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Tratado da Fraternidade Familiar



Completando a série de textos confucionistas, apresento o Xiao Jing 孝經 , o tratado da Fraternidade Familiar, ou ‘piedade filial’. Desconsiderei o uso do termo ‘piedade filial’, mais comum, por ser uma tradução incorreta do conjunto de relações familiares explicadas pelo ideograma Xiao. Ele diz respeito aos deveres e obrigações que são devidas entre os pais, filhos, amigos e governantes. Na teoria apresentada por Zengzi, Xiao representa uma Fraternidade Familiar, ligando a sociedade como uma grande teia de famílias unidas pela lei, pelo costume e pelo governo. Assim, novamente o projeto confucionista propõe uma concepção política que parte do indivíduo e da família para a constituição do império como um todo, articulando todas as suas instâncias num sistema ordenado. Contudo, o texto apresenta algo mais: a consolidação da idéia confucionista de que, havendo educação e respeito familiar, a sociedade dispensa o uso das leis. Isso é fundamental na teoria confucionista. Quanto mais leis uma sociedade possui, maiores são seus problemas - no entendimento dos letrados. O domínio das boas maneiras, dos respeitos individuais e da socialização é construído em casa, no exercício das obrigações familiares, que se estendem à vida pública. Dito isso, o texto continua atualíssimo.

Não se sabe ao certo se o texto realmente é de Zengzi ou foi, somente, atribuído a ele. Tudo indica que o texto é uma releitura de fragmentos da literatura confucionista articulados nesse pequeno tratado, cujas referências apontam para a redação no período Han. Todavia, o texto foi largamente aproveitado no processo educacional chinês, constituído o pilar da idéia de família desde a antiguidade.

Por fim, novamente, retirei as numerações dos capítulos. Tal procedimento visa aproximar a leitura do texto de seu original, que não contava com tais divisões, feitas um bom tempo depois com fins de organização do texto e citação. O aprendizado do sentido do texto é, a meu ver, o fundamental de tudo.



O TEXTO


Um dia Confúcio descansava, e Zengzi estava do seu lado. Disse o mestre: meu querido, os reis antigos tinham leis perfeitas, virtude e faziam todos viverem em harmonia, sem brigas entre os de cima e os de baixo. Você sabia disso?

Zengzi respondeu: não sou inteligente mestre, não sei isso. Como saberia?

O Mestre disse: a Fraternidade é o fundamento da virtude. Aprenda e viverá. Eu vou te ensinar. Corpo, membros, cabelo e pele, cada pedacinho, são nossos pais que nos deram. Tenha o cuidado de não os envergonhar ou machucar. Essa é a primeira obrigação da Fraternidade. Quem legar seu nome na vida, no trabalho, e para as gerações futuras, esse alguém atingiu a Fraternidade perfeita.

A Fraternidade começa servindo os pais, depois ao governante, por fim no cultivo de si mesmo.

O Tratado das Poesias diz: pense nos antigos, cultive sua virtude.

O Mestre disse: quem ama os pais não faz mal a ninguém. Quem respeita os pais, respeita os outros. Amor e respeito são a base da Fraternidade com os pais: quem dá o exemplo serve de modelo nos quatro cantos da Terra. Por isso, mesmo o filho do Céu é fraterno. O tratado dos livros diz: o Céu abençoa o soberano fraterno, e todos são abençoados juntos.

Se quem está acima é sem orgulho, não há perigo. Sendo moderado e atencioso, não exagera. Assim ele mantém sua condição educada, e pode cuidar das coisas [posses]. Sendo Educado e sabendo cuidar das coisas, ele mantém o povo em paz. Por isso os governantes praticam a Fraternidade. O Tratado das Poesias diz: seja atento e cauteloso, como se estivesse à beira de um abismo ou andando sobre gelo fino.

Sem as boas leis dos reis de antigamente, ninguém iria querer servir, nem se atreveria a governar. Sem a virtude dos reis de antigamente, ninguém iria fazer nada. Sem ordem não há diálogo, sem regras não há ação coerente. Sem dialogo e sem ação, nada pode ser feito. Mas se pudermos dialogar e agir, de forma coerente e sem excessos, sem maldade e de boa fé, então alcançaremos as três condições fundamentais para a família existir. Por isso, ministros e funcionários são fraternos. O Tratado das Poesias diz: dia e noite, a serviço do governo.

Cuide dos pais e alcance o amor universal. Cuide dos superiores e alcance o respeito universal. Assim os pais alcançam o amor e os superiores o respeito. Quem alcança as duas coisas é o modelo. Leal é aquele que se devota ao governante, obediente é aquele que respeita os superiores. Quem é leal e obediente aos superiores sabe se preservar no seu lugar e cuidar dos deveres. Por isso ministros e superiores são fraternos. O Tratado das Poesias diz: se levante cedo, não durma tarde, sempre respeitando os pais.

O Mestre disse: com a benção do Céu e o trabalho na Terra, se dedicando e economizando, deve-se sustentar os pais. Isso é a Fraternidade do povo. Por isso, de cima a baixo, do Filho do Céu ao povo, a Fraternidade não tem fim nem começo. Não há quem a desconheça ou não possa praticá-la.

Zengzi disse: isso é incrível! Como a Fraternidade é grande!
O Mestre disse: a Fraternidade é a lei do Céu para a prática na Terra, e deve ser cumprida pelo povo. Se o Céu e Terra dizem, o povo deve fazer. Praticando as regras do Céu e da Terra para administrar o mundo, sem exageros, o governo será austero e popular. Os reis de antigamente ensinaram isso para cuidar do povo. Se os de cima forem fraternos, o povo vai cuidar dos pais. Se os de cima forem virtuosos, o povo vai segui-los. Se os de cima forem ponderados, o povo será calmo e pacífico. Se ensinarem música e cultura, o povo será esclarecido. Se ensinarem o apropriado e o inapropriado [‘ritos’], o povo será comportado. O Tratado das Poesias diz: quando o modelo é perfeito, os outros o vêem e o seguem.

Antigamente, os reis governavam pela Fraternidade. Não descuidavam de ninguém; ministros e nobres, duques e marqueses, condes e barões. Assim tinham o apoio de todos os estudados para o seu governo. Nas capitais, os governantes cuidavam das viúvas e dos pobres, dos velhos e crianças, dos nobres ao povo. Assim tinham o apoio de todos para o governo dos reis.
Os chefes de família não desrespeitavam criados ou concubinas, esposas ou filhos. Assim, tinham o amparo da família para sua chefia. A natureza exige que, em vida, eles sejam cuidados com afeto e carinho; mortos, que lhe sejam feitos os sacrifícios ancestrais. Isso trará paz ao mundo, não haverá calamidades, nem revoltas ou desordens.
Era assim que os reis de antigamente governavam pela Fraternidade.

O Tratado das Poesias diz: se a virtude guia, o império segue.

Zengzi disse: mas e os sábios, eles não estão além da Fraternidade?
O Mestre disse: entre o Céu e a Terra está a humanidade. Na humanidade, o principal é a Fraternidade. E a Fraternidade é o respeito aos pais, que só é comparável ao Céu. O Duque Zhou é um modelo a seguir. Uma vez ele fez o sacrifício ancestral a Huoji no Altar Sagrado, para cumprir os deveres do Céu. Nos ritos familiares, fez um sacrifício ancestral no salão dos abençoados para cumprir seus deveres devocionais. Assim, cada um tem o rito que lhe cabe. E porque os sábios estariam acima da Fraternidade? Eles são pais, eles são filhos, tem seus deveres familiares. Os sábios ensinavam justamente isso, ser fraterno e amar ao próximo.
Os sábios ensinam sem exagero, e governam sem dureza. Eles cuidam do fundamental.

O Mestre disse: as relações entre pais e filhos vêm da natureza. Príncipes e vassalos são como pais e mães. A devoção aos governantes e pais é o mais importante.

O Mestre disse: quem ama aos outros, mas não aos pais, perverte o amor. Quem respeita os outros, mas não aos pais, estraga o respeito. Se isso ocorrer, o povo não terá exemplos. Sem exemplos, se desgoverna, e não dá valor a dignidade.
Se o sábio não o fizer, quem o fará? Quem ensinará o que é a virtude, o amor e o respeito? Quem será o exemplo? Não se pode ter exemplos errados, nem procedimentos incertos. No governo do povo, se começa pelo respeito e se completa pelo amor. Só com bons exemplos se pode fazê-lo. Esse será um bom governo. O Tratado das Poesias diz: nada desabona a conduta de um Educado.

O Mestre disse: o filho fraterno é respeitoso; no sustento dos pais, os satisfaz; na doença, os cuida; na morte, os vela; nas cerimônias, ora por eles. Se ele cumpre essas cinco condições, ele serve aos seus pais. Quem serve aos pais, sendo superior, não será insensível; sendo inferior, será controlado.
Se o superior for insensível, [um dia] ele será expulso. Se o inferior for revoltado, [um dia] ele será executado. Quem briga com os próximos, será morto [morrerá brigando]. Quem comete esses três erros, pode dar o melhor sustento aos seus pais, mas não é fraterno.

Nos ‘Cinco capítulos das leis’ há três mil regras. Mas o pior crime é a falta de Fraternidade. Quem conspira contra o governante não respeita hierarquia; quem se opõe ao sábio não respeita a lei; quem não é fraterno maltrata os pais. Essa é a causa das revoltas e das crises.

O Mestre disse: para amar os pais, ensina ao povo a Fraternidade. Ensina lealdade e lei, e terá respeito e ordem. Ensina música e terá moral e cultura. O superior, para governar, deve seguir as regras antigas. As regras são uma coisa só: respeito.
Pais se alegram com o respeito dos filhos; filhos se alegram com o respeito dos pais; os irmãos mais velhos se contentam com o respeito dos mais novos; o governante se contenta com o respeito dos nobres; o imperador se alegra com o respeito das pessoas, e o respeito dele alegra a todos. Os que respeitam são poucos, os que se alegram são muitos. Esse é o caminho.

A base da educação de um mestre é a Fraternidade. Não é preciso ter família para saber isso. A Fraternidade ensina que todos no mundo são pais, e que todos devem respeito uns aos outros. O Tratado das Poesias diz: o governante é o pai e a mãe do povo. Sem uma moral baseada no respeito, como governar um povo tão grande?

O Mestre disse: o Educado é fraterno com os pais, e leal ao governante. A Fraternidade dos irmãos se estende aos superiores. Quem governa uma casa pode ter um posto, e quem realiza deixa um legado.

O Mestre disse: ao entrar numa casa, se há respeito entre pai e irmãos, esposas e filhos, servos e concubinas, esse é um exemplo.

Zengzi disse: mestre, já entendi o que significa cuidar da família, respeitar, atender aos pais e manter seus nomes. Mas queria perguntar: como se obedece aos pais? Isso é Fraternidade?

O Mestre disse: isso é importante, isso é importante! Antigamente o filho do Céu tinha sete funcionários para aconselhá-lo. Mesmo não sendo sumamente perfeitos, o Estado ia bem. Os príncipes tinham cinco, e mesmo não sendo sumamente perfeitos, o Estado ia bem. Um ministro tinha três conselheiros, e mesmo com poucas virtudes, a família ia bem. Educados e amigos o aconselhavam, e por isso não se perdiam os bons nomes.
Os filhos aconselhavam os pais, e por isso não se perdiam em indignidades. Os filhos avisavam quando os pais erravam, assim como os ministros avisam os governantes. Quando algo era inapropriado, eles lhe avisavam: isso é a Fraternidade no obedecimento aos pais.

O Mestre disse: antigamente os reis sábios serviam oferendas ao Céu e aos espíritos quando cumpriam luto pelo pai; e serviam oferendas a Terra quando cumpriam luto pela mãe.
Quando há ordem entre os velhos e moços, há harmonia entre o Céu e a Terra. Os ritos para o Céu e a Terra são os costumes para os vivos e os mortos também. Por isso o filho do Céu respeita os ritos. Ao falar dos pais, ele fala dos ancestrais; ao ser leal, não esquece os pais; será respeitoso e dedicado, para não desonrar os pais. O respeito à família é a devoção aos ancestrais. Assim, ser fraterno e respeitoso é servir aos vivos e aos mortos. Com esse exemplo brilhante, a luz chega a todos os cantos. Do norte ao sul, leste a oeste, não há quem não siga esse exemplo.

O Mestre disse: um Educado, no serviço do seu senhor, se esmera em atenção e lealdade. Depois pondera, conserta os erros, e busca ser perfeito. Com isso, tem amigos entre os de cima e os de baixo. O Tratado das Poesias diz: se há amor no peito, não há distância. Amigos do coração não se esquecem.

O Mestre disse: [no funeral dos pais] o filho fraterno chora sem artificialidade, cumpre os ritos sozinho, fala sem rapapés, não veste roupas caras, ouve música mas não se anima, come sem gosto. Isso é normal.
Depois de três dias, volta-se a comer: pois as pessoas não podem prejudicar sua vida em função dos mortos. Os mortos não mandam na natureza, foi o que os sábios do passado disseram. O luto não pode passar de três anos, para ensinar ao povo que há limite na tristeza.
Para isso, dois caixões são necessários, o da tumba e o do cortejo. Fazem-se as ofertas em vasos e se cantam os lamentos. No enterro, alguns vão se batendo, outros se perdem, uns choram e soluçam. Faz-se a adivinhação sobre o local exato do enterro, e ali se deposita o caixão. Por fim, se confecciona a placa familiar da tumba, para o culto ao ancestral. As oferendas das primaveras e outonos são feitas para lembrá-los ocasionalmente.
Aos vivos se serve com amor e respeito. Aos mortos, com dor e luto. Se os vivos cumprem bem seus deveres, os mortos ficarão satisfeitos. A atenção dos filhos fraternos aos seus pais é para sempre.


ISBN 978-85-65996-14-3

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