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A Tradição na História Chinesa - Novembro, 2004


Publicado em Revista Luminária, 2008, v.1, p.92-103.

UMA BREVE ANÁLISE DA HISTORIOGRAFIA CLÁSSICA CHINESA
André Bueno

RESUMO: Neste breve texto, faremos uma apresentação sucinta do conceito de História no pensamento tradicional chinês. Para tal, acompanharemos o seu desenvolvimento, a formulação dos conceitos fundamentais e sua dinâmica de funcionamento. Observaremos, ainda, como se estrutura a criação de uma teoria histórica diferente das ocidentais, assente numa continuidade milenar desconhecida para nós.

Palavras –Chave: Historiografia, Sinologia, História da China



Em contraste com outras civilizações asiáticas (e com o próprio Ocidente), os chineses possuem desde a antiguidade um senso histórico singular e bastante aprofundado. A história chinesa é, para estes autores antigos, um objeto de referência e reverência - os tempos passados não narram apenas o que aconteceu, mas toda uma experiência que nos serve agora, no presente, e que se projeta em nossas construções futuras.

Assim, o historiador chinês se coloca sempre no ponto axial de uma transição contínua entre o tempo, a matéria e a sociedade. Não tem ilusões de recriar perfeitamente o passado, mas intui o poder advindo de uma leitura esclarecida sobre o mesmo. Desde cedo, fugirá da gaiola textual e buscará também em relíquias materiais as informações que precisa para comprovar sua tese. Ele o sabe - seu trabalho é apenas um parecer metafórico sobre o passado. No entanto, a mesma metáfora é uma leitura sobre o real; então, como dizer que ela não é igualmente real?

O primeiro destes ilustrados historiadores que a tradição chinesa nos legou foi o grande mestre Confúcio (ele mesmo um divisor de águas da sua civilização), do século -6 (datas tradicionais -551-479). Costumam os chineses afirmar que outros "pensadores-historiadores" vieram antes dele, mas nenhum nome relevante chegou até nós senão pelas mãos do mestre. Confúcio via na história um dos caminhos para a redenção moral. O passado - ainda que não possa ser reconstituído em sua totalidade - está repleto de exemplos dignificantes de como o ser humano deve proceder. Não são apenas grandes soberanos, mas também pequenos heróis, importantes discursos, eventos marcantes...uma plêiade de referências que embasam e ilustram o discurso ético da escola dos letrados. Confúcio tinha consciência de que seu resgate dos tempos antigos era incompleto e possivelmente problemático - não foi o mestre, pois, que reclamou da insuficiência de textos, objetos e tradições das dinastias antigas? "Posso falar sobre o ritual Xia? Seu herdeiro, o país de Qi, não preservou suficientes evidências. Posso falar sobre o ritual Yin? Seu herdeiro, o país de Song, não preservou suficientes evidências. Não existem registros suficientes e tampouco homens sábios suficientes; caso contrário, eu poderia obter evidências a partir deles" (Lunyu 3 e Zhongyong, 28). Mesmo assim, fragmentos desta antiguidade garantem subsídios mínimos para o estudo do presente. Confúcio capta com grande excelência a idéia desta “decadência contínua” que todas as sociedades sentem, e que gera a idéia do passado sempre como uma “época melhor”. O Mestre nos mostra que os tempos antigos estão repletos de bons e maus exemplos, e o que nos cabe é escolher em qual iremos nos inspirar. Queremos ser como o sábio Shun ou o tirano Zhou, de Shang? Lega-nos ainda dois livros importantes; o Shujing (O Tratado dos Livros, recolha de discursos e eventos históricos importantes da antiguidade) e o Chunqiu (Primaveras e Outonos, uma longa cronologia de eventos históricos desde -781).

Depois de Confúcio, outros tantos historiadores anônimos dedicar-se-iam a escrever a história de suas regiões em meio aos tempos claudicantes dos Estados Combatentes. Vestígios esparsos destas obras sobreviveram, e mesmo assim só podem ser encontrados em obras posteriores. Apenas os comentários do Chunqiu (nomeados como as tradições Zuo, Guliang e Gungyang) mantiveram-se intactos, além dos ‘Anais de Bambu’ (Zhushu jinian). A China teria que esperar um pouco para ver surgir o grande luminar de sua historiografia, Sima Qian (-145-85).

Sima foi o Taishi (historiador e astrólogo oficial) da primeira dinastia Han. Seu livro, o Shiji (Recordações Históricas) é uma grande antologia comentada dos tempos antigos, trazendo novas luzes sobre o passado chinês. Fruto de uma longa pesquisa material e textual feita em todo o império, Sima inova nas técnicas de datação. Verifica as tabelas astronômicas para afirmar a autenticidade de certos eventos. Realiza uma exegese nos textos, vestígios materiais e epigráficos para analisar as possíveis inferências, as interpolações e adulterações. Assume suas dificuldades em reconstituir certos momentos desta história, e busca argumentar de forma coerente ao defender um ponto de vista (realização rara em todos os tempos). Cria ainda o “parecer do Taishi”, uma análise crítica apresentada ao final do texto como uma espécie de “veredicto” sobre determinada figura ou circunstância histórica, com fins de possibilitar a reflexão moral sobre o tema. Sima têm perfeita consciência - tal como Confúcio - de que sua produção intelectual é fruto de um tempo, uma releitura do passado. Como se afirma num comentário do Zuozhuan, "a história serve para interpretar e conhecer o passado", mas o próprio Sima afirma, diante desta perspectiva, que "a história busca compreender as mudanças dos passado e do presente". Esta perspectiva influenciará decididamente os historiadores chineses posteriores, que nunca se iludirão com a idéia de possuir uma “opinião isenta”; verificar-se-á a história pelos modelos construídos, pelas “evidências”, enfim, pela possibilidade que uma interpretação tem de ser lógica, profunda e fundamentada. Ainda assim, venera a história como caminho de ilustração moral; “ela distingue o que é suspeito e duvidoso, elucida o certo e o errado, e decide o que é incerto. Classifica o que é bom como bom e o que é ruim como ruim, honra o que é digno e condena o que não é merecedor. Preserva existências perdidas e restaura as famílias em deterioração. Esclarece o que foi negligenciado e restabelece o que foi abandonado” (Shiji, 130).

Sima cria um novo modelo de como a história deve ser produzida. Banbiao, historiador do séc. +1 comentará esta obra fazendo-lhe adendos com “novas descobertas históricas” no Shiji Lun. Seu filho Bangu se conduzirá por esta trilha aberta, redigindo a história oficial da Dinastia Han. Segue os mesmos procedimentos de pesquisa, recolha, análise e compilação. Não termina sua obra, porém. Quem lhe sucederá no encargo é sua irmã, Banzhao (+32 +92), talvez a primeira historiadora reconhecida da humanidade. Intelectual confucionista, finda o texto e recebe a benção da imortalidade de seu nome, tal como o irmão. É também a época do filósofo Wang Chong (+27 +91), o cético que assumi definitivamente a materialidade da história - um momento no espaço-tempo que já findou, e do qual nos restaria apenas uma herança.

Seguem-se as dinastias, e o trabalho individual do historiador é substituído pela formação de equipes de pesquisadores (com Taishi assumindo um papel diretor). Gradualmente estas comissões - que tinham por objetivo ampliar o espectro do estudo histórico - perdem o sentido crítico e terminam por criar versões da história que tendem geralmente a conciliar visões divergentes através de inúmeros artifícios teóricos. Liu Zhiji (+661 +721) denunciará esta perda da capacidade crítica, sobre a qual se estabelece o processo de discernir. Luta contra os malabarismos metodológicos, e não aceita tão simplesmente o consenso como uma forma de resolução dos problemas históricos. Seu Shitong (Observações sobre História) será um dos melhores manuais teóricos sobre “fazer história” após a obra de Sima Qian. Para Li, estava mais do que claro que a história era uma metáfora, vinculada por uma linguagem coerente através de fragmentos do real (fontes, vestígios, epígrafes, etc.). Mas nem por isso ela perde sua objetividade; um discurso falacioso sempre carece de base e possui falhas, contudo, a história deve precaver-se de acreditar que se encerra numa visão "verdadeira" do real. O que ela constrói são hipóteses, na medida do possível, válidas.

Seguir-se-á o trabalho de Sima Guang (+1019 +1086), o Zizhi Tongzhian (Espelho para um bom governo), que aprofunda o problema da crítica histórica. Guang achava imprecisas as datações pautadas nas referências dinásticas. Defendia um descompasso entre as “impressões” do tempo que os segmentos sociais percebiam, e aprovava o uso de versões históricas contraditórias, que deixassem o sabor do juízo ao leitor. Constrói um modelo cronológico de “espaços temporais”, e não de períodos dinásticos. Valorizava alguns personagens históricos, mas também perspectivas coletivas. Estudou as leis da história, aspectos do Direito, da política e dos costumes sociais. Todavia, neste momento fértil da história chinesa Zhu Xi (1130+1200), o grande comentador confucionista, escreveria também o seu Tongjian gangmu, inspirado no estilo taciturno do Chunqiu (Primaveras e Outonos) e comentando as passagens históricas tal como feito no Zuozhuan. Num átimo, os historiadores chineses olham para o passado e futuro simultaneamente: a marca distintiva de uma civilização que se calca igualmente na alternância do mutável e do imutável.

Assim, pois, o desenvolvimento do prisma teórico assenta-se gradualmente em camadas, influenciando o trabalho destas comissões de histórias dinásticas. Livres de amarras teológicas que pudessem criar entraves ao problema da transgressão lógica, a história chinesa dá passos calmos e vagarosos - porém seguros - para desenvolver-se.

Guyenwu (+1613 +1682) trará para campo a necessidade de avaliar a importância da diversidade cultural na constituição histórica social. Em período próximo, a escola Kaozheng (do qual fazem parte Guyenwu e Huang Zongxi (+1610+1695), alertará contra os perigos da “valorização da evidência” como “prova da verdade”. Eles acreditavam apenas em testemunhos históricos, e não na “reprodução” da realidade pelo documento. Retomam a antiga consciência de Confúcio e Sima sobre a dificuldade em tomar a fonte por ela mesma, e indicam a necessidade constante de renovar o papel crítico do historiador.

Já nos fins do séc. 18, Zhang Xuecheng (+1738 +1801) desenvolve o aspecto das histórias locais e do relativismo cultural proposto por Guyenwu. A história conquista definitivamente o campo do estudo ético transcultural e ganha dimensão extra-temporal. Espraia-se na possibilidade de transcender a fronteira chinesa, consolidando um arcabouço teórico adaptável à diversidade de civilizações. Mas esta experiência durará pouco tempo, e algumas décadas depois as invasões européias minarão gradualmente a capacidade criativa desta historiografia, que terminará alijada a uma posição secundária na modernidade.

Ler o passado, para inferir o futuro: a história como um fundo moral, a base sobre a qual se assenta a sociedade; eis os princípios que nortearam a construção da história tradicional chinesa, definida sempre pelo mister de aperfeiçoar o ser humano. Trata-se, pois, de uma história ética, avaliativa e engajada - e oportunamente bastante consciente de sua posição. Se não pode prever completamente o futuro - posto que este é construído agora - a história faz o sábio. Ou, como disse Confúcio; “aquele que por meio do antigo descobre o que é novo, este pode ser um mestre!” (Lunyu, 2).


Alguns conceitos da História Chinesa

Tendo em vista esta apresentação sobre a historiografia chinesa e seus principais autores, é interessante que passemos, agora, à análise de alguns conceitos presentes no pensamento histórico chinês.

O Tempo

A "ação humana ao longo do tempo"- uma definição mais que sucinta para a história. Pertinente, porém, para o que significa o estudo sobre o passado feito pela civilização chinesa. A ação humana é o domínio da moral. O tempo é o campo onde ela evolui, se renova e se repete. Todos estes aspectos estão presentes no contexto da eterna mutação da matéria e da sociedade. Assim sendo, é a história também um elemento do círculo cósmico que tudo açambarca; ela é um fragmento do real que traduz o próprio real.

No entanto, o tempo chinês é diferente do nosso. Repete-se em ciclos, ciclos de mutação. Ou seja, engendram-se numa espiral de ascensão e queda, tal como a dinâmica de yin e yang - as duas grandes energias do universo que se completam por sua natural oposição. O tempo é, portanto, o vazio onde se realiza a transformação. Ele é construído sob a forma material num determinado contexto - o passado - e dissolve-se no inexorável processo de degradação do físico.

Se este é seu padrão, supuseram então os chineses que o tempo se repete, e se repetem os acontecimentos históricos - mas estes acontecimentos nunca serão os mesmos! Como se explica esta noção tão complexa?

O tempo é uma impressão, como afirmou Sima Guang (+1019 +1086). Uma impressão de vários aspectos; mental, material, circunstancial... No tempo, reproduz-se o ciclo de criação e destruição de yin e yang, eis o que não pode ser mudado, o padrão de repetição. Mas, se a realidade é definida justamente pela mutação, então o padrão se repetirá, mas nunca da mesma forma. Esta é a chave para entender o avanço das técnicas, e a diferença entre os contextos históricos.

Sima Qian (-145 -85) já havia alertado que o tempo organiza-se nestes ciclos, que podem ser observados pela manifestação dos cinco agentes (ou elementos, o wu xing - madeira, terra, fogo, água e metal) na matéria. Até mesmo o movimento das dinastias podia ser interpretado pela sucessão destes agentes na natureza, tal como foi o caso de Qin (-221-206), do elemento água, que foi suplantado pelos Han (-206 +220), do elemento terra.

Estaríamos inclinados a acreditar que esta suposição seria fantasiosa, se Sima não fosse um astrônomo (ou astrólogo, na época tanto fazia) de capacidades notáveis. Calculando o tempo de transposição destas forças nas dinastias passadas, e comparando-as com eventos astronômicos importantes citados nos documentos, este historiador conseguiu traçar uma cronologia histórica precisa até o século -10, quando afirma não ter mais segurança sobre as datas que propõe. Se a arqueologia ocidental é nossa referência para validar tal afirmação, saibamos que ela o comprovou. E mais: atualmente, esta mesma arqueologia tem observado que datas anteriores ao período do século -10 estão bem próximas de serem iguais as propostas por Sima. Diante do nosso desconhecimento acerca da ciência chinesa, poderíamos afirmar credulamente que isso seria quase místico, se não fossem os chineses bastante cônscios do funcionamento do seu sistema de interpretação da natureza.

Assim, podemos compreender que a espiral de Sima Qian é ascendente; o que ela demonstra é que os eventos do passado são similares aos do presente, mas não são exatamente os mesmos. Tem causas parecidas, dão-se de forma semelhante, e podem mesmo descambar numa conclusão próxima da que tradicionalmente conhecemos. Mas há a variabilidade! E é este fator que gera a descoberta, a invenção, a transformação. A mutação é que faz dar o passo além na história. Ela quem modifica as estruturas, a sociedade, a cultura. Muda, para manter-se a mesma. E nunca o será.

Diante desta consideração sobre o tempo que os chineses tomam a história como um arcabouço de ilustração intelectual; nela estão contidos os arquivos da experiência humana, uma biblioteca formada por fragmentos do saber temporal e atemporal que, conjugados, formam a base da realidade atual. É, pois, o fundo infinito da sapiência humana.

A Verdade Histórica

Disse o legista Hanfeizi (séc. -3): “A dificuldade em falar a uma pessoa não está em saber o que dizer, nem no método de argumentação que torne claro o que se pretende. Também não está na dificuldade de ter coragem para expor total e francamente o que se tem no espírito. A dificuldade está em conhecer a mentalidade da pessoa a quem se fala e em adotar o meio mais adequado a atingi-la”. Lubuwei, contemporâneo de Hanfei, afirmou igualmente; “É indispensável submeter toda a informação a um exame preliminar. Após muitas transmissões, ela é deformada a ponto do branco virar preto e o preto virar branco”.

Tendo em vista estas duas afirmações, podemos constatar claramente a consciência dos antigos chineses acerca do problema da “verdade” histórica. Esta é (e sempre será) determinada pela intenção de quem a faz ou de quem a interpreta. Confúcio (séc. -6) aconselhava seu discípulo; "Recolhe muita informação, põe de lado o que é duvidoso, repete cuidadosamente o resto; então, raramente dirás algo errado. Faz muitas observações, deixa de lado o que é suspeito, dedica-te cuidadosamente ao resto; então raramente terás do que te arrepender. Com poucos erros no que dizes e poucos arrependimentos pelo que fazes, tua carreira está garantida" pois “Busco transmitir, não inventar. Confio no passado e o amo” (Lunyu, 7). Eis aqui a noção que parece permear a concepção de verdade na história chinesa. Se ela é uma criação pessoal (ou não), tente fazê-la da forma mais consciente e esclarecida possível. “Estudar sem pensar é inútil, pensar sem estudar é perigoso” (Lunyu, 2), afirmava o grande mestre. Esta é a base do discernimento sobre a qual uma “verdade histórica” se impõe - sua articulação lógica com a impressão do passado.

Por esta razão é que Liu Zhiji (+661 +721), no capítulo 22 "Xushi", nos dirá que "quanto mais se fala, mais caótica e complexa se torna a História" - o uso das palavras deve ser mais do que cuidadoso, no sentido de expressar aquilo que realmente se quer dizer.

Tendência, Propensão

Zisi, retomando Confúcio, explana ainda sobre uma outra possibilidade, a do sábio adquirir a capacidade da vidência sobre a sociedade, sobre a política e sobre si mesmo (Zhong Yong, 24). Devemos esclarecer que esta não é um “poder sobrenatural”, tal como usualmente se considera no Ocidente. Esta tendência é a disposição e a sensibilidade de acompanhar, inferir e presumir os movimentos do fluxo criativo que concretiza o contínuo processo de geração da natureza, tal como proposto na estrutura do pensar chinês. Tendo conhecimento das tensões que permeiam um objeto de análise, o sábio pode definir, ou inferir, a direção do contexto em função de sua aproximação (ou afastamento) da centralidade – ou ainda, para que ponto a centralidade se desloca. Seu método é basear-se na experimentação consigo mesmo e com os outros seres humanos, o que lhe dá o arcabouço necessário a reconhecer os padrões de movimento das coisas e elucubrar as probabilidades. É assim que ele pode “prever” o movimento de pessoas, de governos ou sociedades. Sua “vidência” é uma análise profunda dos seres, fundamentada em sua experiência íntima com os limites e a moderação. Métodos oraculares como as carapaças de tartaruga e o Yijing (Tratado das Mutações) são recursos a sua investigação; mas o perfeito desdobramento de sua “vidência” se dá por uma capacidade própria, interna, independente destes mesmos meios: “a perfeição moral é, num estágio avançado, como a dimensão do próprio espírito” (Zhong Yong, 24). Tal consideração pode resumir-se numa passagem em que o discípulo Zizhang pergunta a Confúcio; "é possível predizer o que será dos próximos dez reinados?", ao que o Mestre responde: "Os Shang herdaram os ritos de Xia; nós, Zhou, herdamos os de Shang. Ora, sabemos o que cada um dessas dinastias acrescentou e suprimiu. E o mesmo acontecerá com todos os reinos que sucederem Zhou, sejam eles em dez ou em cem" (Lunyu, 2).

A Investigação

Escrutinar o passado significa utilizar todos os recursos disponíveis para reconstituí-lo. Aqueles que se dispuseram a narrá-lo fizeram uso do pincel ou da memória oral, constituída por um milenar processo de condicionamento e repetição de poesias e histórias. Os historiadores chineses não abriam mão, porém, dos objetos materiais para avaliar as transformações de uma cultura. Confúcio constatava a desarticulação da linguagem pictórica chinesa com o processo de representação do real quando reclamava “hoje, um vaso não é mais um vaso” (ou seja, a forma estilística dos vasos rituais já não possuía mais uma relação direta com a representação gráfica da palavra “vaso”. Lunyu, 6).

Sima Qian (séc.-2) visitou a terra de Confúcio em busca de informações, e ficou vivamente impressionado com a velha carroça da família do mestre a apodrecer num canto. Indignou-se igualmente por haver tão poucos que conhecessem mais sobre as tradições. Ambos, portanto, pareciam desconfiar seriamente que apenas os textos pudessem lhes gerar as informações que precisavam.

Na verdade, uma fonte de informações já utilizada na época baseava-se em inscrições epigráficas e oraculares, muitas vezes presentes em vasos das dinastias Shang e Zhou. Esta tradição seria retomada no período Han (séc -2 +2), Tang (séc. 7 +10) e Song (960 + 1279). Este último foi um período extremamente importante para o desenvolvimento da arqueologia chinesa, tendo em vista o início de escavações com fins claramente historiográficos que visavam formar coleções de vasos e cerâmicas representativas sobre as épocas passadas. Tais coleções foram agrupadas em classificações estilísticas e funcionais até hoje conhecidas, embora grande parte das listas e objetos tenha se perdido nas transições dinásticas. Muitas seriam analisadas por artistas da época que buscavam traduzir o “espírito das culturas antigas”, investigando um possível processo de evolução das formas estéticas.

Buscava-se ainda correlacionar estes vestígios materiais e textuais com as datações astronômicas existentes em eficazes tabelas de registro do movimento dos corpos celestes. Como tal movimento podia ser calculado num ciclo relativamente regular, algumas datações poderiam verificar-se exatas, enganosas ou posteriores. Nestes casos, uma análise comparativa das fontes favorecia o enquadramento de um determinado contexto e a dissecação de possíveis contradições. Sima Qian organizava sua cronologia através de um sistema que articulava o movimento de determinadas constelações com o chamado “ramo terrestre” - um ciclo de doze anos que hoje conhecemos através do horóscopo chinês. Desta correlação formava-se um grande ciclo de sessenta anos que espaçava razoavelmente bem a possibilidade de determinados eventos históricos mesclarem-se numa confusão cronológica. Sima ainda aperfeiçoou este sistema através da inserção das “marcas dinásticas”, períodos de duração do reinado de cada soberano que delimitavam um espaço-tempo.

Apesar da razoável precisão deste sistema, Sima Guang (+1019 +1086) criticou-o posteriormente por ele ser preciso apenas em termos quantitativos. Os tempos de transformação ou de transição dos segmentos culturais de uma sociedade podem estar em descompasso com estas marcações. A crítica de Guang é bastante pertinente se aplicada ao contexto das histórias locais e do relativismo cultural. Afinal, o "tempo" do camponês que trabalha a terra da mesma forma há séculos pode basear-se numa percepção completamente diferente do "tempo" que acompanha a esfera política. Tais transformações devem ser investigadas.

Conhecer e investigar, aliás, é a base da história e da ética; “[os antigos] Desejando cultivar suas pessoas, primeiro corrigiram seus corações. Desejando corrigir seus corações, primeiro trataram de ser sinceros em seus pensamentos. Desejando ser sinceros em seus pensamentos, primeiro ampliaram ao máximo o seu conhecimento. Essa extensão do conhecimento baseia-se na investigação das coisas” (Daxue, 1).

Conclusão

A história chinesa apresenta-se como um excelente contraponto à nossa realidade historiográfica. Calcada num processo de construção e continuidade desconhecidas no Ocidente, ela serve como referência para um debate profundo sobre os modos de se “fazer” história. Além disso, a história chinesa rompe (para os chineses) o paradigma da cientificidade, posto que para eles ela representa tanto uma ciência quanto um gênero literário cujos objetivos parecem ser definidos, mas os procedimentos e teorias, variáveis. Esta condição, totalmente contraditória ao nosso modo de ver, encontra-se resolvida na oposição complementar do pensamento desta civilização. Logo, sua versatilidade e potencial devem ser investigados mais profundamente, a fim de construirmos uma perspectiva historiográfica mais abrangente e rica através de sua compreensão
  
Referências

As fontes primárias aqui utilizadas (Lunyu, Daxue, Zhongyong, Shiji, etc.) podem ser encontradas no original em www.guoxue.com Último acesso em novembro de 2006.

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LARRE, C. A percepção empírica do tempo e a concepção da história no pensamento chinês em RICOEUR, P. (org.) As culturas e o tempo. São Paulo: Vozes-USP, 1975.

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