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A Educação, por Wang Guowei


Nesta breve tradução, apresento um interessante texto feito pelo intelectual Wang Guowei, durante o período de crise na China na passagem dos séculos 19-20. Aqui, Wang lança a idéia de como educar modernamente, mas sem perder as tradições.

Qual é o objetivo da educação? Não é outro que o de preparar os homens para tenham um desenvolvimento multifacetado. E o que significa o termo “homens com um desenvolvimento multifacetado”? Se trata de que não tenham nada que esteja mal desenvolvido ou de que padeçam de nenhuma desproporção em seus diversos aspectos. Os homens têm que se desenvolver em dois terrenos: o interior e o exterior; ou seja, devem ter uma forte constituição física e por sua vez, uma adequada preparação mental. Se desenvolvermos sua constituição física descuidando da preparação mental, ou vice versa, seu desenvolvimento será defeituoso. Um homem de desenvolvimento multifacetado tem que atender tanto ao seu desenvolvimento mental quanto físico. O primeiro abarca três aspectos: a inteligência, os sentimentos e a firmeza de caráter. Relativos a eles são os ideais de verdade, de bom e de belo, respectivamente. A um homem de desenvolvimento multifacetado não se pode faltar nenhum destes três ideais. Para alcançar este objetivo, devemos começar pela educação. O trabalho educativo pode dividir igualmente em três aspectos: a educação intelectual, a moral (templo do caráter) e a estética (sentimental). Por exemplo, uma seita do budismo e a antiga escola estóica da Grécia e Roma advogavam moderar os sentimentos dos homens para canalizar sua atenção e suas energias exclusivamente ao templo do caráter. Em compensação, na época moderna, Herbet Spencer insistiu somente no ensino das ciências. Ainda que todos eles tratassem assim de remediar os respectivos males de seu tempo, o que preconizavam não era uma educação integral. Uma educação assim, ao meu modesto modo de ver, deve compreender as três partes integrantes que vou tratar na continuação, em linhas gerais:

1.Educação intelectual. Quem quiser chegar a ser um homem plenamente realizado, deve possuir conhecimentos tanto em âmbito interno como no externo; a amplitude de seus conhecimentos, desde logo, variam segundo a época e o lugar em que viva. Os conhecimentos dos homens antigos são agora insuficientes para os homens contemporâneos, como insuficientes são os conhecimentos da época de fechamento do país para uma época como a atual de fecunda comunicação entre os diversos países do mundo. Os que vivem na época atual não podem prescindir dos conhecimentos necessários para o seu tempo. Os conhecimentos se dividem em duas categorias: os teóricos e os práticos. Do ponto de vista de seu surgimento, os conhecimentos práticos precedem geralmente os teóricos. No entanto, estes últimos, uma vez desenvolvidos, vem a servir, por sua vez, como base dos conhecimentos práticos. Ciências como a matemática, física, química, história natural, etc. São conhecimentos teóricos. Porém, quando são aplicados os princípios da física e da química a agricultura e indústria, os de biologia à medicina, os de matemática a topografia, os conhecimentos passam a ser práticos. É inerente à natureza humana a aspiração a possuir conhecimentos teóricos, mesmo que os práticos façam falta numa sociedade para manter a subsistência de seus integrantes. Do que conclui que a educação destinada a adquirir conhecimentos é indispensável.

2.Educação moral: agora bem, os conhecimentos somente, sem moral, não podem assegurar o bem estar dos homens nem a paz social, e quem estiver nestas condições não poderá chegar a ser um homem plenamente realizado. O sentido da vida está numa ação dos homens, e não em seu conhecimento. Por isso, os sábios, tanto dos tempos antigos como os contemporâneos, tanto da China como de outros países, todos atribuem maior importância a educação moral que a intelectual, e assim se explica que a educação em todos os tempos e em todas as latitudes tenham na moral seu centro nevrálgico. O objetivo supremo de todos os homens é criar uma sociedade harmoniosa de bem estar e felicidade, pois o bem estar é inseparável da moral. Quem ama é amado; quem respeita é respeitado. Quem procede de forma contrária também sofre o contrário. A relação entre causa e efeito é tão imediata como um objeto e sua sombra, entre o toque de um instrumento musical e seu som. O efeito tem que produzir-se indefectivelmente. Nos livros das histórias está dito: “deixará tudo em ordem aquele que procede conforme a razão, e deixará tudo em desordem aquele que vai em sentido oposto a ela”. Os sábios da Grécia antiga advogavam a integração da felicidade com a moral, teoria esta que é reconhecida como uma verdade universal, independente do tempo ou lugar em que se viva. A moralidade tem origem na consciência, no foro íntimo do homem, e não é algo imposto por uma força externa. Generalizar e desenvolver a moral é uma tarefa da educação.

3.Educação estética: todo o mundo conhece a importância da educação moral e intelectual. Sobre a educação estética, é necessário dar uma breve explicação. Todos os homens trabalham segundo seus interesses pessoais. Mas o belo os faz esquecer seus interesses pessoais para chegar a um estado sublime de sentimentos puros, que são uma satisfação de máxima pureza. Quando Confúcio se referia à firmeza de caráter, dizia que esta se conseguia com o desenvolvimento da vocação pela poesia e pela música. Os gregos antigos tomavam a música como uma disciplina independente, e os sábios ocidentais de nossa época também reconhecem a importância da educação estética. Não procedem assim erradamente. Em resumo, a educação estética desenvolve a parte dos sentimentos para levá-los a um estado de perfeição e nobreza; por outra, serve como um meio para levar a cabo a educação moral e intelectual. É algo que não devem os educadores deixar de lado. No entanto, a inteligência, os sentimentos e a firmeza de caráter não são independentes uns dos outros, sendo que exercem influência recíproca. Vejamos um exemplo: quando começamos uma tarefa, é a inteligência que nos faz saber que se trata de nosso dever, e a firmeza do caráter nos inclina a levá-la ao cabo. Antes de realizarmos semelhante tarefa, nos detemos na consideração dos prazeres ou sofrimentos que ela proporciona, e aqui o que está em jogo são os sentimentos. Assim, três elementos estão inseparavelmente vinculados entre si. Portanto, não se deve separar, em educação, estes três aspectos. Existem hoje disciplinas que abarcam tanto a educação moral como a intelectual: outras que contemplam a educação estética e moral, e outras mais que atendem os três aspectos. O desenvolvimento dos três aspectos da educação nos aproxima gradualmente aos ideais de verdade, beleza e bondade. Somados ao treinamento físico, estes deixaram um homem plenamente realizado. Assim se cumprirá o objetivo da educação. (Wang Guowei, 1877-1927)

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