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Saber os versos, saber em versos


As primeiras epopéias foram feitas na forma de poemas, e serviam como meio de transmitir o conhecimento e a história das Eras passadas. As palavras eram as mesmas do dia-a-dia, ou das atas secas de registros administrativos; no entanto, o artifício da rima, da musicalidade, emprestava a poesia um sentido de “verdade”, pela sua capacidade única de despertar sentimentos e construir imagens mentais. Foi somente quando o ser humano começou a questionar seus mitos que a poesia foi substituída por uma prosa direta, bem escrita, porém sem lume e mais acessível ao vulgo – era a criação do gênero histórico, capaz de explicar as minúcias do evento, mas impossível de ser decorado. Me pergunto porque a História abandonou o artifício estético da poesia – se por necessidade de separar-se, ou se por incapacidade de seus primeiros autores em fazer poemas. A questão, de fato, é que as antigas epopéias cumpriam a função de narrar o passado, mas caíram na descrença. A prosa tornou-se a língua oficial do registro histórico, e doravante, a poesia continuou a atuar sobre a imaginação humana, sendo mesmo capaz de despertar sua sensibilidade, mas...continuaria ela possuindo a capacidade de transmitir uma “verdade”?

Foi Aristóteles que, numa tentativa confusa de defender a poesia, acabou por enterrá-la como veículo de promoção da história. O seu famoso (e fatídico) capítulo 9 da Arte Poética sintetiza sua idéia filosófica sobre a diferença entre ambas:

(...) é evidente que não compete ao poeta narrar exatamente o que aconteceu; mas sim o que poderia ter acontecido, o possível, segundo a verossimilhança ou a necessidade. O historiador e o poeta não se distinguem um do outro, pelo fato de o primeiro escrever em prosa e o segundo em verso, pois, se a obra de Heródoto fora composta em verso, nem por isso deixaria de ser obra de história, figurando ou não o metro nela. Diferem entre si, porque um escreveu o que aconteceu e o outro o que poderia ter acontecido. Por tal motivo a poesia é mais filosófica e de caráter mais elevado que a história, porque a poesia permanece no universal e a história estuda apenas o particular.

Percebe-se que os gregos já estavam envolvidos no conflito entre uma estética da prosa e da poesia, tentando articular “sentidos à estilos”, e esta foi uma perda trágica. Aristóteles não conhecia os Haikais, o exercício pleno do particular, e por isso entendia que a poesia se atinha ao universal (ou será que ele falava da “beleza universal”?). Do mesmo modo, a história podia até explicar o particular, mas a sua busca de conexões fora do objeto sempre estimulou a universalidade.

De qualquer modo, este processo não ocorreu apenas na Europa Antiga; na China, o mestre Confúcio já escrevia em prosa no Shujing (o Tratado dos Livros) e no Chunqiu (As primaveras e Outonos), mas ele próprio nunca teorizou sobre esta diferença. Me parece que o caso chinês funcionou de modo alternativo ao ocidental: os chineses continuaram a compreender os gêneros literários como modos de comunicar um mesmo princípio, apenas de formas diferentes. A história, portanto, poderia transmitir uma informação tanto pela prosa quanto pela poesia, e a habilidade em tecer, poeticamente, um liame com a hipótese proposta tornava o texto tão útil quanto belo.

O que pretendo neste texto, pois, é defender a idéia de que ainda se pode fazer história por meios poéticos, e não somente pela prosa. A história não precisa recorrer à poesia apenas como uma fonte referencial, de interpretação, ou apêndice do escrito; o que quero dizer é que há a possibilidade, real, de substituir a prosa pela poesia na escrita histórica. Para isso, eu irei novamente recorrer aos chineses, muito embora o ocidente tenha produzido alguns autores cujos poemas dão conta, muitas vezes, de transmitir os sentimentos de uma época.

Obviamente que esta proposta implica alguns problemas fundamentais: ela não dispensa a pesquisa nas fontes, nem o uso da análise crítica, bem como exige uma habilidade única do escritor de versificar o texto, sintetizar as idéias propostas, e principalmente, ser capaz de evocar ou criar imagens mentais daquilo que ele se propõe a narrar. Mas acredito ser possível construir uma narrativa histórica, por meio poético, que seja tão válido em transmitir informações do que o texto em prosa (que se propõe, muitas vezes, a ser objetiva e direta - mas sabemos que, na prática, muitos autores constroem um texto complexo e difícil); além disso, o artifício estético pode ser utilizado em função, justamente, de aproximar a imaginação do leitor à construção do panorama que se pretende descrever – isso não tornaria o texto histórico mais profundo, e não o faria cumprir a sua função de “reconectar” com o passado? Não será o “livro de imagens mentais” tão eficaz em transmitir concepções históricas quanto a própria prosa?

Na época de Confúcio

Como dissemos Confúcio já escrevia de modo parecido com a nossa prosa histórica, mas dedicou um dos seis livros clássicos – o Shijing – especialmente para a poesia. Confúcio o fez com sentidos diversos; na época, funcionários do governo ficavam ouvindo as canções populares e as declamações de poemas em festas ou ocasiões sociais para extrair delas o que o povo pensava. Era o que os chineses chamaram tradicionalmente de “censura”, mas tinham objetivo duplo: tanto servia para reprimir como para compreender os anseios políticos da população. Confúcio aproveitou esta experiência e selecionou um grupo de poemas que ele julgava serem fundamentais tanto para entender a sua época, quanto para proporcionar uma análise filosófica da condição humana.

Por esta razão, que se debruça sobre o Shijing vai encontrar reclamações sobre funcionários da corte, mulheres fiéis, moças desejosas, ritos fúnebres, a rotina camponesa, etc. Enfim, o mestre separou 305 poemas que ele julgava mais do que adequados para reformar a alma humana e dar-lhe um sentido histórico da vida. Não nos deixemos enganar; embora tenha redigido (ou recolhido) os livros de história, Confúcio deixava claro o papel da poesia na formação do indivíduo, tal como aparece no Lunyu (Diálogos):

2.2 O Mestre disse: "Os trezentos Poemas resumem-se numa única frase: 'Não penses no mal'".

Um caso de busca de sentido, por trás da análise poética, fica claro neste trecho:

3.8 Zixia perguntou: "O que significam estes versos:

Oh, as covinhas do sorriso dela!
Ah, o preto e branco de seus lindos olhos!
É sobre a seda puramente branca que as cores brilham".

O Mestre disse: "A pintura se inicia na seda puramente branca". Zixia disse: "O ritual é algo que vem posteriormente?" O Mestre disse: "Ah, realmente abriste meus olhos! É apenas com um homem como tu que se podem discutir os Poemas".


A poesia seria, igualmente, o primeiro motivador da busca da sabedoria e do conhecimento. Os modelos apresentados pelos poemas seriam os motivos da busca de sentido para as imagens mentais criadas não indivíduo pela leitura:

8.8 O Mestre disse: "Inspira-te nos Poemas; firma teu comportamento com o ritual; encontra tua satisfação na música".

Do mesmo modo, aquele que se atém a forma poética – e não a busca do sentido – não compreende nem a poesia e nem os argumentos nela propostas:

13.5 O Mestre disse: "Considera um homem que sabe recitar os trezentos Poemas; dás a ele um posto oficial mas ele não está à altura da tarefa; tu o mandas para o exterior numa missão diplomática, mas ele é incapaz de uma simples réplica. De que serve sua vasta aprendizagem?"

A poesia, além de veículo estético, proporcionaria conhecimento sério, real, e não apenas serviria ao deleite; mas porque a literatura histórica não pode igualmente proporcionar prazer? Neste ponto, a poesia cumpriria devidamente bem esta função:

17.9 O Mestre disse: "Meus pequenos, por que não estudais os Poemas? Os Poemas podem vos fornecer estímulo e observação, capacidade de comunhão e um veículo para aliviar a dor. Em casa, eles vos permitem servir ao vosso pai e fora de casa servir ao vosso senhor. Neles também aprendereis os nomes de muitos pássaros, animais plantas e árvores".

O próprio Confúcio insistia que seu filho estudasse os poemas, a primeira porta para o conhecimento da vida:

17.10 O Mestre disse a seu filho: "Estudaste a primeira e a segunda partes dos Poemas? Quem entra na vida sem ter estudado a primeira e a segunda partes dos Poemas fica paralisado, como que diante de uma parede".

Tais considerações mostram que Confúcio estava inclinado a aceitar que o gênero poético era absolutamente tão verdadeiro quanto à prosa. Ao lermos o Shujing ou o Chunqiu, vemos que suas estruturas cumprem uma função: o Shujing seria a coletânea de uma série de discursos, ditos espontaneamente, bem como Chunqiu é uma crônica concisa e direta de datas, que precisou ser, inclusive, comentada e explicada por autores posteriores. Ao olharmos para o passado chinês, o Shijing nos traça um panorama extenso e acessível da vida cotidiana chinesa, cumprindo uma função histórica de maneira notável e bela.

Mas, depois de Confúcio...?

As poesias encerram as prosas de Sima Qian, o grande historiador de Han – como se em tão poucas palavras pudessem resumir tudo que foi escrito antes! Mas, não é exatamente isso que ela propõe? O historiador ocidental, de relance, crerá ver na poesia um apêndice, uma nota de rodapé do corpo do texto; um chinês se encantará com a prosa, mas fixará em sua mente o poema ao fim, que em tudo resume o texto.

Mesmo Luji ou Liuxie, os dois primeiros analistas da literatura chinesa, vão escrever seus textos em forma poética, ou encerrar suas prosas com poemas. A combinação de ambas dá o balanço exato da ausência de habilidade em fazer grandes poesias, mas do talento em narrar histórias. Os pensadores chineses, desde a antiguidade, compreenderam a poesia como um exercício útil para a mente, e um eficiente recurso de escrita. Por esta razão, a dicotomia “prosa – poesia” não se repete na China; o ato de escrever depende, simplesmente, do talento, e até onde ele alcança.

Na época Tang, os grandes pensadores foram filósofos-prosadores-poetas. Hanyu, Liu Zongyuan, Baijuyi, Dufu, Libai, todos eles, embora sejam chamados de “poetas” ou “prosadores”, foram na verdade ativos intelectuais cuja produção serviu de estofo para os debates acadêmicos, tanto quanto para a apreciação da beleza natural.
Baijuyi resume aqui a sua visão sobre a poesia, que nos transmite a concepção que pretendemos defender: a poesia é um meio de vincular propósitos, idéias, e por esta razão se transforma num instrumento sensível e profundo de transmissão da cultura:

O wen do céu é composto pro três luzes: a do sol, da lua e das estrelas; o wen da terra é composto por cinco elementos: metal, madeira, água, fogo e terra; o wen humano pelos seis livros de Confúcio: o livro da poesia, dos documentos, das mutações, dos ritos, música e os Anais das primaveras e dos outonos. Entre estes, o livro da poesia é o primeiro, porque a poesia é o meio mais eficaz para mover corações. O sábio mexe com os corações dos homens e o mundo está em paz. Para mexer com o coração dos homens não há nada que preceda a emoção, não há nada que não comece com as palavras, nada que não acorde com a música, nem nada mais profundo do que o sentido. O que chamamos poesia tem como raiz a emoção, seus brotos são as palavras, a música são suas flores e seu significado o fruto. (Baijuyi, 772-846 d.C.).

Aqui, o ideograma “Wen” 文 representa “cultura”, “conhecimento”. Baijuyi propõe a poesia como um modo de filosofar, de recordar a história, e de atuar sobre as mentes. Não há dúvida dos efeitos estéticos que ela pode provocar. No entanto, como qualquer outro atividade – ou arte – que implica em conhecimento, os autores podem reter-se na superficialidade ou, tentarem de fato buscar um sentido. Eis aí a razão da banalização da poesia, bem como da incompreensão da história. Se situadas num plano da escrita rebuscada, elas transformam-se num amontoado de palavras que nada significam. Liuzhiji, o escritor do Shitong, o primeiro manual de história chinês já afirmava: “na narração dos eventos, uma pessoa hábil em somar palavras desnecessárias, ou liberal com a descrição dos acontecimentos, só faz perder tempo com coisas irrelevantes. Mas se alguém busca extrair o essencial, ele sintetizará tudo numa frase ou sentença”.

Este é mesmo ponto de vista defendido por Yenyu, séculos depois, sobre a poesia. Yen deixa bem clara a contradição entre talento e propósito; não basta querer fazer a arte, mas ela implica no estudo e no exercício. Sem ambas, até mesmo a prosa se arrisca a ser um texto pobre; mas, na poesia, isso fica mais evidente:

A poesia implica em um talento especial que nada tem a ver com os livros; contém um significado a parte que nada tem a ver com os princípios da razão. E, mesmo assim, a menos que o poeta tenha lido muito e investigado os princípios detalhadamente, nunca chegará ao limite. O melhor é o que se chama “não tocar no sendeiro da razão nem cair na armadilha das palavras”. A poesia canta a emoção e a natureza de cada um. Os poetas da época Tang partiam somente de sentimentos inspirados [...]. Assim alcançavam a realização da poesia, consistente como uma aparência luminosa e diáfana que não pode se decompor; é como o som do ar, a cor numa imagem, a lua na água, ou uma imagem em um espelho; tem um número limitado de palavras, mas seu significado é ilimitado.

Quanto aos poetas de hoje, vem como estranhas interpretações e conceitos de ofício; assim, tomam a verborragia por poesia, um talento comum e a erudição por poesia, incluindo as discussões banais. Não que a poesia não exija técnica e habilidade, mas não é a poesia dos antigos, porque lhe falta “a música que um homem canta e três lhe fazem coro”. Além disso, suas obras fazem alusões demais, mas não estão atentas aos estados de ânimo; cada palavra que usam deve ter uma fonte, cada rima, uma precedente. Quando as lemos, do princípio ao fim, não sabemos o que elas pretendem. As piores entre elas chegam, inclusive, ao grunhido e ao grito, o que é ir um pouco longe demais contra o princípio da magnanimidade. De fato, estão abusando da linguagem, confundindo-a com poesia. Quando se chega a este ponto, se pode dizer que a poesia é um desastre.

Yenyu (1180-1235 d.C.)

Novamente, um longo período passa, mas a apreciação e a metodologia para a realização da arte poética se dão, continuamente, com um propósito de despertar:

A escrita da poesia se baseia na experiência interior emotiva e na cena exterior do mundo: nenhum dos dois por si só completa a poesia, nem está em conflito um com o outro. Quando subimos às alturas e deixamos vagar o pensamento, nos comunicamos com o espírito dos antigos, nossos pensamentos chegam a todos os lugares e sentimos dor ou felicidade. Estes processos se estimulam um ao outro de modo casual, conjurando formas onde não existem traços, evocando ecos no silêncio. A emoção pode diferir diante do mesmo cenário exterior, e sua descrição resultará mais ou menos difícil. Há duas questões essenciais na poesia, e nada é mais importante do que elas: o que se observa no exterior deve ser sempre o mesmo, mas os sentimentos que surgem no interior podem ser distintos. Temos que nos esforçar para equiparar o que vêm de dentro com o que está fora, o que sai da mente com o que a penetra. O aspecto do mundo exterior é o afrodisíaco da poesia, e a emoção, o seu embrião. Quando ambos se unem para fazer surgir à poesia, se chega a resumir as dez mil formas em umas poucas palavras, e a poesia tem uma força vital (Qi) primordial que é indivisível e que atinge o limite.
Xie Chen (1495-1575)

A poesia resulta, portanto, de uma associação fértil entre as imagens externas – o documento, a fonte, a imagem – e a capacidade criativa de articulá-las em um discurso coerente. A poesia, porém, possui a musicalidade necessária para atrair e despertar – algo que a prosa, muitas vezes, não tem.

Um fim

Quando Einstein publicou pela primeira vez a sua Teoria da relatividade, em um artigo de poucas fórmulas e muitas palavras, alguns físicos o taxaram de “poeta”. Longe de compreender as imagens que sua proposta evocava, seus críticos não estavam considerando-a como “científica”. Esta distinção fatal – que o texto científico exige uma pobreza emotiva ou uma franqueza gramatical – são elementos redundantes de um discurso estabelecido, mas não necessariamente verdadeiro. Como se pode crer que se deve abandonar a beleza em prol da razão? Possuir uma bela forma e um sentido definido não se excluem, na produção de um bom texto, senão por conta do preconceito. Luxun (1881 - 1936), escritor famoso e crítico ferrenho da literatura tradicional chinesa admitia, por exemplo, o quão era indispensável a junção da vitalidade rítmica interna e externa na construção do texto - fator decisivo para fechar este nosso conjunto de nossas observações:

Melhor é aquele que reflete, pois está em condições de contribuir com sua força vital [no ato de escrever], mas ainda assim peca por estar cheio de ilusões utópicas. Portanto, melhor ainda do que ele é o observador - aquele que, com seus olhos, está lendo um livro vivo, que é este mundo. Depois deste ponto, ele começa a fazer a verdadeira e mais bela literatura.

Se a China pode existir, compreendendo a mente poética como algo tão real e verdadeiro quanto a história se propõe a ser – e se, ao longo de milênios, eles conseguiram preservar estas concepções – então talvez não seja impossível aceitar a poesia como denúncia, como reflexão e como história. Basta, somente, que ela deixe de ser apenas boa poesia feita por poetas para ser, de fato, ciência e saber expressos pelos meios poéticos.


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