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Teoria da Manifestação das Coisas na História

No estudo da História, nos defrontamos com o problema insolúvel do passado já ter ocorrido. Somos resultado dele, pois aqui estamos; no entanto, como precisá-lo, em seus fundamentos, se ele já aconteceu? A história é, pois, sempre uma leitura nossa, fundamentada na coletânea de informações que podemos adquirir sobre um contexto. Sobre ele, nos debruçamos e damos asas à imaginação, buscando nos conectar com as gerações antigas. Mas é difícil saber para onde estamos nos dirigindo, e se às vezes não buscamos a nós mesmos neste processo...
Portanto, é necessário pensar de que modo podemos analisar a manifestação das coisas na história. Como disse Liu Zhiji: alcançar a síntese sobre o que investigamos é o mais difícil de tudo. Do mesmo modo, como afirmou Lu Tanglai , dentre as milhares de coisas que podemos supor sobre uma coletânea de informações que recolhemos, somos obrigados a ponderar, com a razão, para escolher o que achamos mais provável – e assumir os possíveis erros de nossa interpretação.
Deste modo, há que procedamos com certos cuidados ao analisar o passado, tomando como guia alguns conselhos preciosos dos ancestrais. Não são regras absolutas, mas que nos auxiliam a interpretar um escrito ou uma relíquia, e revelar nela o que está oculto. Amparando-nos nisso, é possível que façamos uma boa história.
Da manifestação das coisas: ao se manifestarem no desenrolar da história, as coisas só surgem porque o contraponto delas está presente. Como todas as coisas são yin e yang, algo só surge, ou é descoberto, porque o seu oposto complementar está presente. Um determinado texto pode ser desinteressante numa certa época porque parece não dizer nada de novo. Em outros contextos, porém, ele pode ser tido como revelador, inédito e desafiador, não porque o seja de fato – mas porque aqueles que o resgatam desejam utilizá-lo para algum propósito (de afirmar ou negar uma idéia qualquer já estabelecida). Assim sendo, algo só é novo, de fato, quando aqueles que o estudam entendem que deve sê-lo.
Ao compreender que este elemento manifesto pode ser inovador, crítico ou autêntico, ele pode então ser delegado ao passado. Quando uma tumba é descoberta, por exemplo, o que nela se encontra pertence a uma determinada época. No entanto, estes objetos terão sua importância medida por aqueles que os descobriram, podendo assim ser subestimados ou superestimados (e mesmo, exaltados). Isso influencia diretamente o modo como são lidos; em épocas favoráveis, estes objetos são situados cada vez mais no passado, ou se afirma que sua presença prova que tais conhecimentos são ainda mais antigos; em épocas desfavoráveis, contudo, eles podem ser tidos até como falsificações grosseiras, ou como objetos “primitivos”, de um momento que se deseja negar. Deve-se ter um cuidado tremendo com esta questão.
Com esta condição em mente, devemos compreender, pela oposição complementar, como as coisas se manifestam. Em determinados casos, quando existem muitos discursos em certo sentido, é porque a sociedade vive exatamente o inverso. Os diversos textos que defenderam a submissão da mulher na história chinesa, por exemplo, demonstram que ela resistiu tenazmente, durante séculos, a estas tentativas de imposição. Como eram escritos por uma elite, nos enganamos acreditando que a vida nestas épocas era assim, mas ela deve ser pensada justamente ao contrário, tal como yin e yang. Somente por meio da imaginação poderemos refletir e ponderar sobre isso – senão, estaremos apenas repetindo os textos, sem manifestar o que está oculto.
Precisamos, contudo, diferenciar os tipos de textos e coisas que estamos analisando. Se não tivermos este cuidado, poderíamos então acreditar que Confúcio, Laozi, Mozi e outros pensadores falavam de problemas que não existiam? Quando um texto denuncia um problema, ou se propõe a manifestar uma condição da sociedade, ele assume que o está fazendo. Logo, seu autor se expõe às vicissitudes de sua época, mesmo que ele não demonstre a opinião da maioria. Portanto, é fácil alguém legislar quando está no poder, dando conselhos ou afirmando regras que deveriam ser cumpridas – como no caso dos textos femininos. No entanto, a coragem de exprimir um ponto de vista pessoal, e muitas vezes pessimista, torna-o passível de ser autêntico, ainda mais se o autor estiver se expondo ou se sujeitando a punições legais.
Pois em certas épocas alguns textos, ou mesmo a propagação de uma suposta pujança material, parecem indicar que tudo vai bem. Novamente, devemos ter cuidado. Muitas vezes, os escritos são produzidos para afirmar algo que se quer dizer (de fato, todos os são), mas suas informações não são necessariamente verdadeiras. Um regime violento valoriza a economia, para disfarçar a repressão; uma literatura bela e superficial visa desencaminhar o povo da reflexão e da profundidade. Yin e yang, indefectivelmente, operam por oposição. Uma época pode ser boa, de fato; em geral, quando isso ocorre, poucas pessoas preocupam-se em registrá-la.
Por esta razão, épocas boas são resgatadas depois. Duas condições existem aqui; uma, o saudosismo de um passado ideal, para incitar a mudança no presente; a outra, quando se perdem as tradições. Em geral, quando as tradições começam a desaparecer, um autor preocupado busca registrá-las e resgatar seus conteúdos. Textos que desenham a arquitetura de uma cultura, de sua sociedade, e de suas crenças e tradições são, infelizmente, e em geral, posteriores às épocas em questão.
As coisas manifestas são objetos históricos. Por trás delas, há um princípio. Como disse Zhuxi, ao ler um texto, devemos buscar este fio central que o ordena. Quando descobrimos a idéia central de quem o compôs, percebemos suas coerências e contradições. Este é o bom trabalho crítico. Contudo, ao criticar os autores, devemos atentar ao que eles propõem. Pode ocorrer de um autor, ao analisar seu tempo, propor coisas que já existiram ou ainda não existem. Este foi o caso de Confúcio, por exemplo. Isso significa que, ao estudar história, não devemos apenas imaginar as coisas e os autores como fruto de seu tempo. Buscamos, fundamentalmente, captar também o que é novo, inédito, a ascensão da ciência. Por esta razão, dos escritores de um determinado contexto, falem eles bem ou mal de sua época, o que os torna lúcidos sobre o que fazem são suas ponderações e críticas, que demonstram sua autonomia. Neles, muitas vezes, podemos encontrar o novo. Podemos nos perguntar, porém; mas mesmo quando um pensador escreve, em sua época, ele não o faz segundo os valores do contexto? A resposta é simples; a estrutura pelo qual raciocina é inevitavelmente derivada do que lhe é comum com a sociedade, mas a prova de sua autonomia é, justamente, a criação do novo, a partir da conexão de fragmentos de pensamentos dispersos. Ao fazê-lo, ele manifesta um princípio novo na mutação, e assim, a faz evoluir. Esta é a razão pela qual ele é lembrado – a manifestação das coisas.
Por fim, ao compararmos os textos ou peças, buscamos semelhanças ou identidades entre eles, de modo que as similaridades parecem indicar uma “verdade” constatada. Devemos ter cautela; a presença de uma mesma informação pode significar a imposição de idéias, a cópia simples e vazia, ou o uso de discursos consagrados, mas não necessariamente a opinião da uma maioria. Tais textos podem significar a visão de um grupo dentro da sociedade – e apenas porque foram salvos, não significam precisamente o que a sociedade pensava em conjunto, ou da mesma maneira. Voltemos ao exemplo dos textos femininos: eles representavam o desejo de submeter a mulher, por uma parte da sociedade, que via as relações entre os seres de modo escuso e perigoso. A existência dos textos alquimistas daoístas, que pregavam a harmonia entre yin e yang, defendiam o contrário – no entanto, por serem mal conhecidos e pouco difundidos, isto significa que o restante da sociedade também não pensava de maneira daoísta. A cultura chinesa estaria, justamente, na entre estes dois opostos. Da contraposição destes dois grupos de textos – e de suas ausências, pois – podemos então retirar informações razoáveis e imaginar, por conseguinte, o que pode ser uma visão mais ponderada desta parte da história chinesa.
Assim, comparar, estudar, ler e analisar são atividades que se devem executar para observar o panorama geral e depois, perceber os detalhes. A presença de uma voz discordante, em meio a um discurso estabelecido, pode significar: um erro de interpretação deste autor; uma análise diferenciada, porém pouco importante; uma análise diferenciada que revela a presença de uma maioria oculta, e excluída da história. Por esta razão, não devemos aceitar sempre as unanimidades, assim como não podemos desprezar os diferentes. O diferente pode ser, inclusive, o novo surgindo; deve-se, então, prestar alguma atenção a isso, antes de prosseguir, ou mesmo mudar de rumo, se a condução dos estudos assim o levar.
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A tartaruga do mar viaja milhões de quilômetros, mas coloca seus ovos sempre da mesma maneira. Conhece terras distantes, mas volta às suas praias de origem. O historiador – sábio recolhe informações, põe de lado o que é duvidoso e decide o que é mais apropriado. Tal como a tartaruga, ele viaja por mundos distantes para descobrir o que mudou.
Os bons historiadores escrevem seus trabalhos do mesmo modo que a tartaruga sagrada põe seus ovos: eles o fazem pensando na continuidade, na renovação da vida. Mas se não cabe a tartaruga mudar seus modos, assim também as pessoas não vivem tanto quanto ela. A tartaruga vê o mundo mudar, mas permanece a mesma; não é ela uma sábia? Os seres humanos, por viverem pouco, precisam se adaptar, se reinventar, e em sua própria natureza está presente a necessidade de criar a cultura. Mas não é sábio, então, se transformar, buscando manter o que há de bom?
Aquele que estuda verdadeiramente a história, volta às suas origens para ajudar nas mudanças. As tartarugas, sendo sábias, aprenderam a ver o tempo; as pessoas compreenderam isso, e utilizaram suas carapaças para prever o futuro. Isso não é o correto. As tartarugas são o exemplo; mas não somos tartarugas, e por isso devemos nelas nos inspirar, seguindo, porém, adiante.
Voltas às origens, observar o tempo e ajudar na preservação da vida. Eis as semelhanças entre o historiador e a tartaruga sagrada. Como contá-las, no entanto, é uma virtude humana.

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