Pesquisar este blog

Ajuda a gente??? =)

O retorno à natureza original dos daoistas


"Aqueles que falam nada sabem:
Aqueles que sabem permanecem em silêncio."
Estas palavras, disseram-me,
Foram pronunciadas por Laozi;
Se acreditarmos que Laozi
Foi ele próprio um daqueles que sabiam,
Como explicar que tivesse escrito um livro
De cinco mil palavras?

Baijuyi

Embora irônica, a crítica de Baijuyi é correta: pode-se retornar a natureza primordial das coisas, como propunham os daoistas? Aliás, no que consiste este dao? Se ele não pode ser explicado, então, só poderá ser meramente indicado? Porque tantas palavras para explicar o inexplicável? O que nos propomos a fazer aqui, de fato, é esclarecer alguns pontos acerca desta proposta, pautando-nos principalmente nos textos de Laozi e Zhuangzi. Nosso objetivo é indicar que a idéia do retorno a natureza original (ziran) pode ser compreendido como uma via, um sistema, mas que é percebido e manifestado somente por meio de uma experiência psicológica individual, não passível por conseguinte de avaliação.

A natureza original
Quando Laozi propunha desvencilhar-se das coisas materiais, e retornar a simplicidade total, sua busca consistia, aparentemente, em desapegar-se das sofisticações do ser humano e investir no lado instintivo do mesmo. Como nos dizem estes trechos:

Portanto, o Homem Prudente:
dirige negócios sem operar;
prega a doutrina sem palavras;
e as coisas todas tomam impulso mas ele não lhes vira as costas;

ele as verifica sem se apossar delas;
e age sem apropriação;
e atinge seus fins sem reivindicar credenciais
isto porque ele não clama por créditos
e por isso o crédito dele nunca se afasta.
(DDJ, 2)


Portanto, o Sábio para governar;
mantém esvaziados de orgulho os corações;
mas cheios os estômagos,
desencorajando suas ambições,
mas revigorando suas disposições;
somente assim o povo é purificado em seus pensamentos e desejos.
E os astuciosos não terão a presunção de interferir.
Pela atividade sem agitação
Podem todos viver em paz.
(DDJ, 3)

Trinta raios formam o cubo;
Da renúncia à sua personalidade
é feito o valor da roda.
Modela no barro um vaso
e da forma impessoal de sua cavidade
e da impersonalidade dos espaços vazios
Elimina as portas e janelas da parede
e da impersonalidade dos espaços vazios
é que surge o mérito da casa.
É através da existência das coisas, portanto, que nós tiramos proveito.
E pela sua insignificância que ficamos servidos.
(DDJ, 11)

Desligando-se do que era culturalmente humano, poderia-se perceber o que seria naturalmente humano. Nisso estabelece-se uma dicotomia entre o que é cultural como não-natural e o que é natural como algo perdido ao longo da vivência em sociedade. Eis a razão pela qual muitos daoistas buscavam afastar-se do convívio social, esperando com isso diminuir a pressão da materialidade sobre suas consciências:

Bane a sapiência, despoja-te da sabedoria,
e o povo aproveitará o cêntuplo;
bane o "amor", rejeita a "justiça"
e o povo recuperará o amor de sua gente;
bane a astúcia, rejeita o "utilitarismo",
e os ladrões e mercenários desaparecerão.
Como essas três coisas só têm contato externo são inadequadas.

O povo precisa de quem ele possa depender:
revela teu Eu comum,
contém tua Natureza Original,
refreia teu egoísmo,
encurta teus desejos.
(DDJ, 19)

O discípulo da sabedoria estuda dia - a - dia;
o discípulo de Tao perde-se dia a dia.
Pela contínua renúncia
consegue-se que as coisas acabem correndo por si.
Nada fazendo tudo acaba sendo feito.
Aquele que conquista o mundo muitas vezes o conseguiu pela inação,
Quando alguém é compelido a fazer alguma coisa,
é porque o mundo está pronto muito além de sua conquista.
(DDJ, 48)

Confúcio, porém, criticou estes pensadores:

Changju e Jieni estavam arando juntos. Confúcio, passando por ali, enviou Zilu para perguntar onde era o rio. Changju disse: "Quem está na carruagem?" Zilu disse: "É Confúcio". - "O Confúcio de Lu?" - "Ele mesmo". - "Então ele já sabe onde é o rio".

Zilu então perguntou a Jieni, que respondeu: "E tu, quem és?" - "Sou Zilu". - "O discípulo de Confúcio de Lu?" - "Sim". - "O universo todo é percorrido pelo mesmo curso de água; quem conseguiria reverter seu fluxo? Em vez de seguir um cavalheiro que fica correndo de um patrão para outro, não seria melhor seguir um cavalheiro que desertou do mundo?" Enquanto falava, ele continuou lavrando seu campo.

Zilu voltou e informou Confúcio. Absorto em pensamentos, o Mestre suspirou: "Não é possível associar-se a pássaros e animais. De quem deveria eu me acompanhar, se não de minha própria espécie? Se o mundo estivesse seguindo o Caminho, eu não teria de reformá-lo".

(Lunyu, 18)

Em sua visão, o humano torna-se humano em convívio com outros; logo, mesmo ao ir para floresta, ele continua carregado de valores humanos. Se pensarmos bem, a critica confucionista é pertinente: afinal, se desejamos nos "harmonizar com a floresta e como os animais", ou "buscar nossa lado natural" já estamos, a priori, buscando conceitos formulados pelos humanos; ou ainda, tentando definir a busca de uma experiência além, mas ainda assim, definida pelos conceitos que se pretende alcançar.

Afinal, os animais não tem conceitos, nem os procuram; seus padrões de ação são definidos por instintos e por percepções que não são filtradas pela cultura. poderíamos, pois, esvaziar nossa mente de tal maneira que esqueceríamos os conceitos, e viveríamos de forma absolutamente instintivamente e isenta de valores (tais como justiça, medo, ódio, amor, etc.)?

Isso parece utópico, e quiçá improvável, mas os daoistas acreditavam nisso. Zhuangzi definia esta possibilidade baseado em dois pontos bastante coerentes:

- primeiro, que mesmo o humano, sendo criador dos conceitos, não os domina por completo; logo, esta incompletude possibilita-o tanto a absorvê-los por completo quanto esquecê-los por completo.

- segundo, que a possibilidade do sonho demonstra que a consciência humana não é única, senão dentro da própria individualidade da alma.

O primeiro ponto nos permite supor que, ao abandonarmos os conceitos, não viveríamos num caos tremendo, mas simplesmente, viveríamos de forma instintiva. Isso não seria ruim, posto que conceitos como roubo, maldade, violência ou selvageria absolutamente não existiriam. Estes conceitos só existem quando se abandona a naturalidade da ação humana, e portanto, são criações nossas. Uma história sobre a suposta inutilidade de uma árvore serve para demonstrar isso:

Certo carpinteiro Shih viajava para o Estado de Qi. Ao chegar ao Circulo Sombrio, viu uma árvore li sagrada no templo do Deus da terra. Ela era tão grande que sua sombra podia abrigar um rebanho de vários milhares de cabeças. Tinha centenas de palmos de circunferência e subia a oitenta pés antes de abrir os ramos. Uma dúzia de botes poderiam ser cortados de seu tronco. Em multidões as pessoas paravam para olhá-la, mas o carpinteiro nem a notou e prosseguiu em seu caminho sem mesmo lançar um olhar para trás. Entretanto, o aprendiz olhou-a bem e quando alcançou o mestre disse - "Desde que manejo a machadinha em seu serviço nunca vi uma peça de madeira tão esplêndida. Por que razão o senhor, Mestre, nem mesmo se deu ao trabalho de parar para olhá-la?"

- "Esqueça-se dela. Não merece que conversemos a tal respeito", replicou o mestre. "Não serve para nada. Transformada num bote, afundaria; num caixão de defunto apodreceria; em mobília, quebrar-se-ia facilmente; numa porta, racharia; numa coluna seria devorada pelos vermes. Não é madeira de qualidade e não é útil: por isso chegou aos nossos dias presentes. A chegar em casa, o carpinteiro sonhou que o espírito da árvore lhe aparecia e lhe falava do seguinte modo: - "Com que pretendeu comparar-me? Com madeira suave? Olhe para uma cerejeira, uma pereira, uma laranjeira, uma ameixeira e outras árvores frutíferas. Mal seus frutos amadurecem são esbulhadas e tratadas com indignidade. Os grandes galhos são retirados, os pequenos ficam quebrados. Assim, devido ao próprio valor dessas árvores, elas sofrem enquanto vivem. Não podem viver o período de vida que lhes é concedido, mas perecem prematuramente porque destroem-se pela (admiração do) mundo. O mesmo se dá com todas as coisas. Além disso, eu tentei durante longo tempo ser inútil. Muitas vezes estive em risco de ser decepada, porém finalmente alcancei o que desejava e assim tornei-me excessivamente útil a mim mesmo. Tivesse eu prestado para alguma coisa e não teria chegado à altura a que cheguei. Demais tanto você como eu somos coisas criadas. O que adianta criticarmo-nos mutuamente? Um sujeito que não presta para nada em perigo de morte iminente e uma pessoa indicada para falar de uma árvore que não presta para nada?"

Quando o carpinteiro Shih acordou e contou o sonho que tivera, o aprendiz disse: "Se a árvore ansiava por ser inútil como foi que conseguiu tornar-se uma árvore sagrada ?"

- "Psiu!" Volveu o mestre. "Fique calado. Ela simplesmente refugiou-se no templo para fugir ao abuso dos que a não apreciavam. Se não tivesse se tornado sagrada quantos não teriam desejado cortá-la! Além disso, os meios que adota para sua segurança são diferentes dos dos outros e criticá-los pelos padrões ordinários será ficar bem longe do objetivo".
(ZZ, 1a parte)


Que se perceba que Zhuangzi apela aqui para o sonho, um dos principais motores de sua crença na alma. Este autor compreendia que o sonho era uma percepção de nossas outras realidades, e que durante o sonho, poderíamos acessá-las, como se vê em sua clássica história, o sonho da borboleta:

Certa vez eu, Zhuang Chou, sonhei que era uma borboleta, adejando daqui para acolá, com todos os fins e propósitos de uma borboleta. Só tinha consciência de minha felicidade como borboleta sem saber que eu era Chou. Depressa acordei e ali estava eu, eu mesmo, na verdade. Agora não sei se eu era um homem sonhando ser borboleta, ou se eu sou uma borboleta sonhando ser um homem. Entre um homem e uma borboleta há, naturalmente, uma distinção. A transição é chamada transformação de coisas materiais.
(ZZ, 2a Parte)


Se percebermos bem, este autor está nos propondo que existem outras possíveis vidas para nossa alma; logo, como garantir que a racionalidade não é apenas o atributo físico de uma dessas manifestações? Como provar que os conceitos não são apenas desdobramentos de uma de nossas formas de vida material? Partindo deste principio, nossa alma fluiria num trânsito de consciências múltiplas, sem uma predileção em especifico.

Se aceitarmos esta possibilidade, o retorno a natureza original (ziran) seria a constatação desta realidade, e a unificação da consciência em função de sua vontade, numa única consciência "consciente" de suas existências. No entanto, se for assim, o que predominará na ação da alma em suas múltiplas manifestações? Ou estas cessarão? Será este o desligamento total do mundo material?

Estas conclusões não podem ser obtidas diretamente, posto que só podem ser compreendidas e acessadas por meio de uma experiência sensitiva. Se não podem, no entanto, serem visualizadas materialmente, como podem ser provadas como reais? Como se pode perseguir objetivos não objetificados?

Esta parece ser a razão pela qual o daoísmo acabou se tornando uma religião. Esgotado os recursos para permitir que as experiências sejam vivenciadas amplamente pelos seres humanos - ou tornado-as restritas de tal modo que aparentemente é quase impossível realizá-las - o daoismo escapou do terreno do provável e dirigiu-se ao campo das esperanças existenciais. Mesmo com um discurso relativamente coerente, suas conclusões não se demonstraram viáveis. Eis a questão que o daoismo não pode responder, tornando a natureza original do ser humano uma própria suposição do ser humano sobre o que ele mesmo teria sido, um dia, se.... não tivesse se tornando humano!

Nenhum comentário:

Postar um comentário