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A Educação vista por Confúcio

Analisar o Confucionismo, enquanto teoria educacional, possui mais que um sentido histórico: de todos os sistemas pedagógicos existentes, este provavelmente é o mais antigo ainda em funcionamento, com mais de 2500 anos de experiências acumuladas e em pleno processo de aplicação, desenvolvimento e adaptação aos dias atuais. Devemos igualmente prestar atenção a sua importância, posto que esta é a filosofia educacional que tem sustentado a sociedade chinesa através de séculos, que impulsiona continuamente seu desenvolvimento e a formação de sua consciência crítica.

Podemos ainda utilizar o confucionismo como um contraponto para as doutrinas educacionais Ocidentais, a fim de avaliar o quanto de nossas experiências e propostas já foram pensadas, percebidas e testadas pelos chineses. Não devemos nos enganar, a experiência é extremamente válida – afinal, importamos diversas teorias de Europa e dos Estados Unidos, porque não estudar uma experiência asiática? Não acredito, igualmente, no argumento de uma “proximidade cultural” (americana, francesa, etc) como referencial para estudo das teorias educacionais; se aceitarmos que estes sistemas são criados para os seres humanos, então devemos aceitar, conseqüentemente, que em qualquer parte do mundo a experiência de educar pode ser válida, se ela leva a formação de uma sociedade melhor. Neste caso, portanto, a longa duração da sociedade chinesa e sua incrível capacidade de conservação cultural são indícios de que alguns pontos da proposta confucionista podem estar tecnicamente corretos.

Assim sendo, desenvolveremos neste texto uma análise introdutória sobre o que era a educação na visão de Confúcio, e como tal abordagem ainda pode ser válida nos dia de hoje.

Confúcio e o seu Contexto
As datas tradicionais da vida de Confúcio (forma latinizada de Kong Fu Zi, ou Mestre Kong, em Chinês) situam seu período de vida entre 551 a 479 a.C., uma época conturbada na existência da civilização chinesa. Confúcio parece ter tido uma distante origem nobre, mas viveu sempre como um simples professor e de forma bem pobre e modesta. Teria chegado a alcançar um cargo público de importância, mas decidiu por se dedicar integralmente à formação de sua escola filosófica, abrindo mão das vantagens e problemas da vida política.

Confúcio não se entendia, na verdade, como um inventor de novas propostas educacionais ou morais. De fato, ele acreditava apenas estar criando um método para preservar o que havia de melhor na sociedade, propiciando os meios de fazê-la evoluir da melhor maneira possível, de forma harmônica e saudável.
Mas para entendermos o que o sábio queria salvar, precisamos antes de tudo compreender o contexto da época. A China deste momento passava por uma série de conturbações políticas e sociais sérias, derivadas de um incessante e crescente conflito entre os muitos pequenos reinos que compunham o império chinês. A dinastia reinante, os Zhou (1027 a 221 a.C.), estava perdendo gradualmente a capacidade de controlar as disputas entre os nobres da corte, o que permitia o acontecimento de guerras contínuas, geradoras de fome, epidemias, corrupção e de um pessimismo generalizado sobre o futuro.

Por conta disso, Confúcio decidiu-se por encarar estes problemas de frente, e sua análise o levou a concluir que a questão principal da época centrava-se na perda dos valores morais, decorrentes de um processo educacional insuficiente para alcançar todos os extratos da sociedade, bem como incapaz de formar seres humanos conscientes. Seu foco principal tornou-se, pois, a questão da educação. O Mestre acreditava realmente no poder de educar para retificar a conduta das pessoas, e sua proposta extremamente pragmática indicava um caminho acessível a todos para o reerguimento da sociedade.
No que consistia, então, o caminho proposto por Confúcio? Vejamos, passo a passo, como este antigo sábio chinês desenvolveu sua abordagem sobre o tema.


Dao, a Via
Em chinês, todas as escolas de pensamento (Jia) possuem uma fórmula, método ou via para se alcançar um objetivo proposto. Esta Via se chama Dao (também grifado como “Tao”), que podemos traduzir ou compreender mais facilmente como um caminho racional para atingir a compreensão da Realidade. Um problema pode ser abordado por vários ângulos diferentes: do mesmo modo, pois, pode ser resolvido de modos diferentes. A preocupação de Confúcio foi, exatamente, de como pensar uma Via que atingisse e servisse a todos os seres humanos, e lhes propiciasse uma consciência aproximada sobre o mesmo conjunto de valores morais importantes para a sobrevivência da sociedade.

O caminho escolhido por Confúcio foi, justamente, o de educar. Sua teoria baseava-se na percepção das deficiências educacionais da época, incapazes de manter e transmitir o conhecimento moral e técnico existente. Tais dificuldades encontravam-se tanto na estrutura do ensino quanto no que era ensinado, e Confúcio ainda destacava um terceiro ponto fundamental: qual a função de ensinar e aprender? Esta colocação tinha um propósito inusitado na China daqueles tempos; educaremos para formar meros repetidores ou para formar pessoas conscientes e sábias? Até então, apenas as pessoas com posses tinham acesso a uma educação constante e erudita que, no entanto, não as impediam em ceder às tentações da corrupção e do egoísmo. Do mesmo modo, muitas pessoas de origem humilde e educação ruim ainda tentavam, de modo claudicante, agarrar-se a um modo de vida correto.

Para Confúcio, isso significava que a educação, em seu cerne, trazia uma concepção de correção adequada e necessária para toda a sociedade. Mesmo com pouca educação, alguém poderia se manter num modo de vida apropriado. Porém, se mal aplicada ou desenvolvida, a educação seria, por si só, incapaz de resolver os problemas sociais e individuais. Logo, uma educação incompleta sempre deixaria margem à corrupção íntima do ser humano. Sem um sentido definido, a prática de educar não tornaria as pessoas mais sábias, mas apenas servas de um sistema sobre a qual ignoram as regras, levando-as a revolta em momentos de angústia e conflito tal como ocorria na época.
Educar, pois, é o caminho para modificar o mundo. Mas de que modo?




A Centralidade (Zhong) e a Virtude (De)
A educação consistiria, antes de tudo, em atingir a Centralidade (Zhong), ou o fio condutor que amarra as experiências humanas e que nos dão a consciência, justamente, de sermos humanos.

Representada por um ideograma cujo significado é o de uma flecha atravessando o meio de um alvo, a centralidade é, igualmente, o ponto em que percebemos o que há de comum entre todos nós. Este ponto a ser atingido é a excelência na prática de tudo aquilo que preserva a vida do ser humano, e do que o torna melhor. Tal condição é a Virtude (De), cujo ideograma também nos aponta uma idéia concreta sobre o que Confúcio queria propor. “De” é representado por uma junção de três sinais gráficos que significam, juntos, “andar no caminho reto com o coração”, ou seja, alcançar um caminho que todos possam compartilhar baseado naquilo que há de mais adequado para a vivência em sociedade.

Ainda que as Virtudes possam ser apresentadas de modo dogmático numa sociedade, compreendê-las em sua essência permite ao ser humano discutir sua valia e fazê-las evoluir em sentido. O próprio Confúcio percebeu, por exemplo, que vivia numa sociedade onde a habilidade na guerra era muito valorizada; mas se tal destacava-se justamente em momentos de conflito, melhor seria, pois, que seu valor fosse reduzido. Afinal, uma civilização repleta de heróis guerreiros significa, consequentemente, que ela está quase sempre em combate, e isso não é bom para a sociedade como o um todo. Uma virtude não pode se sobrepor às outras se ela traz um sofrimento maior. O ponto de vista confucionista entendia, portanto, que a prática das virtudes deveria antes de tudo ser o guia, a meta, e o resultado de um certo esforço em preservar o que havia de melhor de um cultura, beneficiando o maior número de pessoas possíveis.


Shi, a Propensão
Mas se as pessoas são diferentes umas das outras, como convencê-las a praticar a Virtude e atingir a centralidade? Como foi dito, Confúcio tinha a preocupação de não criar uma educação meramente repetidora, sem o que os indivíduos não poderiam realizar-se a si mesmos. A percepção da individualidade levou o Mestre a pensar não em anulá-la, mas sim em privilegiá-la nos seus melhores aspectos.

Shi, ou propensão (ou ainda, “Dom”) é aquela potencialidade criativa que uma pessoa tem em específico, e que deve ser desenvolvida para que ele possa encontrar a realização no que faz. Segundo o raciocínio confucionista, o conflito entre a tentativa de educar anulando a singularidade e a potencialidade íntima dos seres humanos é que levaria, fatalmente, a perda de um dos dois sentidos. Pessoas com um talento manifesto perderiam a alegria de viver, por exemplo, por não poderem realizar suas propensões; da mesma maneira, aqueles que não vissem vantagem ou sentido em “pensar igual a todos” em breve sofreriam, transformando-se em “subversivos”, “imorais” ou ainda, tentariam tirar partido da situação manipulando os outros em função de seus próprios interesses.

O que Confúcio propunha, portanto, é que a educação deveria primeiro despertar a potencialidade do educando, revelando aquilo ao qual ele seria mais propenso; em seguida, estimulá-lo a aperfeiçoar suas habilidades de modo saudável e realizador; por fim, fazer com que o uso destas habilidades esteja de acordo com as regras necessárias ao bom entendimento com o restante da sociedade – sem o que, a propensão deixa de se tornar uma virtude para descambar num vício ou num excesso, o que é igualmente deletério ao que há de melhor em sua manifestação.

As seis Artes Educativas
No intuito de despertar a propensão que cada ser tem, a educação confucionista propunha a prática concomitante de seis tipos de habilidades específicas na educação básica. No decorrer dos anos, aquela que mais despertasse o interesse do estudante deveria ganhar uma ênfase maior, de modo a levá-lo a uma excelência em sua prática. Usualmente, estas artes são divididas em Arte Ritual, Música, Caligrafia, Matemática, Arqueria e Cavalaria.

A Arte Ritual consistia no estudo das práticas de etiqueta, cerimonial, história e costumes sociais que abrangiam a sociedade. Tal como uma forma de sociologia, o estudo da ritualística tinha por objetivo compreender de que modo os mecanismos sociais surgiram, desenvolveram-se e suas funções fundamentais, permitindo uma análise séria das suas condições de permanência ou necessidades de mudança.

O estudo da Música tratava de temas amplos, desde a construção poética até a melodia, uso de instrumentos e o sentido filosófico da música. Os chineses acreditavam seriamente no poder da musicalidade, capaz mesmo de despertar um sentido mais profundo de reflexão sobre os aspectos da realidade.

A Caligrafia privilegiava o sentido artístico através da prática da escrita, da pintura e do desenvolvimento da percepção visual. Visava igualmente o aprimoramento da capacidade de expressão, através do emprego apropriado da palavra. Os chineses acreditavam firmemente na capacidade das palavras – escritas ou ditas – de despertarem no ser humano o sentimento e a sensação das coisas nomeadas. Tal como a Música, a Caligrafia atingiria o íntimo não pelo som, mas pela imagem.

Quanto a Matemática, ela visaria estudar e compreender o mundo por meio de sua quantificação e pelo entendimento de suas leis de funcionamento. Neste sentido, a Matemática – no entendimento confucionista – se aproximaria também da Física, e manteria conexões possíveis com a Biologia e a Química, pois seu estudo consistiria em analisar os padrões pelos quais operaria a natureza, fixando-o através do uso das equações, fórmulas e indicadores numéricos.

Por fim, a Arqueria e a Cavalaria consistiriam no aprendizado do uso de armas, carruagens, prática física e cultura corporal. Habilidades necessárias em qualquer época, ainda assim, ambas as Artes tinham um significado especial para a proposta confucionista: primeiro, que não se pode aprender nada, devidamente, sem cultivar o corpo e a mente ao mesmo tempo; segundo, que o aprimoramento físico através da consciência corporal traz, igualmente, uma percepção mental sobre o processo de aprendizado. Confúcio dizia que: “A Arqueria é como o sábio; quando se erra o alvo, busca-se a razão em si mesmo”.

Podemos crer, portanto, que este conjunto de saberes visava ampliar, ao máximo, a possibilidade de auto-realização do estudante. Esta abordagem é facilmente adaptável aos dias de hoje, posto que o desenvolvimento das ciências aumentou ainda mais este leque de possibilidades.


Xin, a Sinceridade Moral
Um aluno devia dar prosseguimento aos seus estudos com afinco. No entanto, a dedicação não traz consigo nenhum sentido se não vier acompanhado de um real interesse de realização. Para despertar-se, portanto, um estudante deveria agir com Xin, ou Sinceridade Moral naquilo que buscasse e se dedicasse. O educador deveria propiciar ao aluno a consciência de estar investido em si mesmo (daí a importância do agir sinceramente). A sinceridade não é apenas pessoal, é também moral; ela vincula-se a decisão sobre o futuro, sobre a possibilidade de ser feliz e de auto-realização. Sem essa mentalidade, o aluno engana a si próprio e tudo ser-lhe-á mais difícil; e não porque alguém lhe obriga a fazer algo, mas porque ele mesmo será incapaz de fazer qualquer coisa sem saber no que é bom.



Xue (Conhecimento Transmitido) e Zhi (Experiência)
Dois tipos de conhecimento um estudante irá adquirir no seu processo educativo: aquele que foi acumulado e transmitido por seus antecessores (Xue), e aquele que ele mesmo irá aprender em suas experiências pessoais (Zhi). Os ideogramas chineses novamente são claros neste ponto: Xue é a adaptação da imagem de uma mão que conduz uma criança, enquanto Zhi representa uma flecha em direção a um alvo (ou seja, a experiência adquirida através do esforço e do treino).

Para Confúcio, no entanto, ambos os conhecimentos se alimentam reciprocamente, permitindo-se evoluir um ao outro, de acordo com a necessidade e com uma análise crítica séria e profunda. Quando ambos os conhecimentos se harmonizam, atingimos a justa medida (ou justa centralidade, Zhong Yong) que significam que conseguimos encontrar o ponto certo entre os nossos interesses pessoais de acordo (e não contra) a sociedade. Conseguimos nos realizar, e da maneira adequada, sem perturbar a ordem do mundo – e sem sermos perturbados por ela.


Ren, o Humanismo
A plena realização do Ser humano se encontraria na sua perfeita convivência, pois, com os outros seres. Este aspecto fundamental da doutrina de Confúcio, Ren, é o que podemos traduzir como Humanismo. Aquele que foi educado corretamente, realiza-se. Realizando-se, harmoniza-se com o restante da sociedade (mesmo que essa não tenha, em sua maioria, conseguido evoluir profundamente). Torna-se um sábio (Sheng), que dá continuidade a vida, que mantém – e ao mesmo tempo transforma, quando necessário – a estrutura da sociedade. E para Confúcio, todos poderiam ser sábios. Devido à ilusão derivada da ignorância, causadora de uma crise social e cultural sem precedentes, as pessoas teriam perdido a capacidade de acreditar na possibilidade de mudar seus destinos. Confúcio não só confiava que isso poderia ser mudado como ainda, indicava o caminho. Esta perspectiva otimista deu sustento e alimentou, indefinidamente, a crença confucionista em poder modificar o destino do mundo através da educação. Como ele mesmo afirmou,

“Ao ensinar, o Mestre orienta seus alunos sem arrastá-los; convida-os a avançar mas não os coage; abre-lhes caminhos mas não os força a caminhar. Orientando sem arrastar, torna o aprendizado agradável; convidando sem coagir, torna o aprendizado fácil; abrindo caminho sem forçar a caminhada, faz com que seus alunos pensem por si mesmos. Ora, alguém que torne agradável e fácil o aprendizado, e faz com que os estudantes pensem por si mesmos será o que se pode chamar de um bom professor”. (Liji – Recordações dos Rituais, 18)

Pois

“O Sábio é sem idéia, sem necessidade, sem posição e sem eu” (Lunyu – As Conversações, 9)

Conclusão
Já na Antiguidade, a clareza e profundidade da exposição confucionista sobre a questão da educação influenciou diretamente a mentalidade chinesa sobre a importância do estudo na manutenção dos valores culturais e na sobrevivência da sociedade. Durante a Dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.), o confucionismo foi adotado como doutrina oficial do governo, estimulando a criação de todo um sistema educativo no país. Ao longo da história, desenvolveram-se também os “Exames Oficiais”, provas realizadas anualmente para a entrada no funcionalismo público e acesso as academias imperiais (semelhantes as nossas universidades). Em meio a todas as crises que se repetiram na história chinesa, a idéia do confucionismo nunca foi abandonada. Na era moderna, após o governo de Maozedong, o confucionismo tem sido retomado como ética educacional, após uma breve perseguição realizada pelo comunismo. Qualquer chinês comum, até hoje, tem orgulho de ver seus filhos na escola, venera os livros e valoriza de modo singular o domínio de uma escrita e uma língua que ele sabe ser milenar, o idioma de sua cultura.

Tal perspectiva que tem conduzido os chineses por milênios em meio a todos os problemas que afetaram sua sociedade. Na ótica confucionista, os melhores períodos da história chinesa estão ligados à formação do povo – e os piores, a ausência dessa educação.

O modelo chinês, portanto, é fundamental para avaliarmos esta experiência única no campo da educação, e nos servir de apanágio na crença de que educar ainda é a melhor opção.

Bibliografia
Seguem aqui apenas algumas sugestões bibliográficas, não muito extensas, para os que desejarem saber mais sobre o Confucionismo e a questão da educação.
Confúcio Diálogos de Confúcio. São Paulo: Ibrasa, 1983. Tradução excelente e com bons comentários da sinólogoa Anne Cheng.
Doeblin, A. O Pensamento vivo de Confúcio. São Paulo, 1958. Livro básico e antigo, mas fácil de achar, com uma boa exposição sobre Confúcio.
Jullien, F. Um sábio não tem idéia. São Paulo: Martins Fontes, 2000. Texto denso e profundo sobre a filosofia confucionista do filósofo François Jullien.
Lin Yutang A Sabedoria de Confúcio. Rio de Janeiro: José Olympio, 1958. Nesse texto, encontraremos o capítulo sobre educação do Liji, Manual dos Rituais, peça fundamental para compreender o pensamento confucionista sobre o tema. Este texto também está disponível no site http://chines-classico.blogspot.com
Yao Xinzhong, El confucianismo. Cambridge University Press, Madrid, 2001. Ótima introdução em espanhol ao confucionismo.

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