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A Arte de Dormir, de Li Liweng - Março, 2005

Simplesmente para ser apreciado, o texto de Li Liweng é uma apologia para a modernidade, mesmo tendo sido feito no século 17. Esta tradução foi feita a partir do original de Lin Yutang e da versão de Milton Amado (1962), estando presente no livro A Importância de Compreender.

Há tantos meios de gozar a vida que é difícil submetê-los a qualquer teoria. Há a alegria de dormir, sentar-se, de caminhar e de ficar de pé. Há o prazer de comer, de lavar-se, de arrumar o cabelo, existindo mesmo em atividades tão inferiores como andar nu e descalço, ou ir ao banheiro. Em seu lugar adequado, cada coisa pode ser deleitável. Quem consegue apreender o espírito de diversão e toma tudo a seu jeito, em qualquer parte e a qualquer tempo, pode deliciar-se com certas coisas que fazem com que outros chorem. Por outro lado, quem é cru e canhestro em enfrentar a vida ou em cuidar da própria saúde pode ser a pessoa mais triste em meio a cantigas e danças. Falo aqui somente das alegrias da vida diária e dos modos pelos quais se pode tirar vantagem das ocupações mais comuns.

A Arte de Dormir
Havia um monge errante que viajava por toda parte, a ensinar os segredos da conservação da força vital e do prolongamento da vida. Quis ensinar-me. Perguntei-lhe que deveria fazer para alcançar a longevidade e onde encontraria tais bênçãos. Pensei que seria excelente que seus métodos concordassem com meu modo de pensar; se não, poderia pelo menos acolhê-lo amigavelmente.

Disse-me o homem que o segredo da longevidade estava na respiração controlada e que a paz de espírito devia ser buscada pela concentração no repouso. Repliquei-lhe: "Teus meios são duros e forçados, e só os pode praticar gente como tu. Sou ocioso e gosto de movimento. Procuro alegria em tudo. Acho que teus métodos não são para mim."

- Qual é, então, teu processo? - indagou-me. - Gostaria de ouvi-lo e poderíamos fazer comparações. E foi isto o que eu lhe disse:

Pelo plano natural das coisas, deve o homem passar metade de seu tempo em atividade e metade em repouso. De dia, senta-se, movimenta-se, ou fica de pé; e, de noite, dorme. Se alguém trabalha de dia e não repousa a noite, e assim continua dia após dia, podemos aprontar-nos para esperar-lhe o funeral. Tento conservar minha saúde dividindo meu tempo em metade para o descanso e metade para a atividade. Se algo me perturba e me impede de dormir, eis um sinal de perigo! Serão demais, então, meus dedos, para contar os anos que me restam!

Em outras palavras, o segredo da boa saúde está no sono bom e repousante. Quem dorme bem recupera as energias, revitaliza seu sistema interno e coloca os músculos em forma. Compare-se uma pessoa doente a uma sadia. Quem não consegue repousar, adoece; seus olhos se afundam e todos os tipos de sintomas aparecem. Sem sono, o doente piora. Mas, depois de dormir bem, desperta novamente cheio de avidez pela vida. Não é o sono a droga infalivelmente miraculosa, a cura não só de uma enfermidade, mas de cem, cura que salva mil vidas? Buscar a saúde por meio da respiração controlada e dos árduos exercícios da ioga apenas redundaria em grande concentração e esforço para, em vez de dormir, ficar acordado! Devo jogar fora o melhor remédio do mundo para adotar uma fórmula não comprovada?

O homem partiu encolerizado e não discuti com ele. Diz antigo poema: "Após longo e profundo sono na umbrosa quietude do bambuzal, sinto-me bem afastado do torvelinho do dia. Se vier visitar-me o eremita de Huashan, não lhe pedirei que revele o segredo de tornar-me imortal, mas o de dormir bem." E um dito moderno rezar: "Primeiro, descansa o espírito; depois, descansa os olhos."

Há, para dormir, tempo devido e lugar adequado, e há certos hábitos de dormir que devem ser evitados. Especificando: deve-se repousar entre 9 horas da noite e 8 da manhã. Deitar-se antes das 9 é cedo demais; é mau sinal ficar ansioso por dormir, como um doente. Dormir depois das 8 da manhã é pernicioso à saúde, como todo excesso de sono. Onde haveria tempo para outros prazeres? Tenho um amigo que nunca se levanta antes do meio-dia, e quem o for visitar antes dessa hora terá de esperar. Um dia, sentei-me, aborrecido, em, sua sala de visitas, a esperá-lo e, tendo à mão tinta e pincel, parodiei de brincadeira um poema antigo e escrevi o seguinte:

Dormir é, a manhã toda,

minha única ocupação;

se viver até aos setenta,

trinta e cinco lá se vão.

Embora haja sido feito de brinquedo, isso está perto da verdade. Em regra, deve-se dormir apenas à noite. É compreensível o prazer de uma soneca à tarde, mas deve-se reservá-la apenas para o verão, quando os dias são longos e as noites curtas. É natural fatigar-se facilmente no calor, e tão bom é dormir quando cansado como beber quando sedento. Isto é senso comum. A melhor ocasião é depois do repasto. Deve-se esperar um pouco, até que o alimento esteja em parte digerido, e então marchar folgadamente para a cama. Não digas a ti mesmo que decidiste tirar um cochilo. Desse modo, o espírito fica tenso e o sono não é saudável. Cuida de algo primeiro e, antes de acabá-lo, dominar-te-á uma sensação de fadiga e o torpor chega. A terra dos nuncas não pode ser perseguida. Gosto daquele verso de um poema que diz: "Adormecendo, o livro cai de -minha mão." Assim o sono vem, sem artifício teu, ou sem que o notes. Este é o segredo da arte de dormir.

A seguir, é preciso considerar o lugar, que deve ser fresco e quieto. Se não for calmo, repousam os olhos, mas não os ouvidos. Se for demasiado quente, repousa a alma, porém não o corpo; e alma e corpo entram em disputa. Isto contraria o princípio da boa saúde.

Por fim, devemos considerar o próprio sono. Umas pessoas são atarefadas e outras têm tempo de sobra. Logicamente, quem vive em diversão pouco precisa de sono; necessitam dele, acima de tudo, os que têm ocupações. Mas muitas vezes a pessoa cheia de ocupações não pode dormir bem. Repousa os olhos durante o sono, mas não o espírito. De fato, não tira do sono descanso algum. O pior é pensar em alguma coisa durante as horas semi-acordadas da manhã e, de súbito, lembrar algo que não se fez, ou alguém que não se viu. E era importantíssimo! Não é possível dormir nem mais uma piscadinha, ou algo será prejudicado! A simples idéia disso expulsa inteiramente o sono. A pessoa fica em estado de tensão e levanta-se mais amofinada do que antes. Quem se diverte repousa o espírito antes de fechar os olhos e seu espírito desperta revigorado antes que seus olhos se abram, pois ele é feliz em dormir e mais feliz em acordar. Esse é o sono de quem se distrai devidamente.

Contudo, quantas pessoas assim há neste mundo? Nem todos podem levar a vida sem nada fazer. Deve-se, portanto, encontrar um processo. É melhor resolver os negócios urgentes do dia pela manhã e transferir a outrem as coisas que não estejam terminadas. Sabe-se, então, que tudo está em ordem e sob controle. E pode-se procurar o travesseiro e partir para aquele sono que é descrito como "a doce aldeia escura". Dormir-se-á tão bem quanto quem tem diversão.

Outra coisa: gozar de um sono perfeito exige consciência em paz. Quem assim a tiver "não se assustará quando lhe baterem à porta à meia-noite", como diz o adágio. Não confundirá o caminhar de galinhas no quintal com passadas de policiais!

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