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A Heterotopia do Comunismo Chinês



As pessoas estão curiosas de saber: o que é o comunismo chinês? Para alguns, é um sistema repressivo e arcaico, que ainda faz execuções de prisioneiros e tem sérios problemas éticos em lidar com o nascente capitalismo; para outros, é justamente um sistema firme, conservador, que pune devidamente os prisioneiros e que compete no mundo do capitalismo como se deve fazer. Mais do que isso, porém, o comunismo chinês é uma incógnita histórica e teórica. Suas inúmeras adaptações o fizeram ser entendido tanto como um pragmatismo necessário a cultura chinesa, quanto um desvio ideológico preocupante.

A questão não pode ser abordada de forma simples, e ao meu ver, é impossível falar da China contemporânea sem compreender suas raízes históricas e filosóficas - fazer isso seria agir, por exemplo, como esses pregadores que, ao analisarem a bíblia, o fazem como se ela tivesse sido escrita na semana passada e diretamente em português.

O que entendo sobre o comunismo chinês, e que pretendo propor neste breve ensaio, é resultado de algumas observações próprias que buscam conectar a absorção e a transformação do comunismo, na China, dentro de uma lógica própria desta civilização, tal como ocorreu com o Budismo. Uma tendência marcante no pensamento chinês é a disponibilidade (como apontou o sinólogo François Jullien) de se abrir para novas idéias, mas ao mesmo tempo, sua inserção se dá pela sua sinização - ou seja, sua capacidade de se transformar e se adaptar a necessidades intelectuais e ideológicas chinesas milenares. Dito isso, não é preciso muito para imaginar que se o comunismo conseguiu se estabelecer na China, é porque foi devidamente mutado para dialogar com a mente chinesa. Desde a época Han, os chineses já dirigiam suas teorias filosóficas a um processo de síntese, uma atitude interessante que mescla tolerância (para com outras teorias), reconhecimento (que envolve a identificação de pontos positivos no outro) e interesse próprio (a adaptabilidade e a disponibilidade). Os chineses têm, portanto, uma vasta experiência em absorver idéias estranhas a sua cultura, mas de um bastante particular, capaz mesmo de operar importantes modificações no perfil de uma teoria.

Raízes
Antes de analisarmos a vinda das teorias marxistas para a China devemos aceitar, no entanto, que os chineses já tinham algumas concepções de “comunismo primitivo”. Na China antiga, entre os séculos 5 e 3 a.C., a escola do pensador Mozi já advogava a "luta social" entre a elite exploradora e o campesinato espoliado. Para ele, a solução era a destruição da cultura vigente, a abolição das classes altas (nobreza), a instauração de um regime camponês comunitário e a divisão das terras de modo igualitário.

Diante desta síntese, poderíamos quase acreditar que Mozi era comunista; mas além de criarmos um anacronismo histórico, o fato é que Mozi acreditava também no Céu como uma entidade religiosa e magnífica, capaz de cuidar dos seres humanos; seu "novo sistema" não pretendia mais do que a abolição os nobres, mas mantinha, substancialmente, o modo de vida da antiga comunidade camponesa. Por fim, Mozi apenas embrionou teorias sobre a exploração e a luta de classes, mas não aprofundou as questões históricas e teóricas sobre economia e política.
Estranhamente, quem analisou estes últimos itens foi a escola legista, que defendia uma centralização do poder nas mãos de um príncipe único, circundado de funcionários públicos, e regido por uma lei draconiana. Maozedong gostava de citar as analises dos autores legistas, como Shang Yang e Hanfeizi, sendo o primeiro uma das mais importantes influências na mentalidade comunista de Mao devido aos seus textos sobre economia e agricultura. Se os legistas não propunham um regime igualitário, eles defendiam uma lei única, um estado pesado e burocrático, cujo acesso - livre para todas as classes - permitia uma certa mobilidade social, e um estado de eterna vigilância e convocação pública, algo muito parecido com o que se deu nos regimes socialistas.

Como sabemos, na China o pensamento antigo continua vivo, influenciando e servindo de referência para as noções atuais. Na época em que se deram as grandes convulsões sociais chineses, na passagem dos séculos 19-20, estas teorias antigas estavam bastante vivas na memória chinesa, e a necessidade de importar respostas do ocidente não as excluía, de modo automático, dos padrões de raciocínio desta civilização.

A República
Em 1911, quando a republica chinesa é proclamada, ela nasce sob o signo de uma tensão clara; a disputa entre comunistas e capitalistas pelo poder. Sun Yatsen, o grande mentor desta revolução política na China, era ele mesmo uma mescla de confucionismo, socialismo utópico e republicanismo americano. Na sua indecisão preemente, ele deu vazão ao conflito que lançaria esta jovem república a uma ditadura, promovida por Chiang Kaishek, um perseguidor implacável dos comunistas - vale notar que Chiang teve sua formação militar na Rússia, e aparentemente ele se colocava como um "socialista" no inicio de sua carreira política. Em 1927, ele realiza o massacre de Xangai, quando destroça quase inteiramente o partido comunista chinês, lança-o na clandestinidade e encerra as possibilidades de dialogo e de liberdade política. Seu grande erro foi permitir, por acidente, que o jovem Maozedong saísse vivo.

As adaptações do comunismo chinês
Mao Zedong, no inicio de sua carreira política, era também um intelectual bastante sensível e capacitado. Se suas leituras sobre marxismo eram um tanto confusas, por outro lado, sua sensibilidade ao mundo chinês não foi tocada pelas miragens do ocidentalismo. Desde cedo Mao percebeu que a realidade chinesa estava calcada no campo, no trabalho campesino, como já afirmavam Mozi e os legistas. Isso ajudou em muito na recepção do comunismo como uma das "saídas" para o atraso tecnológico e econômico da China. Os chineses tentaram, assim como fizeram os japoneses, empreender um processo de modificação de suas estruturas econômicas por meio da absorção de teorias organizativas e políticas ocidentais. A experiência que os chineses tiveram com o capitalismo, porém, foi péssima; primeiro, ele foram atacados e espoliados pelo capitalismo mercantil europeu; segundo, as colônias ocidentais na China só contribuíram para piorar a imagem dos europeus - e de suas idéias - nesta sociedade; por fim, os tempos de Chiang se caracterizam por uma escalada de corrupção, brutalidade e violência, o que apenas confirmava os receios dos chineses em relação ao capitalismo.

Diferente disso, o marxismo propunha que os seres humanos eram iguais; que o mundo era uma comunidade de proletários; que as classes mais baixas deviam superar a elite; que as terras deveriam ser divididas por igual; que haveria apenas uma lei; e por fim, que o socialismo e o comunismo eram etapas para uma sociedade onde todos teriam tudo. Não é preciso dizer que este discurso era muito mais simpático e atraente do que o do capitalismo duro, perverso e individualista. Obviamente, para se fazer isso era necessária uma revolução, em geral armada, para a tomada do poder. Em outras ocasiões, isso poderia soar exagerado, mas na situação catastrófica em que o país de achava, uma guerra a mais era apenas uma circunstancia, e não uma questão insuperável.

Estas condições foram mais que propicias para o desenvolvimento de um comunismo maoísta na China. Após as malsucedidas tentativas de promover o comunismo perto das áreas industriais, e da necessidade de fugir das tropas de Chiang, empreendendo a longa marcha - um quase fracasso que virou lenda, depois - Mao "caiu na real" e redescobriu a verdadeira China dos camponeses, dos agricultores, do passado vivo. Onde muitos teimavam em manter uma visão européia de revolução socialista, Mao inovou e se adaptou as circunstancias, tal como já pregavam muitos e antigos sábios chineses. Afinal, não era o próprio Confúcio que dizia: “mestre é aquele que, por meio do antigo, descobre o novo?”.

Mao poderia ser acusado de ter desvirtuado a verdadeira dinâmica da luta de classes, ou de estar corrompendo a teoria das revoluções socialistas, mas a questão é que o único modelo disponível de revolução, nessa época, era o soviético - que estava longe de ser aquele idealizado por Marx - e por causa disso, não podemos ser intolerantes de acreditar que o stalinismo era a única via possível. Para os mal informados, leiam Hobsbawm, ou mesmo a “revolução dos bichos” de Orwell, e em pouco tempo compreenderão que Mao não estava tão equivocado assim em conceber um modelo próprio.

Isso gerou desconfianças em Moscou, que decidiu apoiar Mao somente no final da 2a guerra mundial. Os frutos dos desatinos de Chiang não demoraram a surgir, e em breve (1949), ele era obrigado a fugir para Taiwan.

O grande começo
Apesar das acusações de sinólogos como Simon Leys, o comunismo chinês começou bem. Ele tinha apoio dos camponeses, era excitante, prometia um mundo novo; a teoria se materializava, deixando de ser uma utopia para ser uma heterotopia, uma idéia visionária manifestada e realizada, como dizia Foucault. Muitas vezes, os especialistas tendem - mas não sem razão - a confundir a China de hoje com a China revolucionária, como se o embrião de seus erros estivesse presente desde o inicio. não creio que isso seja tão verdadeiro quanto o fato de que as revoluções se perdem, muitas vezes, de modo espontâneo. Abordaremos este ponto melhor, ao final deste texto.

O que podemos afirmar, contudo, é que não se pode negar o clima de euforia e comprometimento da população, no geral, com as conquistas revolucionarias. Isso implicou, num curto espaço de tempo, que a China começasse a empreender uma reformulação econômica relativamente eficaz; que fosse capaz de surpreender o mundo com a obstinada resistência apresentada na Coréia, ou na estranha cortesia com que foram tratadas as questões de Hong Kong e Macau; que invadisse o Tibete, na época um espécie de vaticano dos himalaias, com quem os chineses tem disputas ancestrais; por fim, que abolissem antigas costumes sociais e dessem uma liberdade relevante a mulher chinesa.

Mas Mao, como economista, era um apenas um bom ideólogo. Em breve, as condescendências do início, a tolerância com os desviados, e o pragmatismo realista, deram lugar a um regime fechado, distante do povo e promotor de catastróficos erros.

O problema burocrático
A China é uma nação burocrática há milênios, e isso não mudaria de um momento para outro. As pesadas estruturas administrativas recriadas pelo comunismo (fenômeno que também ocorreu na União Soviética) começaram a emperrar o dinamismo revolucionário. Tal como ocorreu no final de todos os grandes impérios chineses, os burocratas começaram a agir em função dos ganhos pessoais, num sistema que desestimulava o comercio e a produção (ainda que as metas produtivas fossem um mote da propaganda revolucionaria). A burocracia por si só, porém, não produz nada; privilegia muito mais o raciocínio administrativo do que o ideológico; estimula a conspiração e a mentira, na medida em que os cargos superiores se transformam no único meio de realização pessoal; visto assim, a burocracia confucionista era até mais preparada do que aquela criada pelos comunistas.

Logo, os desastres se sucederam; crises de fome, perseguição aos intelectuais, e um clima de repressão política se instaurou no país. Nesta época Mao começou a citar constantemente os legistas, invocando as agruras que a unificação do país teriam custado para justificar a criação de um regime forte, porém violento. Qinshi Huangdi foi reabilitado como herói nacional, e grandes campanhas de construção nacional foram empregadas para mobilizar o povo, do mesmo modo como foi, no passado, a construção da muralha ou do mausoléu real...

No entanto, o partido comunista chinês não era uma unanimidade comprometida com estes novos desvairos; Mao foi afastado, e durante algum tempo os chineses começaram a respirar um ar novo, uma busca de renovação, materializada numa proposta de comunismo mais leve. Mao teve que usar de todas as artimanhas de que dispunha para retornar ao poder, por meio da terrível revolução cultural. Entre 1966 até aproximadamente 73 (alguns autores afirmam que ela só foi até 71, mas o clima de perseguição continuou além disso), a China sofreu um golpe interno, e os velhos guerreiros da longa marcha tomaram o poder, dando vazão a toda sua senilidade recalcitrante. Isso significava, na pratica, um recrudescimento das praticas obscuras do regime, e a retomada da burocracia emperrada e agressiva.

O mundo tinha uma dificuldade tremenda de entender as mensagens que a China mandava para o exterior ao longo deste período. Para o ocidente, ter o maior país do mundo (união soviética), e o mais populoso (a China), sob regimes comunistas era assustador; por outro lado, o rompimento dos chineses com os soviéticos parecia um alívio, o fim de uma aliança perigosa e ameaçadora.

Para os chineses, as preocupações internas levaram a uma grande campanha de perseguição a Lin Biao (ex-amigo de Mao e depois, conspirador e inimigo) e Confúcio, tido como uma sobrevivência intelectual deletéria a modernização da China! Quem poderia entender os chineses sem compreender esta lógica tão sutil e tão própria? Era preciso destruir este passado, a qualquer custo - enquanto para os ocidentais, tecnologias e indústrias seriam a única medida para tirar o pais do atraso. Como conciliar visões tão díspares?

A historia cíclica
Mas Mao morreu, como vários outros lideres. Em 1976, uma parte importante dos antigos camaradas morreu, e os pragmatistas tomaram o poder. Liderados por Deng Xiaoping - que teve o cuidado de não manchar a imagem de Mao, mas de destroçar todos os seus antigos aliados -, se iniciaram as reformas na China, abrindo gradualmente a economia e dando espaço para o povo respirar.

Curiosamente, muitos intelectuais ocidentais, que viam o maoísmo como uma opção socialista para o terceiro mundo, consideraram isso uma traição do novo governo chinês para com o socialismo mundial; algo parecido como um cliente tentar ensinar um vendedor tarimbado em como fazer seu trabalho. A ignorância sobre o ritmo cíclico da historia chinesa criou estas ilusões nestes pobres idealistas; mas quem, nesse momento, não estava envolvido em um dos lados da política mundial? Esta época não permitia indecisões ideológicas, e as mudanças de curso destas políticas causavam bastante confusão na cabeça dos pensadores.

A manutenção do comunismo
Este regime estranho, que conjugava os ideais marxistas com uma estranha política de mercado se apresentava, pois, como uma contradição - perfeitamente concebível para os chineses, mas incompreensível para os ideólogos marxistas ocidentais, cuja dialética não alcançava os sistemas de pensamento chineses.

Tais contradições permitiram ao comunismo chinês sobreviver, enquanto a tradição pró soviética ruiu. Estagnados pelas suas próprias burocracias, o mundo socialista ocidental não soube se reformular, enquanto a China já o vinha fazendo há alguns anos.

O que ocorreu na praça da paz celestial foi, aos olhos da historia chinesa, um mero acidente. O número de estudantes que pediam democracia era ínfimo perto da realidade da população chinesa; mais perigosos do que eles eram as forças conservadoras, reduzidas mas ainda agressivas, que pediam um retorno do maoísmo reacionário como forma de resolver estas tensões. Deng escolheu sua própria via, e reprimiu ambos de uma vez só. Os estudantes apareceram diante das câmeras sendo espancados, e os expurgos dos conservadores, no partido, foram feitos à surdina. Em poucos dias, Deng restaurou a ordem e criou a China de hoje.

E que comunismo é esse?
A China de hoje se inspira nas teorias do passado, e age com o pragmatismo realista de sua filosofia própria. A busca da eficácia é o fundamental; o regime se estrutura em torno de uma burocracia que se organiza ao antigo modo comunista, mas que já aceita as exigências do jogo capitalista internacional. A China de hoje está organizada segundo seus critérios milenares, e o que se passou com o comunismo maoísta se parece muito com uma reprodução do quadro existente na época da reunificação de Qin. Mao provavelmente esperava consertar as falhas de Qin, mas cometeu exatamente vários de seus erros; do mesmo modo, Deng aceitou muito do que havia sido construído anteriormente, mas suavizou os aspectos mais duros do regime, deu impulso à liberdade de trabalho (não tanto individual, mas talvez os chineses não façam muita distinção entre as duas) e tornou a China uma potência, tal como fez a dinastia Han, depois de Qin. Esta avaliação, baseada em analogias, pode ser entendia por um ocidental como uma forçar uma relação inexistente, mas ela é absolutamente palpável e coerente dentro do senso de história tradicional chinesa. Que se veja a reabilitação de Confúcio, em tempos recentes. O comunismo chinês de hoje é, portanto, um nome para disfarçar o verdadeiro senso chinês de civilização; pode-se duvidar seriamente que o império volte, mas o que significa atualmente para os chineses as idéias de "república, comunismo, e democracia" é, basicamente, uma coisa só: o desejo de uma ordem cósmica e universal que permita aos seres se harmonizarem, produzirem e florescerem.

obs: muitas pessoas gostam de criticar os chineses por sua aparente selvageria, sendo porque comem de tudo, seja porque fuzilam pessoas em estádios, porque abandonam crianças nas ruas ou porque os pobres estão desprotegidos pelo Estado. Não me atreveria a duvidar que essas coisas acontecem por lá: apenas, e volto a insistir, leiam as noticias dos jornais sobre o nosso próprio cotidiano. Para além da intenção, sempre existente nos meios midiáticos, de apresentar uma postura ideológica (pró ou contra o mundo asiático) velada pelas "denúncias" sobre um regime, o fato é que temos as mesmas mazelas aqui ou nos EUA. Aliás, não são raras as pessoas que defendem a pena de morte no Brasil, o que ocorre tanto na China como nos EUA também... Lembrem-se as olimpíadas de 2008, quando alguns comentaristas esportivos disseram que os atletas chineses foram treinados a exaustão, impiedosamente, para ganhar as medalhas olímpicas. Mas existe outra forma de fazê-lo? Tudo, obviamente, é uma questão de ponto de vista, que pode ser separada entre os bem informados e os mal informados... E a compreensão da China exige, indiscutivelmente, uma boa dose de estudo, profundeza de raciocínio e compreensão, sem o que as opiniões recebidas – e emitidas -, não formarão mais que um quadro de incoerências.

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