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Os Modos de um Sábio

O texto à seguir, intitulado “Os modos de um sábio” está presente no Liji (Manual dos Ritos), e é apresentado como um guia para reconhecer os indícios de um sábio. Obviamente não é uma receita, posto que a sabedoria, como o próprio Confúcio acreditava, era algo íntimo. Quantas vezes o Mestre não foi perguntado no Lunyu (Diálogos, Analectos) sobre pessoas que seriam ditas “sábias”? Sua resposta era sempre evasiva; afinal, como podemos garantir que alguém é realmente sábio, senão apenas depois de conversar com ele? Os ignorantes costumam persisitir em seus erros, mesmo acreditando estarem fazendo a coisa certa – este é o principal sintoma de sua ignorância incoerente. O sábio, pois, deve manifestar alguns sinais que o apresentam como tal, e que levam a descoberta de sua coerência íntima. Atores podem fingir algum tipo de sabedoria, mas seus atos e palavras os desmentem. O que Confúcio propõe, portanto, é o que seria o modo ideal de proceder do sábio – algo em si mesmo exigente, e que só alguém disposto a algo mais além pode fazer cumprir de modo espontâneo. São sinais externos – como foi dito, só a investigação sincera pode levar alguém ao verdadeiro sábio.

O TEXTO E SEUS COMENTÁRIOS

O Duque Ai de Lu perguntou a Mestre Confúcio: "Mas então o vosso traje é o dos "Letra­dos"?

Respondeu-lhe Confúcio: "Na minha infância eu vivi em Lu, e andava com traje de mangas largas, como os daqui. Quando já adulto vivi em Sung, e lá tive a costumeira cerimônia da imposição do barrete viril. O que eu ouvi dizer é que um Caval­heiro estuda e adquire grandes conhecimentos. Quanto ao seu traje é o da região. Por mim não aprecio trajes pedantes ou refinados".

Comentário: Este capítulo se inicia com uma provocação simpática do Duque Ai. Porque um sábio usa roupas simples, se poderia se apresentar melhor? Um letrado não poderia, com suas habilidades, almejar maiores posses pessoais? Confúcio lhe dá uma resposta característica de todo o seu sistema de pensamento: roupas bonitas se desgastam, boas comidas não cessam a fome, mas a sabedoria é a única coisa que permanece. Do que interessa então a imagem? A forma não diz nada, a não ser que se busque nela algo mais profundo. Abre-se aqui o mote do diálogo: de nada serve a aparência se por trás não há conteúdo. No entanto, ainda hoje cometemos o mesmo erro. Afinal, quem não se engana, achando que um médico é bom apenas por que usa branco, ou que um advogado sabe seu ofício apenas por que tem um bom terno? Confúcio estpa disposto a mostrar que são outros os sinais que identificam o verdadeiro sábio.

Disse o Duque Ai: "Posso perguntar sobre a vida do (autentico) "Letrado" ou Sábio (Ju)”?

Respondeu Confúcio: "Com pressa, não se pode traçar um retrato completo. A expô-lo em pormenor, há de mudar o turno dos criados, sem ter dito tudo".

O Duque Ai disse-lhe para se sentar, e Confúcio ficou junto dele.

Comentário: Não é fácil explicar o que é sabedoria a quem quer que seja. Ainda assim, esta é a função do sábio. Ele só pode, pois, indicar o caminho, mas apenas o interessado decidirá trilhá-lo ou não.

E disse então: O Letrado ou Sábio tem gosto de servir ao seu Príncipe, no caso de este convidar. Dia e noite estuda com esforço, para o caso de ser solicitado. Guarda na alma uma fiel lealdade, para o caso de receber uma nomeação. E trabalha com empenho no caso de ser empos­sado. Tal é a sua atitude de partida".

Comentário: O primeiro sinal de um sábio, portanto, é sua disposição em ajudar. Ele serve fielmente aos própositos e as pessoas que necessitam de seus conhecimentos. Por isso ele prefere não mandar, mas apenas aconselhar e executar. O Fundamento de todo o poder verdadeiro está na liberdade de agir, e na extensão disso a todas as pessoas. Na China antiga, o grande governante era o que menos interferia na vida das pessoas, atuava somente quando necessário e deixava que as pessoas cuidassem de sua própria liberdade, propiciando-lhes a oportunidade de adquirir maturidade e sapiência. No entanto, as pessoas do vulgo preferem não fazer nada por si próprias, e esperam tudo do governante; exigem-lhe o que elas mesmo não fazem, e reclamam ao não serem atendidas devidamente; ao fim, o governante precisa agir com rigor, ou tudo se perde. Se tudo for perdido, somente o sábio enxerga as razões do declínio, atenta ao seu modo de proceder e conclui se suas ações foram corretas. Um governante sábio pode abandonar o poder sabendo ter cumprido seu dever de forma digna; quanto as pessoas comuns, algumas compreendem as razões de seus erros pela decepção, e outras insistiram até o fim em sua teimosia e cegueira obstinada. Por isso Confúcio afirmou no Lunyu: “apenas o sábio e o estúpido não mudam”.

O Letrado tem um traje e barrete do com­um. Move-se e atua com ponderação e calma. Nos grandes encargos, parece lento; ao passo que nos pequenos encargos que lhe convenham, logo os resolve sem demora. Nos casos importantes, impõe-se ao respeito; nos pequenos, parece acanhado. Custa-lhe ser preferido ou promovido e é fácil em ceder e retirar­-se. Na sua atitude humilde, parece um incapaz. Tal é a sua aparência exterior.

Comentário: Por conta disso, nada melhor do que primar pela simplicidade. Ater-se ao dever e as necessidades do dia-a-dia são o mais importante. Em grandes problemas, as soluções devem ser bem analisadas, calculadas e maturadas; nos pequenos, o agir deve ser rápido, antes que o problema cresça. Fora isso, o sábio prefere passar por idiota a ser o foco das atenções; diante dos problemas, ele os enfrenta até onde sua posição permite – caso contrário, é hora de retirar-se e dar espaço aos outros. Não é importante para ele ser tido como competente ou não, mas sim, possuir a consciência limpa. Diz um ditado chinês: “faça o que fizer, aja de tal modo que, ao baterem na sua porta durante a noite, você não tenha receio do que seja”.

Quando está a sós, respeita o seu isolamento, sendo circunspeto e senhor de si, quer de pé quer sentado. Antes de falar, ouve primeiro; e no que faz, cumpre com as normas que há. Num caminho barren­to, ele não disputa o que é cômodo contra o arris­cado. E no Inverno e no Verão, não disputa as vantagens do sol e da sombra. Para evitar a morte, toma as devidas precauções; e cuida de si para cumprir sua missão. Até ai vai o seu sentido de pre­paração e disponibilidade.

Comentário: O sábio é aquilo que faz de si mesmo. Ele se entrega por completo aos seus projetos, mas não deseja de modo algum disputar os prejudicar aos outros. Por isso ele prefere muitas vezes o distanciamento de sua pessoa e de seus desejos interiores, de modo que possa cumprir sua missão sem incomodar os outros. Seu intuito é preservar-se, mas não com fins egoístas – o que ele deseja é alcançar simplesmente a sabedoria, e deste modo realizar seus propósitos e seu serviço.

É também próprio do Sábio não apreciar ouro nem jades. O que ele aprecia é a fidelidade e sinceridade. Não pede nem se incomoda com terras ou fazendas; os seus domínios são a perfeição da virtude. Também não pede muitas provisões; con­sidera a educação e a bondade como a sua riqueza. É difícil ganhá-lo, mas fácil pagá-lo. Fácil de contentar, mas difícil de dominar. Fora de tempo, não se mostra. Mais difícil ainda ganhá-lo a si. O que não é justo, não terá o seu acordo. Mais difícil ainda será dominá-lo. Não aceita recompensa, sem ter trabalhado primeiro. E é bem fácil de contentar. Tal é ele no trato e relações com as pessoas.

Comentário: Assim sendo, o sábio não se preocupa nem um pouco com riquezas, presentes ou bens. Seu maior bem é a amizade sincera, suas maiores riquezas são os sentimentos dos amigos e a dedicação na busca do saber. O sábio verdadeiro tem para si o real valor das coisas, e por isso não pode ser comprado. Engana-se quem crê que pode alcançar o sábio através de mimos ou atitudes exteriores. O sábio só pode ser atingido (e compreendido) por uma sincera atitude interna de busca do saber. Fora isso, todo o restante é perda de tempo.

Se quiserem dobrar o Sábio com presentes ou afogá-lo em prazeres e atenções, estes perderão seu tempo, pois essas vantagens não atingem a sua virtude. Nem que o ataque um monte de gente ou de soldados, ou o ameacem com armas, a visão da morte não o fará mudar a sua atitude.

Comentário: Aqui, Confúcio fecha a afirmação anterior, enfatizando a determinação do sábio em proceder de modo correto. Tal obstinação é incompreensível para as pessoas comuns, que tomam isso por uma teimosia vã, contrária aos “aspectos práticos da vida”. Tais “aspectos” – a ganância, a falsidade ou a leviandade é que são as verdadeiras fraquezas, as quais as pessoas comuns costumeiramente se dedicam. Para que então insistir em erro? Melhor agir do modo correto, sempre.

O processo da ave de rapina é atacar e agarrar, sem medir sua audácia. Ao arrastar um grande tesouro, não mede sua força. Do passado não tem que se arrepender; e do futuro não tem que ter satisfação. Palavra errada, não a repete, e de boatos não faz caso; Não perde a sua dignidade nem é leviano nos seus projetos. A tanto chega a sua superior firmeza.

Comentário: Um sábio não costuma se perder em conspirações ou intrigas. Fofocas não são sua área de atuação. Ele é respeitado justamente por sua sinceridade. Tal forma de agir muitas vezes lhe dá a aparência de rude, cruel ou agressivo, posto que as pessoas preferem se comprazer em mentiras ou em formas atenuadas de expressar um problema. Um sábio prefere ser direto, de modo que não haja dúvida no que disse; dá ouvido aos problemas de forma clara, e não cede a maledicência; perde seu tempo quem busca atrair o sábio com conversas vãs sobre o alheio; o sábio nada diz para os outros que não possa dizer para si mesmo ou à quem se refere. Confúcio era um chato em sua época, tal como é, até os nossos dias, aqueles que lidam diretamente com a verdade e a colocam em seus atos e palavras. Mas tanto o incômodo quanto a admiração por um mestre como ele provém deste mesmo motivo: ele trazia consigo a autenticidade de suas palavras.

Do Sábio pode-se ser amigo, mas não trai-lo. Pode-se ser próximo dele, mas sem pressiona-lo. Ele se deixa matar, mas não desonrar. Na sua casa, não há luxos ou excesso, nem é rebuscado na comida e na bebida. Pode-se buscar suas faltas, que não haverá jeito de censurar seu comportamento ou deixar de dar-lhe razão. Tal é a sua constância e firmeza.

Comentário: É difícil ser amigo de um sábio, pois ele não é superficial. A fidelidade e dedicação de um sábio por seus amigos são inesquecíveis. Por outro lado, aqueles que traem ou abandonam um sábio não podem esperar mais nada dele. Disse Confúcio: “retribui o bem com o bem e o mal com justiça”. Mesmo diante do mal, portanto, o sábio não deixa de ser justo – mas afeto é algo que ele dedica aos que buscam a sabedoria ou aos que tem bom coração. Um sábio ama o mundo, mas não se deixa levar por uma ingenuidade imatura – afinal, ele não pode esperar conquistar aqueles que o odeiam. Resguarda-se então das armadilhas, e dedica-se a coisas simples. Dá o que tem de coração, e torna a simplicidade de um encontro um ato supremo de prazer.

O Sábio tem a fidelidade por armadura e a boa educação e respeito de si mesmo por escudo. Aferra-se ao amor do próximo, quando sai; e em casa traz no peito o respeito de si mesmo. E mesmo que o Governo seja tirânico, ele não muda de residência. Também aí chegam os seus princípios.

Comentário: A sabedoria é algo que não precisa ser defendida; simplesmente tendo-a, o sábio só cuida de praticá-la, divulgando-a e exercitando-a em si mesmo. Sua constância é imcompreensível para os outros. Há na sabedoria algum prazer em si mesma que é maior do que qualquer outro sentimento. Por isso, só ao sábio faz sentido a sabedoria; aos discípulos verdadeiros, a percepção disso gera a busca; a abusca gera a prática; e a prática pode levar finalmente a sabedoria.

O Sábio terá uma cerca de duas jeiras, a rodear de paz a sua casa. A porta é de grade, com um postigo ao lado. A pobre vivenda tem um postigo feito do bocal de um pote. Para sair mudará de roupa. Come dia sim dia não.

Comentário: Na maior simplicidade absoluta um sábio pode descobrir a felicidade. Todo o resto é detalhe. Quanto maior forem os encargos e detalhes, maiores serão também as obrigações e necessidade.

Se o Príncipe não atenta nele ou responde aos seus cum­primentos, ele não estranha, caso contrário, também não vai adula-lo. O seu jeito é assim.

Comentário: O sábio age de acordo com as circunstâncias. Não teme ser esquecido pelos poderosos, e nem vai atrás deles. Do alto até embaixo, é gentil com todos. Do nobre ao plebeu, ele admoesta, se for necessário.

O Sábio vive com os homens do presente, mas trata de imitar os do passado. O que se faz no tempo presente, as gerações futuras o tomarão por modelo. Se acontece que ele não agrada o seu tempo, se o Principe não o emprega ou pro­move; se os suditos tambem não o recomendam; e há caluniadores e aduladores no povo, que formam partido contra ele, e o põem em risco, a sua vida estará em risco, mas o seu ideal não lho tiram; mesmo que os seus movimentos e a sua vida privada corram perigo, ele há de ser fiel ao ideal até ao fim, sem esquecer os males do povo. Tais são os seus cuidados e a sua solicitude.

Comentário: Confúcio apresenta aqui os personagens modelos do passado, que enfrentaram toda a sorte de dificuldades para propiciar o mundo em que vivemos hoje. O passado foi um tempo admirável, pois nele surgiram os sábios que transformaram o mundo e lutam até o presente para continuara a alterá-lo de forma positiva. Confúcio valoriza, assim, a atitude de desbravar, de buscar conhecer, de arriscar em busca da sabedoria. Este risco o leva sempre a entrar em choque com os acomodados, com os que tiram proveito dos aspectos ruins da atualidade e com os ignorantes. Mesmo assim, ele não se dipõe a mudar de opinião – afinal , se ele está ceto, do que adianta concordar com o erro? As pessoas que não buscam a sabedoria de fato, não gostam de dialogar com um sábio, pois sabem que serão derrotadas em seus argumentos fracos e incoerentes. Daí, retiram-se para a maledicência e a conspiração. Um mundo construído desta forma, porém, derrotará apenas, e tão somente, aquele que o construiu. O sábio passa, e continua.

O Sábio tem grandes conhecimentos, e não pára de adquirir mais. Faz tudo com empenho, sem se cansar. Pode-se encontrar sozinho, que não se permite nada de imodesto. Se for conhecido do Principe e tiver trato com ele, nao terá dificuldades. As Cerimônias são um meio importante para as relações sociais. A virtude da fidelidade e da sinceri­dade são um belo meio de marcar o trato social. Preferir os melhores, e ser bom para com todos; des­fazer as intrigas, para acertar as dúvidas, são provas da grandeza de alma e vontade do Sábio.

Comentário: Confúcio reforça aqui o ponto relativo a amizade e ao estudo. Quando alguém parte em busca da sabedoria, é comum que as companhias costumeiras sumam ou se afastem, pois eles não almejam o mesmo. Quem toma o gosto pelo estudo, adquire meios para um dia alcançar a sabedoria e dedica-se a este caminho costuma, usualmente, a se encontrar sozinho, abandonado e criticado. E daí? O verdadeiro saber traz, também, verdadeiros e raros amigos. A troca é compensadora. O próprio exercício da sabedoria, porém, é suficiente. Assim o sábio se descobre atuando no vazio, e nele faz a sua morada.

O Sábio, ao louvar ou mencionar os de casa, não exclui os amigos; e ao elogiar e recomendar os de fora, nao exclui inimigos. Atende ao mérito e ao serviço. Recomenda e promove os capazes, sem paga nenhuma em vista, contanto que o Principe fique satisfeito. Só olha ao bem do Estado sem procurar riquezas ou honras. É assim que ele faz a promoção dos dignos e competentes.

Comentário: Tal justiça em relação aos méritos ou deméritos do alheio são incompreensíveis para quem não busca a sabedoria. O sábio se atém a capcidade das pessoas, e pensa no que é melhor para todos ao se referir a elas. Dito isso, ele prefere indicar uma adversário competente e de bom coração do que um amigo indolente e de capcidades duvidosas. Neste processo, pois, é bem capaz do inimigo tornar-se amigo e vice-versa. Em geral, é o que sed á com o sábio. Seus amigos verdadeiros são aqueles que buscam o mesmo que ele.

O Sábio, ao saber de uma pessoa experimen­tada e virtuosa, têm interesse em cumprimentá-la e interrogá-la. Impressionado por um homem de virtude e saber, há de procurar torná-lo conhecido. Em questao de honras e colocações, ele é atento em dar precedencia aos outros. Nos sofrimentos e dificuldades, presta-se ele a aguentar e ajudar. Os que espe­ram há muito, são os que ele ajuda. Os de longe sao os de que ele mais cuida. É assim que ele promove aos cargos.

Comentário: Um sábio reconhece que seu conhecimento baseia-se num mesmo princípio, mas ele só consegue muitas vezes alcançar parte das manifestações dest princípio. Por isso, o sábio gosta de conhecer outras pessoas cuja cultura e saber possam enriquecê-lo. Nisso não há vergonha alguma. Do mesmo modo, ele os promoverá, se isso for bom para a sociedade. O exercício da sabedoria é sempre o da constância em ajudar, distribuir e fomentar inciativas e saberes. Um sábio presta-se sempre, porém, em ajudar quem precisa, sem distinções.

O Sábio tem um comportamento limpo. Apresenta as suas sugestões, e esconde-se. Dá os seus avisos com serenidade. Se o Príncipe não os toma na devida conta, ele o dirá sem ceri­mônia e com clareza, mas sem fazer demasiada pressão. Não vai até o fim para honrar-se a si mesmo. Nem ajunta o pouco para fazer dele muito. Em tempo de bom governo, não se presta a leviandades; e havendo desordens, não as divulga. Com os do seu partido nao se aninha, nem é injusto com os outros. Tal é a sua atitude superior e consciente.

Comentário: Mesmo envolvido em intrigas, o sábio não se vende; mesmo constatando um erro, o sábio prefere apresentá-lo, dando a oportunidade de consertá-lo do que se calar; em geral, sua atitude leva a conflitos, tanto de interesse quanto pessoais. O sábio toma por missão esclarecer aos outros, ainda que isso lhe custe caro. Via de regra, a incompreensão o acompanha. Mas disso ele faz experiência, e não maldição.

O Sábio também pode não ser Ministro do Imperador, no alto; nem em baixo, servir o Principe; dedica-se então a contemplação e ao des­prendimento; tem por ideal esquecer-se de si para se dar aos outros, e pondo o seu saber ao serviço do próximo. É um exemplo a sua naturalidade as boas maneiras, e o modo em suavizar as asperezas e aparar as arestas. Se lhe oferecessem metade do Estado, teria isso por uma ba­gatela, como cem grãos de milho. Nao ambicio­na ser Ministro nem funcionário publico. Por aí se ficam as suas exigências.

Comentário: Quando se visa um fim material em algum projeto, tudo se apresenta como dificuldade; quando alguém, porém, faz algo pelo algo em si, tudo de material vêm espontaneamente de encontro ao propósito, pois assim é a lei de atração e repulsão de yin-yang. Logo, um sábio não se preocupa com o que tem, mas com o que fará; não lhe interessam grandes ofertas materiais, posto que isso mais prende do que dá liberdade de fato. O sábio se esquece de si e se funde com a paisagem. Ao mesmo tempo, é isso que lhe dá destaque, e o torna indispensável a realização das coisas. Justo, ele sempre será admirado ou odiado por isso, mas de qualquer forma, será reconhecido.

O Sábio, para com aqueles que tem os mesmos sentimentos e modo de vida, e que buscam a per­feição pelos mesmos métodos, se realmente são fiéis, ele alegra-se e não se farta de os ajudar. Se não os vê há muito tempo, e ouve boatos a respei­to deles, não lhes dá crédito. O seu proceder tem por princípio a retidão e por base o respeito de si mesmo. Havendo conformidade, ele avança; caso contrário, retira-se. As sua relações de amizade são assim.

Comentário: Confúcio, no Lunyu, dá indicações precisas do sentido desta passagem; “Examino a mim mesmo três vezes por dia. Ao intervir em favor dos outros, fui digno de confiança? Na relação com meus amigos, fui leal? Pratiquei o que aprendi?" e Zigong perguntou como tratar os amigos; O Mestre disse:"Dá-lhes conselhos leais e guia-os com tato. Se isso falhar, pára: não te exponhas à repulsa"; Mestre Zeng disse: "Um cavalheiro reúne amigos por meio de sua cultura; e com esses amigos ele desenvolve sua humanidade".

Uma natural mansidão é o princípio do amor entre os homens. O respeito e a atenção são a disposição interna para a caridade mútua. O desprendimento e a generosidade são a sua mani­festação e exercício. A cortesia no trato é o seu distintivo. As boas maneiras são o seu exterior. A amabilidade na conversa é caracteristica da caridade, como também o gosto do canto ajuda a cativar o amor. A partilha e a alegria e satisfação do amor. O Sábio acumula tudo isto: é a sua am­bição. Contudo ele não ousa ter-se por caridoso. A tanto o leva o seu culto da modéstia.

Comentário: A discrição e o desapego levam à liberdade. Como o próprio Confúcio afirma, as boas maneiras são seu jeito natural de agir, mas isso é apenas exterior. O sábio verdadeiro age por coração, e por isso sabe que é necessário ser comedido, para não ser entendido como bajulador ou ambicioso. Ele não é um cortesão, é uma pessoa gentil movida pela sinceridade e humanismo (Ren).

O Sábio nao se sente frustrado nem chocado com a pobreza e a humildade. Nem também se satisfaz e deixa escravizar pela riqueza e pelas honras. Nao desobedece ao Imperador nem se incomoda com ele; nao se prende com atenções de cima; nem se mete com os Diretores de Serviços. É por isso que lhe chamam de preguiçoso ou Pe­dante.

Comentário: Alheio às críticas, pois, o sábio é livre de coração e corpo. O que governa sua vontade é o seu próprio Eu, movido pela humanidade presente neste mesmo eu, o conceito de Ren.

Os que hoje em dia o público chama "Ju" (Letrados, Intelectuais), são motivo de chacota e repulsa pela multidão.

Comentário: Por isso o sábio não espera ser compreendido de imediato, mas não se preocupa com isso. Tudo chega no seu tempo, e ele se compraz em si mesmo e em sua missão.

Assim Mestre Confúcio tinha chegado ao fim de sua jornada. O Duque Ai hospedou-o. Ao ouvir as suas palavras, ficou encantado e persuadido também. Ele mesmo disse: até o fim da minha vida, nunca mais ousarei usar a palavra “Letrado” (Ju) com escárnio.


Nota: o presente texto serviu-se da tradução do Padre Joaquim Guerra como suporte e referência, encontrada no livro Lei-ky – Livro dos Cerimoniais (Macau, 1987)

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