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A Busca do Antigo



"Vaso que não é vaso, hunpf! Como não é vaso?"
Confúcio

O que é a Cultura? (Li, )
Quando olhamos um vaso Ding, esquecemos que nele há uma experiência de séculos, realizada por desconhecidos, que se congrega nas inúmeras técnicas empregadas para produzir a peça. Desde o mineiro ao ferreiro, do artista ao camponês que os alimenta, do funcionário que os governa ao pensador que analisa este quadro - tudo está interligado numa complexa teia de relações, regidas por regras que definem a ordem social. Esta ordem é Li. Por isso Li é representado como uma oferta ao espírito, a inteligência humana. Esta oferenda é feita no vaso Ding - na época de Confúcio, uma peça altamente sofisticada, e fruto de um laborioso trabalho técnico e artístico realizado ao longo da história humana.
Para se fazer uma vaso, são necessárias regras; como fundir o metal, moldá-lo, fazer o fogo, dominar a técnica, respeitar as tendências e propensões dos materiais, seguir o ritmo da confecção e do trabalho, comer, dormir, respirar, pensar e executar nos momentos apropriados.
O Ding, pois, não é apenas um exemplo de como a sociedade humana funciona, ele é mais do que isso: ele só existe porque a ordem social é construída há milênios por meio de um sistema que tenta aproveitar da melhor forma possível o potencial das pessoas. Esta é a Cultura. A Cultura nasce com os seres humanos, e faz parte de sua natureza íntima. Por isso Confúcio criticou aqueles que tentavam destruir a Cultura por meio de atos abomináveis, tentando transformar o que é apropriado no que é inapropriado - tal como dizer que um vaso não é um vaso.
Isso não significa, contudo, que não se deva criticar a Cultura. Se assim o fosse, ela nunca evoluiria. A Cultura é uma construção contínua, e para cada coisa que se acerta, surge algo que se desvia - tudo é yin e yang. O trabalho infindável dos sábios, pois, é identificar e apontar estes erros, buscar a melhor solução e consertá-los. Modificar estas coisas implica muitas vezes em gerar mudanças, e por isso mesmo Confúcio falou: "por meio do antigo se descobre o novo", e isso é o que torna alguém mestre.
Li é a ordenação da sociedade que se dá por meio da Cultura. Ela sustenta o mundo, e difunde os princípios à serem seguidos. Tais princípios se encontram por todo o mundo: amar a todos sem distinção, e não fazer aos outros o que não deseja que seja feito a si mesmo. Estes se desdobram nas cinco grandes regras: não matar, não roubar, não enganar, não violar e respeitar a ordem social - pelos pais, pelos filhos, pelos amigos e pelos colegas.
As raízes do conhecimento da Cultura residem em olhar os eventos do passado. Compreendendo o passado, é possível analisar o presente e imaginar seus desdobramentos. A busca da Cultura, em todos os tempos, é uma constante investigação sobre o passado, com o intuito de preservar o que é bom, e transformar o que é necessário e possível.

A Construção e a Destruição de Li
Quando doentes, vamos a um médico; quando precisamos de um móvel, chamamos o carpinteiro; e assim, se reconhecemos a autoridade de cada um mestre sobre sua arte porque ele a conhece, então, só pode propor mudanças sobre a Cultura quem a conhece bem, e quem deseja a ela o que é mais apropriado.
Como afirmou Mêncio, Li foi criada para o bem da humanidade, pois a natureza humana é, potencialmente, boa. Deste modo, quem bem conhece a Cultura, conhece as pessoas; e quem conhece as pessoas, compreende as diversas culturas do mundo. Sabendo disso, o sábio pode propor modificações, quando preciso, para reformar os costumes e ajudar na evolução da sociedade. Confúcio o fez. Outros sábios o fizeram. Não nos é impossível, portanto, fazê-lo: mas cabe-nos fazer de modo apropriado. Caso contrário, estaríamos prejudicando a continuidade da Cultura.
Aqueles que visam o inapropriado são os que não conhecem a Cultura, senão de modo superficial. Sendo superficiais, não compreendem os humanos; e por isso, suas propostas visam angariar fama e proveito sem, contudo, imaginar o futuro de tais ações deletérias. Tomam assim medidas e fazem leis que agradam agora, mas prejudicam depois. Não ensinam a pescar, mas distribuem peixe roubado. Para fazer uma coisa boa, criam ou inventam duas ruins; e em função disso, destroem a Cultura, constituindo um perigo terrível para sua continuidade.

O Renegar ao Li
As decepções com a Cultura fazem com que muitas pessoas a reneguem. Há três modos pelos quais isso ocorre: o abandono, a dissimulação e o escândalo.
O abandono se trata dos que renegam a Cultura, e a entendem de modo pessimista. Criticam tudo, afirmam o valor da ilegalidade, mas vivem e trabalham dentro dela. Os que saem dela de vez [para o exílio ou o ascetismo] agem com sinceridade, em busca de algo melhor para si mesmos. Devem ser respeitados, embora esqueçam, por vezes, suas origens. Isso não é bom, mas ainda assim, é uma atitude relativamente coerente.
A dissimulação (ou desfaçatez, ou ainda hipocrisia) se trata dos que afirmam a Cultura na superfície, mas se valem de meios escusos para manipularem as leis, os costumes, e satisfazerem suas ambições pessoais. De fato, o que estas pessoas fazem não é respeitar sua Cultura, mas apenas reconhecê-la como a regra geral a ser burlada. Estas pessoas são prejudiciais, pois perpetram crimes contra os outros disfarçados de moralistas. Os dissimulados são especialistas em admoestar e criticar os outros, e conhecem mais crimes que os próprios bandidos. São perigosos para a Cultura.
Os escandalosos são os que criticam a Cultura abertamente, nela querendo se destacar, mas sem necessariamente atingir algum bem. Eles são de dois tipos: os que denunciam erros alheios, mesmo os menos importantes, para disfarçar suas incapacidades; o outro tipo é daqueles que cometem atos escandalosos para atrair a atenção, querendo assim respeito e admiração, mas para imporem sua vontade abertamente. Eles são danosos a Cultura, pois instituem a desobediência e o desregramento desprovido de razão.
Abandonadores, dissimulados e escandalosos se misturam e se combinam; um foge, o outro se oculta, e o terceiro se expõe. Porém, algumas pessoas podem combinar estas três atitudes. Quando o fazem, renegam a Cultura; e ao renegá-la, ou ao afirmá-la de modo ignóbil, abandonam o próprio sentido de uma vida. Doravante, só a calamidade e o caos podem acompanhar aqueles que o fazem.

O Modelo do Mestre
Na Terra do Centro do Mundo, Confúcio foi o grande sábio; em outras terras, todos tiveram seus mestres; e devemos - ou podemos - segui-los? Em certas ocasiões, alguém diz: "isso é bom, mas eu não sou o mestre, não posso fazê-lo", ou ainda; "como você ousa tentar fazer isso? Você não é o mestre!".
Que rematada besteira!
Os mestres são justamente os modelos à seguir de nossa Cultura. Devemos nos inspirar neles, e mesmo, nos comparar com eles. Tudo que os mestres fizeram pode ser repetido por nós. Se não pudesse, eles não teriam nos ensinado. Senão, como ensinar algo que não pode ser feito? Isso seria uma mentira. Se existem mestres mentirosos, é porque existem discípulos ignorantes e picaretas. Mas esses não são os grandes mestres que nos servem de modelo.
Por isso podemos segui-los; e para repetir suas ações, devemos nos inspirar e nos comparar à eles. Quando nos comparamos, não o fazemos para nos valorizarmos, mas sim, para sabermos se estamos a agir corretamente. O fazemos com humildade, e com ela devemos continuar, pois a comparação com o mestre nos revela nossa montanha de erros. Se acertamos, é porque estamos a compreender a amplitude do pensamento do mestre, e isso se estende ainda mais as nossas possibilidades. Só o parvo repete um ato isolado do mestre e se afirma igual a ele. Entre todas as pessoas e coisas que ele desonra quando faz isso, ele deveria mesmo pedir perdão aos papagaios, por imitá-los tão mal e de modo tão artificial.
O modelo do mestre é, portanto, a via correta para a redenção. O que eles fizeram, podemos fazer; se podemos, poderemos ser como eles; e ainda poderemos superá-los, desenvolvendo o que eles descobriram. Sua virtude, única, foi a originalidade da descoberta, o ineditismo, que nos permite agora conhecer e inventar mais ainda.
O mestre é como o artista que produz o vaso: ele conjuga tudo que havia antes e cria o novo. Por estas razões que não devemos, nunca, abandonar nem os mestres e nem a Cultura.
"Amo os antigos, e os imito"
Confúcio

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