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Quatro textos sobre Educação Chinesa

Enquanto realizava minhas traduçoes para o livro Cem Textos de História Chinesa, me deparei com algumas pérolas do pensamento chinês tradicional sobre educação. Creio que não há nada de novo ou que não tenha sido dito; a diferença, apenas, é a do tempo. Os últimos dois textos, por exemplo, têm menos de dois séculos, e parece que ainda não percebemos isso. Escapo aqui, de propósito, dos discursos usuais que defendem a presença destes mesmos elementos em nossas teorias educacionais; a questão é porque os chineses perceberam o mesmo que nós, e puseram em prática, enquanto ainda nos atolamos nas palavras bonitas e na pouca ação. Estamos cheios de intelectuais prontos a falar das coisas mais bonitas do mundo, e a agirem como armários de livros – mas pouco fazem, de fato, para agir, ousar e educar.

XunziExiste a inteligência dos homens sábios, existe a dos excelsos, existe a dos mesquinhos e existe a dos lacaios e escravos. A dos homens santos é aquela dos que falam muito, do modo elegante e metódico, elucidam sempre os dilemas, argumentam de forma coerente e congruente em meio a mil e uma variações de suas formas de expressão. A dos homens excelsos é aquela de pouca fala, porém de forma direta, concisa e sistemática, em estrita conformidade com um limite pré-determinado, tal como se limitado pela régua de um carpinteiro. A dos homens mesquinhos é aquela que profere absurdos, se conduz em sentido contrário ao do justo, e se dirigem quase sempre a si mesmos sobre aquilo que afirmam. Por fim, a inteligência dos escravos e lacaios é aquela dos que falam com grande eloqüência, atuam com diligência e presteza, e sem medir conseqüências, dão mostra de talento para uma grande variedade de temas e conhecem de tudo entre as coisas do céu e da terra, mas não são capazes de dar qualquer aplicação pratica ao que dizem saber. Fazem malabarismos de palavras com grande maestria, mas suas frases nunca se dirigem a algo de útil, senão a necessidade do momento, sem refletir sobre o justo ou injusto, e nem estudam a verdade intrincada das coisas, propondo-se apenas a levar vantagem sobre os outros. (Xunzi, -312 -230)

Zhuxi
Não é difícil distinguir entre como estuda um imbecil e como estudam os sábios. Estes sempre estudam com sinceridade e tentam praticar o que falam. Ao falar da necessidade de se espiritualizar, se põem a se espiritualizar; ao falar da necessidade de alcançar de modo sincero a consciência, o fazem de modo que sua mesma consciência seja sincera; suas palavras não são ocas, principalmente quando falam de cultivar a sua personalidade e harmonizar as famílias. No entanto, a gente de hoje, ao falar de espiritualidade, nada mais faz do que usar a palavra para compor uns versos ou fazer frases bonitas; ao falar da sinceridade da consciência, somente o faz para ilustrar um tema a mais de suas composições. Ao falar de cultivar a personalidade, se limita ficar repetindo os ditos dos sábios, para parecer mais ilustrado e mostrar seu talento em recitar. O que eles fazem é apenas unir as palavras de um sábio e outro para fazer um ensaio da moda. Mas que proveito oferece semelhante maneira de estudar para o cultivo da virtude e da sabedoria? (Zhuxi, 1130-1200).

Yanfu
Em termos gerais, para determinar se um país é poderoso ou não, se pode subsistir ou está condenado a desaparecer, nada pode passar pelos três critérios mais importantes: o primeiro consiste em saber se o povo tem uma forte constituição; o segundo, se o povo tem ou não uma inteligência que lhe permita refletir profundamente; e terceiro, se tem um alto nível de moralidade e um grande sentido de benevolência e justiça. Portanto, ao examinar os problemas relativos a civilização e a educação e discutir os assuntos do governo, todos os sábios dos países europeus e americanos se baseiam sem exceção na constituição física do povo, sua inteligência e sua moralidade para julgar o nível de desenvolvimento de uma nação. Quando um país reúne estas três condições, seu povo desfruta de um alto nível de bem estar, e seu poderio tem que ser muito grande. [...] é por isso que a potência ou a debilidade de um país, a opulência ou a penúria de sua população, o bom governo ou a convulsão social são sintomas ou demonstrações da constituição física, a inteligência ou moralidade de seu povo. Assim, o que uma política ou uma ordem podem por em pratica, ou o que tem que anular ou adiar dependem se elas estão ou não em conformidade com estes três fatores...em conseqüência, os assuntos políticos principais de hoje são: fomentar a saúde do povo, desenvolver sua inteligência e elevar seu nível de moralidade. A inteligência do povo constitui a base da prosperidade e a potencia de uma nação. (Yanfu, 1854-1921).


Liang QichaoEm minha análise, a tese das três fases do desenvolvimento da sociedade humana, presente no livro Anais das Primaveras e Outonos nos sugere a seguinte idéia: quando reina em um país o caos e a disputa pelo poder, quem tem força é quem vence; quando o país goza de tranqüilidade, quem tem força e inteligência vence; e quando prevalece a paz e a prosperidade em um país, quem tem inteligência é quem vence. Nas épocas em que a humanidade se achava em estado primitivo, os animais eram donos do país. As ameaças destes eram tão graves que os homens tinham que viver em cavernas ou no alto das arvores para se manterem a salvo. Do ponto de vista físico, os animais são superiores aos homens, porque estes não estão providos de plumas para cobrirem-se ou de garras e dentes afiados para se defenderem. No entanto, pela superioridade de sua inteligência, os homens conseguiram caçar os tigres e os rinocerontes, domesticar camelos e elefantes. Nos tempos antigos, mongóis e muçulmanos se dedicavam a pilhagens e orgias com matanças, e em certas ocasiões atacavam países de cultura milenária, e por pouco não chegaram a dominar o mundo inteiro, porque tinham uma força física poderosa. Nos últimos anos, europeus e russos subjugaram os outros países pela força das armas e expandiram seus domínios territoriais valendo-se do comércio. Em conseqüência disso, quase todo o mundo está sobre seu domínio, porque eles têm forças intelectuais superiores. A lei do desenvolvimento do mundo é este que vai passando do domínio da força física para a primazia da inteligência. Por outro lado, hoje em dia, para chegarmos a ser um país poderoso e prospero, devemos conceder importância fundamental ao desenvolvimento da inteligência do povo. (Liang Qichao, 1873-1929).


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