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Para quando uma nova ordem mundial?


As balizas de nossas concepções sobre Ordem Mundial são muito recentes, e remetem-se a herança da Guerra Fria. Apesar da grande propaganda que se formou em relação ao fim do comunismo – e ao suposto triunfo do capitalismo -, o mundo continua demarcado, de certo modo, por estes sistemas. São vários os exemplos que podemos dar; a Rússia, por exemplo, é governada por um ex-funcionário da KGB, e continua mantendo uma forte influência sobre seus vizinhos do Leste Europeu e da Ásia Central; estas mesmas repúblicas, quase todas, vivem também numa “economia de mercado” dominada por regimes totalitários, que pouco alteraram a estrutura de poder construída na era soviética; resta ainda a China, que se apregoa comunista e defende um sistema econômico misto.

Do outro lado, os regimes auto-intitulados Neoliberais começam a enfrentar o ônus de um mundo concorrencial, e precisam arcar com a pesada dívida advinda da conversão de muitos países ao “mundo livre” (como foi o caso da Alemanha Oriental). A corrida armamentista parece não ter arrefecido, e atualmente as tecnologias militares de ponta tem chegado as mãos de nações menores e muitas vezes instáveis – algumas das ex-repúblicas soviéticas já nasceram, inclusive, com poderio nuclear.

Tais problemas têm levantado uma questão fundamental no campo das relações internacionais; quais serão os modelos políticos e econômicos do futuro? Será possível afirmamos algum tipo de continuidade, ou de retomada dos antigos sistemas? E de que modo há de se organizar esta nova ordem mundial?

A proposta deste sucinto texto é de examinarmos algumas destas possibilidades, que tem se construído espontaneamente e parecem indicar as trilhas da nova geopolítica. Como especialistas em humanidades, não fazemos previsões, mas apostas – por conta disso, o tom das afirmações que se seguem é, justamente, de incerteza.

Neoliberalismo – Autoritário ou não

O custo do “fim do comunismo” foi criar um mercado mais competitivo, com um significativo aumento do número de consumidores mas também, como novos vendedores – e alguns deles bastante fortes. O caso da Rússia é claro – agora ela pode vender armas com tecnologia de ponta sem que os compradores sigam uma linha ideológica atrelada à sua. O mercado chinês, entendido como o de maior potencial em todo mundo, abriu-se para os estrangeiros e, no entanto, os chineses continuam a exportar mais do que importar, invertendo a balança de valores mundiais. O que isso significa para os regimes liberais?

Inicialmente, propostas de cunho restritivo – medidas protecionistas, taxações, regulações de mercado – estão sendo apresentadas justamente pelos países que sempre defenderam a livre concorrência! O capitalismo tem a vantagem ideológica de não se propor qualquer tipo de causa humanística, e por isso pode se dar o luxo de se adaptar as circunstâncias e ser contraditório quando necessário. No entanto, a tensão derivada desta situação inusitada tem levado algumas sociedades a invocarem um certo radicalismo político. As medidas necessárias para a contenção da crise exigem governos fortes e decididos, com contornos muitas vezes autoritários. Um exemplo é o do Japão, a nação “mais ocidental” da Ásia. Com a economia combalida pela concorrência chinesa e coreana, o país tem tomado medidas protecionistas, aumentou seus investimentos dentro da mesma China e a sociedade vêm defendendo o aumento das forças armadas, quebrando o tabu militarista herdado do final da 2ª guerra – afinal, os japoneses tem receio de seus concorrentes asiáticos, ainda que esta preocupação possa não ser totalmente real. O que vemos, pois, são medidas aparentemente contraditórias, cuja lógica não nos parece clara se não entendermos a condição atual deste país. Em primeiro lugar, o Japão vem se sentindo abandonado pela política americana na Ásia, que tem privilegiado o comércio com a China e a Índia; por outro lado, o país ganhou um bom dinheiro investindo nos EUA na década de 80 e 90, mas a reação do mercado americano que se seguiu praticamente brecou a expansão dos produtos nipônicos no país, delimitando um espaço bem definido para os mesmos; por fim, a proximidade do imenso mercado chinês e do sudeste asiático parecem ser uma solução para seus investimentos futuros. No entanto, todas estas condições seguem-se à necessidade dos nipônicos construírem, por conseqüência, uma política de defesa própria e manutenção dos seus interesses, desvinculando-se do antigo aliado americano. Isso tem forçado o governo japonês a tomar medidas cada mais enfáticas para o controle tanto da sociedade quanto da política – recentemente, o país voltou a adotar, discretamente, a pena de morte.

A política americana também tem mostrado sinais claros de autoritarismo, como no caso da “doutrina Bush” de interferência no restante do mundo. Um sinal de cansaço desta ideologia intervencionista veio com a atual crise americana, derivada de um gasto militar exorbitante, da falta de renovação nos investimentos e da grande dependência do petróleo iraquiano, entre outros elementos. A insatisfação do público americano se manifestou claramente na recente eleição do 1º presidente negro da América, Barak Obama, que terá que arcar, no entanto, com uma economia em crise. O governo americano dependeu até aqui de suas práticas autoritárias. Como ele fará sem elas?

Mesmo o Brasil pode ser qualificado como um dos países que enfrenta o dilema neoliberal – elegemos um presidente considerado de esquerda, mas cujo governo manteve praticamente a mesma estrutura econômica neoliberal de seu antecessor. Esta mesma sociedade brasileira, capaz de não perceber esta contradição, ao primeiro sinal de crise social invoca novamente a presença do exército e de lideranças fortes no cenário nacional – ainda que tenhamos saído de um regime político militar faz pouco mais de duas décadas.

A “agenda neoliberal” (se é que há uma) ainda tem outros obstáculos pela frente; a causa ecológica, antes um discurso vago de idealistas, transformou-se num verdadeiro desafio econômico, posto que o crescimento demanda um impacto ambiental que, posteriormente, se reverte em prejuízo para todos os níveis da sociedade; a tão propagandeada globalização já começou, igualmente, a mostrar sua faceta problemática, que se reflete no alto índice de pirataria comercial e industrial, roubo de tecnologias e uma renovação do contrabando. Estes aspectos colocam em xeque a teoria liberal de auto-regulação do mercado, e forçam uma inevitável interferência do Estado no fluir da democracia. Num futuro próximo, os países que advogam a continuidade desta proposta política terão, enfim, que encontrar mecanismos reguladores de alguma espécie. Como afirmou François Chesnais (2008),
Como pensar um “outro mundo possível” se ainda não foram estabelecidos os papéis fundadores do interesse e da utilidade na dominação ideológica neoliberal? Ou, pior ainda, como assumir uma nova sociedade se nós compartilhamos os pressupostos da atual, como demonstra nossa atitude complacente face ao individualismo contemporâneo?

“Neoconservadores” e Religiosos

O termo “neoconservador” é um anacronismo materializado em palavras, mas necessário para explicar o que este outro modelo propõe. Os neoconservadores pretendem resgatar antigas práticas sociais, culturais e morais como cerne do seu discurso de recuperação do mundo. Em geral, o tema central desta ideologia calca-se na religião, e no seu transplante para dentro do Estado.

Esta corrente tomou bastante força após o colapso da União Soviética, e a miragem do “fim do comunismo”. Nisso surgiu um vácuo ideológico na esquerda mundial, que precisava ser preenchido por algum novo tipo de ideal salvacionista e assistencialista. No entanto, os neoconservadores angariaram uma força inesperada nos países ditos de “direita”, por um conjunto de razões prosaicas. A principal é que, com o “fim” do socialismo, muitos países entenderam que os direitos trabalhistas e sociais não eram mais necessários – afinal, estas conquistas históricas foram obtidas, em grande parte, por receio dos comunistas -, e começaram gradualmente a abolí-los, abandonando na pobreza uma grande e incalculável massa de trabalhadores dependentes dos antigos sistemas de CLT’s, saúde e previdência.

Outra razão importante para este movimento tomar corpo se baseia numa reação direta das ex-colônias africanas e asiáticas contra o liberalismo proposto pelas nações européias, cuja experiência trágica de violência e espoliação criou uma certa aversão à idéia de “cultura ocidental”. O resultado disso se manifesta nos inúmeros regimes políticos surgidos ao longo da década de 90, cuja orientação religiosa e conservadora marcam a reestruturação do Estado. O caso do Afeganistão é apenas um entre outros tantos, dado que o problema dos fundamentalistas era a presença “comunista-ateísta” em seu país, ponto de destaque para uma mídia internacional que buscava alardear a derrota do gigante soviético. No entanto, é larga a lista de países islâmicos que vivenciam esta condição, grande parte formada por ex-colônias européias. Israel não deve ser pensado de forma diferente, posto que o conservadorismo religioso têm ganho vários assentos no parlamento; a Índia, famosa por sua milenar tradição de tolerância religiosa, entrou para este grupo ao eleger um primeiro ministro defensor do “fundamentalismo hindu” (uma forma de aberração nacionalista atípica); por fim, os países democráticos vêem crescer em passos largos o número de candidatos que pautam suas posições políticas em função de uma determinada religião ou crença. Estes líderes religiosos, não raro, têm obtido sucessos locais – e suas concepções administrativas são bastante estreitas. A transposição da comunidade religiosa para dentro do aparelho burocrático só reforça as práticas de clientelismo e proteção, mas isso na verdade não é um problema – e sim uma “solução” – para estes neoconservadores. Calcados num pretenso moralismo, seus discursos admitem que a construção de um Estado forte e coeso depende, exclusivamente, de uma vasta rede de pessoas ligadas por estes laços teológicos, que naturalmente reforçam os vínculos de confiança, unidade e coesão.

No Brasil, este fenômeno tem se tornado um fator importante nos pleitos eleitorais, e nos EUA os políticos não se furtam a usar o nome de Deus em seus pronunciamentos. Samuel Huntington, escritor do livro Choque das civilizações (leitura de cama da administração Bush) defende plenamente a idéia de que um conflito entre o Ocidente e o resto do mundo acontecerá, pois as culturas afro-asiáticas não alcançaram um desenvolvimento “racional” adequado e democrático, muitas vezes em função de seus sistemas religiosos. Bernard Lewis, outro americano especialista em mundo árabe, manifesta abertamente o seu receio em relação aos países islâmicos; por outro lado, quando um país laico como a China impõe a lei sobre as associações religiosas, ele é acusada de repressora e intransigente.

Os neoconservadores representam um desafio aberto para regimes atualmente estabelecidos. Sua retórica violenta e messiânica põe a democracia numa berlinda existencial; como, por exemplo, um país - o caso da Inglaterra, uma vítima recente de atentados à bomba, é mais do que apropriado - pode permitir a liberdade religiosa se alguém, numa mesquita instalada neste mesmo país, prega a idéia de que o Ocidente deve ser destruído? Do mesmo modo, os chineses vivem numa sociedade onde o sexo nunca foi pecado, o controle de natalidade é necessário e a lei serve para todos; assim, quando um pregador cristão diz, na China, que o sexo é pecado, que só se deve fazê-lo para procriar e que este país é autoritário porque reprime seus pontos de vista, o que mais ele pode esperar após desafiar abertamente as leis e os costumes?

Em movimento contrário a pregação globalizada pela tolerância e pela liberdade, os neoconservadores são um grupo unido e determinado a alcançar o poder, mas as conseqüências desta legitimação são extremamente perigosas.

Os modelos asiáticos

Uma via alternativa aos dois modelos anteriormente apresentados é aquele representado pelos países asiáticos, notadamente a Índia e a China. O Japão, por sua forte influência ocidental, talvez não valha aqui como um modelo político que possamos caracterizar estritamente de asiático; de fato, na década de 80 e 90 os japoneses trouxeram ao mundo novas disciplinas de trabalho que atraíram sobremaneira os ocidentais, mas o essencial de seu planejamento é em grande parte fundamentado nas teorias americanas.

A Índia representa um desafio populacional e cultural de dimensões épicas, e o termo subcontinente indiano talvez seja o mais apropriado para designar os vários “países” existentes dentro da mesma Índia. O inglês, verdadeiro articulador de uma civilização de múltiplas línguas e visões sobre o mesmo hinduísmo, tem feito o seu papel ao inserir o país no mercado ocidental com a vantagem do idioma. A Índia, porém, ainda não encontrou um modelo para sua economia. Após anos de orientação pró-soviética, na década de 80 os indianos aderiram ao pragmatismo americanista, renovando suas práticas econômicas e criando, inclusive, estratégias alternativas e inovadoras para a recuperação da sociedade. As associações de micro-crédito, por exemplo, são uma verdadeira revolução no interior do país, e os indianos podem se orgulhar de ter inventado uma proposta extremamente interessante para as populações do “terceiro mundo”. No entanto, a descentralização do Estado gerou um distanciamento político da realidade social, difícil de ser administrado. Recentemente, houve uma safra recorde que poderia aliviar o endêmico problema da fome; no entanto, a baixa no preço dos grãos empobreceu ainda mais os camponeses, deixando tudo como estava antes. Os indianos tem investido muito em tecnologia e na terceirização de serviços (se você ligar hoje para um call center em inglês, provavelmente será atendido por um indiano), mas pergunta-se até onde esta riqueza é sólida, posto que ela vincula-se a existência dos produtores de bens – sem eles, tais serviços praticamente quebram.

Por fim, o modelo indiano sofre ainda de uma condição moderna muito específica – a diplomacia nuclear. Tal como Irã, Coréia do Norte, Israel e Paquistão, a Índia pergunta-se se não é mais barato ter armas nucleares – e aumentar o seu poder de barganha – do que investir na reestruturação da sociedade. A Coréia do Norte tem obtido muito sucesso em exigir alimentos, remédios e insumos de países ricos (principalmente dos EUA) em troca da manutenção da Paz; Israel recebe milhões de dólares americanos, todos os anos, para servir de guardião do Oriente Médio; e a Índia, neste caso, tem visto os EUA acenarem com inúmeras promessas econômicas e políticas em troca de um posicionamento do país “pró-ocidente” (recentemente os EUA relaxaram, inclusive, em suas exigências sobre a proliferação de armas nucleares quanto ao país). Provavelmente, esta aproximação tem relação com vários pontos constatados pelos americanos, tais como a decepção com o Paquistão (que tem uma política ambígua em relação ao terrorismo e ao mercado negro atômico), a disputa do mercado indiano pelos chineses (que pensam em reatar uma relação milenar temporariamente estragada pelas disputas no comunismo nas décadas de 60 e 70), a difusão do inglês como língua mundial (cultural e comercial) e a criação de um posto avançado do capitalismo no meio da Ásia, tentando brecar a expansão chinesa.

A questão fundamental é; como tornar a Índia um país capitalista de sucesso sem que ela destrua a indústria européia e americana? Este problema é que tem gerado uma falta de clareza no modelo indiano, e que só será resolvido, provavelmente, pelas surpresas da geopolítica nos próximos 20 anos. Os indianos – se aceitarem o pesado encargo de se baterem com os russos, chineses e islâmicos da Ásia central – para apoiar as pretensões mundiais americanas, precisarão de uma quantidade imensa de recursos materiais e de capitais para garantir uma ordem neoliberal na região, algo que os EUA provavelmente não terão condições de oferecer. Além disso, a Índia já percebeu que pode buscar construir uma economia alternativa e complementar aos seus vizinhos, sem precisar estender suas frentes de conflito para além do Paquistão. A China, que até recentemente contribuiu com algum investimento neste último, já percebeu a importância do mercado indiano, buscando aprofundar as relações entre os dois países. Ambos, aliás, tem uma aversão aos movimentos radicais islâmicos da Ásia central (a China inclusive enfrenta um grupo separatista formado por Uigurs, tal como a Índia é obrigada a lidar com os rebeldes da Caxemira, e estes grupos parecem receber um apoio extra-oficial paquistanês), o que naturalmente os aproxima.

Se o modelo indiano é um sistema em construção, bem diferente é o caso da China. Verticalizada por uma estrutura milenar política que desde cedo organizou as forças produtivas da sociedade, a China oferece ao mundo de hoje uma proposta inteiramente nova de organização política e econômica – ainda que calcada em formas ancestrais. Como já dizia o sábio Confúcio 6 séculos a.C., “mestre é aquele que, por meio do antigo, revela o que é novo” – e é isso exatamente que o país está fazendo. A China sofreu a experiência trágica do colonialismo, e decidiu responder a ela adotando a teoria marxista. As razões para isso são claras; em primeiro lugar, os chineses do início do século 20 sabiam que precisavam se modernizar (tecnologicamente), à maneira ocidental, mas não o queriam fazer por meio do capitalismo – teoria individualista e malévola responsável pelo mesmo colonialismo vil que se instalava em seu país; além disso, o regime imperial não havia conseguido manter-se, tanto por ser estrangeiro (manchu), quanto por não ser flexível e adaptável, como ocorreu no caso do Japão Meiji; e, por fim, o marxismo defendia que os seres humanos eram iguais, seus direitos seriam universais e que a razão de existência do trabalho era a formação de uma comunidade perfeita (o comunismo), sistema que para os chineses parecia constituir, simplesmente, a realização de suas milenares utopias camponesas! Além disso, o marxismo parecia mais equânime e gentil com a antiga civilização chinesa, desrespeitada acintosamente pelos preconceitos raciais e étnicos do século 19.

O que a China fez, pois, foi construir um marxismo próprio, re-interpretado por suas orientações filosóficas seculares, cujos conflitos internos se deram em função de radicalizações dentro do partido comunista chinês e da sociedade. Após a morte de Maozedong (Mao Tse Tung) em 1976, Deng Xiaoping orientou o país numa nova espécie de socialismo, posteriormente conhecido por “socialismo de mercado”. Seu lema para a economia - “não importa a cor do gato, desde que ele apanhe os ratos” – já indicava que a proposta chinesa seria de recuperar o país e fortalecê-lo, através da construção de uma decisiva capacidade econômica e política, que intencionalmente modificaria certos paradigmas do marxismo-maoísta anterior;
Classicamente, se assim podemos dizer - e na falta de um modelo alternativo - a China tomou para si as leis do mercado. Em 1987, depois do XIII congresso do PCC, Deng Xiaoping teorizou esta conversão da seguinte maneira: "A planificação e o mercado não constituem as diferenças essenciais entre o socialismo e o capitalismo. Uma economia planificada não define o socialismo porque também há planificação no capitalismo; a economia de mercado existe no socialismo. Planificação e mercado são, portanto, duas maneiras de controlar a atividade econômica (Bulard, 2005)

E o que vêm a ser, então, este modelo chinês? Alguns autores gostam de classificá-lo, talvez apropriadamente, de “capitalismo estatal”. Isso significa que o sistema chinês defende uma vasta inserção no mercado internacional, mas suas bases industriais recebem apoio direto do Estado. Este busca intervir, regulando a economia com medidas protecionistas e oferecendo a infra-estrutura necessária para a instalação de fábricas e serviços dentro do país à preços baixíssimos. Leis sobre a remessa de lucros são diligentemente aplicadas às multinacionais, cujo poder de barganha se dilui diante da imensidão deste mercado. Obviamente, alguns problemas surgiram na construção deste modelo. O campo, sustentáculo da vida chinesa, está sofrendo com a evasão de mãos de obra, de financiamentos e com a poluição. As zonas econômicas especiais, centro de industrialização especialmente planejados para esta função, tem um custo de vida bem superior ao do resto do país, aumentando a desigualdade. Estes problemas terão que ser resolvidos em breve, para que este modelo continue sustentável. Como dito antes, a China tem dado um estatuto especial de negociação a países emergentes – como no caso da Índia, mas também, do Brasil e de países africanos – para a criação de uma rede de economias complementares, que equilibrem as relações de mercado. Os principais perdedores neste jogo tem sido os EUA, que tem contabilizado déficits sucessivos em relação ao comércio com a China.

Mas o que significa, pois, o modelo chinês para o resto do mundo? Se politicamente ele parece “antidemocrático”, seu sucesso em beneficiar a sociedade, como um todo, tem feito seus críticos relativizarem os defeitos do “socialismo de mercado”. O que incomoda sobremaneira aos neoliberais, é como os chineses aceitam a “privação de certos direitos” em troca da estabilidade econômica – algo que as periferias do mundo capitalista admiram com simpatia, posto que não constatam nenhuma diferença fundamental para com suas vidas cotidianas em relação a ausência política. A sociedade chinesa, unida por uma cultura de trabalho antiqüíssima, conseguiu construir e manter uma nova ordem interna que serve de paradigma para outras sociedades, inclusive os países órfãos do comunismo. Cuba manifestou há pouco tempo seu interesse, por exemplo, em adotar um sistema parecido com o chinês, agora que a ilha vive uma transição do governo Fidel para Raul Castro. Vietnã e a já citada Coréia do Norte têm tentado, na prática, algo semelhante. O principal trunfo do modelo chinês é o de ter nascido no período mais difícil do século 20, sendo resultado da mistura de um idealismo comunista quase fanático com o pragmatismo secular de sua cultura, capaz sempre – quando, e se necessário - de adaptar-se as exigências da geopolítica mundial. Testado no maior laboratório vivo do planeta Terra, ele é responsável por administrar a vida de aproximadamente 1 bilhão e 300 milhões de pessoas – tudo, aqui, é feito em números astronômicos, e precisa realmente ter alguma valia. Tal condição, que impressiona qualquer um, é a maior propaganda deste regime.

Possibilidades

O que há de ser, então, a nova ordem mundial? Conflito destes três modelos, ou a convivência deles? Hão de se fundirem – como demonstra o caso da Índia, em suas incertezas? Uma conclusão como esta só pode oferecer possibilidades; falta-nos ainda outros pseudo-modelos que possamos contabilizar em nossas apostas. Não poderá existir, por exemplo, alguma proposta teórica que em breve venha a se tornar importante? Os interesses renovados no humanismo e no diálogo intercultural não poderão ser, por exemplo, alternativas válidas? Se o pensamento tradicional chinês estiver certo, precisamos de polaridades para manter o equilíbrio, e as hegemonias alternar-se-ão sempre; que mundo futuro, pois, não parece ser inevitavelmente múltiplo?

Bibliografia

Uma das fontes principais para o entendimento geopolítico da modernidade é jornal Le Monde Diplomatique, cuja versão online, em português (e gratuita) encontra-se no endereço http://diplo.uol.com.br/

Alguns dos textos utilizados aqui são;
BULARD, Martine Encruzilhada chinesa http://diplo.uol.com.br/2005-08,a1150
CHESNAIS, François Apenas um liberalismo é possível http://diplo.uol.com.br/2008-02,a2190
JULLIEN, François Outras lentes para a China http://diplo.uol.com.br/2006-10,a1415
WANG, Hui. A reinvenção da Ásia. http://diplo.uol.com.br/2005-02,a1068

Ver também:
HUNTINGTON, S. O choque das civilizações. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.
IANNI, O. Teorias da Globalizacao. São Paulo: Civilização Brasileira, 2007
Marti, M. A China de Deng Xiaoping - O Homem que Pôs a China na Cena do Século XXI. São Paulo: Nova Fronteira, 2008
Mello, P. Índia. São Paulo: Planeta, 2008.
Olic, N. Geopolíticas Asiáticas - Da Ásia Central ao Extremo Oriente. São Paulo: Moderna, 2007.
Santos, M. Por uma Outra Globalização. São Paulo: Record, 2006.
Shenkar, O. O Século da China. São Paulo: Bookman, 2007.
SPENCE, J. Em busca da China moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
VESENTINI, J. Nova Ordem, Imperialismo e Geopolítica global. São Paulo: Papirus, 2003.
VIZENTINI, P. A nova ordem global, 2007 in http://educaterra.terra.com.br/vizentini/livro/index.htm

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