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A Arte de ser Indireto

Sábio é aquele que torna o óbvio acessível a todos.
Confúcio

Zhuangzi e Huizi conversavam numa ponte, quando Zhuangzi apontou para os peixes que nadavam abaixo dela e disse: “veja como se agitam e nadam! Eles estão felizes!”, ao que Huizi replicou: “mas você não é um peixe, como pode saber o que eles sentem?”. Zhuangzi respondeu: “e você não sou eu, como sabe que eu não sei?”.
Zhuangzi

A questão levantada por Zhuangzi e Huizi consiste no seguinte: como aprender por meio do indireto? Muitas vezes, nos deparamos com pessoas incapazes de compreender ou aceitar uma explicação: contudo, postas diante de uma música ou um poema, elas despertam sua mente e acessam o problema apresentado. Por vezes, ainda, é necessário um método para abordar determinadas questões ou ensinar certas técnicas. Tal método consiste em exercícios ou colocações cujo sentido só se apresenta gradualmente, e sobre os quais apenas os sábios tem uma visão de conjunto. No que consiste, pois, esta arte de ser indireto? Ela consiste na habilidade de decompor as partes de um problema, analisá-las, e inferir o melhor meio de apresentá-las, de modo compreensível, para aqueles que precisam aprender. Esta metodologia , porém, pretende que algumas coisas podem ser mais facilmente abordadas por meio de analogias. Confúcio entendia que esta forma de proceder era cabível, de acordo com as circunstâncias:

Zixia perguntou: "O que significam estes versos:
Oh, as covinhas do sorriso dela!
Ah, o preto e branco de seus lindos olhos!
É sobre a seda puramente branca que as cores brilham".
O Mestre disse: "A pintura se inicia na seda puramente branca". Zixia disse: "O ritual é algo que vem posteriormente?" O Mestre disse: "Ah, realmente abriste meus olhos! É apenas com um homem como tu que se podem discutir os Poemas".

Neste trecho, por exemplo, Confúcio pretende mostrar que existem significados subjetivos, porém aparentes, nos discursos sapienciais. A questão se trata, de fato, de buscar os princípios contidos no texto. No entanto, as analogias apenas funcionam se as buscas forem feitas de modo adequado – do contrário, as comparações seriam exercícios inúteis de abordar, indiretamente, uma questão. Não se deveria comparar elementos de propriedades diferentes: ao se perguntar se um homem fica melhor com o tempo, tal como um vinho, ou se fica pior, tal como um carro, associamos três coisas absolutamente distintas, e nenhuma conclusão satisfatória pode ser alcançada. Este seria um exemplo ineficaz. Mas, se fazemos analogias com modelos consagrados ou, se realizamos comparações com fins específicos, podemos obter algum sucesso: O Mestre disse: "Coloca-me na companhia de duas pessoas escolhidas ao acaso - elas invariavelmente terão algo para me ensinar. Poderei tomar suas qualidades por modelo e seus defeitos como alerta".

Por fim, a arte do indireto deve ser lida pela oposição complementar: a busca de captar seus sentidos pode ser feita pela captação da idéia central ou mesmo, por sua negação, o que revela o intuito do autor. No caso de Zhuangzi, por exemplo, sua afirmação final é um ganho retórico, mas continua sendo um erro: ele não é um peixe, e peixes não tem a idéia de alegria como um conceito. Deste modo, seu exercício de analogia foi uma peça bem pregada no nominalista Huizi, mas carece de um sentido, sendo um mero diatribe de palavras para fazer vencer palavras vazias.

A arte do indireto é a manifestação da subjetividade aparente, por meio de uma associação simplificada que ajuda o leigo a se conduzir as conclusões acertadas. Por isso Confúcio disse:

O sábio não maltrata nem as pessoas, e nem as palavras.

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