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As Cidades na China Antiga - Revista Gaia, LHIA-UFRJ, 2000

No presente artigo estudaremos de forma introdutória o processo de formação das cidades na China antiga. Para tal, devemos apontar para dois fatores fundamentais na compreensão da cultura chinesa: a questão do ritual e da estrutura de longa duração que envolve o desenvolvimento das formas de pensar nesta sociedade.

Em primeiro lugar, devemos conceituar de forma razoável a noção de ritual aqui aplicada (1): ela está ligada a constituição de uma série de modelos (2) sucessivos de adaptação ao ambiente, e a operacionalização e eficácia do mesmo, se comprovada, era fixada sob forma ritualística , absorvendo posteriormente os elementos místicos que lhes eram atribuídos. Daí se incorre que a prática de fixação desses modelos constituía uma necessidade de “sobrevivência”, e sua reprodução transformava-se quase em lei, dada sua significação.

Devido a essa concepção do ritual, articulamos o segundo ponto de análise: a estrutura de longa duração do pensamento chinês (3). Em virtude da apreciação do domínio do território, os chineses criaram uma idéia de passado mítico, onde os antigos líderes eram filhos de deuses que ensinaram aos homens como viver. Neste ponto, muitos dos rituais são sacralizados, deixando de possuir tão somente suas características práticas para também ganharem um caráter religioso (embora nem todos os rituais fossem igualmente absorvidos pelas diversas religiões da China, e nem as mesmas os compreenderiam da mesma forma). O que importa, porém, é que se criou aí um ponto de atrito estrutural onde o modelo (ritual) - construído para manter e expandir a vida - começava a se chocar com as novas necessidades advindas da própria expansão possibilitada pelo modelo. Entenderemos isso observando melhor o desenvolvimento desses modelos (4) de complexo urbano criados na China antiga.

Inicialmente, tivemos a criação de comunidades rurais, cujo território era coletivamente trabalhado por duas (no máximo três) famílias de poder patriarcal (mas em menor número também matriarcais), onde a liderança era exercida por conselhos de anciãos. Posteriormente, com a agregação de novos trabalhadores vindos de outros territórios, essas famílias iniciaram uma fase de liderança, exercendo poder servil através de obrigações de trabalho em troca de habitação, comida e defesa aos estrangeiros que vinham habitar suas terras.

Na organização desta primeira comunidade, é de fundamental importância a análise do "Lugar-santo" (que podia ser um campo-santo, um ponto de culto ou até mesmo um cemitério). Esse espaço era um centro de importância comunitária, pois se acreditava que nele estava depositado um grande poder, uma fabulosa energia acumulada pela terra e pela natureza resultante das orgias, da prática dos ritos e que, por conseguinte, atraía a presença dos antepassados e dos espíritos.

Próximo, ou em torno deste lugar-santo, se formava a comunidade. As primeiras cidades eram construídas em círculos, tais como aldeias muradas, com uma função protetora que dispensava a privacidade entre seus habitantes. Assim, o lugar dos ritos, dos mortos (5) era o único que ficava fora do restritíssimo perímetro urbano, além dos campos, claro.

É no "Lugar-santo" que os chineses jovens fogem com suas amadas e deixam cair no chão seu esperma fecundo; lá, encontram-se os antepassados quando as árvores florescem; é onde se realiza a orgia, onde se bebe, onde se deixa parte da vida pelo vinho, pois o esquecimento da bebedeira é um momento roubado da mesma. Quem detém o poder sobre o "lugar-santo" é o líder da aldeia, pois seu poder é igual ao do campo santo para os membros de sua comunidade: é ele quem observa os ritos, quem controla as leis, que lida com as áreas consagradas aos espíritos. De lá, ele retira parte do fundamento de seu poder Esse simples, porém complexo modelo, surge como o embrião das vilas chinesas, que depois seriam como “ilhas produtivas” (cf. GRANET, 1979, v.1, 1o cap.)

Nessas vilas, o trabalho é dividido, mas todos alternam-se nos serviços existentes. Com a re-distribução de territórios no período de feudalização (6) (aproximadamente século XII A.C.) temos o desenvolvimento de centros urbanos comerciais e econômicos, que aperfeiçoam o sistema de trocas e especializam diversas funções técnicas. Como, então, conciliar essa pequena comunidade agrária - cujo modelo ritual é "abençoado" - por um novo tipo de comunidade mais dinâmica e integrada?
Temos aí duas respostas: gradativamente, essa evolução veio pelo próprio poder do "campo-santo", que gerava um pequeno mercado a sua volta, e pela conquista de novas terras advindas do crescimento das comunidades em virtude do sucesso de seu modelo produtivo e da ritualização dos relacionamentos matrimoniais, através da sacralização das orgias. Esse crescimento força a expansão da comunidade, e de suas atividades produtivas. Por outro lado, aperfeiçoou-se o domínio das técnicas de habitação e do controle das forças naturais, que dariam origem ao feng shui (arte da água e do vento) (7), cujo domínio possibilitava a escolha dos melhores locais para moradia, produção, etc. Essa técnica possuía, originalmente, um sentido prático, e não apenas os caracteres estéticos que hoje lhe são atribuídos.

Por conseguinte, temos o surgimento de um novo modelo de cidade: um lugar escolhido, que possui um campo santo, um mercado e uma guarda. O perímetro aumenta, surgindo então as grandes cidadelas ou muralhas. Neste período feudalizado, a delimitação das cidades pelas muralhas também muda, ganhando novas características: sua forma de ser construída e o perímetro que as mesmas vão cobrir passam a ser definidos pelos senhores locais. Este processo ocorre, obviamente, em decorrência do pragmatismo desses líderes: afinal, só se investiria tempo e dinheiro em muralhas fortes para cidades mais importantes. Existiam três tipos de amuradas: para as cidades sem templo, ou com templo não consagrado, havia uma muralha de barro; para as cidades com templo consagrado, uma de tijolos; e por fim, para as cidades sagradas, dos líderes ou com mais de um templo, muralhas de pedra.

A consagração de um templo está ligada a importância da cidade na região: é preciso um alto funcionário para fazê-la, ela também precisa ter um afamado campo santo e um grande mercado. A muralha é feita pelos súditos em regime de convocação: eles tiram alguns dias de seu trabalho para construí-la. São estimulados por guardas armados com bastões, recebendo comida e tendo direito de amaldiçoar a muralha e cantar.(cf. GRANET, 1979, v.2, p.91)

Neste contexto, a sacralização de alguns rituais, principalmente no tocante ao da construção das cidades, leva à algumas diferenciações antes não existentes ou identificáveis: os nobres começam a morar no lado esquerdo, virados para o sul, a direção sagrada; os camponeses e mercadores do lado direito, virados para o norte. Estes detalhes apontam para o início do convívio entre eles, mas ao mesmo tempo da separação mais distinta de grupos dentro da sociedade chinesa.
O que se concebe, dessa forma, é o surgimento de um novo modelo de cidade adequado ao novo contexto, cujo processo de fundação deve ser identificado por suas inovadoras singularidades.

Foram identificadas três formas de surgimento de uma cidade na China antiga: o espontâneo, baseado na antiga comunidade rural; a escolhida, onde uma nova cidade era formada, segundo o interesse de algum senhor de terras em aglutinar trabalhadores, arrotear terras novas, conquistar território, etc, forma essa que se aperfeiçoou com a evolução do feng shui, utilizado também para remodelar as cidades existentes. E uma terceira forma, surgida principalmente durante o período imperial, a partir do Século III a.C. Esta era uma cidade para fins comerciais, surgida do interesse de mercadores em estabelecerem-se em uma região. Estes procuravam o senhor das terras, ou o governo local, e acordavam a construção de uma cidade fundamentada no mercado, e não no campo ou no "campo-santo". Fruto do modo de pensar mascate, esse novo modelo de cidade estava de acordo com os padrões e modelos de construção, sendo a diferença sua função e origem. Esse tipo de cidade recebeu grande impulso imperial porque favorecia o domínio de rotas comercias e de novos territórios. A cidade comercial era singular: seus mercadores pagavam a proteção do senhor local (ou de uma guarda) e uma taxa pela entrada e saída de produtos estrangeiros de seus perímetros: podiam vender o que quisessem (concessão especial, já que outros tipos de perímetros urbanos sofriam restrições nesse sentido, não podendo negociar mercadorias sem autorização dos protetores locais), construíam a cidade segundo seus interesses, mas não podiam obrigar o senhor das terras ou o governo local a comprar seus produtos. Da mesma forma, esses líderes locais não podiam exigir, sob forma alguma, qualquer espécie de tributação em mercadorias dos comerciantes instalados em suas cidades-feira, além das taxas anteriormente citadas.

Este novo modelo de cidade aparece em um momento de transformação da China: antes, um reino que vivia da essencialmente do campo, administrado por seus rituais antigos, e depois, uma civilização em expansão que lutava para crescer e, ao mesmo tempo, manter uma estrutura que respondesse a todos os seus questionamentos anteriores...como dar o próximo passo? Como ir contra a razão de sua própria grandeza?

Nestas condições, a idéia de recorrer à tradição terminou por permear o pensamento chinês em todos os sentidos. Nenhuma resposta era encontrada fora do ritual, e se este mudava, era por que assim os deuses queriam. Logo, sacralizar este tipo de cidade também era importante, já que no momento em que se domina o seu modo de construção, e que este se encontra abençoado pelo céu, os homens passam a operacionalizar sua existência, controlando-o e o expandindo segundo sua vontade.
Desta forma, podemos concluir que a ritualização da pratica de construção das cidades na China Antiga manifesta-se como parte integrante do desenvolvimento das ciências chinesas, onde o conhecimento, quando funcional, e demonstrando respostas satisfatórias as questões materiais, é logo associado (ou ainda, interpretado) á luz da ascendência mítica que a vontade celeste e o culto as tradições antigas impunham ao sistema representativo e simbólico do pensamento chinês.

Apesar do aparente imobilismo que se insere na cultura chinesa justamente pela formação dessa estrutura de pensamento, completamente voltada para um passado mítico glorioso, devemos notar que a materialização de algumas respostas no campo material, mesmo que pautadas nesse pensamento, representam avanços respeitáveis; afinal, em Chang An, capital da dinastia Han (século III a.C a III d.C) o nível de domínio da natureza permitiu as técnicos de feng shui construírem um porão de pedra onde era guardado gelo para servir uma espécie de "sorvete" ao imperador no verão....Esse é apenas um detalhe no complexo sistema de pensamento chinês onde a construção das cidades nada mais é do que uma manifestação em grande escala de uma estrutura cultural onde a questão ritual domina todos os sentidos e áreas produtivas da civilização.

Notas
1 - Entendemos aqui o conceito de ritual dentro da perspectiva Funcionalista de Robertson Smith (1889), que afirmava que os rituais não surgiam para “satisfazer uma necessidade teórica ou técnica, mas por uma necessidade “prática” (V.V. Rito Enciclopédia Einaudi. Lisboa, Imprensa Nacional, 1994 v.30 p.328.) A partir de uma determinada problemática material, a civilização chinesa desenvolvia uma série de respostas que, se comprovadas em eficácia, eram fixadas sob forma mecanizada e posteriormente ritualística, quando sua função original se perdia e a atribuição de elementos místicos a integrava no contexto geral dos conhecimentos culturais. Embora antiga, este conceito de ritual parece servir aos períodos iniciais da civilização chinesa.
2 - A Noção de modelo aqui apresentada refere-se a conceituação de FREITAS, G. Vocabulário da História, Lisboa, Plátano, 1996. P.184 . ao definir Modelo, ele emprega três interpretações dos quais duas nos são pertinentes; 1. “Instrumento de trabalho mental que consiste em reproduzir qualquer realidade complexa duma maneira simbólica e simplificada, em ordem a permitir verificar seu comportamento no caso de uma modificação de qualquer uma de suas variáveis” e 2. “padrão que se destina a ser copiado ou reproduzido”. Embora seja necessário avaliar, ao longo do texto, as modificações que surgem do desenvolvimento dos modelos de cidades chinesas, empregamos o termo aqui em sua segunda significação.
3 - No livro O Pensamento Chinês, Granet nos dá uma elucidação abrangente sobre o desenvolvimento da maneira de pensar da civilização chinesa. Em linhas gerais, ela se caracteriza pelo aparente “imobilismo”, causado pela fixação das práticas operacionais sob forma ritual, o que dificultava o desenvolvimento de novas respostas técnicas às crescentes demandas materiais em virtudes das mesmas “confrontarem” o sagrado. O modo de pensar chinês tendia a não diferenciar sob qualquer forma aos avanços técnicos do estudo da natureza, da religiosidade e do misticismo. Assim, o desenvolvimento técnico, muito vezes embasados no próprio arcabouço cultural chinês, era visto sob a ótica de uma “ciência-ritual”, ao qual as respostas obtidas eram tidas como “abençoadas” ou derivadas do divino. Um exemplo bem claro está na produção dos cereais, citado na p.245 (v.1) do livro Civilização Chinesa, do mesmo autor, onde a descoberta do cultivo do painço é conscientemente entendida como prática humana, mas atribuída, por sua eficácia, ao Deus Houzi, ou “príncipe painço”. Para compreender mais sobre os avanços técnicos, recomendamos também a consulta trabalho de Needham, Joseph; Science and civilization in China. Cambridge, Cambridge Univer. Press, 1976.
4 - Nos remetemos novamente à idéia de modelo aqui apresentada, como um padrão à ser copiado. Ela resulta do conjunto de práticas pelo qual o esquema de construção de uma cidade, em todas as suas características, atinge potencialidade, reconhecimento, sendo por fim sacralizado.
5 - M. Granet (1979) conceitua de forma singular a questão do “lugar-santo”. Em sua visão, a origem do termo é mais antiga, praticamente não datável : nas páginas 293-294 (vol.1) do seu livro Civilização Chinesa, os “lugares santos” seriam tidos inicialmente como lugares de orgias sagradas ou cultos anímicos que conquistaram gradativamente, dentro das comunidades, sua importância ritual, atraindo então a prática das crenças religiosas. Cemitérios foram construídos próximos desses locais, objetivando a aproximação dos mortos com um centro de energia ou “poder”. No entanto, segundo afirmação do autor , não devemos restringir o “lugar santo” a um local pré-determinado: ele pode ser um lugar na natureza, ou mesmo um rio. Mas em todos os casos, sem exceção, a presença desses espaços fora dos perímetros urbanos está fundamentada justamente em seu processo de formação espontânea além dos limites da cidade, onde seus aspectos práticos (fosse a prática do sexo longe dos olhares da comunidade, fosse a execução de um ato religioso em particular de contato com a natureza, etc.) exigiam certa distância do cotidiano.
6 - O termo feudalização, aqui, é empregado em sentido bem próximo ao ocidental, embora temporalmente distante. O processo ao qual aludimos se refere, na China, a concentração das terras por senhores e barões locais, em troca de proteção contra estrangeiros e invasores, economicamente vinculados em contratos de arrendamento e politicamente organizados segundo práticas de servidão e vassalidade, estabelecidos por meio de juramentos de fidelidade ao senhor. No livro Civilização Chinesa vol. 1, p.121, GRANET utiliza o termo por compreendê-lo como conveniente.
7 - Feng Shui, (pronuncia-se Fon shue) é a arte ou técnica de domínio do espaço, empregada na estética e na arquitetura chinesa. Sua descoberta foi atribuída ao místico Duque Zhou, ou por vezes ao lendário primeiro imperador, Shi Huangdi. Controvérsias à parte, sua efetividade foi provada diversas vezes ao longo do desenvolvimento da arquitetura chinesa e sua inserção nas práticas culturais chinesas foi plena. Para saber um pouco mais sobre o assunto, ver o livro de Eitel, E. Fengshui. Rio de Janeiro: Ground, 2001 (o texto nada tem de esotérico, apesar de ser apresentado como tal). Alguns dos textos básicos utilizados em fengshui aparecem no Shujing e no Liqi, o que aumenta a especulação em torno de sua antiguidade.

Bibliografia
Bedin, F. Como reconhecer a arte chinesa. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
Granet, M. A Civilização chinesa. Rio de Janeiro: Ferni, 1979.
Granet, M. O Pensamento Chinês. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
Pinschel, G. Arte Chinesa. Lisboa: BNA, 1961.
Speiser, W. Arte do Extremo Oriente. Lisboa: Verbo, 1969.
Watson, W. China Antiga. Lisboa: Verbo, 1969.

As Cidades na China Antiga in "Revista Gaia". Rio de Janeiro: LHIA-UFRJ, 2000.

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