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O Sonhar e a Religião na China, 2005

O papel do sonho nas sociedades antigas já foi razoavelmente bem discutido por antropólogos e historiadores da religião. O sonho possui uma função explicativa, para a possível dimensão extra-corpórea do ser humano, e iniciática, como via de acesso à esta realidade transcendente.

A China clássica nos oferece, no entanto, algumas informações significativas sobre como o sonho adquiriu este caráter “metafísico” em suas crenças religiosas (oportunamente criando um modelo teórico que pode vir a ser utilizado como contraponto para outras civilizações). A influência da análise antropológica sobre este tópico ainda é forte, posto que ela se baseia nas experiências realizadas com culturas ditas “primitivas” que, ainda hoje, praticam alguma espécie de xamanismo - mas o problema, neste caso, é saber se estas observações podem ser efetivamente aplicáveis a contextos mais antigos. Alguns tratados sobre a interpretação dos sonhos sobreviveram no Egito, Mesopotâmia e Índia, mas todos se tratam de chaves para decodificação de premonições - nenhum deles propõe, necessariamente, uma interpretação da atividade ou da morfologia da sonhar (Callois, 1978). O caso chinês apresenta uma possibilidade razoável de nos conduzir pelo tema através de referências textuais clássicas, estabelecendo uma possível continuidade entre a perspectiva dita “primitiva” xamânica e a evolução de concepções religiosas antigas através de um outro sistema interpretativo, cujo fundamento se assenta na estreita relação entre este mundo e o outro como realidades apenas relativamente distintas.

Mas no que constitui esta contribuição chinesa? Na possibilidade de demonstrar o processo de concatenação entre a experiência do Sonho e elucubração da idéia de Espírito (aqui entendido como o princípio fundamental e individual subjacente a vida corpórea). A idéia de como os chineses concebem a percepção da existência do espírito é ilustrada pela atividade do sonhar. O sábio daoísta Zhuangzi sonha que é uma borboleta, “voando aqui e acolá, sendo somente uma borboleta. Só tinha consciência de minha felicidade como borboleta sem saber que eu era Zhuang. Depressa acordei e ali estava eu, eu mesmo, na verdade. Agora não sei se eu era um homem sonhando ser borboleta, ou se eu sou uma borboleta sonhando ser um homem. Entre um homem e uma borboleta há, naturalmente, uma distinção” porque “Mesmo você e eu somos talvez sonhadores que ainda não acordamos. Além disso, ele sabe que sua forma está sujeita a transformação, mas que seu espírito continua o mesmo. Não crê na morte real, mas considera-a como se se movesse numa nova casa”.

Qual é, pois, a realidade do ser humano? Em que plano ela se situa? No sonho, os chineses descobrem que há uma outra realidade alternativa a vida material; um outro plano, no qual eles percebem que há uma individualidade que subjaz e transcende, ao mesmo tempo, o molde simples do corpo. Esta realidade é o espírito, o “eu real” por trás do corpo. Seu domínio é justamente o mundo espiritual, de onde ele provém, ao qual ele visita em sonho e de onde ele retira idéias (espíritos de coisas) que irá materializar na forma de objetos neste mundo material. No mundo do sonhar (doravante um sinônimo para o mundo espiritual), os chineses encontram com os ancestrais mortos, recebem mensagens e adquirem poderes inusitados para o mundo material. É por isso, pois, que este mundo seria tão real, para os chineses, quanto o mundo material.

Quando acordamos do sonho, temos sensações físicas reais e profundas; ao longo do sono, nosso corpo se aproxima de um estado de quase morte, que é a inação total - mas para onde foi o nosso eu real? Porque ao chamá-lo, ele não responde? E quando o espírito retorna, ele conta que esteve em outro lugar, em outro mundo. Disso se extrai a concepção de que o mundo espiritual e o material estão interligados, são indissociáveis - quando estamos acordados em uma realidade, estamos “dormindo” em outra. Conta-nos Liezi;

“Havia em Zheng um lenhador que encontrou no campo um gamo assustado, alvejou-o e matou-o. Temeroso de que outras pessoas o vissem, escondeu-o em uma moita e cobriu-o com lenha picada e ramos de árvores, ficando muito satisfeito. Logo depois, no entanto, esqueceu onde havia escondido o gamo e acreditou que tudo deveria ter acontecido em sonho. Como sonho contou-o a todos nas ruas. Entre os ouvintes um houve que, ouvindo a história desse sonho, foi à procura do gamo escondido e encontrou-o. Trouxe o gamo para casa e disse à esposa:

- Há um lenhador que sonhou ter matado um gamo, esquecendo onde o escondera, e eis que o encontrei. Esse homem é realmente um sonhador.

- Tu mesmo deves ter sonhado que viste um lenhador que matara um gamo - disse a mulher. - Acreditas verdadeiramente que exista esse lenhador na realidade? Mas agora realmente tens um gamo, de modo que teu sonho deve ter sido verdadeiro.

- Encontrei o gamo - respondeu o marido. - De que vale discutir se foi ele quem sonhou, ou se fui eu?

Naquela noite, o lenhador foi para casa, ainda a pensar em seu gamo, e realmente teve um sonho; e nesse sonho tornou a sonhar com o lugar em que escondera o gamo, e também com quem o encontrara. Ao amanhecer, bem cedo, foi à casa de quem o encontrara e achou o gamo. Ambos, então, discutiram e foram ter ante o juiz, para que decidisse a questão. E o juiz disse ao lenhador:

- Mataste realmente um gamo e pensaste que foi sonho. Depois, realmente sonhaste e pensaste que era realidade. Ele realmente achou o gamo e agora o disputa contigo, mas sua mulher pensa que ele sonhou que havia encontrado um gamo que outra pessoa matara. Assim, ninguém, na realidade, matou o gamo. Como, porém, temos o gamo diante de nós, pode ele ser dividido entre os dois.

Essa história foi levada aos ouvidos do rei de Zheng, e o rei de Zheng disse:

- Ah! Não tornou esse juiz a sonhar que está dividindo o gamo entre os outros?”

No plano do sonhar, pois, é que alcançamos a exercitamos a plenitude de nossos poderes. Fora dele podemos nos confundir, pois no mundo material torna-se difícil perceber o principio subjacente (Li, forma, estrutura) das coisas;

“Certo carpinteiro Shi viajava para o Estado de Qi. Ao chegar ao Circulo Sombrio, viu uma árvore li sagrada no templo do Deus da terra. Ela era tão grande que sua sombra podia abrigar um rebanho de vários milhares de cabeças. Tinha centenas de palmos de circunferência e subia a oitenta pés antes de abrir os ramos. Uma dúzia de botes poderiam ser cortados de seu tronco. Em multidões as pessoas paravam para olhá-la, mas o carpinteiro nem a notou e prosseguiu em seu caminho sem mesmo lançar um olhar para trás. Entretanto, o aprendiz olhou-a bem e quando alcançou o mestre disse - "Desde que manejo a machadinha em seu serviço nunca vi uma peça de madeira tão esplêndida. Por que razão o senhor, Mestre, nem mesmo se deu ao trabalho de parar para olhá-la?"

- "Esqueça-se dela. Não merece que conversemos a tal respeito", replicou o mestre. "Não serve para nada. Transformada num bote, afundaria; num caixão de defunto apodreceria; em mobília, quebrar-se-ia facilmente; numa porta, racharia; numa coluna seria devorada pelos vermes. Não é madeira de qualidade e não é útil: por isso chegou aos nossos dias presentes. A chegar em casa, o carpinteiro sonhou que o espírito da árvore lhe aparecia e lhe falava do seguinte modo: - "Com que pretendeu comparar-me? Com madeira suave? Olhe para uma cerejeira, uma pereira, uma laranjeira, uma ameixeira e outras árvores frutíferas. Mal seus frutos amadurecem são esbulhadas e tratadas com indignidade. Os grandes galhos são retirados, os pequenos ficam quebrados. Assim, devido ao próprio valor dessas árvores, elas sofrem enquanto vivem. Não podem viver o período de vida que lhes é concedido, mas perecem prematuramente porque destróem-se pela (admiração do) mundo. O mesmo se dá com todas as coisas. Além disso, eu tentei durante longo tempo ser inútil. Muitas vezes estive em risco de ser decepada, porém finalmente alcancei o que desejava e assim tornei-me excessivamente útil a mim mesmo. Tivesse eu prestado para alguma coisa e não teria chegado à altura a que cheguei. Demais tanto você como eu somos coisas criadas. O que adianta criticarmo-nos mutuamente? Um sujeito que não presta para nada em perigo de morte iminente e uma pessoa indicada para falar de uma árvore que não presta para nada?"

Quando o carpinteiro Shi acordou e contou o sonho que tivera, o aprendiz disse: "Se a árvore ansiava por ser inútil como foi que conseguiu tornar-se uma árvore sagrada ?"

- "Psiu!" Volveu o mestre. "Fique calado. Ela simplesmente refugiou-se no templo para fugir ao abuso dos que a não apreciavam. Se não tivesse se tornado sagrada quantos não teriam desejado cortá-la! Além disso, os meios que adota para sua segurança são diferentes dos dos outros e criticá-los pelos padrões ordinários será ficar bem longe do objetivo". (Zhuangzi)

A própria vida, enfim, pode ser mesmo um grande sonho - e no entanto, ela será tão real quanto a existência verdadeira do espírito no plano do sonhar, posto que ambos não podem ser dissociados. Continua o mesmo Zhuangzi;

“Os que sonham com uma festa acordam para se lamentar pesar. Os que sonham com os lamentos e os pesares acordam para reunir-se aos que vão caçar e se divertir. Enquanto sonham, não sabem que estão sonhando. Alguns até interpretarão o sonho mesmo que estavam tendo; e apenas quando acordam compreendem que estavam no sonho. Pouco a pouco aproximam-nos do grande despertar e então verificamos que esta vida foi realmente um grande sonho. Os tolos pensam que estão acordados agora e ficam convencidos de que tudo sabem - este é um príncipe e aquele é um pastor. Que estreiteza de espírito! Confúcio e você são ambos sonhos; e eu que afirmo que são sonhos - eu não passo de um sonho também. É um paradoxo. Amanhã um Sábio talvez se erga para explicar isso; mas o amanhã não virá senão depois que se tiverem passado dez mil gerações; e, no entanto, [se tudo é um sonho] você poderá encontrá-lo amanhã, por acaso, em qualquer lugar”.

Buscando compreender este mundo do sonhar, portanto, é que os chineses elaborariam algumas fórmulas com as quais pretendiam acessá-lo de forma consciente, tendo um pleno domínio das faculdades emocionais e mentais do espírito. A interpretação dos sonhos seria apenas um recurso acessório e imperfeito para aqueles que não conhecessem estas vias.

Confúcio (séculos -6- 5) defenderia que a conexão entre os dois mundos se daria por meio da prática ritual, através da manutenção entre o canal de comunicação entre os vivos e os espíritos. Sua abordagem consagrava-se na execução das atividades devocionais descritas minuciosamente no Liji (O Manual dos Rituais), um texto já clássico e ancestral na época do sábio. Este admitia, ainda, que o uso oracular do Yijing (o Tratado das Mutações) possibilitava a atuação dos ancestrais por meio de avisos, conselhos e presságios. Sua opção, pois, era de um contato consciente com o outro mundo, legando a atividade do sonhar uma condição espontânea do momento na existência corpórea; “Estou ficando assombrosamente velho. Passou-se muito tempo desde que vi o duque de Zhou em sonhos pela última vez" (Lunyu, 7). Deixai, pois, que os mortos retornem quando lhes convier. Os daoístas, no entanto, optariam por desenvolver o método do sonho extático como método de contato com o mundo espiritual.

A prática do sonho e atuação do espírito na matéria segundo os daoístas

Se o sonhar é o momento onde nos libertamos do corpo material e temos a possibilidade de reencontrarmos o mundo espiritual, é deste mesmo mundo que podemos extrair soluções para problemas práticos ou intelectuais que manifestaremos, posteriormente, neste plano.

Assim sendo, os chineses desenvolvem a crença no espírito devido ao sonho; o espírito está para o corpo material assim como yang está para yin. Na oposição complementar em que se funda a realidade, a existência dos dois mundos é uma circunstância, uma condição da existência indispensável a manifestação das coisas. Shen (o espírito) está ligado ao corpo por “duas almas” ou corpos espirituais, hun (seu princípio material-espiritual) e po (sua manifestação material-corporal, ou um tipo de “perispírito”) (Smith, 1971). Para os daoístas, a via real do espírito conduz-se pelo desenvolvimento e pela depuração das condições de acesso ao outro plano da existência. As capacidades sensoriais devem ser estimuladas e sensibilizadas o suficiente para atingirmos de modo consciente o mundo espiritual - e conseqüentemente, a imortalidade plena.

Uma destas práticas denomina-se sonho extático. Os daoístas acreditavam poder dominar as funções dos corpos espiritual e material através de uma prática meditativa calcada na modulação do sono e na investigação do sonho. No ato de dormir, pois, um conjunto de procedimentos era realizado para assegurar que o praticante entrasse de forma consciente no sonho. Percebendo-se livre das amarras corpóreas, ele teria condições de exercitar práticas espirituais necessárias a melhoria do seu corpo, viajar por longas distancias, visitar ancestrais, imortais ou deuses e por fim, ativar a conexão entre os dois mundos através do seu próprio corpo espiritual-material (Wilson, 2004).

A experiência do sonho premonitório, curativo ou revelador já havia sido, provavelmente, experienciada pelos xamãs chineses e siberianos (Eliade, 1978). O que os daoístas fazem, porém, é desenvolver estas técnicas, não somente aprimorando os métodos de entrada no mundo do sonho como ainda, mapeando as divisões do plano espiritual (céus, infernos, zonas intermediárias), suas criaturas, potencialidades, etc. O aperfeiçoamento do sonho extático favorece, igualmente, o controle do transe mediúnico (o “sono acordado”, onde o praticante saí de si para enxergar o mundo espiritual). Tais experiências seriam fartamente descritas pelos daoístas como meios de acesso e prática da alquimia interior. Uma pintura do século +15, por exemplo, mostra claramente um sábio daoísta vagando pelas montanhas enquanto seu corpo dorme numa cabana (Bowker, 2003); uma gravura ainda mais antiga (século +10?) apresenta o mestre Chen Tuan simplesmente saindo do corpo enquanto dorme (Wilson, 2004:69). Estas representações remetem-se exatamente ao que Zhuangzi já chamava de “vaguear sem rumo” ou “brincar no céu”, termos que os textos daoístas irão reproduzir constantemente ao longo dos séculos.

No sonho extático, pois, os chineses encontram uma via de acesso ao plano espiritual, uma forma de alcançar a unidade plena das faculdades intelectuais e físicas nos dois planos. Do sonho, advém a idéia do espírito; por ele, nos reencontramos com o real, com a existência plena. Como disse o mesmo mestre imortal Chen Tuan:

Assim, grandes sonhos têm grandes despertares;

Pequenos sonhos, apenas pequenos;

Durmo o sono de tudo que é perfeito;

Sonho o sonho da ampla eternidade -

Nenhum deles seria deste mundo!



Bibliografia

Os Textos de Zhuangzi e Liezi podem ser encontrados nas traduções de Lin Yutang (Sabedoria da Índia e da China. Rio de Janeiro, 1957) e de Burton Watson (Escritos Básicos de Chuang-tzu. São Paulo, 1987); os textos de Roger Callois, Prestígios e Problemas do Sonho e Mircea Eliade, Visões e sonhos iniciatórios entre os xamãs siberianos podem ser encontrados no livro de Callois, R. (org.) O Sonho e as Sociedades Humanas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978; ver também o livro recente de Peter Lamber Wilson, Chuva de estrelas - o sonho iniciático no sufismo e no taoísmo. São Paulo, 2004. Por fim, Smith, D. As Religiões chinesas. Lisboa, 1971 e o livro Para entender as Religiões - São Paulo, 2003, de P. Bowker, com a imagem da pintura de Chou Chen.

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