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Para ser um Sábio - Novembro, 2004

No pensamento chinês, são vários os caminhos (Dao) que permitem ao ser humano atingir alguma espécie de plenitude nesta vida. Tais métodos não se excluem, embora cada um apresente uma perspectiva diferente sobre a realidade. Por isso mesmo, desde a época Han (séc. –3 +3) há uma tendência no pensar chinês em sintetizá-los em grandes correntes teóricas, que buscam formular respostas cada vez mais abrangentes para os diversos problemas humanos. No entanto, existem algumas linhas principais que preservam e determinam o enquadramento intelectual de um autor.

Diante da complexidade oferecida pelo cosmo e pela sociedade, os daoístas defendiam um abandono da vida comum e o retorno contemplativo as raízes naturais do ser humano; moístas acreditavam num resgate da vida comunitária e fraterna, abolindo radicalmente a política; legistas pregavam que a igualdade entre as pessoas era uma falácia, e que a vida social só poderia ser organizada e mantida por leis fortes que inibissem os abusos...mas e os Confucionistas, o que pensavam?

É no sábio-letrado Confúcio que centrarei este texto. Particularmente, acredito que o Mestre era o único que possuía uma visão decididamente engajada na resolução dos problemas sociais como um todo. Não distinguia pobres de ricos, como fariam os moístas, mas sim, sábios e ignorantes – e mesmo assim, afirmava que seu ensinamento se destinava a quem quisesse tê-lo -; não propunha se retirar do mundo, como os daoístas em geral faziam, mas a mudá-lo, de modo a beneficiar a todos; e não acreditava nas leis asfixiantes que os legistas defenderiam, posteriormente, pois tais leis só punem - mas seu resultado final é apenas o de incutir o medo nas pessoas -, o que não as torna melhores.

O que Confúcio e seus seguidores propunham, então, para solucionar os problemas éticos da sociedade? Eis a resposta que, creio eu, torna o Mestre mais atual do que nunca: a Educação.

Estudar para Confúcio era a base de tudo. Pelo estudo, aperfeiçoa-se o coração e a mente. Inibe-se a prática do mal advinda da ignorância. Esclarecem-se as pessoas pela conscientização. Por este motivo, todos deveriam estudar o mínimo que fosse – este é grande método pelo qual despertar-se-ia a sensibilidade humana. Insensíveis a realidade social por causa do desconhecimento, as pessoas entregam-se aos vícios por se perderem entre sentimentos conflitantes sobre a realidade – mas a educação teria o poder de mostrar ao indivíduo suas potencialidades e defeitos, indicando-o caminhos para trilhar e libertando-o da prisão dogmática.

Mas porque resgato Confúcio, se há tantos pedagogos modernos? Porque falar de um antigo, se apenas buscamos o novo (e será que isso é mesmo possível)? Surpreende-me, ainda, saber que um sábio da antiguidade analisou com profundidade inaudita a questão da educação (tema mais que atual em todas as pautas políticas da modernidade). Não se trata de afirmar que suas teorias são antiquadas ou não - mas sim, de como elas estruturaram a existência de uma civilização como a China que tem seus "3000 anos de existência" regidos pelos princípios do Mestre. Não desprezo o avanço das ciências nem a evolução das técnicas educativas, mas tenho em mente que tal durabilidade de um saber não-religioso só pode se dar se houver nele alguma eficácia ou razão de ser. E ainda, de que suas propostas são universalistas e podem ser estendidas a todas as pessoas. Tal como os chineses, tendo a acreditar de fato que todos os seres humanos são iguais e universais perante o céu – somos criados e reproduzidos por um princípio que não muda, o Li – mas, regidos pelo processo da mutação, tornamo-nos diferentes em aparência e potência. Ou seja, somos iguais e diferentes ao mesmo tempo – oposição dialética extremamente saudável para a criatividade humana, diga-se de passagem. Assim sendo, o que Confúcio afirma pode ter sua valia para nós. Cabe-nos investigar e aceitá-la (ou não), se acharmos que ela nos toca o íntimo de certa forma.

Por fim, para terminar esta breve introdução, creio que você, leitor, só estará a ler este artigo se tem um mínimo interesse em fazer algo melhor de sua vida – nem que isso seja o que vulgarmente chamamos de “aprimorar conhecimentos”. Ignorantes não o lerão, ou apenas o farão de forma forçada – estes são os que mais precisam de ajuda, pois na verdade não estão despertos para o valor do estudo. O contexto moderno, mais do que nunca, privilegia o abandono da sabedoria em troca da praticidade; mas como evoluiremos se a própria busca de novas soluções depende do cultivo da inteligência? A busca é sempre individual, enfim. O caminho, apenas, é que se abre para todos. Mas como o Dao é generoso!

Talhar a si próprio

Estudar é o meio pelo qual ampliamos nosso conhecimento sobre a realidade, e sobre ela construímos muitas dúvidas e poucas certezas. Desfaz-se, porém, o véu da insegurança que permeia todas as respostas. Investigando as coisas, aprendemos suas dimensões positivas e negativas – e a partir delas, definimos para nós o que é mais apropriado. Dizia Confúcio no Manual dos Rituais (Liji, 18); “Para o sábio, a única maneira de civilizar o povo e instituir bons costumes sociais é pela educação. Assim como uma pessoa não pode saber o gosto de um alimento sem o ter provado, por melhor que seja, tampouco se poderá, sem a educação, chegar a conhecer as excelências de um vasto acervo de conhecimentos, mesmo que eles aí estejam. Só por meio da educação, pois, tornar-se-á alguém insatisfeito com o que sabe; e só quando tem de ensinar a outrem é que a gente dá-se conta da incômoda insuficiência dos próprios conhecimentos. Insatisfeita com o que sabe, a pessoa então percebe que é seu o mal, e dando-se conta da incômoda insuficiência de seus conhecimentos sentir-se-á impelida a aprimorar-se”.

Assim é que aquele que busca já é, em parte, um sábio. Por conseguinte, ser sábio também é uma condição extensível a todos. O ignorante não é apenas aquele que não sabe, mas aquele que milita no seu próprio não-saber – tentando satisfazer-se sempre em meio as condições acidentais que regem sua vida. Ele não crê no amanhã, e por isso só se atém de forma inconsciente ao agora. Na verdade, ele não pode crer em nada realmente; não há uma lógica clara nas coisas que vivencia. É alguém que assume sua inconsistência – esta sim a única afirmação que ele pode tornar válida para si próprio perante os outros, e que muitas vezes é feita com um sorriso no rosto...ser ignorante é uma opção, portanto. "Só os mais sábios e os mais estúpidos nunca mudam" (Lunyu, 17).

Mas estudar trata-se, na verdade, de apontar para o caminho. Este não pode ser definido por mais ninguém, senão por aquele que busca ser sábio. "Você pode fazer as pessoas seguirem o Caminho, mas não pode fazer com que o compreendam" (Lunyu, 8). Aprimora-se pela educação, por conseguinte, é um método; mas para Confúcio, talvez seja uma das poucas formas que podem ser difundidas para toda a sociedade, ajudando-a a vencer seus próprios miasmas pelo esclarecimento: “O que é dado pelo Céu é o que chamamos natureza humana. Cumprir a lei de nossa natureza humana é o que chamamos Caminho. O cultivo do caminho é o que chamamos Instrução. O Caminho é uma lei a que não podemos, por um só instante que seja em nossa existência, fugir. Se pudéssemos dele escapar, não seria mais o Caminho. Por conseqüência, eis porque o sábio espreita diligentemente o que seus olhos não podem ver, receia e se atemoriza com o que seus ouvidos não podem ouvir” (Zhongyong, 1).

Estudar deve ser um mister que desperte o ser humano de sua condição alienada do real. Sem isso, torna-se uma prática estéril de repetição, sem fim nem fundamento senão o proveito próprio: “Estudar sem pensar é fútil. Pensar sem estudar é perigoso” (Lunyu, 2). Afinal, o que se esperar de um professor, de um médico ou de um técnico que não estudaram com afinco? O fracasso e o desastre, obviamente. Aprofundar-se é mais do que dominar conteúdos, reproduzir palavras...é saber mergulhar nas mesmas, e descobrir-lhes a raiz. Para ser sábio, pois, não se precisa apenas de um bom mestre, mas também ser bom aluno. Como diz o Lunyu, 5, “Zai Yu estava dormindo durante o dia. O Mestre disse: "Madeira estragada não pode ser entalhada; paredes de esterco não podem ser rebocadas. De que serve admoestá-lo?" O Mestre disse: "Houve um tempo em que eu ouvia o que as pessoas diziam e acreditava que elas iriam agir em conformidade, mas agora ouço o que dizem e observo o que fazem. Foi Zai Yu quem me fez mudar".

Afinal, a própria realidade não admite a existência da ignorância: “Confúcio observou - “Todos os homens dizem "Sou esperto"; porém quando arrastados para diante duma rede, armadilha, ou cilada, não há um só que saiba como encontrar um modo de fugir. Todos os homens dizem "Sou sábio"; porém, na procura do Caminho, não são capazes de conservá-lo junto a si por um mês inteiro” (Zhongyong, 7). A vida em sociedade não permite por muito tempo o emprego de artimanhas. Aquele que não busca o estudo de fato será revelado em condições desastrosas. “Deixar de estudar é voltar ao estado selvagem. Uma instrução de alguns minutos por dia é muito mais proveitosa do que estar pensando por si próprio todo um dia.[...] Assim é que o estudo entra pelos ouvidos do sábio e faz morada no seu coração; do coração, se difunde para seus membros, e se manifesta em todos os seus atos. Ao contrário, no ignorante as palavras entram pelo ouvido e saem pela boca, sem haver percorrido mais do que as quatro polegadas que os separam. Como alguém assim pode saber seu próprio tamanho?”(Xunzi usa a palavra “Tamanho” em sentido ambíguo, como medida de saber. Xunzi, 1).

Mas o que é ser sábio?

Se ser sábio consiste em estudar sempre, com afinco, como fazê-lo? O que isto nos proporciona? Posso perguntar, com interesse legítimo, “do que vale buscar ser sábio”? Creio que a resposta só advém do próprio estudo. No Ocidente, ao reconhecerem-se presos à um dogma, muitas pessoas vêem suas vidas destruídas pela desagregação do que tinham em conta como uma “verdade”. Sinceramente, prefiro o “sentimento de descoberta” que o sábio chinês cultiva, e que alguns filósofos ocidentais também perceberam; descobrir pode ser algo que nos leva a uma surpresa agradável, libertadora. Nos vemos livres de um preconceito, entendemos a relatividade das coisas, transitamos por entre o mundo sem a melancolia de uma visão negativa. Aprendemos a visualizar o potencial das coisas, e a atuar sobre elas. Aprendemos mesmo a incitar sua mudança. Dizia um provérbio atribuído a Guanzi; “Se você der um peixe para um homem, ele terá uma refeição. Se você lhe ensinar a pescar, ele terá uma vida”.

Por isso mesmo, há um propósito e um método para estudar. Em linhas gerais, eles podem ser resumidos no seguinte: “A fim de alcançar a sabedoria, é preciso obter um conhecimento largo e profundo do que tem sido dito e feito no mundo; indagar sobre isso com espírito de critica; ponderar cuidadosamente; sondar claramente; e levá-lo avante logo depois. Não importa o que você aprender; porém, assim que aprender alguma coisa, não o abandone enquanto não o souber bem. Não importa o que motiva suas indagações, porém, quando as fizer sobre alguma coisa, jamais deverá abandoná-la enquanto não a compreender perfeitamente. Não importa o que você tenta meditar, porém, desde que você tenta meditar sobre uma coisa não deve deixar de fazê-lo enquanto não chegar à conclusão desejada. Não importa o que você tenta aprofundar, porém uma vez que você tentou aprofundar uma coisa, não deve abandoná-la enquanto não a tiver aprofundado clara e distintamente. Não importa o que você tenta terminar, porém, desde que tentou levar a cabo uma coisa não deve abandoná-la enquanto não a tiver terminado perfeitamente bem. Se outro homem obtiver sucesso por meio de um só esforço, você lançará mão de centena de esforços. Se um outro homem for bem sucedido com dez esforços, você usará mil. Proceda um homem realmente dessa maneira e, embora tolo, ele se tornará inteligente; embora fraco, ficará forte, seguramente” (Zhongyong, 20).

A sabedoria é o conhecimento das raízes e dos fins das coisas. Desperta pelo estudo, manifesta-se em tudo que o ser humano pratica; “O sábio conforma-se com as circunstâncias de sua vida; nada deseja que esteja fora de sua posição. Encontrando-se em posição de riqueza e honrarias, vive como deve viver quem está numa posição de riquezas e honrarias. Encontrando-se na pobreza e em circunstâncias de humildade, vive como deve viver o que se encontra em condições de humildade e pobreza. Encontrando-se em reinos estranhos, vive como deve viver quem habita países estranhos. Encontrando-se em perigo e dificuldades, age de acordo com o que é preciso a um homem sob tais circunstâncias. Numa palavra, o sábio não pode encontrar-se em nenhuma posição na qual não seja dono de si mesmo. Em alta posição, não abusa do poder sobre seus subordinados. Em posição subordinada, não adula os superiores. Põe em ordem sua própria conduta pessoal e nada pesquisa na dos outros; daí não tem nenhuma queixa a fazer. Não maldiz o Céu nem se lamenta contra os homens. Assim é que o sábio vive o teor de sua vida calmamente esperando pelo chamado do Céu, ao passo que o vulgar envereda por caminhos perigosos esperando incertas mudanças de sorte. Confúcio observou - "Na prática do arco e flecha temos algo que se parece com o princípio na vida de um sábio. Quando o arqueiro não atinge o centro do alvo, volta-se e procura a razão de ter falhado dentro de si mesmo" (Zhonyong, 14).

Pareceria tratar-se de uma grande utopia afirmar que tais capacidades adviriam do estudo, se alguns de nós já não tivéssemos experimentado fragmentos destas afirmações na realidade. Em diversas circunstâncias diferentes, foi saber – ou não – que determinou o sucesso de como procedemos. Só podemos conhecer algo se o estudamos minimamente. Só podemos melhorar a nós mesmos – e tudo que há ao nosso redor – se nos aperfeiçoarmos pela educação. Outro provérbio atribuído a Guanzi serve-nos de apanágio: “quem quiser um ano de prosperidade, plante arroz; dez anos de prosperidade, plante uma árvore; quem quiser cem anos de prosperidade, eduque as pessoas”.

Podemos concluir, portanto, que a atualidade de Confúcio – e dos comentadores posteriores – reside basicamente neste princípio universalista que afirma a possibilidade do ser humano aprimora-se pelo estudo. Educar-se é mais que um princípio moral ou ético; pode mesmo ser o caminho para a transcendência (neste mundo – ou em qual o leitor preferir). Disse o mestre Neo-confucionista Zhuxi; “Aperfeiçoar a Mente significa investigar as coisas, estudar exaustivamente as leis do universo [...] e atingir a perfeição do conhecimento”. Apenas quem busca realmente ser melhor, em qualquer sentido, compreende o valor do estudo. Esta é uma porta aberta a todos, embora pouco utilizada.

Mas, como Caminho é generoso!

Sugestões de Leitura

Sobre a Educação Confucionista, sugiro os livros de Jingpan, E. Confucius as a Teacher. Beijing: Foreing Language Press, 2001 e Dawson, R. Confucio. México: Fondo de Cultura Economica, 1993. Três textos interessantes sobre o aspecto da educação na China são Fingir e Educar - Imitar e Aprender (o wei na educação clássica chinesa), Educação e Memória em Confúcio e O "Livro da Educação" do Livro dos Ritos, todos de Ho Yeh Chia. O Livro da Educação é notadamente interessante, por tratar-se de uma tradução alternativa ao texto de Linyutang. Sugiro ainda os livros de Elorduy, C. El Humanismo Político Oriental. Madrid: Bac, 1976 e Gardner, D. Learning to be a Sage. California: California University Press, 1990. São apenas sugestões. O resto, estudem e descubram.

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