nada mais do que um conjunto de amarguras e rancores que induzem as pessoas à sempre lutarem pelo que é transitório, o que dá prestígio, por aquilo que não é a definitiva realidade do ser. As sensações não podem servir para igualar, a todos, numa visão egocêntrica e pessimista do mundo: elas têm por fundamento, na verdade, mostrar às pessoas as diferenças que existem entre os seres da natureza. E isto não faz com que haja, necessariamente, uma hierarquia cósmica que determine a posição de cada um no universo; cada qual tem, de fato, seu lugar nos ciclos naturais, cada um com sua importância, ninguém melhor ou pior do que o outro.

É por isso que Zhuangzi recusou as honrarias de um bom cargo: “Zhuangzi estava pescando no rio Pu, quando o príncipe de Zhu mandou dois altos funcionários convidá-lo para assumir o cargo de administrador do Estado Zhu. Zhuangzi continuou pescando e, indiferente, disse: "Ouvi falar que em Zhu há uma tartaruga sagrada que morreu há cerca de três mil anos. E que o príncipe guarda cuidadosamente essa tartaruga em um cofre no altar de seus ancestrais. Ora, para essa tartaruga seria melhor estar morta e ter os seus restos venerados, ou estar viva e arrastando a sua cauda na lama?""Seria melhor estar viva e arrastando a sua cauda na lama", responderam os dois altos funcionários. "Ide embora!", gritou Zhuangzi. "Eu também prefiro arrastar a minha cauda na lama". Porque se deixar prender em obrigações matérias e transitórias, cujas preocupações cotidianas e monótonas nada tem haver com a realidade última do mundo (ZZ, 17)? Vivendo de pequenos trabalhos, ele conseguia dar de comer a sua família. Tinha o que precisava para seu sustento, então porque querer mais? Seria comodismo? Ou a negação daquilo que muitos querem, o Poder e o Prestígio?

A força impositiva, na visão daoísta, é efêmera e rápida, em contraposição a suavidade, que é durável e sutil. Assim também seriam o Poder e o Prestígio: hoje, um homem é soberano; e amanhã, escravo de outro rei. Somente aqueles que percebessem o caminho seriam capazes de compreender que todas essas coisas passam. A fome, sim, seria uma realidade; nascer, morrer, procriar, eis o que todos fazem, do mais alto político até o mais baixo popular. Disto Zhuangzi concluía que todas as disputas em torno de valores, posses, bens e posições nada mais eram do que construções humanas, pois todos, enfim, precisam do mesmo básico para viver. Afirmando uma idéia já proposta por Laozi, o segredo da vida consiste em desenvolver a capacidade de ser flexível e adaptável.

É por isso que Zhuangzi encerra brilhantemente sua vida retribuindo, à natureza, seu corpo (ZZ, 32). A mesma Mãe que dá, é a que tira. E, no entanto, como podemos achar que não fazemos parte dela, se somos entes perenes, já que no ciclo cósmico não há perdas, mas apenas manifestações da mesma matéria? Como podemos nos fazer mais ou menos importantes que outros, se somos feitos do mesmo princípio e se necessitamos das mesmas coisas? (ZZ, 7)

Zhuangzi é um apanágio sobre o preconceito e sobre o egoísmo. Não que Lao zi não tenha se pronunciado, e bem, sobre estas coisas, mas Zhuangzi explorou-as ao máximo, aproximando seu discurso das pessoas mais ignorantes e menos instruídas. A salvação estaria ao alcance de todos, e ela seria facilmente alcançada por aqueles que conseguissem de desprender dos grilhões materialistas do mundo para perceber, com naturalidade, a presença do caminho (Dao), da existência real do Ser.

Muito nos impressiona ver que, no século IV a.C., este autor já era capaz de discutir as diferenças sociais e materiais sob uma ótima humana, isenta de preconceitos, pautada unicamente numa crítica ao mundo, e não somente à sua cultura. Se nesta época já era possível realizar tal inferência, vemos que a criação de um conceito humanístico não é privilégio de nenhuma sociedade, mas de uma sabedoria universal, inerente a todos os povos.



Bibliografia Indicada:

ZZ = Livro de Zhuangzi

CHENG, A. Historia del pensamiento chino. Madrid: Bellaterra, 2003.

COOPER, J. O Taoísmo. São Paulo: Cultrix, 1986.

GRANET, M. O pensamento Chinês. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

PALMER, M. Elementos do Taoísmo. Rio de Janeiro: Ediouro, 1993.

ZHUANGZI. Chuang Tzu. São Paulo: Cultrix, 2000. trad. S. Hamill e J. Seaton

ZHUANGZI. Chuang Tzu. São Paulo: Cultrix, 1988. trad. B. Watson.

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