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O "Insidioso Doutor Fumanchu" e a construção do orientalismo na literatura e no cinema


Boris Karloff como Fumanchu


“Imagine um homem alto, magro e felino, de ombros elevados, testa ampla como a de Shakespeare, rosto satânico, crânio raspado, olhos oblíquos, magnéticos, de pupilas verdadeiramente verde-gato. Acrescente à imagem toda a cruel ambição das raças orientais, e mais um intelecto gigantesco, apoiado por todos os recursos de um governo abastado, mas que ignora por completo sua existência. Imagine esse personagem medonho e terá um quadro mental do Dr. Fu-Manchu, o perigo amarelo em pessoa”.
O Mistério do Dr. Fu-Manchu, 1913.


Sax Rohmer (o estranho pseudônimo de Arthur Henry Sarsfield Ward, 1883 – 1959) foi, provavelmente, um dos mais importantes expoentes do orientalismo na literatura mundial. Candidato ao posto de um dos maiores difamadores das culturas asiáticas que já existiu (apesar de gostar de posar para fotos com um bom robe de seda chinês), Sax foi um destes autores que - conscientemente - difundiram o mito dos amarelos malvados, astutos e perigosos. Sua criação principal, o Doutor Fumanchu, representa a síntese de um amplo conjunto de preconceitos amarrados frouxamente (mas de modo hábil) pela teia da ignorância ocidental. Não devemos, no entanto, menosprezar o valor de seus textos - além de serem uma curiosa fonte histórica, sabemos que a literatura é formadora de opiniões, seja ela calcada no romance, na aventura policial (como no caso de Sax) ou mesmo na ficção científica.



Sax Rohmer

Decidi neste texto analisar esta curiosa peça literária, que hoje passa desapercebida pelo público, mas que já foi, em sua época, geradora de uma longa serie de "aventuras detetivescas" de sucesso e teve inúmeras continuações no cinema. O tema dos trabalhos de Sax, porém, é o nosso problema central: como ele constrói a idéia do "oriental" em sua obra?


A Série do Doutor Fumanchu
Os romances policiais do doutor Fumanchu se iniciam pelo clássico "O mistério do Doutor Fu-manchu" (nos EUA, o livro foi rebatizado de “O insidioso Doutor Fumanchu”), obra que obteve vendagem significativa em sua época, e que chegou a ser traduzida no Brasil em 1935. Fumanchu era um cientista formado nas melhores academias européias que decidiu usar seus conhecimentos para dominar o mundo, criando uma vasta rede criminosa (a “Sifan”) composta de asiáticos de diversas procedências:

“Esse homem, seja um fanático, ou um agente designado, é sem dúvida a mais maligna e extraordinária personalidade existente no mundo de hoje. É um lingüista que fala com fluência quase todos os idiomas civilizados e a maioria das línguas bárbaras. É conhecedor de todas as artes e ciências aprendidas numa grande universidade. É também adepto de determinadas artes e ciências escusas que ele não aprenderia em universidade alguma. E possui a inteligência de três homens geniais” (O mistério do Dr. Fu-manchu, cap.1)

Seu principal adversário era o agente britânico Nayland Smith, cuja perspicácia e sagacidade foram diretamente importadas da figura de Sherlock Holmes de Conan Doyle - Nayland têm até um assistente, chamado Sr. Petrie, copia não autorizada do sr. Watson.

Fumanchu, além de criminoso, havia descoberto um elixir da longa vida, tinha olhos verdes (!) e compartilhava a vida de crimes com sua filha, Falosue, que inúmeras vezes tentou usurpar o poder do pai e vivia como uma mulher luxuriosa, que adorava insinuar-se para homens brancos - ela, aliás, acaba sempre se apaixonando ou cedendo aos encantos de um deles e, por conta disso, estraga os planos do pai. No primeiro romance da série, uma das escravas de Fumanchu, Karamaneh, acaba salvando a vida de Petrie ao menos três vezes, por conta de uma paixão arrebatadora "a moda oriental", como insiste Sax ao longo do livro. Aliás, o protótipo das mulheres doidivanas dos filmes de espionagem se delinea nitidamente na consideração que o autor faz sobre Karamaneh:


Está apaixonada, Petrie - por que finge que não enxerga? Você não conhece a mentalidade oriental como eu conheço. Compreendo muito bem a posição da moça. Ela teme as autoridades inglesas, mas se deixaria capturar por você! Se a agarrasse pelos cabelos e a arrastasse pelo portão, ameaçando-a com uma açoite, contaria tudo que sabe e salvaria sua estranha consciência oriental com a reflexão de haver falado à força. Não estou brincando. É assim, palavra. E ela o adoraria pela brutalidade, considerando-o forte e dominador! (Mistério de Fumanchu, cap.12)


Alguns elementos orientalistas estão presentes de forma bem clara nesta composição dos personagens: os asiáticos são conspiradores, traiçoeiros e vitimas de suas próprias vontades. Fumanchu é um especialista do mal que se formou na Europa, e seu conhecimento cientifico só poderia advir mesmo de uma "civilização superior" - no final sempre representada por Nayland Smith, que não se cansa em frustrar seus intentos malignos. Fumanchu também é cercado por uma corja de asseclas dos mais diversos tipos - sua organização, os "Sifans", é composta por manchus, chineses, mas seus assassinos preferidos, por exemplo, são os Dacoits e os tughis, da Índia, seguidores da deusa Kali. Suas armas principais são as dos fracos e astutos: facas, venenos, animais peçonhentos e armadilhas. O que Sax fazia, neste caso, era juntar uma série de elementos asiáticos exóticos, vindos dos tradicionais folhetins que circulavam na Inglaterra da época, e apresentá-los dentro de um sistema aparentemente coerente, em que os "orientais" figuravam homogenizados como se fossem apenas um único povo ou civilização, cujas diferenças calcavam-se somente em peculiaridades físicas ou excêntricas (como no caso de aspectos religiosos, costumes, etc.):

“Fu-Manchu transformava-se numa ameaça para a Europa e América pior ainda que a peste. Ele era cientista formado por uma grande universidade, um explorador dos segredos da natureza e mais do que qualquer outro ser vivo mergulhara no desconhecido. Sua missão era remover todos os obstáculos humanos do caminho do movimento secreto que se espalhava pelo Extremo Oriente” (idem, cap.14).


Mas Sax não vinha para explicar, e sim para confundir e criar. Uma das novidades, em seu texto, era a de adicionar elementos criativos às conspirações, envolvendo tecnologia, associações sinistras e organizações criminosas que inspirariam diretamente Ian Fleming na criação das tramas de seu personagem definitivo, James Bond.

Com tudo isso, a série engatou um sucesso imediato com varias continuações, e já em 1921 era transposta para o cinema pela primeira vez. Este índice nos mostra o quanto a sociedade européia do momento estava inclinada, com bastante força, a continuar acreditando nos mitos orientalistas, ainda que existissem estudiosos dispostos a provar o contrário. Senão, como os trechos a seguir se justificariam?

“Se existir alguém capaz de alertar o Ocidente para o Despertar do Oriente, alguém que ensinaria os surdos a ouvir, os cegos a ver que todos aqueles milhões estão apenas à espera de um líder, essa pessoa morrerá” (idem, cap. 1) pois “nenhum homem branco é capaz de compreender a fria crueldade dos chineses” (cap. 10), e “Oriente e Ocidente não podem misturar-se” (cap.18).

O notável é que o personagem de Fumanchu continuou a ter uma fantástica sobrevida no cinema, mesmo após Sax falecer em 1959. A construção de um estilo de romance que misturava aventura policial, ficção científica e exotismo marcou época e se tornou referência para os escritores e produtores posteriores.

Talvez um dos melhores exemplos disso seja o filme "A máscara de Fumanchu", com Boris Karloff, em 1932. Nada poderia ser tão fiel ao estilo rocambolesco de Sax do que uma história em que Fumanchu, o perverso cientista chinês (manchu), queria recuperar uma máscara e uma espada de Gengis Khan (mongol) que, postas nas mãos do deus Shiva (indiano) por meio de um ritual que misturava sagrado e eletricidade, colocaria todo o poder do mundo em suas mãos!

Alguns tópicos usuais se repetem na narrativa: a paisagem é incompreensível, e se trafega por entre matas, estepes e cidades como se elas fossem uma única região geográfica, impossível na verdade de ser definida; Falosue se enamora dos ocidentais; Fumanchu tem seus planos cientifico-maquiavélicos frustrados na última hora; mas o final ainda guardava uma derradeira piada que define o caráter inteiramente racista do filme: um garçom chinês, que serve drinks no navio onde estão os "heróis", aborda-os oferecendo bebidas e ouve a seguinte pergunta de Nayland Smith: "você por acaso nunca estudou numa universidade, não?" - com a resposta negativa do subserviente e idiotizado garçom, todos riem, então, e brindam o final da aventura.

O quanto é necessário para apreendermos o significado problemático das obras de Sax? Ele cria verdadeiramente um estilo de literatura orientalista, que fez história e gerou inúmeras franquias.


Fu-Manchu em ação

Para se ter uma idéia, nem o Brasil escapou da fúria de Fumanchu. Um dos filmes do personagem, produzido por Jess Franco, foi realizado no Rio de Janeiro, como nos informa Fábio Vellozo no fabuloso artigo “Fu Manchu Segundo Jess Franco”:

“A parceria Towers-Franco dá origem ao quarto filme da série, Fu Manchu e o Beijo da Morte (1968), que, para desgosto de Lee, baseia-se novamente num roteiro do próprio Towers, com apenas algumas semelhanças com os textos originais de Rohmer. Nele, os obstinados Fu Manchu (Lee) e sua filha Lin Tang (a maravilhosa Tsai Chin, presença assídua desde o primeiro filme da série) montam sua base de operações em uma caverna na América do Sul, de onde pretendem, mais uma vez, dominar o mundo. O plano é engenhoso: dez belas mulheres são seqüestradas e infectadas com o poderoso veneno da "cobra negra", sendo posteriormente enviadas para diversas capitais do mundo para administrar o "beijo da morte" em personalidades de renome mundial. Obviamente, um dos infelizes escolhidos é o incansável arquiinimigo de Fu, Nayland Smith (Richard Greene, substituindo Wilmer), que após ser beijado em sua residência londrina por Celeste (a linda Loni Von Friedl, do ótimo spaghetti western I'll Sell My Skin Dearly, de Ettore Maria Fizzarotti), percebe que sua única chance de cura é partir imediatamente para a América do Sul para localizar o esconderijo de seu velho rival. Cego e a cada dia mais fraco, Smith e seu fiel assistente Dr. Petrie (Howard Marion Crawford, também fazendo sua quarta aparição na série) são ajudados na difícil missão pela enfermeira Ursula (Maria Rohm) e pelo arqueólogo Carl Jansen (Götz George) e ainda tem de enfrentar os inúmeros perigos das florestas sul americanas, na forma do bando de Sancho Lopez (o espanhol Ricardo Palacios, com direito a chapéu de cangaceiro). Certamente o mais fraco exemplar da série, Fu Manchu e o Beijo da Morte mostra um Franco contido e discreto, muito distante de seus trabalhos mais autorais. Ainda que a trama aparentemente desse margem para que Franco, um fã confesso da obra de Rohmer, pudesse mais uma vez tornar públicas suas obsessões com sexo, sadismo e morte (a idéia do exército de garotas hipnotizadas distribuindo beijos da morte pelo mundo afora remete a outros filmes do espanhol), o resultado é curiosamente impessoal.
Os fãs de Franco sabem que o diretor nunca foi afeito a seqüências de ação e as deste filme, canhestras em sua maioria, provam isso. O final, quando o esconderijo de Fu Manchu é destruído, é especialmente insatisfatório, tamanha a facilidade com que Nayland Smith e cia. se livram do gênio do mal.
Ainda assim, o filme guarda alguns atrativos, especialmente para os fãs brasileiros. Apesar da ação se passar na fronteira imaginária entre "Melia" e "Santa Cristabel" (em determinado momento, Smith diz que Fu Manchu está escondido "em uma determinada região da América do Sul, protegido de um lado pelos Andes e do outro pelo Mato Grosso"), Jess e sua equipe desembarcaram no Rio de Janeiro, onde o filme foi praticamente todo rodado.
Em uma longa conversa, a atriz e produtora Olívia Pineschi (que aparece como uma cigana nas seqüências onde "Melia"é invadida pelo bando de Sancho Lopez) me relatou que Franco estava "impossível" em sua passagem por terras cariocas. Encantado com a "anatomia" das brasileiras, o erudito Jess chegou a convidar algumas das atrizes a acompanhá-lo em sua volta para a Espanha. Olívia também me conta que, além da Floresta da Tijuca, que serviu como lar para Fu Manchu, Franco e sua gangue também rodaram cenas no Parque Lage (como o "Palácio do Governador" de "Santa Cristabel") e nos estúdios da Atlântida, onde foram filmados alguns dos interiores da caverna do perigo amarelo, com suas masmorras de paredes mal iluminadas. […]
De longe, o personagem mais interessante do filme é o do bandido Sancho Lopez, vivido pelo veterano dos "spaghetti westerns" Ricardo Palacios, sem dúvida o mais entusiasmado de todos os atores. O problema é que Franco provavelmente esqueceu de avisar a Palacios que ele agora estava atuando em um filme de Fu Manchu! Ótimo, mas totalmente deslocado, Lopez, um misto de bandido mexicano e cangaceiro, parece ter acabado de sair do set de filmagem de um dos inúmeros faroestes italianos no currículo de Palacios.
Franco nunca demonstrou muito respeito pelos "mocinhos" de seus filmes e Fu Manchu e o Beijo da Morte não é exceção. Greene (de Contos do Além, de Freddie Francis) no papel de Nayland Smith, passa a maior parte do filme imóvel, deitado numa cama e George, no papel do obrigatório "herói ocidental", o aventureiro/arqueólogo Carl Jansen, também não causa maior impacto, apesar de se sair bem nas cenas de ação. O maior destaque fica por conta de Marion-Crawford, novamente encarregado de injetar humor na narrativa. Na pele do Dr. Petrie, Crawford tem as melhores frases do filme, todas as custas de imortais hábitos britânicos, como a sua constante irritação com a falta de chá quente na selva!
Quanto ao elenco brasileiro, Frances Kahn e Isaura de Oliveira são as únicas a receberem crédito. Kahn é Carmen e Isaura é Yuma, ambas integrantes do grupo de dez mulheres selecionadas por Fu Manchu para levar a cabo seu diabólico plano de dominação mundial. Isaura recebe atenção especial de Jess em uma longa seqüência onde tenta seduzir Sancho Lopez. Dentre os atores não creditados, além de Olívia (que ao longo de sua extensa carreira também atuou em outras produções estrangeiras como Love in the Pacific (1970), de Zygmunt Sulistrowski e 99 Women (1969), outro filme de Franco com cenas rodadas no Rio), aparecem Oswaldo Loureiro, como o chefe dos capangas de Fu Manchu (usando bandana vermelha e trajando um roupão preto) e o veterano Rodolfo Arena, como uma autoridade de "Melia" rapidamente despachada pelo bando de Lopez”.

Até a América Latina servia de palco, então, para os artifícios do gênio diabólico.

A leitura destes livros e filmes nos coloca, conseqüentemente, em contato com o roteiro necessário a produção de uma "boa" peça orientalista; misture personagens asiáticos da forma mais esdrúxula possível, crie tramas misteriosas e rocambolescas, mas sempre fáceis de aceitar, e faça com que no final os "heróis" sempre tenham uma resposta calcada em seu gênio ocidental imbatível. Se observarmos bem, estes itens já deram as caras em inúmeros filmes e livros posteriores: "O Satânico Dr. No", por exemplo, é o primeiro filme de James Bond, com um pérfido cientista chinês instalado numa ilha do caribe, que usa energia atômica para fins duvidosos e usa de lendas locais para disfarçar um carro blindando de criatura do mal. Até o quarteto dos Trapalhões se valeu da fórmula para realizar, na década de 70 o divertido "Os Trapalhões nas minas do Rei Salomão", misturando a obra de Haggard (“As minas do rei Salomão”, 1885) com paisagens árabes, africanas, fenícias e da região litorânea do Rio de janeiro!

Ao nos encontramos com estes materiais, seria necessário um pouco mais de cuidado de nossa parte ao permitirmos que eles criem uma imagem deturpada das culturas asiáticas. Talvez a melhor crítica - ainda que indireta - à obra de Sax Rohmer tenha sido o último filme de Peters Sellers, “The Fiendish Plot of Dr. Fu Manchu” realizado em 1980. Nele, o ator faz uma paródia da série, sendo tanto Fumanchu como Nayland Smith, e mostra para nós algo fundamental: que a construção do personagem é, inevitavelmente, uma projeção do autor. Sax provavelmente só pensava em ser o seu herói; mas como não poderíamos supor que ele também era o vilão?

Nota:
Apesar de ser difícil achar as traduções da obra de Sax para o português, aqueles que tiverem interesse podem facilmente achá-las em inglês na rede.

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