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Um Retrato em várias Cores

Nenhum cavalheiro chegaria a contemplar a idéia de exceder-se em seu cargo.
Conversas, de Confúcio

Não devemos rechaçar de modo algum a herança dos antigos e dos estrangeiros.
Maozedong

Nos julgamentos históricos que se fazem, passam-se anos e as pessoas buscam na figura de um homem o papel de herói ou vilão. Na história da China, Maozedong é um desses líderes cuja existência recente começa a sujeitar-se as regras da mutação, e a avaliação em conjunto de sua vida dará um novo caráter a sua figura e ao mundo chinês. E qual o será?

Confúcio falou sobre a reputação: "Para alcançar a percepção, um homem tem de ser talhado em madeira reta e amar a justiça, examinar as palavras dos homens e observar suas expressões, e ter em mente a necessidade de deferir aos outros. Quanto ao reconhecimento, basta assumir um ar de virtude, ainda que comportando-se contrariamente. Mantém apenas uma aparência imperturbável, e certamente obterás reconhecimento na vida pública, e certamente obterás reconhecimento na vida privada".

Maozedong se encaixaria em qual dessas categorias? A dos que buscam reputação ou uma sabedoria? Mao odiava Confúcio, mas sabia que a revolução chinesa dependia, antes de tudo, em aceitar que a herança milenar se impunha sobre a sociedade – e que aquela lhe dava, justamente, a coesão que tornou a China uma das civilizações mais antigas do planeta. Dito isso, Mao adquiriu reputações distintas: uma de sábio, propagandeada por Lin Biao, seu adulador – e depois, traidor – que foi objeto de uma terrível campanha de difamação promovida pelo próprio Mao. Por outro lado, foi também um defensor do povo, e um general vitorioso – para isso, salvou milhares de pessoas da miséria, mas matou indiretamente tantos outros milhares por conta da fome e da crise que ele permitiu ocorrer por conta de sua inépcia administrativa. Mao fez a grande revolução que libertou o país, e lhe trouxe respeito novamente. Proclamou as cem flores, para ouvir as discordâncias e opiniões; depois, massacrou a oposição, e instaurou a revolução cultural, movimento violento e arrebatador, que contou com a ajuda de milhões de chineses dedicados. Ele peitou os Estados Unidos e a União Soviética, mas sacrificou mais gente que Hitler e Stálin. Na China, em que tudo é superlativo, é difícil aceitar qualquer forma de proporcionalidade para as almas perdidas. Mas quem disse que uma revolução é fácil? Libertar-se das maiores nações da Europa, de um Japão agressivo, e de um governo corrupto e indeciso não são tarefas fáceis. Como disse o próprio Mao: “a revolução não é um convite para jantar”. O Mao que dizimou pardais e árvores para o seu grande salto, fez com que belamente os chineses andassem de bicicleta – e que mundo magnífico era esse! Fez com que as pessoas se ajudassem nas ruas, e cuidassem das conquistas do país com carinho. Fez a bomba atômica, mas não ameaçou ninguém com ela. Chutou as pedras de Qufu, tentou destruir Confúcio, e admirava Qinshi Huangdi. Que mundo fantástico era esse, em que a burguesia arrogante foi conhecer o trabalho braçal nos campos de reeducação; e que lugar terrível para alguém viver se pensasse diferente, e fosse taxado de pequeno burguês. Como disse Hanfeizi: “o crítico anda com o caixão debaixo do seu braço” – e isso era mais do que adequado na China de Mao.

A austeridade andava de braços dados com a pobreza, a discordância era amiga da subversão para a Lei. Depois de tudo isso, a pergunta: devemos refutar o grande timoneiro, que permitiu a China ser o que é hoje? É cômodo e simples apontar os erros de um morto, sem que ele possa se defender. Contudo, negar seu legado é outra coisa.

Como confucionista deveria repudiar Mao por completo, mas exatamente por quais razões? Por mais paradoxal que pareça, se hoje Confúcio volta com toda a força, é porque suas sábias virtudes foram relevadas em relação aos erros do comunismo – mas que o Céu permita que nunca mais a sabedoria seja redescoberta em função de massacres. No Pósconfucionismo da China atual, há espaço para ambos, e o legado de Mao será lido em síntese. Nesse retrato de várias cores, destaca-se, mais que o vermelho, o amarelo de Mao – o mesmo amarelo da China e de Confúcio...

Disse Mêncio: "Quando prevalece no reino o governo justo, os príncipes de pouco valor e virtude mostram-se submissos aos de grandes predicados e de elevado valor. Quando predomina o mau governo, os pequenos são sujeitos aos grandes, os fracos servem os fortes. Estes dois casos são lei do Céu. Os que se harmonizam com o Céu são poupados; os que se rebelam contra o Céu têm de perecer". [...]
Mêncio

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