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A História do pensamento nas Terras Carmesim

As terras carmesim são deveras antigas, e com elas a terra do centro do mundo mantém relações milenares. faxian e xuanzang passearam por lá, em busca da doutrina de buda; mas esta terra tem muitas outras formas de pensar além do budismo, e buscaremos analisá-las tal como deve ser.

É difícil fazer a história de um povo que não deu valor a sua própria. Durante muito tempo o povo da terra carmesim não acreditou na redação de relatos sobre sua antiguidade, pois isso ia contra suas crenças nos deuses. Não lhes parecia um demérito esquecer-se do passado; de fato, esta gente intuiu que a história se repetia em ciclos, tal como disseram os historiadores da terra do centro do mundo, mas preferiram deixar de lado ao acúmulo de experiências do passado para acreditarem em suas práticas rituais e em suas crenças sobre o além corpo.

Por causa disso, o passado desta terra se confunde com o dos deuses, e as narrativas improváveis tomam a dimensão de verdade. Elas possuem um fundo moral, e nisso estão corretas; mas dependem da fé, mais do que o estudo, para serem compreendidas, e nisso reside o erro deste modo de pensamento.

Desde cedo, pois, as gentes desta região puseram-se a pensar no mundo como uma passagem entre os mundos dos espíritos (shen, que eles chamam de atman) e um mundo material. Para eles, o fundamental seria compreender que estamos presos numa cadeia de reencarnações no plano material (o que chamam de karma) até atingir a libertação do mundo (samadhi, nirvana, moksha) por meio da aniquilação de todas as nossas dívidas morais e espirituais. Por esta razão a história não lhes interessa: ela é apenas a repetição de todas as coisas que promovem karma, e o importante é atacar a raiz do problema.

Baseados nesta crença, os açafrinos não fizeram nunca, pois, o que entendemos ser a história e muito menos, o que compreendemos ser uma investigação da via. Por outro lado, conceberam um pensamento original, dedicado a sondar o mundo que eles defendem existir para além da matéria (o qi, que eles chamam de prana), e os meios ideais para escaparem do seu ciclo de karma. Devemos, pois, dedicar uma parte de nosso tempo para compreendermos o que eles estudam e acreditam, pois esta é função de um letrado.

Partindo da idéia de que a existência do ser é um repetir incessante de idas e vindas, as crenças desta terra se assentaram em quatro princípios básicos, que são; kama (desejo), artha (lei social) dharma (lei moral ou devocional) e moksha (libertação do karma). Deve-se desejar ser livre, e controlar os desejos do corpo; para isso, cumpre-se as leis de artha e dharma, e atinge-se a libertação por moksha. A "libertação" é dissolver o véu ilusório da matéria (maya), que cria o karma. De fato, para o povo da terra carmesim viver é um fardo pesado, quase uma maldição - estar aqui é uma constatação de que a pessoa falhou em outras vidas. Com exceção do guru, que vem para libertar as outras almas, todos são devedores.

Tendo em mente esta percepção da vida, não é estranho, portanto, que as pessoas dediquem-se a meditar, a sentar e esquecer o cotidiano - afinal, quem pode obter prazer de uma vida assim? A meditação é o grande método dos açafrinos para chegarem lá - seja lá onde for este lugar ao qual pretendem ir.

Este modo de especular foi legado por alguns textos antigos, chamados revelações (vedas), textos da floresta (aranyakas), textos dos brâmanes (brahmanas) e finalmente, os ensinamentos dos mestres (upanishads). são como os clássicos antigos da terra do centro, mas não foram reeditados por um grande mestre Confúcio; difundiram-se nesta terra de tal maneira que, onde houver um praticante destas disciplinas, haverá igualmente um conhecedor destes textos sagrados. Esta foi uma grande e admirável conquista dos carmesinos.

Quando esta literatura completou-se, surgiram então as escolas de pensamento, que eles chamavam de darchanas, cada qual buscando interpretar estes ensinamentos de um modo próprio. É curioso notar que não ocorreu nenhuma crise, necessariamente, para que este processo de discussão intelectual começasse; nisso também os carmesinos se destacam do resto do mundo. Claro que lá aconteciam guerras tremendas, mas estes pensadores não pareciam estar preocupados com elas. É incrível pensar, porém, que o sofrimento atroz do povo com os conflitos e destruições fosse alheio a preocupação destes gurus. Isso não parece adequado - mas é, em si, uma preocupação deste mundo. Podemos nos perguntar, no entanto, como alguém faz para meditar quando está sendo ameaçado.

A formação destas escolas pode ser dividida, a princípio, em duas grandes linhas; uma chamada dualista e outra de não-dualista. A primeira acredita que tudo - alma e corpo - são um mesmo Li, e a outra separa e distingue corpo e alma como yin e yang. Obviamente que ambas perceberam a questão apenas por um angulo, e por isso suas explicações acabam sendo parcialistas. Como disse laozi: o um gera o dois, o dois gera o três e o três gera as dez mil coisas; do mesmo modo, se há algo no cosmo, ele é um, mas se manifesta em dois. Isso é muito simples, mas os carmesinos o tornaram complexo. É o jeito deles.

Outro modo de classificar suas formas de pensar pode ser internalista ou externalista, tais como são as disciplinas nei e wai na terra do centro. Neste ponto, eles não se enganaram sobre a questão de como administrar o qi (o prana), e suas práticas derivam da maneira como uma escola pretende, portanto, ligar (ou desligar) o corpo a alma por meio de exercícios.

Estes dois meios de classificar os pensadores da terra carmesin são apenas um início para tentar dar alguma ordem à multidão de darchanas que por lá surgiram, e que continuam a se desenvolver até os dias de hoje. A divisão que eles mesmos propõem, e que lhes parece ser conveniente, trata da existência de seis grandes linhas de estudo que conjugam aspectos destas perspectivas "dual x não dual" e "interna x externa", e que tentaremos apresentar aqui.

Tais escolas seriam:

mimasa, ou mimansa - que adota as palavras do vedas como verdades absolutas, a serem guardadas e repetidas. jaimini foi seu fundador.

vedanta - que adota os vedas como fonte da verdade a serem decifradas, por meio do estudo, da decodificação e da meditação. badarayana foi seu fundador, mas seu principal guru foi shankara, que construiu um método poderoso para praticá-la.

mimasa e vedanta são opostos complementares.

Nyaya - que defendia o estudo de tudo para conhecer as coisas, e transformar o íntimo. gautama foi seu fundador.

Vaishesika - que defendia a transformação íntima para conhecer as coisas, antes de tudo. kananda foi seu fundador.

nyaya e vaishesika são opostos complementares.

Sankya - acreditava na meditação interna para o externo (nei qigong). kapila foi seu fundador.

yoga - acreditava na meditação externa para o interno (wai qigong). patanjali foi seu fundador, e obteve um grande sucesso transformando suas disciplinas do corpo como um meio de educação física e espiritual nacional da terra carmesin.

yoga e sankya são opostos complementares.

A estes seis ortodoxos se soma a escola carvaka, que acreditava somente na matéria (qi), e em nada mais do que isso. Estavam próximos de conceber o mundo de modo pragmático, mas não foram bem recebidos em sua própria terra. Desapareceram logo.

Em meio a estas linhas clássicas, surgiram duas escolas que se propunham a reavaliar tudo o que havia sido debatido antes: os jainas e os budistas.

Os jainas eram seguidores de mahavira, um defensor absoluto da vida - não pela vida em si, mas pelo direito de morrer sem karma. Era simplesmente um radical em relação às outras escolas, que propunha uma vida praticamente monástica, ascética e desprendida, para evitar acumular dívidas.

Quanto a buda, este foi um revolucionário em sua terra. Propunha a libertação espiritual a todos, o famoso nirvana, por meio de meditações acessíveis a qualquer pessoa. Era contra as classes sociais, contra a guerra e contra as desigualdades. Atraiu muitos seguidores, mas após morrer, sua escola cresceu, dividiu-se e tornou-se um sistema alternativo as crenças tradicionais na terra carmesim. Durante séculos foram fortes entre o povo, mas depois shankara começou a minar seus discursos e teorias. Quando xuanzang foi a terra carmesim, ele mesmo deu aulas de budismo aos açafrinos! Só restou ao budismo encaminhar-se ao leste, onde encontrou abrigo na terra do centro e em outras regiões. Na terra do centro, conhecemos suas aprontações e conquistas - mas detenhamo-nos na terra carmesin...

Foram muitos os estrangeiros que visitaram estas terras. Os gregos, das terras do oeste, foram lá e debateram suas filosofias com os carmesins, budistas e jainas. Depois vieram os romanos. Os amarelos, da terra do centro, lá visitavam ocasionalmente, e os recebiam de bom grado. Depois da grande reforma do pensador shankara, passaram-se alguns séculos e chegaram os seguidores de Alá nesta terra. Esta vinda foi importante por algumas razões.

A primeira é que eles vieram para ficar, e formar um governo, cuja orientação das crenças ia contra os pensamentos da terra carmesim.

A segunda é que estas crenças conflitantes dividiram o povo; os seguidores do pensamento clássico acreditavam em vários deuses, em várias vidas e que haviam divisões sociais - as varnas - que não podiam ser mudadas, pois se davam de acordo com o karma de cada um. Os recém chegados acreditavam em apenas um deus, em apenas uma vida, e que todos eram iguais perante este mesmo deus. Muitas pessoas das varnas mais baixas da sociedade se entregaram a este novo tipo de fé, mais atraente e justa do que lhes parecia a anterior.

Muitos foram os conflitos, e a terra carmesin demorou a ver novos e originais pensadores. Nomes não faltam - o que se ausenta é a criatividade, a capacidade de recriar o novo a partir do antigo, como dizia o grande mestre Confúcio. A terra carmesim ainda se viu invadida, depois, pelos portugueses, pelos francos e anglos das terras do oeste, perdendo sua liberdade.

Somente em um período recente de sua história, a terra carmesim viu nascer a estrela de gandhi, seu último grande pensador. gandhi estudou os modos de pensar do oeste, mas não abandonou os seus próprios. Defendeu a não ação (o que chamamos de wuwei) como forma de libertar seu povo, invocou as teorias antigas, e conseguiu a primeira independência de uma terra inteira de modo pacífico. Depois, foi assassinado por ignorantes - o problema da fé em crenças não raciocinadas é, justamente, a criação destes fanáticos absurdos. A terra carmesim pensou tais questões durante séculos, mas ainda assim, não as resolveu. Que civilização, porém, parece tê-los resolvido?

A terra carmesim segue seu curso, mantendo seus pensamentos tradicionais e sua visão de mundo transcendente. São, no entanto, excelentes comerciantes, e hoje se encontram entre as grandes nações do mundo - conhecerão eles, por conseguinte, algum segredo sobre a alma humana, de fato?

A terra do açafrão
Guarda seus segredos profundos
Senão sobre este
Talvez de outros mundos

sua cor é carmesim
brilhante, forte, estonteante
revelações se prometem, toda hora
e acontecem em um instante

dos yoguins soturnos
dos mantras radiantes

a terra é carmesin
amanhã, hoje, e antes

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