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A Tradição na História Chinesa - Novembro, 2004

Em contraste com outras civilizações asiáticas (e talvez com o próprio Ocidente), os chineses possuem desde a antiguidade um senso histórico singular e bastante aprofundado. A história chinesa é, para estes autores antigos, um objeto de referência e reverência - os tempos passados não narram apenas o que aconteceu, mas toda uma experiência que nos serve agora, no presente, e que se projeta em nossas construções futuras.



Assim, o historiador chinês se coloca sempre no ponto axial de uma transição contínua entre o tempo, a matéria e a sociedade. Não tem ilusões de recriar perfeitamente o passado, mas intui o poder advindo de uma leitura esclarecida sobre o mesmo. Desde cedo, fugirá da gaiola textual e buscará também em relíquias materiais as informações que precisa para comprovar sua tese. Ele o sabe - seu trabalho é apenas um parecer metafórico sobre o passado. No entanto, a mesma metáfora é uma leitura sobre o real; então, como dizer que ela não é igualmente real?



O primeiro destes ilustrados historiadores que a tradição chinesa nos legou foi o grande mestre Confúcio (ele mesmo um divisor de águas da sua civilização), do século -6 (datas tradicionais -551-479). Costumam os chineses afirmar que outros "pensadores-historiadores" vieram antes dele, mas nenhum chegou-nos até nós senão pelas mãos do mestre. Confúcio via na história um dos caminhos para a redenção moral. O passado - ainda que não possa ser reconstituído em sua totalidade - está repleto de exemplos dignificantes de como o ser humano deve proceder. Não são apenas grandes soberanos, mas também pequenos heróis, importantes discursos, eventos marcantes...uma plêiade de referências que embasam e ilustram o discurso ético da escola dos letrados. Confúcio tinha consciência de que seu resgate dos tempos antigos era incompleto e possivelmente problemático - não foi o mestre, pois, que reclamou da insuficiência de textos, objetos e tradições das dinastias antigas? "Posso falar sobre o ritual Xia? Seu herdeiro, o país de Qi, não preservou suficientes evidências. Posso falar sobre o ritual Yin? Seu herdeiro, o país de Song, não preservou suficientes evidências. Não existem registros suficientes e tampouco homens sábios suficientes; caso contrário, eu poderia obter evidências a partir deles" (Lunyu 3 e Zhongyong, 28). Mesmo assim, fragmentos desta antiguidade garantem subsídios mínimos para o estudo do presente. Confúcio capta com grande excelência a idéia desta “decadência contínua” que todas as sociedades sentem, e que gera a idéia do passado sempre como uma “época melhor”. O Mestre nos mostra que os tempos antigos estão repletos de bons e maus exemplos, e o que nos cabe é escolher em qual iremos nos inspirar. Queremos ser como o sábio Shun ou o tirano Zhou, de Shang? Lega-nos ainda dois livros importantes; o Shujing (O Tratado dos Livros, recolha de discursos e eventos históricos importantes da antiguidade) e o Chunqiu (Primaveras e Outonos, uma longa cronologia de eventos históricos desde -781).



Depois de Confúcio, outros tantos historiadores anônimos dedicar-se-iam a escrever a história de suas regiões em meio aos tempos claudicantes dos Estados Combatentes. Vestígios esparsos destas obras sobreviveram, e mesmo assim só podem ser encontrados em obras posteriores. Apenas os comentários do Chunqiu (nomeados como tradição Zuo, Guliang e Gungyang) mantiveram-se intactos, além do Anis de Bambu (Zhushu jinian). A China teria que esperar um pouco para ver surgir o grande luminar de sua historiografia, Sima Qian (-145-85).



Sima foi o Taishi (historiador e astrólogo oficial) da primeira dinastia Han. Seu livro, o Shiji (Recordações Históricas) é uma grande antologia comentada dos tempos antigos, trazendo novas luzes sobre o passado chinês. Fruto de uma longa pesquisa material e textual feita em todo o império, Sima inova nas técnicas de datação e pesquisa. Verifica tabelas astronômicas para afirmar a autenticidade de certos eventos. Realiza uma exegese nos textos, vestígios materiais e epigráficos para analisar as possíveis inferências, as interpolações e adulterações. Assume suas dificuldades em reconstituir certos momentos desta história, e busca argumentar de forma coerente ao defender um ponto de vista (realização rara em todos os tempos). Cria ainda o “parecer do Taishi”, uma análise crítica apresentada ao final do texto como uma espécie de “veredicto” sobre determinada figura ou circunstância histórica, com fins de possibilitar a reflexão moral sobre o tema. Sima têm perfeita consciência - tal como Confúcio - de que sua produção intelectual é fruto de um tempo, uma releitura do passado. Como se afirma num comentário do Zuozhuan, "a história serve para interpretar e conhecer o passado", mas o próprio Sima afirma, diante desta perspectiva, que " a história busca compreender as mudanças dos passado e do presente". Esta perspectiva influenciará decididamente os historiadores chineses posteriores, que nunca se iludirão com a idéia de possuir uma “opinião isenta”; verificar-se-á a história pelos modelos construídos, pelas “evidências”, enfim, pela possibilidade que uma interpretação tem de ser lógica, profunda e fundamentada. Ainda assim, venera a história como caminho de ilustração moral; “ela distingue o que é suspeito e duvidoso, elucida o certo e o errado, e decide o que é incerto. Classifica o que é bom como bom e o que é ruim como ruim, honra o que é digno e condena o que não é merecedor. Preserva existências perdidas e restaura as famílias em deterioração. Esclarece o que foi negligenciado e restabelece o que foi abandonado” (Shiji, 130).



Sima cria o modelo de como a história deve ser produzida. Banbiao, historiador do séc. +1 comentará esta obra fazendo-lhe adendos com “novas descobertas históricas” no Shiji Lun. Seu filho Bangu se conduzirá por esta trilha aberta, redigindo a história oficial da Dinastia Han. Segue os mesmos procedimentos de pesquisa, recolha, análise e compilação. Não termina sua obra, porém. Quem lhe sucederá no encargo é sua irmã, Banzhao (+32 +92), talvez a primeira historiadora reconhecida da humanidade. Intelectual confucionista, finda o texto e recebe a benção da imortalidade de seu nome, tal como o irmão. É também a época do filósofo Wang Chong (+27 +91), o cético que assumi definitivamente a materialidade da história - um momento no espaço-tempo que já findou, e do qual nos restaria apenas uma herança.



Seguem-se as dinastias, e o trabalho individual do historiador é substituído pela formação de equipes de pesquisadores (com Taishi assumindo um papel diretor). Gradualmente estas comissões - que tinham por objetivo ampliar o espectro do estudo histórico - perdem o sentido crítico e terminam por criar versões da história que tendem geralmente a conciliar visões divergentes através de inúmeros artifícios teóricos. Liu Zhiji (+661 +721) denunciará esta perda da capacidade crítica, sobre a qual se estabelece o processo de discernir. Luta contra os malabarismos metodológicos, e não aceita tão simplesmente o consenso como uma forma de resolução dos problemas históricos. Seu Shitong (Observações sobre História) será um dos melhores manuais teóricos sobre “fazer história” após a obra de Sima Qian. Para Liu, estava mais do que claro que a história era uma metáfora, vinculada por uma linguagem coerente através de fragementos do real (fontes, vestígios, epígrafes, etc.). Mas nem por isso ela perde sua objetividade; um discurso falacioso sempre carece de base e possui falhas, contudo, a história deve precaver-se de acreditar que se encerra numa visão "verdadeira" do real. O que ela constrói são hipóteses, na medida do possível, válidas.



Seguir-se-á o trabalho de Sima Guang (+1019 +1086), o Zizhi Tongjian (Espelho para um bom governo), que aprofunda o problema da crítica histórica. Guang achava imprecisas as datações pautadas nas referências dinásticas. Defendia um descompasso entre as “impressões” do tempo que os segmentos sociais percebiam, e aprovava o uso de versões históricas contraditórias, que deixassem o sabor do juízo ao leitor. Constrói um modelo cronológico de “espaços temporais”, e não de períodos dinásticos. Valorizava alguns heróis, mas também perspectivas coletivas. Estudou as leis da história, aspectos do Direito, da política e dos costumes sociais. Todavia, neste momento fértil da história chinesa Zhu Xi (1130+1200), o grande comentador confucionista, escreveria também o seu Tongjian gangmu, inspirado no estilo taciturno do Chunqiu (Primaveras e Outonos) e comentando as passagens históricas tal como feito no Zuozhuan. Num átimo, os historiadores chineses olham para o passado e futuro simultaneamente: a marca distintiva de uma civilização que se calca igualmente na alternância do mutável e do imutável.



Assim, pois, o desenvolvimento do prisma teórico assenta-se gradualmente em camadas, influenciando o trabalho destas comissões de histórias dinásticas. Livres de amarras teológicas que pudessem criar entraves ao problema da transgressão lógica, a história chinesa dá passos calmos e vagarosos - porém seguros - para desenvolver-se.



Guyenwu (1613-1682) trará para campo a necessidade de avaliar a importância da diversidade cultural na constituição histórica social. Em período próximo, Kaozheng alertará contra os perigos da “valorização da evidência” como “prova da verdade”. Kao acreditava apenas em testemunhos históricos, e não na “reprodução” da realidade pelo documento. Retoma a antiga consciência de Confúcio e Sima sobre a dificuldade em tomar a fonte por ela mesma, e indica a necessidade constante de renovar o papel crítico do historiador.



Já nos fins do séc. 18, Zheng Xuecheng (1738-1801) desenvolve o aspecto das histórias locais e do relativismo cultural proposto por Guyenwu. A história conquista definitivamente o campo do estudo ético transcultural e ganha dimensão extra-temporal. Espraia-se na possibilidade de transcender a fronteira chinesa, consolidando um arcabouço teórico adaptável à diversidade de civilizações. Mas esta experiência durará pouco tempo, e algumas décadas depois as invasões européias minarão gradualmente a capacidade criativa desta historiografia, que terminará alijada a uma posição secundária na modernidade.



Ler o passado, para inferir o futuro. A história como um fundo moral, a base sobre a qual se assenta a sociedade. Eis os princípios que nortearam a construção da história tradicional chinesa, definida sempre pelo mister de aperfeiçoar o ser humano. Trata-se, pois, de uma história ética, avaliativa e engajada - e oportunamente bastante consciente de sua posição. Se não pode prever completamente o futuro - posto que este é construído agora - a história faz o sábio. Ou, como disse Confúcio; “aquele que por meio do antigo descobre o que é novo, este pode ser um mestre!” (Lunyu, 2).



Sugestões de leitura;



Os melhores manuais sobre a Historiografia chinesa são; Chinese traditional historiography, de Charles Gardner (Cambridge, 1938) e Historians of China and Japan, org. por W, G. Beasley e E. Pulleyblank (Londres, 1961). Veja também Ssu Ma Chien, Grand Historian of China, de Burton Watson (Columbia, 1958) e Worlds of bamboo and bronze de Granty Hard (Columbia, 1999). Bons textos sobre o assunto são encontrados em El legado chino, de Raimond Dawson (Madrid, 1967), La China Imperial, de Michael Loewe (Madrid, 1969), Theorie de l’evolution et verité historique dans la Chine ancienne, de Jean Levi (Paris, 1987) e um capítulo do livro La propension de las cosas, de François Jullien (Madrid, 2003).

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