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O retorno da História das Religiões e suas perspectivas educacionais

Em meio às revoluções tecnológicas levadas a cabo pelo processo de globalização, sociedades de todo o mundo têm se questionado sobre um ponto fundamental para sua sobrevivência: com o fim das utopias socialistas e comunistas, que tipo de sistema político prevalecerá num futuro próximo? Que tipos de ideologias ocuparão o vácuo deixado pelo conflito entre os regimes ditos “democráticos” e os de esquerda? Tal pergunta se encaixa na decepção que os regimes neoliberais têm provocado em todas as partes onde puderam prevalecer de modo constante ao longo das décadas de 80 e 09: altas taxas de desemprego, inflação preocupante, abandono das conquistas trabalhistas em prol de contratos “enxutos e dinâmicos, adequados a lei de mercado”....com a ausência do grande inimigo (o comunismo), a promessa de felicidade do capitalismo não se cumpriu – e agora, as pessoas se vêem lançadas a necessidade de elaborar uma nova identidade ideológica para si mesmas, na qual possam depositar suas esperanças para um futuro melhor (MATOS, O. 2000: 33-39).

Neste contexto, a retomada do sentido religioso da vida tem angariado uma força incrível junto às massas menos favorecidas, caracterizando-se como uma alternativa para suas angústias existenciais, políticas e sociais. A retomada do espírito devocional e da idéia de comunidade religiosa têm surgido como uma alternativa para resgatar os laços humanos que uniam a coletividade, dando um novo caráter às propostas de reforma social.

Do mesmo modo, a forças atuantes na política pública vem refletido este conjunto de transformações, ensejando o surgimento de candidatos que se dirigem aos seus votantes como representantes de uma ou outra congregação religiosa (os chamados “populistas autoritários”, bem descritos no texto de APPLE, M. 2004:136-7). Devemos, portanto, assumir que a realidade da “fusão cultural total” defendida pelos adeptos da globalização está longe de se verificar, bem como de se tornar completa (se levarmos em conta, ainda, o grande número de excluídos sociais, digitais, étnicos existentes).

"Hoje a comunidade não é uma única tradição: ela é o planeta. A cada dia que passa o mundo fica menor, fazendo da compreensão o único lugar onde a Paz pode encontrar seu lar. Não estamos preparados para a aniquilação da distância, realizada pela ciência. Quem, hoje em dia, está preparado a aceitar a solene igualdade dos povos?" (SMITH, H. 2001:366).

Transportada, pois, para a educação, esta realidade torna-se problemática: como devemos lidar com a questão religiosa no mundo atual? As sociedades ocidentais – defensoras de uma suposta tolerância religiosa – tem sido de uma inabilidade quase absoluta para reconhecer o papel que as crenças não-cristãs possuem em relação às culturas asiáticas e africanas. Citemos um exemplo breve: nenhum brasileiro, por exemplo, vê algo errado num jogador que faz o sinal da cruz antes de entrar num jogo, ou num professor prestes a entrar na sala de aula. Mas, se qualquer um deles rezasse para Meca ou invocasse um canto ritualístico africano antes de executar seu ato profissional, seria provavelmente ridicularizado pelos colegas ou no mínimo tido como estranho (se não sofresse ainda uma reprimenda, por realizar atos estranhos do que pejorativamente se qualifica como “macumba”). Entendemos aí que existem dois pontos fundamentais nesta questão: primeiro, de que os ocidentais tendem a se qualificar como tolerantes, mas não o são – e pior, quando se assumem (o que ocorre raramente) intolerantes, crêem que existe uma boa justificativa lógica para isso, entendendo o preconceito como algo natural e justificável, fruto de uma diversidade cultural qualificada hierarquicamente; em segundo lugar, que a educação não tem previsto qualquer tipo de auxílio ao problema da formação da consciência religiosa, que vem sido realizada por grupos autônomos sem nenhum tipo de fiscalização ou vínculo com as diretrizes educacionais governamentais, dando margem a uma formação confessional estrita e fechada.

"Quem não precisa combater aquela tendência inconsciente de equiparar estranho ao inferior? [...] As pessoas que trabalham pela Paz, uma paz que não é construída sobre hegemonias eclesiásticas ou políticas, mas sobre a compreensão e o interesse mútuo. Pois a compreensão, pelo menos em áreas tão inerentemente nobres como as grandes fés da humanidade, traz o respeito; e o respeito prepara o caminho para um poder mais elevado, o amor – o único poder que apaga as chama do medo, da suspeita e do preconceito, oferecendo os meios para que os povos desta pequena, porém preciosa Terra se unam realmente uns aos outros". (SMITH, H. 2001:366)

Esta tendência se manifestou de maneira clara no Brasil nos fins dos anos 90, quando alguns estados brasileiros não somente elegeram governantes vinculados a comunidades religiosas como, ainda por cima, viram ser aprovadas propostas educacionais que previam o ensino confessional (e não ecumênico) das religiões. As chamadas “minorias religiosas” – assim classificadas em função de não serem majoritárias, apesar de bem numerosas – foram praticamente deixadas de fora dos programas escolares, caracterizando uma situação clara de rejeição e preconceito social, intelectual e cultural. Como afirma Incontri:

"Se entendermos a religiosidade como autêntica dimensão humana, cujo cultivo é necessário para a plena realização do homem, então será óbvia a necessidade de contemplarmos também este aspecto na proposta de sua educação. Presentes em todas as culturas, entre todos os povos, de todos os tempos, e assumindo diversas formas de devoção, doutrinas e princípios éticos, buscando o sentido da vida e a transcendência em relação à morte, as religiões têm suas especificidades, mas têm também um patamar comum de moralidade e busca humana, onde é possível e urgente estabelecer um diálogo respeitoso e solidário. O reconhecimento de uma raiz comum, profundamente humana e, por isso mesmo, divina, é vital para que o diálogo se projete além de uma conversa cordialmente superficial, para se tornar uma vivência enriquecedora" (Incontri & Bighetto, 2002 in VIDETUR, n.13).

A questão que se insere aqui é a seguinte: como a educação pode dar uma resposta a este novo problema da modernidade? Como podem os profissionais docentes ajudar na formação intelectual e ética dos seus alunos através do estudo da religião?

A História das Religiões

Se não queremos aceitar a globalização como um movimento massificante das culturas mundiais, não devemos, também, aceitar o retorno das religiões como um processo natural e pacífico das sociedades, o que resultaria no obscurantismo da retomada de velhas crenças e visões excludentes do passado. A necessidade do ensino ecumênico das religiões visa proporcionar aos alunos uma conscientização maior sobre os sistemas, crenças e cultos existentes, proporcionando-lhes ao menos um conhecimento geral sobre estes temas.

"A pluralidade das realidades torna a experiência da diferença um momento determinado de manejo da moralidade. Essa pluralidade fática possibilita um exame de nossas convicções morais, permite-nos aprender com a suspeita do absurdo diante do limite que o outro nos impõe e abre espaço para a tolerância. A contingência vincula-se a idéia de como o outro é possível, enquanto abertura de possibilidades. A diferença proveniente da pluralidade abre chance de renovar periodicamente os objetivos da educação, que se desenvolvem através de uma diversidade de programas e expressam variantes de uma idéia de bem". (HERMANN, N. 2004: 134)

e

"Ensino Religioso é a disciplina à qual se confia, do ponto de vista da escola leiga e pluralista a indispensável educação da religiosidade. Aqui, já vale observar a necessidade de se superar uma posição monopolista e proselitista, para que haja uma autêntica educação da religiosidade inserida no sistema público de educação em benefício do povo" (MAKIYAMA, 1998 IN VIDETUR, N.4).

Para isso, torna-se premente a retomada do campo de estudos da História das Religiões, cujo prestígio foi bastante abalado em função dos anos de Guerra Fria. A disputa entre as ideologias do capitalismo e do comunismo deslocou o centro das atenções intelectuais entre os anos 50 e 80 para as questões econômicas e políticas dos países, e o fenômeno da religiosidade acabou sendo negligenciado ou colocado em segundo plano neste ínterim. Por conta disso, o estudo comparativo realizado pela disciplina da História das Religiões parecia carecer de sentido, e seu desenvolvimento acadêmico e pedagógico viu-se prejudicado. Ao longo deste tempo, uma parte substancial das escolas – no caso brasileiro - simplesmente manteve seus programas de ensino religioso confessional, até que estes fossem suspensos pelo Estado.

A situação atual, portanto, apresenta-se como um contexto fértil para a multiplicação de pregadores profissionais, disfarçados de docentes de última hora, cujo fim último – para além da divulgação de sua própria fé – é o de transformar o caráter laico das instituições de ensino, formando gerações de alunos moldados na intolerância e preconceito. Não se propicia para os discentes um panorama de estudo e escolha religiosa, mas sim de condicionamento – fenômeno que aparentemente seria recorrente nas sociedades africanas e asiáticas usualmente apontadas como “radicais, fanáticas e excludentes” segundo a crítica ocidental liderada pelo atual governo Bush. Eis a razão pelo qual ideólogos como Samuel Huntington (1997) pregam um inevitável “choque de civilizações” entre Oriente e Ocidente, posto que suas considerações não conseguem enxergar as próprias contradições sobre as quais são construídas.

Por conta disso, o ensino da História das Religiões poderia ser retomado como uma interessante opção de estudo comparativo entre os sistemas de crença existentes no mundo, oferecendo uma perspectiva intelectual e mental mais abrangente sobre as culturas mundiais. Tomando como suporte a extensa obra de Mircea Eliade (1978, 1997), por exemplo, podemos visualizar como efetuar um processo associativo entre várias formas de crença ou ritual que se encontram nas diversas religiões, permitindo um trabalho fértil de reflexão e impedindo o surgimento de barreiras intelectuais a um pensar religioso diferente daquele no qual fomos culturalmente formados. Igualmente, podemos acessar uma grande quantidade de informações e uma metodologia de trabalho adequada ao estudo do tema, auxiliando a realização do trabalho pedagógico.

Devemos ter em mente, no entanto, que a proposta da disciplina não consistiria em gerar – diretamente – opções de crença. Como tal, os conteúdos propostos para sua realização devem cobrir os aspectos gerais dos temas, e não realizar um processo múltiplo de “conversões artificiais”. Tal atitude seria a de banalizar e superficializar por demais a abordagem do tema “religião”, gerando um ensino “multi-confessional” às avessas. Deve-se ter cuidado também com os docentes que, desconhecendo a necessidade de um ensino laico do tema, terminariam por enfatizar, no exercício da disciplina, as suas próprias opções religiosas, mascarando uma forma sutil de conversão. Por fim, há uma total ausência de material didático concatenado com as diretrizes educativas, o que deixa um espaço totalmente aberto tanto para a produção séria e inovadora como para os manuais confessionais.

"A educação não deve ser apenas uma reprodução, mas, principalmente, uma produção e uma adaptação dos conhecimentos e culturas. A complexidade da problemática das relações entre escola e cultura(s) e as diferentes formas dos professores se situarem em relação a ela tem mobilizado nosso olhar, nossa reflexão e nossa pesquisa para as formas concretas através das quais os professores tentam trabalhar essa relação no cotidiano escolar. Cada vez mais fica evidente a necessidade do reconhecimento do caráter polissêmico da educação". (MACHADO, C. 2004:51)

O ensino da História das Religiões é, antes de tudo, uma opção para lidar com as necessidades impostas pela realidade contemporânea das culturas – globalizadas ou não. Em sociedades multi-religiosas como a brasileira, ela se torna um instrumento mais do que premente para a formação de uma consciência ética e tolerante, atuando sobre um viés que atinge todas as camadas da sociedade. Talvez valham aqui dois comentários preciosos do sábio (e ecumenista) indiano Ramakrishna para terminar este texto:

Nem o sol nem a lua podem refletir-se claramente na água lamacenta. Assim a Alma Universal não pode realizar-se perfeitamente em nós enquanto não afastamos o véu da ilusão, isto é, enquanto perdurar o sentido do ‘eu’ e do ‘meu’.

Pois,

Há duas classes de homens perfeitos neste mundo: aqueles que, ao realizarem a Verdade, tornam-se silenciosos e desfrutam em si mesmos de felicidade sem pensar nos outros; e aqueles que, depois de realizarem a Verdade, não acham felicidade em conservá-la oculta e pregam em voz alta: Vinde todos e gozai da felicidade comigo!

Bibliografia
APPLE, M. “A educação e os novos blocos hegemônicos” in TOSI, A. Sociologia da Educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.
DAMROSCH, D. “National culture, international theory” in COUTINHO, E. (org.) Fronteiras imaginadas: cultura nacional / teoria internacional. Rio de Janeiro: Aeroplano-UFRJ, 2001.
ELIADE, M. História das Crenças e idéias religiosas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
ELIADE, M. Origens. Lisboa: Ed.70, 2000.
ELIADE, M. Tratado da História das Religiões. Lisboa: ASA, 1997.
FIGUEREDO, V. “A nostalgia dos universais” in COUTINHO, E. (org.) Fronteiras imaginadas: cultura nacional / teoria internacional. Rio de Janeiro: Aeroplano-UFRJ, 2001.
HERMANN, N. Pluralidade e ética na educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.
HUNTINGTON, S. O Choque das civilizações. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.
MACHADO, C. Multiculturalismo: muito além da riqueza e da diferença. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.
MATOS, O. “O espetáculo e seus fetiches: a modernidade” in GHIRALDELLI, P. (org.) Estilos em filosofia da educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.
MOORE, C. (org.) Filosofia; Oriente, Ocidente. São Paulo: Cultrix-Usp, 1978.
NICHOLSON, C. “Três visões sobre o multiculturalismo: Searle, Rorty, Taylor” in GHIRALDELLI, P. (org.) Estilos em filosofia da educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.
SEGERS, R. “The cultural turn” in COUTINHO, E. (org.) Fronteiras imaginadas: cultura nacional / teoria internacional. Rio de Janeiro: Aeroplano-UFRJ, 2001.
SMITH, H. As religiões do mundo. São Paulo: Cultrix, 2001.

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